O apelo de Joana Correia, do Movimento ‘Lagos Mais Verde’: “Quando virmos uma árvore madura a ser abatida, não fiquemos como observadores. Perguntem onde está o relatório técnico que justifica aquele abate.Em caso de dúvidas, contactar a GNR”

“Lagos não deve ficar para trás nem cometer os erros que outros já estão a corrigir”, alertou aquela especialista ao intervir no início de uma sessão na Câmara Municipal de Lagos. Joana Reis Correia aproveitou para criticar os recentes abates de árvores, chamando a atenção para problemas daí resultantes, pediu relatórios técnicos e apontou soluções. E ainda entregou aos autarcas um documento, no qual o Movimento ‘Lagos Mais Verde’ apresenta medidas para a criação de novos espaços verdes e promoção da plantação de espécies, como medronheiro, loureiro, alfarrobeira, figueira, oliveira, zambujeiro, alecrim, lavanda, Medicago e Salvia, entre outras, adaptadas ao clima seco e com reduzidas necessidades hídricas.

Já “as palmeiras exigem manutenção regular, são vulneráveis a pragas como o escaravelho-vermelho e, em geral, sequestram menos carbono e retêm menos água no solo. Embora possam ser esteticamente apelativas e, por vezes, consumir menos água, não são adequadas para uso generalizado numa cidade sustentável”, avisa o documento a que o ‘Litoralgarve’ teve acesso. E há mais recados lançados pelo Movimento ‘Lagos mais Verde’.

José Manuel Oliveira

Numa altura em que o abate de árvores continua a gerar uma onda de polémica na cidade de Lagos, o recém-criado Movimento ‘Lagos Mais Verde’, o qual já conta com professores, psicólogos, empresários, músicos e artistas plásticos, entre outros profissionais, decidiu tomar a palavra logo no início do período antes da ordem do dia, destinado ao público, na última sessão camarária, realizada a 01 de Abril, no auditório dos Paços do Concelho Século XXI, perante autarcas e mais de três dezenas de populares.

Na mesa, estavam o vice-presidente do executivo municipal, socialista Paulo Jorge Reis, os vereadores Sara Coelho e Luís Bandarra, também do PS, e os vereadores sem pelouros atribuídos, Gilberto Viegas e Nuno Marques, ambos da AD – Aliança Democrática (constituída pelo PSD e CDS-PP) e Paulo Rosário Dias, do Chega. O presidente, Hugo Pereira, do PS, chegou mais tarde.

“Em Fevereiro, assistimos ao abate de várias árvores adultas em diferentes zonas da cidade de Lagos. E agora, voltamos a assistir a novos abates na estrada de acesso à marina de Lagos.Árvores que cresceram durante décadas, que deram identidade aos nossos espaços, foram abatidas como se não fizessem falta. Mas fazem. E há uma preocupação e indignação visíveis da população.”

Joana Reis Correia foi a porta-voz do Movimento ‘Lagos Mais Verde’, que, numa comunicação escrita, começou por lembrar: “Em Fevereiro, assistimos ao abate de várias árvores adultas em diferentes zonas da cidade de Lagos. E agora, voltamos a assistir a novos abates na estrada de acesso à marina de Lagos. Árvores que cresceram durante décadas, que deram identidade aos nossos espaços, foram abatidas como se não fizessem falta. Mas fazem. E há uma preocupação e indignação visíveis da população.”

“A justificação dada pela Câmara Municipal de Lagos é que as árvores estavam doentes ou em risco de queda. Importa colocar o risco em perspetiva: As quedas de árvores são eventos raros associados a fenómenos extremos. Já o calor excessivo é, hoje, uma das principais ameaças à saúde.”

“Numa recente onda de calor na Europa, registaram-se milhares de mortes de pessoas em poucos dias. E as árvores maduras são uma das formas mais eficazes de reduzir esse risco, porque baixam a temperatura.”

“A justificação dada pela Câmara Municipal de Lagos – observou Joana Reis Correia – é que as árvores estavam doentes ou em risco de queda.” “Importa colocar o risco em perspetiva: As quedas de árvores são eventos raros associados a fenómenos extremos. Já o calor excessivo é, hoje, uma das principais ameaças à saúde”, alertou.

