REPORTAGEM – Empresários e visitantes enaltecem 11ª. Edição do Festival dos Descobrimentos de Lagos, mas deixam recados à organização e não só

“Foi um evento engraçado e em que valeu a pena participar. Em relação à organização, a parte do saneamento [básico] é que eles têm de ver, porque é muito difícil. Não há esgotos [e assim] é complicado. Estou a referir-me a esgotos para a cozinha. Então, nós que temos de trabalhar com louças…” (…) “Desenrascámo-nos com muito trabalho”, disse, ao ‘Litoralgarve’, o empresário Carlos Brás, responsável pela ‘Taberna do Rei’.

José Manuel Oliveira

A poucos metros de distância da estátua do navegador Gil Eannes, no Jardim da Constituição de 1976, ao princípio da madrugada de 08 de Maio de 2023 e numa altura em que se preparava para desmontar a ‘Taberna do Rei’, um dos ‘stands’ ligados ao sector da restauração na 11ª. edição do Festival dos Descobrimentos de Lagos, Carlos Brás, empresário de Faro, começou por fazer um um balanço, em declarações ao ‘Litoralgarve’:

“Foi um evento engraçado e em que valeu a pena participar. Em relação à organização, a parte do saneamento [básico] é que eles têm de ver, porque é muito difícil. Não há esgotos [e assim] é complicado. Estou a referir-me a esgotos para a cozinha. Então, nós que temos de trabalhar com louças…” E como foi? – perguntámos. “Desenrascámo-nos com muito trabalho”, reconheceu.

CARLOS    BRÁS,  EMPRESÁRIO: “ESTE    EVENTO    METEU    MUITA    GENTE    E    QUANDO   METE    MUITA    GENTE,   PODE    TRABALHAR-SE.    NÃO    TEM     PROBLEMA”

Houve muitos clientes? – “Sim, sim, sim. Este evento meteu muita gente e quando mete muita gente, pode trabalhar-se. Não tem problema”, sublinhou Carlos Brás, lembrando que, no seu estabelecimento ‘Taberna do Rei’, venderam-se “grelhados, carnes de porco no espeto, basicamente.” “Houve pessoas que só comeram, por exemplo, bifanas, enquanto que outras preferiram um prato completo”, acrescentou.

Em média, quantas pessoas foram atendidas por dia? “Não faço ideia”, limitou-se a responder. Para aí, mil pessoas? – insistimos. “Não faço ideia, mas esses números também  não”, reagiu o empresário, apontando para o facto de ter tido “muita oferta, muitos comes e bebes, neste certame.”

E quantos litros de cerveja e vinho foram vendidos, em média, por cada um dos quatro dias em que decorreu a 11ª. edição do Festival dos Descobrimentos de Lagos? “Não tenho noção. [Ainda] não fechei contas.” Mas compensou o negócio? “Presumo que sim”, admitiu Carlos Brás.

“O  QUE   HÁ    MELHORAR? É  SÓ   UMA   QUESTÃO   DO    SANEAMENTO,   PELO    MENOS   PARA   AS    PESSOAS   QUE    TRABALHAM    MESMO   EM    RESTAURANTE    E   QUE   TENHAM    LOUÇA    PARA    LAVAR.  PARA   AQUELAS   QUE   USAM    MATERIAIS    DESCARTÁVEIS, ESSAS   NÃO   TÊM    PROBLEMAS.   AGORA,   QUEM   TRABALHA    E   TEM   DE   LAVAR   LOUÇA,   É     MUITO    COMPLICADO   PÔR    UM    JARRO    DEBAIXO  DE   UM    LAVA-LOUÇAS”

Além da necessidade de criar condições ao nível do saneamento básico para apoio ao sector da restauração, que outras recomendações deixa à organização com vista à próxima edição do Festival dos Descobrimentos de Lagos, a qual terá lugar em 2025?  O que há a melhorar? “É só uma questão do saneamento, pelo menos para as pessoas que trabalham mesmo em restaurante e que tenham louça para lavar. Para aquelas que usam [materiais] descartáveis, essas não têm problemas. Agora, quem trabalha e tem de lavar louça, é muito complicado pôr um jarro debaixo de um lava-loucas”, sublinhou.

Apesar desse problema, Carlos Brás “não” chamou a atenção da organização do Festival dos Descobrimentos de Lagos, uma vez que “nós também já sabíamos, quando viemos para cá, que não existia [saneamento básico].” “Portanto, eu também não me posso queixar, pois já sabia ao que vinha. Só vim porque quis”, concluiu o empresário, que participa “em mais de três dezenas de feiras por ano” em Portugal. E “em princípio”, espera marcar presença na próxima edição da Arte Doce, em Lagos, no mês de Agosto deste ano.

“O  QUE    FALTA    AQUI?  OLHE,  POR    EXEMPLO,  O   PIOR    DO    FESTIVAL    É    UM    BOCADINHO    ESTA    TERRA  BATIDA,    ESTA    POEIRA   QUE    NOS    LEVANTA    PARA   OS   OLHOS.  O  PISO   PODERIA    SER    MELHORADO    POR    CAUSA    DAS    PESSOAS”

Noutro ‘stand’, a ‘A Taberna Algarvia’, Pedro Lopes, empresário dos ‘Templários de Tomar’, considerou que o Festival dos Descobrimentos de Lagos “tem potencial.” “Não sei se é a população, se é o turismo que também conta”, notou.

