Reportagem – “Quando estava na Assembleia da República, não ganhava mais do que na minha actividade profissional”, garante João Oliveira, candidato da CDU ao Parlamento Europeu, na campanha eleitoral em Lagos

“A força que nos derem é a força com que lutaremos pelos vossos direitos”, apelou João Oliveira, ao ouvir queixas de comerciantes e populares em ruas, na cidade de Lagos, com dificuldades económicas. Mas na maioria dos contactos, predominou um sentimento de quase indiferença, limitando-se muitas pessoas a receber e a agradecer o documento com as propostas da coligação liderada pelo PCP, para as eleições europeias a realizar no dia 09 de Junho de 2024.

José Manuel Oliveira

“A gente tem de continuar a lutar! Não perca a esperança. A força que nos derem é a força com que lutaremos pelos vossos direitos”. Este foi um dos apelos de João Oliveira, advogado, de 44 anos, que encabeça a lista de candidatos da CDU – Coligação Democrática Unitária (Partido Comunista Português e Partido Ecologista ‘Os Verdes’) ao Parlamento Europeu, durante uma acção de campanha, na tarde do dia 26 de Abril de 2024, junto de comerciantes e populares em ruas do centro da cidade de Lagos, onde distribuiu folhetos com os objectivos da candidatura.

A maioria das pessoas, que nem sequer sabia a data das eleições europeias, marcadas para 09 de Junho, queixou-se de dificuldades económicas, houve até quem falasse no Chega e pelo menos dois homens, um no interior de um estabelecimento comercial e outro na rua, na Praça Luís de Camões, com uma cerveja numa mão, optaram por recusar, delicadamente, receber o documento que João de Oliveira tinha para lhes entregar, decisão que o candidato respeitou.

Música e bandeiras da CDU, com uma dezena de elementos

Ao som da música da CDU, inicialmente com quatro bandeiras desta coligação política e acompanhado por uma dezena de elementos do PCP, entre os quais, Mário Cunha, advogado, de 38 anos, residente em São Brás de Alportel e que integra, em 24º. lugar, a lista de candidatos ao Parlamento Europeu; José Manuel Freire, histórico militante e autarca em Lagos, onde exerce funções de deputado na Assembleia Municipal; Luís Fagundes, empresário livreiro e membro da Assembleia de Freguesia de São Gonçalo de Lagos; e Celso Costa, responsável pela Direção da Organização Regional do Algarve (DORAL) do partido, João Oliveira, após ter sido recebido no parque de estacionamento térreo junto às muralhas da cidade, desceu a Rua Infante de Sagres, entrando na maioria dos estabelecimentos comerciais.

Curiosamente, num dos primeiros onde entregou o manifesto da CDU para as eleições europeias, logo após ter saído, o proprietário, indiferente a esta acção de campanha, até desabafou ao ‘Litoralgarve’: “Voto? Qual voto? Quero lá saber do voto!…”

“Se as pessoas tivessem mais poder de compra, seria diferente”

Com um discurso simples e objectivo, João Oliveira foi deixando uma frase de confiança e encorajamento por onde passou: “Temos de lutar para que haja melhores condições de vida.” Em estabelecimentos de vários ramos, ouviu queixas de que o negócio está fraco. “Se as pessoas tivessem mais poder de compra, seria diferente. Não podemos cortar na farmácia. Temos de nos unir, temos de ir batalhando”, respondeu numa das lojas na Rua Infante de Sagres. “Obrigado, saúde, força, bom trabalho”, foram algumas das palavras de despedida aos proprietários e a quem lá se encontrava.

Num apelo contra a abstenção, João Oliveira explicou a uma mulher como poderá votar mesmo estando fora do seu local de residência.

“Antigamente, antes do 25 de Abril [de 1974], o ‘tacho’ era um… Hoje, em dia, não há partido que não tenha ‘tacho’…”, queixa-se uma senhora 

À porta de um outro estabelecimento situado perto da loja da Vodafone, uma senhora, sem esconder o seu descontentamento para com os políticos, disse, com alguma ironia à mistura, ao candidato europeu da CDU: “antigamente, antes do 25 de Abril [de 1974], o ‘tacho’ era um… Hoje, em dia, não há partido que não tenha tacho…”  

“Os nossos deputados, que estão lá, não estão pelo dinheiro. Só ganham aquilo que ganhavam antes”

De imediato, João Oliveira respondeu: “quando estava na Assembleia da República, não ganhava mais do que na minha actividade profissional [de advogado]. Os nossos deputados, que estão lá, não estão pelo dinheiro. Só ganham aquilo que ganhavam antes.” E aproveitou para fazer uma observação: “já que reparou que, há anos, não há nenhum deputado do PCP no Algarve, nem dos ‘Verdes’… Não podem pagar os justos pelos pecadores.”

