Organização ‘Refood’ recupera alimentos e serve 2,5 milhões de refeições por ano em Portugal, a beneficiar 8.000 pessoas com fracos recursos, e agora procura voluntários para dinamizar a sua atividade em Lagos

“Temos muitas pessoas, hoje, que não têm dinheiro para pagar a casa, o carro e a alimentação”. Por isso, “pedimos a vossa cumplicidade”, apelou Hunter Halder, voluntário e fundador do movimento ‘Refood’, durante uma sessão informativa no auditório do edifício dos Paços do Concelho de Lagos Século XXI, inicialmente, com perto de meia centena de participantes. O encontro incluiu música, a cargo de José Francisco, jovem cantor residente em Portimão, e momentos de ginástica com mãos no ar a servirem de descontração e mensagem de disponibilidade para ajudar.

José Manuel Oliveira

Pelo menos 2,5 milhões de refeições são servidas por ano, em Portugal, através da organização ‘Refood’, especializada em evitar o desperdício de comida, beneficiando, assim, 8.000 pessoas, nomeadamente de famílias de fracos recursos e com crianças, reformados, cujas pensões não passam de baixos valores, e imigrantes sem meios de subsistência.

Sessenta e cinco núcleos locais, espalhados de norte a sul do país e o exemplo do projeto lançado num bairro no centro de Lisboa

Para o efeito, desde o seu arranque como projecto de bairro, lançado em 2011 no centro de Lisboa, esta estrutura conta com 65 núcleos espalhados por várias zonas do país, de norte a sul, 7.817 voluntários e o apoio de 2.000 parceiros, ou seja, empresas, como por exemplo supermercados, restaurantes e pastelarias, que cedem os produtos alimentícios que já não conseguem vender.

Estes foram alguns dos dados revelados pelo holandês Hunter Halder, voluntário, fundador do movimento ‘Refood’ e presidente da direção da associação ‘Re-Food 4 Good’, ao final da tarde do dia 10 de Maio de 2024 (sexta-feira), durante uma sessão informativa realizada no auditório do edifício dos Paços do Concelho de Lagos Século XXI e que, no início, contou com perto de meia centena de participantes.

O encontro, que incluiu, a abrir, dois momentos musicais (das 19h.21m. às 19h.24m. e entre as 19h.24m. e as 19h.28m.), e um terceiro, pouco antes do final, pelas 20h.40m., a cargo do jovem cantor, com a sua guitarra, José Francisco, de 20 anos de idade e residente em Portimão, teve como um dos objetivos prestar esclarecimentos para envolver a comunidade do concelho de Lagos, na missão daquele movimento e contribuir para a dinamização do núcleo local da ‘Refood’.

Câmara Municipal de Lagos cedeu espaço no Mercado de Santo Amaro, “por acreditar no projeto”, diz vereadora Sara Coelho

Refood_8758_(2)_OCS – legenda: Sara Coelho informou sobre a recente cedência, à Refood, de um espaço no Mercado de Santo Amaro

Na sessão de abertura, a vereadora da Câmara Municipal de Lagos Sara Coelho, que detém, entre outros, o pelouro da Ação Social, após ter lembrado a falta de espaço do núcleo desta cidade do movimento ‘Refood’, o que levou a autarquia a ceder instalações no Mercado de Santo Amaro, “por acreditar no projecto”, enalteceu o “trabalho em conjunto para melhorar este serviço de resposta complementar aos problemas sociais que continuam a existir” no concelho.

“O trabalho nunca está acabado”, sublinhou Sara Coelho, para quem “o trabalho voluntário é dos trabalhos mais dignos.” Já “na Câmara Municipal de Lagos, na medida das nossas possibilidades, as portas estão abertas para trabalharmos em conjunto”, acrescentou a vereadora. E antes de se despedir do público presente no auditório, devido a outros compromissos, teve direito a receber um ramo de flores.

“Nós precisamos de voluntários. Passem a palavra para trazer mais pessoas. É muito importante criar alicerces para ajudar quem precisa”, apela uma das coordenadoras do Núcleo de Lagos ‘Refood’, Dora Rosa

Em seguida, uma das coordenadoras do Núcleo de Lagos do Movimento ‘Redfood’, Dora Rosa, dirigiu-se aos participantes na sessão, muitos deles colaboradores, a título gratuito, para dizer: “nós precisamos de voluntários. Passem a palavra para trazer mais pessoas. É muito importante criar alicerces para ajudar quem precisa.”

