Estudo revela que “37,2%” dos visitantes não vão a espaços culturais em Lagos por “falta de tempo” e “33,3 %” justificam “falta de informação”

Na apresentação da proposta do ‘Plano Estratégico para a Cultura de Lagos’, tendo como horizonte o ano de 2030 com vista à sua implementação, o economista Carlos Martins, responsável pela empresa de consultoria Opium, sedeada em Aveiro, que elaborou o estudo, traçou o perfil de turistas e residentes auscultados, nomeadamente as suas preferências e queixas, e deixou vários alertas ao município. “É necessário reformular [a oferta] para novos públicos” ao nível cultural, recreativo e artístico, além de “criar âncoras, marcas”, com eventos que possam atrair mais visitantes a Lagos e dinamizar a população do concelho.

Isto, num município onde, nos últimos anos, foram investidos 5,19 milhões de euros naqueles sectores, sendo o segundo do Algarve, a seguir ao de Loulé, que mais aposta nesse sentido.

O documento será votado no dia 17 de Abril de 2024 (quarta-feira), em reunião da Câmara Municipal de Lagos, seguindo-se a discussão pública de 19 deste mês até 20 de Maio. E a 24 de Junho, a Assembleia Municipal de Lagos tomará uma decisão sobre o novo plano, que promete dinamizar a atividade cultural no concelho a médio prazo.

José Manuel Oliveira

Nos últimos anos, o município de Lagos investiu 5,19 milhões de euros nas áreas cultural e artística, sendo o segundo do Algarve, a seguir ao de Loulé, que mais aposta nestes sectores. Tal representa 8,3 por cento do investimento anual da autarquia.

Essa foi a informação transmitida, a 02 de Abril no auditório do edifício dos Paços do Concelho de Lagos Século XXI, pelo economista Carlos Martins, responsável da empresa de consultoria Opium, sedeada em Aveiro, durante a apresentação pública da proposta do ‘Plano Estratégico para a Cultura de Lagos’, tendo como horizonte o ano de 2030 para a sua implementação.

O documento será apreciado e votado, no dia 17 de Abril (quarta-feira), em reunião da Câmara Municipal, seguindo-se a discussão pública de 19 deste mês até 20 de Maio. E no dia 24 de Junho terá lugar a votação na Assembleia Municipal de Lagos.

“Em Lagos, o município investiu, nos últimos anos, 5,19 milhões de euros em atividades culturais e recreativas, sendo o segundo maior do Algarve, a seguir a Loulé, o que representa 8,3 por cento do investimento municipal”

Na sequência de “trabalho de rua” levado a efeito pela empresa de consultoria Opium, junto de residentes e turistas, durante “nove meses em 2023”, como referiu Carlos Martins, ao ‘Litoralgarve’, no final da sessão, além de inquéritos ‘online’ e visitas técnicas a equipamentos e eventos, a conclusão é que houve “55 por cento de concentração de dormidas entre Junho e Setembro e 80 por cento de turistas estrangeiros.” “O peso do turismo na economia ao nível cultural e recreativo é baixo, muito longe de Lisboa”, observou aquele responsável, considerando que, de resto, no tocante à cultura e motivação dos visitantes, a situação no Algarve é diferente, em comparação com a capital portuguesa.

Apesar desse panorama, não têm faltado investimentos. “Em Lagos, o município investiu, nos últimos anos, 5,19 milhões de euros em actividades culturais e recreativas, sendo o segundo maior do Algarve, a seguir a Loulé, o que representa 8,3 por cento do investimento municipal”, destacou o consultor Carlos Martins.

Investimento no Museu de Lagos e na Biblioteca Municipal, “ ’per capita’ (por pessoa)”, corresponde a “154,60 euros, o dobro do Algarve e três vezes mais a média nacional”

Nesse sentido, referiu a aposta, nomeadamente em espaços como o Museu de Lagos – Dr. José Formosinho, com mais de 1,112 milhões de euros, e na Biblioteca Municipal Dr. Júlio Dantas. “ ‘Per capita’ (por pessoa) representa 154,60 euros, o dobro do Algarve e três vezes mais a média nacional”, esclareceu Carlos Martins, neste estudo, acrescentando que o investimento municipal em espaços públicos e ao ar livre se deve “em muito por força dos eventos de Verão.”