“Votei, há anos, para o Guterres [em eleições legislativas], mas, depois, ele foi-se embora”

A senhora prosseguiu o diálogo com João Oliveira, mudando de assunto: “Nem todas as pessoas que dizem que têm ‘Alzheimer’, têm. Eu, infelizmente, sei o que é ‘Alzhermer’ há um ano.”

A certa altura, o repórter do ‘Litoralgarve’ questionou a cidadã: sabe em que dia são as eleições para o Parlamento Europeu?” Ela confessou não saber. “São no dia 09 de Junho”, esclareceu o candidato da CDU. Alguma vez votou? – perguntámos. “Votei, há anos, para o Guterres [em eleições legislativas], mas, depois, ele foi-se embora”, respondeu a senhora, indignada para com o antigo secretário-geral do PS. “Boa observação”, notou João Oliveira. E aproveitou para deixar um sinal de esperança à senhora, dizendo: “Estamos a fazer para que a vida das pessoas melhore.”

Em muitos estabelecimentos situados no centro da cidade, foi Luís Fagundes, membro da Assembleia de Freguesia de São Gonçalo de Lagos, a apresentar João Oliveira, que, como já referimos encabeça a lista de candidatos da CDU ao Parlamento Europeu, e Mário Cunha, que surge na 24ª. posição. Contudo, na maioria dos casos predominou um sentimento de quase indiferença, limitando-se muitos comerciantes e populares nas ruas a receber o documento com o manifesto da coligação liderada pelo PCP, e a agradecer.

“O Estado deve assegurar o direito à saúde, como está na Constituição da República. Ora, isso que está a dizer [queixas de uma senhora sobre dificuldades de acesso a consultas médicas] prova que a Constituição não está a ser cumprida em Portugal”

Entre as queixas que a comitiva foi ouvindo, uma mulher destacou problemas no Serviço Nacional de Saúde, com “dificuldades de acesso a consultas médicas.” João Oliveira também atacou, lembrando que “o Estado deve assegurar o direito à saúde, como está na Constituição da República.” “Ora, isso que está a dizer prova que a Constituição não está a ser cumprida em Portugal”, observou. Pouco depois, deixou um apelo: “não perca a força para denunciar injustiças. Vamos continuar a lutar.”

“É uma pena pagarem os justos pelos pecadores. Vou votar”, afirma um popular para o candidato da CDU. “Já ganhei o dia”, reage João Oliveira

Ainda na descida pela Rua Infante de Sagres, um homem, após ter recebido o documento com as propostas da CDU para o Parlamento Europeu, disse a João Oliveira: “é uma pena pagarem os justos pelos pecadores. Vou votar”. O candidato comunista reagiu com um sorriso e respondeu: “já ganhei o dia.”

“Há muita coisa para resolver, há muita gente esquecida. A gente de ir puxando para o lado de quem trabalha”

“Vamos ver se as coisas andam melhor do que estão. Há muita coisa para resolver, há muita gente esquecida. A gente tem de ir puxando para o lado de quem trabalha”, vincou João Oliveira, ao entrar, nomeadamente, num oculista, num café e numa casa de artesanato, depois de parte da comitiva da CDU se ter abrigado da chuva, por alguns minutos, junto ao toldo de um estabelecimento, na Rua Garrett.

“Salários baixos, como podemos aceitar? Temos de ter uma voz forte no Parlamento Europeu para os esquecidos! O resto, iremos conseguir”

“Salários baixos, como podemos aceitar? Temos de ter uma voz forte no Parlamento Europeu para os esquecidos! O resto, iremos conseguir”, sublinhou, pouco depois, junto de trabalhadores de estabelecimentos e populares na via pública, que se queixavam de fracos rendimentos, ao prosseguir contactos já na Rua Marquês de Pombal.

Numa das lojas, a senhora que o atendeu disse que não percebe português, tendo o candidato da CDU falado em inglês quando lhe entregou o folheto.

O lamento da dona de uma perfumaria: “Tenho dificuldade em manter esta loja. As grandes empresas estragam tudo e o dinheiro não fica cá”

Na Rua Marreiros Netto, João Oliveira entrou em duas perfumarias e ouviu, num desses estabelecimentos, queixas, devido, nomeadamente, a “dificuldades sentidas pelas Pequenas e Médias Empresas” (PME´s) neste ramo, perante produtos cosméticos provenientes do exterior e que obrigam os comerciantes a ter de subir preços para não perder dinheiro, acabando por não conseguir vendê-los em virtude da falta de poder de compra. “É um problema sério”, reconheceu João Oliveira. “Tenho dificuldade em manter esta loja. As grandes empresas estragam tudo e o dinheiro não fica cá”, lamentou, ainda, a patroa.