Depois do já referido momento musical com duas canções, ao som de uma guitarra, do jovem artista José Francisco, foi a vez de, pelas 19h.28m., Hunter Halder, dirigente nacional da ‘Refood’, entrar em cena, começando por recordar os objectivos deste movimento solidário, sob o lema ‘Aproveitar para Alimentar’, de pé e junto a três ‘placards’ luminosos, os quais exibiam frases e números da actividade da organização, conforme as explicações que apresentava.

É necessário “aumentar o número de voluntários em Lagos”, referiu Hunter Halder, numa altura em que “temos muitas pessoas, hoje, que não têm dinheiro para pagar a casa, o carro e a alimentação”. Por isso, “pedimos a vossa cumplicidade.”

Expressando-se sempre em português, o holandês, que é considerado o ‘pai’ do movimento ‘Refood’, num aspecto informal perante a plateia, convidou os participantes neste encontro a ficarem “todos de pé” e com “as nossas mãos livres” levantadas. O público, mostrando-se até divertido, seguiu as indicações. Hunter Halder foi apelando à “imaginação” das pessoas, lembrando, por exemplo, o que podem dizer quando se cruzam na rua com alguém que não se cumprimentam há muito tempo. “Eh pá!” – foi a expressão utilizada. São aspectos que servem para reforçar o espírito de comunhão que pretende transmitir na organização ‘Refood’.

Hunter Halder, impulsionador da ‘Refood’ em Portugal, pede “boa vontade das pessoas” durante “duas horas uma vez por semana” para apoio aos núcleos, com o objectivo de alimentar quem necessita

Refood_8785_(3)_OCS – legenda: Hunter Halder, voluntário e fundador do movimento Refood

Ao reforçar a necessidade de surgirem mais voluntários para aproveitar o “excesso de comida” desperdiçada por muitas empresas do sector alimentar perante a falta de consumo dos seus clientes, Hunter Halder insistiu na “boa vontade das pessoas” durante “duas horas uma vez por semana” no apoio aos núcleos do movimento ‘Refood’. O ideal será conseguir “168 horas todas as semanas”, contando, nesse sentido, com um número alargado de voluntários, disponíveis para ajudar, de dia e noite, das mais diversas formas, quem está com fome e não tem dinheiro para comprar alimentos.

“Uma pastelaria que, ao fim de um dia de actividade, não vende bolos e estes perdem valor comercial, não perdem valor como alimento.” “É preciso respeitar a comida. Se não tivermos alternativas, vai para o lixo.”

“Não há grandes compromissos. Ninguém vai assinar um contrato”, garantiu Hunter Halder, voltado a insistir que o objetivo passa por evitar o desperdício alimentar, com “comida para o lixo.” “Um dos problemas é que todos os dias, em cada estabelecimento, há comida em perfeitas condições a ir para o lixo”, lamentou o dirigente nacional do movimento ‘Refood’, apresentando o exemplo de “uma pastelaria que, ao fim de um dia de atividade, não vende bolos e estes perdem valor comercial, mas não perdem valor como alimento.” “É preciso respeitar a comida. Se não tivermos alternativas, vai para o lixo. Em vez disso, entre as pessoas voluntárias, criamos novas embalagens, sem custos, e preparamos para as entregar a quem tem fome”, sublinhou Hunter Halder, dando o exemplo do que sucedeu em Lisboa, onde o movimento ‘Refood’, iniciou, em 2011, a sua atividade como projeto de bairro.

“Temos de verificar a qualidade dos alimentos e de os separar para colocar nas embalagens, como por exemplo, leite, fruta e produtos para sobremesa”

Um dos processos desta organização é garantir embalagens para entregar comida a quem necessita. Depois, “temos de verificar a qualidade dos alimentos e de os separar para colocar nas embalagens, como por exemplo, leite, fruta e produtos para sobremesa”, observou aquele responsável.