Ao nível de eventos em equipamentos culturais, indicou como exemplos, além do museu e da biblioteca, o Centro Cultural de Lagos, bem como a aposta no Carnaval de Odiáxere, em espectáculos musicais durante os meses de Verão, nas Marchas Populares, na Feira do Livro, no tradicional Banho de 29 de Agosto, na Feira de Tradições e Artes do Algarve (FETAAL), em Bensafrim, na Feira Medieval de Lagos, na Feira Concurso Arte Doce, no Festival de Folclore e no Festival dos Descobrimentos. Existem “66 associações activas” no concelho de Lagos, sendo “35 artísticas, culturais e recreativas muito relevantes”, sublinhou o responsável da empresa de consultoria.

Dança, teatro, ginástica, música e artes em destaque na cidade de Lagos, onde o Centro Cultural, Museu Municipal Dr. José Formosinho e a Biblioteca Júlio Dantas são dos equipamentos mais visitados

Já no que respeita a actividades, o destaque vai para a dança, o teatro, a ginástica, música e as artes, em consequência de 407 respostas válidas neste inquérito. O estudo indica o Centro Cultural de Lagos, com 73,8 por cento, o Museu Municipal Dr. José Formosinho (32,6 por cento), a Biblioteca Municipal Dr. Júlio Dantas (30,3 por cento), o Laboratório de Actividades Culturais (LAC) – 27,2 por cento – e o Teatro Experimental de Lagos (12,7 por cento) como alguns dos espaços destacados pelo público. Mas há mais, como por exemplo, o Centro de Ciência Viva, com 25,4 por cento.

Na cultura, “é necessário reformular [a oferta] para novos públicos”

“Quarenta e cinco por cento” dos inquiridos residentes em Lagos argumentaram “falta de tempo” para o facto de não visitarem equipamentos culturais e artísticos no concelho. Já “38 por cento” apontaram a “falta de informação”, enquanto “16 por cento” consideraram como “fraca a qualidade de oferta” a esse nível.

De qualquer modo, “falta de tempo” foi a resposta em maior número registada à pergunta “porque não vai mais?” a espaços culturais. No tocante ao tipo de oferta apresentado em Lagos, mutos dos inquiridos defendem que poderia ser “diferente”, outros limitaram-se a dizer “não gosto” e outros, ainda, “não tenho motivação.”

“É necessário reformular [a oferta] para novos públicos”, de forma a “atrair mais gente”, considerou Carlos Martins, como uma das conclusões deste estudo no concelho de Lagos.

“60,7 por cento” dos visitantes afirmaram estar em Lagos apenas de férias, enquanto “23,5 por cento” justificaram a presença na cidade e no concelho, com “visitas a amigos e familiares”, e “21,3 por cento” admitiram a participação em eventos

Relativamente aos turistas, “60,7 por cento” afirmaram, no inquérito, que estavam em Lagos apenas devido a férias, enquanto “23,5 por cento” justificaram a presença na cidade e no concelho, com “visitas a amigos e familiares”, e “21,3 por cento” admitiram a participação em eventos, aproveitando o período de férias. “Conhecem Lagos 9,8 por cento”, “dez por cento” destacaram o seu “conhecimento devido à “gastronomia” e “4,4 por cento” informaram estar nesta cidade por motivo de negócios. Por outro lado, “saúde e bem-estar” foram as justificações apontadas por “2,7 por cento” dos turistas, num inquérito em que, apenas, “1,6 por cento” referiu o golfe, entre outras actividades desportivas, como meio de atracção.