O candidato da CDU aproveitou para se juntar ao rol de queixas: “não há uma política económica justa para as Pequenas e Médias Empresas. E estas empresas pagam impostos. No dia 09 de Junho, vamos ter eleições para o Parlamento Europeu, onde nós temos de demonstrar essas preocupações perante alemães e franceses, que têm a realidade deles”, diferente de Portugal.

Pouco depois, João Oliveira cruzou-se com um casal, que lhe disse: “somos do Alentejo”. Entre sorrisos, cumprimentos e entrega de folhetos, o candidato da CDU às eleições europeias, que é natural do distrito de Évora, quis saber os apelidos desses populares para perceber que se conhecia as famílias. Mas não as conhecia pelo menos pelos apelidos.

“Onde está a Polícia Municipal? Há venda de droga nas ruas e insegurança nas pessoas”, critica a proprietária de uma cervejaria em Lagos

Já ao entrar numa cervejaria, situada na Rua 1º. de Maio, João Oliveira, entre sorrisos e abraços, deixou-se fotografar, através de um telemóvel, por clientes que estavam a beber cerveja e foram ter com ele. “Muito obrigado”, disse, agradecido.

Por sua vez, a proprietária do estabelecimento, ao ser cumprimentada pelo candidato da CDU, aproveitou para lamentar: “não ganho para pagar a renda. Outros pagam rendas mais baratas do que eu”. Não revelou valores.

As queixas da empresária não ficaram por aqui, tendo-se estendido a problemas sentidos, de resto, pela população da cidade de Lagos. “Onde está a Polícia Municipal? Há venda de droga nas ruas e insegurança nas pessoas”.

Após ter escutado, atentamente, a senhora, João Oliveira prometeu falar sobre os problemas relativos à falta de segurança em Lagos, com os deputados da CDU na Assembleia da República, apesar de o Círculo Eleitoral de Faro não ter qualquer representante da coligação liderada pela CDU. E também deixou a garantia de serem tomadas medidas por parte dos eleitos da CDU no município de Lagos sobre a insegurança na cidade.

Sede do Núcleo Sportinguista de Lagos, fechado ao final da tarde, impede visita do candidato da CDU, João Oliveira, adepto leonino

João Oliveira ainda passou junto à sede do Núcleo Sportinguista de Lagos, clube de que é adepto. Mas a porta do prédio, situado na Rua da Oliveira, já estava fechada perto do final da tarde, o que impediu a visita da comitiva da CDU.

Mário Cunha, no jantar comemorativo dos ’50 anos de Abril’, que teve lugar no Chinicato, apelou a “votar na CDU para defender os trabalhadores contra a submissão na União Europeia”

À noite, no jantar comemorativo dos ‘50 anos de Abril’, que a CDU levou a efeito no Restaurante 30 de Junho, na localidade do Chinicato, perto de Lagos, Mário Cunha, que, recorde-se, integra, em 24º. lugar, a lista de candidatos da coligação liderada pelo PCP ao Parlamento Europeu, afirmou: é preciso “votar na CDU para defender os trabalhadores contra a submissão na União Europeia, pelo aumento dos salários, pela habitação, preservação do meio ambiente, ao contrário do PSD, e agora do Chega e da Iniciativa Liberal.”

“Trabalho temporário” no Algarve, onde “os salários são, em média, menos noventa euros” mensais em comparação com a média nacional

“No Algarve, continuamos a estar na rua, em reuniões e contactos com os trabalhadores, num trabalho de proximidade, e junto das Pequenas e Médias Empresas”, prosseguiu Mário Cunha, lamentando o “trabalho temporário” nesta região, onde “os salários são, em média, menos noventa euros” por mês em relação à média nacional. “Isto é nivelar por baixo. E muitos trabalhadores ganham menos do que os preços dos hotéis onde trabalham”, lamentou, defendendo “salários valorizados” e “um sistema de avaliação justo.”

Por outro lado, Mário Cunha criticou os preços elevados das casas e a rede de transportes pública no Algarve, além da falta de condições no Serviço Nacional de Saúde, nomeadamente no Hospital do Barlavento, em Portimão, sem esquecer a escola pública.