Refood_8810_(5)_OCS – legenda: Hunter Halder acompanhado de uma voluntária representante do Núcleo de Faro

Outro processo passa pela entrega, após o contacto com beneficiários, que fazem parte da Rede Social. “Qual o propósito? Missão, visão e valores. Alimentar pessoas é uma iniciativa solidária”, vincou Hunter Halder, apontando como um dos objectivos da ‘Refood’ “resgatar, alimentar, incluir.”

“Os coordenadores [dos núcleos] não mandam. Ajudam. Todos têm o seu lugar e são cem por cento voluntários, cem por cento independentes”

“Os coordenadores [dos núcleos] não mandam. Ajudam. Todos têm o seu lugar e são cem por cento voluntários, cem por cento independentes, pois não fazem parte de nenhum partido, nem de instituições públicas, cem por cento democratas e cem por cento comunitários. Estão disponíveis como voluntários”, esclareceu.

Do movimento ‘Refood’, que conta com 65 núcleos locais, em Portugal, fazem parte “uma direcção nacional, uma equipa executiva de gestão de núcleos e onze processos de gestão”. “A direcção é constituída por cinco mulheres e dois homens e há 25 equipas executivas e mais uma prestadora de serviços”, notou Hunter Halder. Em cada núcleo local, os voluntários têm de “gerir bem” a recolha e a entrega da comida. Nesse sentido, é necessário “comunicação”. “Às empresas não pedimos dinheiro”, notou. Ao receberem os alimentos que já não são consumidos pelo público, os voluntários guardam a comida em frigoríficos, em embalagens e sacos prontos para entregar aos necessitados. A acção passa por “ajudar com qualidade e conhecimento”, através da “coordenação necessária” e “organização” nos locais.

“Há uma reunião mensal e uma vez por semana tem lugar uma reunião para balanço”, refere o dirigente nacional do movimento ‘Redfood’, apontando a necessidade de uma “boa comunicação” para produzir “bons frutos”

Em cada núcleo local, “há uma reunião mensal e uma vez por semana tem lugar uma reunião para balanço”, contou o dirigente nacional do movimento ‘Redfood’, destacando a necessidade de uma “boa comunicação” para produzir “bons frutos.” Isto, depois de ter apontado o exemplo do projecto de bairro em Lisboa, como inédito a nível nacional. O Algarve possui sete mil voluntários a apoiar esta organização, que luta contra o desperdício alimentar, nomeadamente em Lagos, onde a ‘Refood’ existe há quatro anos, Portimão, Albufeira, Almancil (no concelho de Loulé), Faro, Tavira e Vila Real de Santo António.

Refood_8772_(8)_OCS – legenda: José Francisco apresentou o seu mais recente trabalho

“Temos a nossa alegria de alimentar pessoas, entregando-lhes comida, após a recolha, por exemplo, em supermercados e em charcutarias, com frangos. O objectivo do voluntariado é ‘desperdício zero’! ”, frisou, a certa altura, um elemento do Núcleo de Faro.

Adesão de voluntários passa por uma breve formação para as tarefas que quiserem, de acordo com trabalhos para os quais estão mais vocacionados, desde a recolha de alimentos, ao transporte junto das pessoas mais necessitadas de comida

Entre outras informações prestadas ao público por voluntários em Lagos, os participantes nesta sessão da ‘Refood’ ficaram, também, a saber que a adesão de “voluntários passa por uma breve formação para as tarefas que quiserem.” “Ajudam as pessoas e a nós próprios”, de acordo com trabalhos para os quais estão mais vocacionados, designadamente recolha de alimentos, tratamento, embalamento e distribuição em transportes.

“Os núcleos não crescem, nem se desenvolvem sem voluntários”

“Os núcleos não crescem, nem se desenvolvem sem voluntários”, insistiu um dos coordenadores do movimento ‘Refood’ no Algarve. Já nas despedidas, e após a atuação do cantor José Francisco, o presidente desta organização em Portugal, Hunter Halder, que se encontra há 13 anos no nosso país, ainda teve tempo para desafiar as pouco mais de duas dezenas de pessoas, que ainda restavam no auditório, para uma breve sessão tipo ginástica, nomeadamente com mãos no ar para descontrair, transmitindo, ao mesmo tempo, a mensagem de estarem livres em ajudar quem necessita.

Créditos das fotos: Eliana Silva (voluntária do movimento Refood)