“Mesmo de férias, falta de tempo é apontada como uma das motivações” para não visitar espaços culturais

Um dos aspectos que mais acabou por sobressair neste estudo foi o facto de “37,2 por cento” dos visitantes não se deslocarem a espaços culturais por “falta de tempo”, enquanto “33,3 por cento” justificaram “falta de informação” e “7,7 por cento” indicaram como resposta “falta de interesse.”

“Mesmo de férias, falta de tempo é apontada como uma das motivações”, realçou o responsável por este inquérito, sem esconder alguma surpresa. Apesar disso, o museu, com 66 por cento, e o cinema (26 por cento) figuram entre os equipamentos mais frequentados pelos turistas, que também apostam na dança (29 por cento).

“É necessário capacidade para criar âncoras, marcas”, com eventos que possam atrair mais visitantes a Lagos e dinamizar a população do concelho

“É necessário capacidade para criar âncoras, marcas”, preconizou o consultor Carlos Martins, numa alusão a eventos que possam atrair não só mais visitantes a Lagos, como dinamizar a própria população local.

Apostar na “relação com a paisagem” em face da localização “geográfica de Lagos”

No tocante a “Desafios e Oportunidades”, o estudo sugeriu criar “relação com a paisagem” em face da posição “geográfica de Lagos”, assim como a “interligação do Centro Cultural” desta cidade “na Rede de Teatros e Cineteatros portugueses”, além da “implementação do Plano Nacional das Artes pelos agrupamentos escolares”, entre outras medidas. Para o responsável de empresa ‘Opium’, é preciso dinamizar o tecido cultural e criativo com programas, de forma a “incrementar o acesso a espaços e meios”, numa altura em que muitos se queixam de “falta de comunicação na oferta cultural.”

Aproveitar o facto de Lagos ser “ponto de confluência de culturas do mediterrâneo e africanas, pela sua posição entre a Europa e o Atlântico”

“Lagos é ponto de confluência de culturas do mediterrâneo e africanas, pela sua posição entre a Europa e o Atlântico”, lembrou Carlos Martins, defendendo, como visão para o futuro, tirar partido dessa situação, num “território criativo, contemporâneo e multicultural.” Como tal, há que “promover oferta cultural inclusiva, diversificada e acessível”, além de “um trabalho em rede”, e “valorizar e promover o vasto património” do concelho.

Da necessidade de “estar mais próximo da cidade e das freguesias, em espaços públicos e na rua ao longo do ano”, à criação de um Fórum Municipal de Cultura e de residências artísticas

Ao mesmo tempo, para dinamizar a atividade cultural, artística e recreativa é, também, necessário “chegar mais próximo da cidade e das freguesias, em espaços públicos e na rua ao longo do ano”, apontou aquele consultor. Criar um “Gabinete de Apoio ao Criador”, programas “no Centro Cultural de Lagos ou ao ar livre,” com “acessibilidades, apoio ao cidadão”, “via verde’, “mais próximos da cultura africana e da mediterrânica”, além de um “Fórum Municipal de Cultura” e “residências artísticas para ter mais artistas e estes poderem criar uma relação com pessoas”, foram outros aspetos reforçados na proposta deste ‘Plano Estratégico para a Cultura de Lagos”.

“Fórum Municipal de Cultura seria uma ferramenta” para “conversas mais longas” e funcionaria como um “lugar de encontro”

Um “Fórum Municipal de Cultura seria uma ferramenta” importante, numa altura em que “falta um público mais informado”, com “conversas mais longas.” Tal funcionaria como um “lugar de encontro”, concluiu Carlos Martins, nesta “proposta de reflexão.”