Vendeu “de tudo”, desde pão com chouriço, bifanas por cinco euros, bolo de caco da Madeira, com hamburguer, pelo preço de 05,50 euros (“se mais houvesse…), e sangria a mais de dois euros.  Houve “um misto” de clientes, “mas a maior parte foi estrangeiros” e “toda a gente, que passou por aqui, gostou dos nossos produtos, excedendo as expectativas”, destacou Pedro Lopes, admitindo que “talvez” tivesse contado com quinhentos visitantes, em média por dia. Participou pela “terceira vez” no Festival dos Descobrimentos de Lagos e “esta foi melhor do que a edição anterior (…), a animação estava boa, tudo impecável”, elogiou.

Mesmo assim, ao ser questionado pelo ‘Litoralgarve’ sobre o que pede à organização para a próxima edição deste evento, aquele empresário, após uma breve reflexão, afirmou: “O que falta aqui? Olhe, por exemplo, o pior do Festival é um bocadinho esta terra batida, esta poeira que nos levanta para os olhos. [Por isso], o piso poderia ser melhorado por causa das pessoas. [Assim], levanta muito pó, está sempre tudo sujo. É só isso.”

LILIANA    MALHA,   VENDEDORA:   “OS  JOVENS   COMPRARAM   PULSEIRAS,   DESDE   UM   EURO    ATÉ   12    EUROS  (…)  E    OS    TURISTAS,   COM    MAIS    DINHEIRO,    ROUPA,   EM   MÉDIA,   POR   15    EUROS   NO   QUE   DIZ    RESPEITO,   POR    EXEMPLO,  A   UM VESTIDO   PARA   SENHORA”

Já noutra zona do recinto, mais propriamente junto à Praça do Infante Dom Henrique, o ‘Litoralgarve’ foi encontrar Liliana Malha, de 38 anos e há 25 em Portugal, proveniente do Equador, onde nasceu, que aguardava a carrinha com o marido para desmontar o seu ‘stand’ «Arte Luna», dedicado à venda de bijutaria e vestuário.

Como decorreram os quatro dias da 11ª. edição do Festival dos Descobrimentos de Lagos? “Trabalhámos. Não nos queixamos.” E o que mais venderam? “Bijutaria. Pulseiras, fios. Normalmente, as pessoas preferem coisas mais pequenas, dirigidas mais os jovens, porque o preço é mais acessível. Mas também ajuda muito o turismo. É que no turismo são mais os clientes da roupa. Ou seja, os jovens compram pulseiras, desde um euro até 12 euros, sobretudo as de um, dois, três euros; e os turistas, com mais dinheiro, roupa, em média, por 15 euros no que diz respeito, por exemplo, a um vestido para senhora”, contou Liliana Malha, admitindo ter registado vendas num total de “mil euros” durante este evento.

A empresária recordou, a propósito, que as peças de vestuário preferidas foram “roupa fresca por causa do Verão”, com “cinquenta por cento por parte de portugueses e cinquenta por cento de estrangeiros” entre os clientes. “Depois da pandemia, em 2019, notámos um impulso” na procura de produtos por parte dos visitantes do Festival dos Descobrimentos de Lagos.

“EM    VEZ    DE    QUATRO   DIAS,    PODERIA    SER    UMA    SEMANA”,   DEFENDE    TERESA    OLIVEIRA

Já entre o público, Teresa Oliveira achou “muito bem organizado” este certame, tendo enaltecido, entre outros, “espetáculos como o Bobo da Corte e as dançarinas, no Jardim da Constituição.” Contudo, reconheceu que “muita gente não sabia informações sobre os animais”, como cavalos, camelos, falcão, corujas e mochos.

“Para a próxima edição do Festival dos Descobrimentos de Lagos, deixo uma sugestão à organização, no sentido de levar a efeito mais espetáculos medievais. E em vez de quatro dias, poderia ser uma semana”, acrescentou Teresa Oliveira.

ELVIRA    YURBASH:  “PODERÁ    TER     SIDO    MAU   PARA   O  NEGÓCIO    NA    CIDADE,   SOBRETUDO  AO    NÍVEL    DOS    RESTAURANTES (…)  NA   SEGUNDA-FEIRA,   QUANDO   JÁ   TINHA   TERMINADO   O    EVENTO,  NOTOU-SE   LOGO   UM    CRESCIMENTO   NO    NEGÓCIO   NA    PRÓPRIA    CIDADE”

Quem também, entre os visitantes, não poupou elogios ao certame foi Elvira Yurbash, de nacionalidade ucraniana, realçando o facto de “estar tudo bem organizado, sem pontos fracos.” Apesar disso, fez notar que “por causa do vento, houve zonas mais afetadas porque que não têm cobertura. Mas é um problema relacionado com as alterações climáticas”, referiu.

Por outro lado, observou, este Festival dos Descobrimentos de Lagos, “penso que poderá ter sido mau para o negócio na cidade, sobretudo ao nível dos restaurantes, onde só se viam, dois, três clientes, em cada um dos quatro dias” do evento, “bem como dos supermercados” de menor dimensão. “Na segunda-feira, quando já tinha terminado, notou-se um crescimento no negócio na própria cidade”, reconheceu Elvira Yurbash. E aproveitou para deixar um reparo: “será que os proprietários das barracas [do Festival dos Descobrimentos de Lagos], nomeadamente ligados ao sector da restauração, pagaram impostos?”

Assim, de um modo geral, esta 11ª. edição do Festival dos Descobrimentos de Lagos, que decorreu de 04  a 07 de Maio de 2023, servindo para comemorar os 450 anos da elevação de Lagos a cidade pelo Rei  Dom Sebastião, foi bem acolhida por toda a gente. “Estima-se  que possam ter  estado presentes entre  40 e 50 mil visitantes” nos  quatro dias, perspetivou, em entrevista ao  ‘Litoralgarve’, o presidente da Câmara Municipal de Lagos, Hugo Pereira, ainda em tempo de balanço e numa altura em que já está a preparar “novidades” para a próxima de edição, a  realizar no ano de 2025.

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