“Precisamos de um Portugal livre, soberano e independente”

A encerrar a sua intervenção, durante cerca de dez minutos, este candidato da CDU ao Parlamento Europeu, membro da Direção da Organização Regional do Algarve (DORAL) do PCP, sublinhou: “precisamos de um Portugal livre, soberano e independente. Vamos estar em campanha, em contacto nas ruas e em todos os lugares para esclarecimento das pessoas.” Seguiram-se aplausos, gritos “viva a CDU!”, “25 de Abril sempre!”, “Fascismo nunca mais!”

Homenagem de João Oliveira a Álvaro Cunhal, antigo secretário-geral do PCP, já falecido, com o público a aplaudir

Por sua vez, João Oliveira, depois de lembrar a evolução do país, com a Revolução do 25 de Abril de 1974 e a Constituição da República Portuguesa, em 1976, a contribuírem, designadamente, para “habitação social, protecção social e “sustentabilidade ambiental”, referiu que “nada caiu do céu”, recordando uma “luta longa” durante décadas.

Aproveitou para prestar “homenagem a Álvaro Cunhal” (ouviram-se, de imediato, aplausos), antigo secretário-geral do PCP, que faleceu, em Lisboa, aos 91 anos, passando em revista o tempo em que esteve preso, em Portugal, e as “torturas” de que foi vítima, tal como outros presos políticos do anterior regime.

“O 25 de Abril só foi o que foi com a aliança Povo MFA, a coragem dos militares, o fim da guerra colonial, o levantamento dos povos”

“Há quem queira apagar” o passado “contra os interesses do povo. O 25 de Abril só foi o que foi com a aliança Povo e MFA [Movimento das Forças Armadas], a coragem dos militares, o fim da guerra colonial, o levantamento dos povos”, frisou João Oliveira, membro da Comissão Política do Comité Central do PCP e ex-deputado na Assembleia da República. E apontou “a Revolução do 25 de Abril como um exemplo para o mundo.”

Neste seu discurso, criticou a existência de problemas no país, como a habitação, baixos salários, “reformas sem uma vida digna, Pequenas e Médias Empresas a viver dificuldades, enquanto grandes empresas têm benesses, e incumprimento da Constituição.” “Há quem se esteja a aproveitar da Constituição para dizer que o país está assim” por culpa desse documento aprovado em 1976, que garante o “acesso à saúde, à escola pública e à Segurança Social.” E lembrou “os 25 milhões de euros por dia de lucros dos bancos” em Portugal.

“É crucial encontrar soluções para as gerações mais jovens”

“O país regrediu”, considerou João Oliveira, lamentando, nomeadamente, verificar-se, “hoje, o interior desertificado” e “falta de transportes públicos”, entre outras lacunas. “É crucial encontrar soluções para as gerações mais jovens”, avisou.

“Encontrei agricultores em Silves, lamentando que os hipermercados estejam a esmagar a sua actividade ao nível dos preços. Em Lagos, ouvi queixas sobre problemas de insegurança. Há falta de policiamento em Lagos”

Aproveitou, por outro lado, para apresentar um breve balanço sobre a sua presença em Silves e Lagos, em acções inseridas na campanha para as eleições europeias. “Encontrei comerciantes em dificuldades, devido à situação das Pequenas e Médias Empresas, queixando-se de que não há poder de compra. E encontrei agricultores em Silves, lamentando que os hipermercados estejam a esmagar a sua actividade ao nível dos preços” pelos quais adquirem produtos para venda ao público. “Em Lagos, ouvi queixas sobre problemas de insegurança. Há falta de policiamento em Lagos”, criticou João Oliveira.

Portugal necessita de “diversificar a economia” e “não depender dos outros países”

O cabeça de lista de candidatos da CDU para o Parlamento Europeu lembrou que Portugal tem direito, apenas, a 21 deputados, num universo de 720 de todos os países representados naquela instituição, com sede em Estrasburgo, e onde “alemães e franceses [impõem] a vontade deles.”

Defendeu que Portugal necessita de “diversificar a economia”, apostando noutras actividades, além do turismo, para “não depender dos outros países.”

“A guerra não serve os povos. A CDU lutará pela paz no Parlamento Europeu”

João Oliveira insistiu, ainda, na “batalha pela paz” no mundo, pois “a guerra não serve os povos.” Nesse sentido, acusou a política da União Europeia de reforçar as despesas militares, de apoio em armas e munições, de alimentar guerras a todo o custo, em que até “já se fala em exércitos europeus (cuja integração portuguesa é hipótese) para intervenção em conflitos”.

“A CDU lutará pela paz no Parlamento Europeu, como exemplo de coragem e outros valores de Abril”, concluiu João Oliveira, entre aplausos, num restaurante cheio de militantes e simpatizantes da coligação liderada pelos comunistas. No total, segundo a organização, estiveram naquele jantar-comício, oitenta participantes.

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