Vereadora Sara Coelho: “Um Plano Estratégico de Cultura em Lagos e no Algarve servirá de motor para muitas iniciativas intermunicipais. É necessário os municípios estarem alinhados no trabalho”

Já a vereadora responsável pelo pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Lagos, Sara Coelho, afirmou: “vamos ver por onde começar, há condições para avançar”, referindo-se ao plano apresentado pela empresa de consultoria Opium. “Não vamos avançar com tudo ao mesmo tempo”, observou. “Acredito no Fórum [Municipal da Cultura]”, admitiu a autarca, para quem é necessário “participação nas partes, muita reflexão, muita ambição.” “Um Plano Estratégico de Cultura em Lagos e no Algarve servirá de motor para muitas iniciativas intermunicipais. É necessário os municípios estarem alinhados no trabalho” a desenvolver nesse sentido, reconheceu a vereadora do executivo camarário lacobrigense.  

Fórum Municipal dos Descobrimentos em Lagos tem “dois mil volumes encaixotados”, lamentou deputado local José Jácome

No período destinado a intervenções do público no auditório do Edifício dos Paços do Concelho Século XXI, onde estava mais de meia centena de pessoas, o deputado na Assembleia Municipal de Lagos José Jácome lamentou o facto de o Fórum Municipal dos Descobrimentos contar com “dois mil volumes encaixotados”, sem se saber qual o destino.

Por outro lado, após a recordar a chegada do primeiro comboio a Lagos há mais de cem anos, lembrou que o núcleo museológico dedicado ao sector ferroviário existente nesta cidade, “continua desactivado”. E em jeito de ironia, até lançou um “desafio à Câmara Municipal”: “quando chegar o primeiro comboio eléctrico a Lagos que possa inaugurar a reabilitação do núcleo museológico.”

Como resposta, a vereadora Sara Coelho disse que existe um “estudo em curso” sobre o projecto de topografia do local, com acessibilidades àquele museu. Em relação ao Fórum Municipal dos Descobrimentos de Lagos, a autarquia está “à procura de soluções para valorizar o nosso património cultural”, prometeu.

Incógnita em torno do edifício pertencente à Administração Regional de Saúde do Algarve, onde funcionava a Academia de Música de Lagos, na zona de São João. “Fala-se num hotel…”, observou um participante nesta sessão. “Vamos continuar a insistir numa resposta por parte da ARS, pois é muito importante para conhecermos” o destino do edifício, mas “não está nas nossas mãos directamente”, observou a vereadora da Cultura

Outro participante no auditório perguntou “o que se passa?” com o edifício onde funcionou a “Academia de Música de Lagos”, pois “fala-se num hotel…” naquele local, situado na zona de São João, perto do Mercado de Levante. A vereadora Sara Coelho referiu que a Academia de Música de Lagos é uma associação e “não tem qualquer relação” com a autarquia. “O edifício está lá, não é da Câmara Municipal de Lagos, pertence à ARS” [Administração Regional de Saúde – do Algarve]. “Vamos continuar a insistir numa resposta por parte da ARS, pois é muito importante para conhecermos” o destino do edifício, mas “não está nas nossas mãos diretamente”, notou a vereadora da Cultura, garantindo a intenção da edilidade em “fazer alguma pressão para a situação ser resolvida.”

 Écrans gigantes, com informação e gráficos, ajudam a explicar o estudo realizado

A apresentação do ‘Plano Estratégico para a Cultura de Lagos’, no auditório do Edifício dos Paços do Concelho Século XXI, decorreu durante cerca de duas horas, tendo contado com mais de meia centena de pessoas no local, algumas das quais acabaram por deixar a sessão muito antes do seu final.

Junto à mesa estavam écrans gigantes, em que era exibida a informação, com gráficos, apresentada por Carlos Martins, como já referimos, responsável da empresa de consultoria ‘Opium’, de Aveiro, que levou a efeito o estudo e inquérito de que resultou este documento. Licenciado em Economia na Universidade do Porto e com pós-graduação em Turismo Cultural pela Universidade de Barcelona, em Espanha, aquele especialista desenvolve projectos nas áreas da cultura, criatividade e turismo.

Na mesa também se encontrava Ana Pedrosa, assistente de gestão, consultora sénior e de gestão de projetos na Opium, desde 2009, tendo obtido a licenciatura em arquitetura na Universidade do Porto.

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