“Faz sentido abater tantas árvores antes do Verão e em pleno período de nidificação? Não, não faz. Sabemos que existem situações que causam problemas reais no espaço urbano, e que em alguns casos é necessária intervenção. Mas com certeza não foi este o caso quando falamos de tantas árvores abatidas em tão pouco tempo.”

“Responder a queixas com abates indiscriminados vai criar problemas muito maiores para todos no futuro. Sem árvores adultas, teremos mais vento, mais eventos extremos, mais seca.”

E prosseguiu: “Numa recente onda de calor na Europa, registaram-se milhares de mortes de pessoas em poucos dias. E as árvores maduras são uma das formas mais eficazes de reduzir esse risco, porque baixam a temperatura. Colocando na balança, faz sentido abater tantas árvores antes do Verão e em pleno período de nidificação? Não, não faz. Sabemos que existem situações que causam problemas reais no espaço urbano, e que em alguns casos é necessária intervenção. Mas com certeza não foi este o caso quando falamos de tantas árvores abatidas em tão pouco tempo. Responder a queixas com abates indiscriminados vai criar problemas muito maiores para todos no futuro. Sem árvores adultas, teremos mais vento, mais eventos extremos, mais seca.”

“Claro que a segurança é essencial e é necessário intervir.”

“Mas é importante dizer isto com clareza: Intervir não é abater!”

A representante do Movimento ‘Lagos Mais Verde’, ao referir, ainda, o risco de queda, reconheceu: “claro que a segurança é essencial e é necessário intervir.” “Mas é importante dizer isto com clareza: Intervir não é abater!”, frisou.

“Existem alternativas técnicas utilizadas em várias cidades do mundo, que permitem reduzir o risco de queda e manter a segurança das pessoas, nomeadamente cabos de sustentação, estruturas de suporte e podas adequadas.Éprecisamente nessa prevenção que devemos investir!”

“Existem alternativas técnicas utilizadas em várias cidades do mundo, que permitem reduzir o risco de queda e manter a segurança das pessoas, nomeadamente cabos de sustentação, estruturas de suporte e podas adequadas”, revelou, a propósito, Joana Reis Correia, para quem “é precisamente nessa prevenção que devemos investir!”

“As árvores são infraestruturas vivas, com benefícios essenciais e que devem ser tratadas com respeito. Plantar novas árvores é muito importante, mas não é suficiente; preservar uma árvore adulta é tão ou mais importante! Uma árvore madura cumpre funções ecológicas essenciais para a nossa sobrevivência: melhoria da saúde mental, libertam fitoncidas, substâncias naturais que ajudam a reforçar o sistema imunitário e a reduzir o stress, oxigénio, ar puro, armazenam carbono, ajudam a prevenir cheias e a preservar a água doce… Uma árvore jovem levará décadas a atingir estes mesmos benefícios”, explicou a dirigente do Movimento ‘Lagos Mais Verde’.

“Na maioria dos casos, árvores adultas são mais estáveis do que árvores jovens, que têm raízes mais frágeis e são mais susceptiveis a quedas”

Joana Reis Correia aproveitou para chamar a atenção para o facto de ser “importante, também, corrigir uma ideia errada sobre árvores de grande porte.” “Na maioria dos casos, árvores adultas são mais estáveis do que árvores jovens, que têm raízes mais frágeis e são mais susceptiveis a quedas”, realçou.

“Outra preocupação é em relação ao modelo de desenvolvimento urbano. Optam-se por soluções como palmeiras ou pedras decorativas, que não trazem valor ecológico e aumentam o calor urbano, quando poderiam ser usadas soluções mais verdes e permeáveis, como árvores e arbustos autóctones.”

Os avisos do Movimento ‘Lagos Mais Verde’ não ficaram por aqui. “Outra preocupação é em relação ao modelo de desenvolvimento urbano. Optam-se por soluções como palmeiras ou pedras decorativas, que não trazem valor ecológico e aumentam o calor urbano, quando poderiam ser usadas soluções mais verdes e permeáveis, como árvores e arbustos autóctones.”

“Estamos a criar uma cidade onde o espaço para a natureza se torna cada vez mais reduzido. E isto é particularmente relevante quando outras cidades europeias fazem exatamente o contrário, removem betão para dar lugar ao verde.”

Nesta sua intervenção, Joana Reis Correia referiu que “assistimos, também, a construções onde os prédios chegam até à beira da estrada.” Em face dessa situação, questionou: “Onde fica o espaço para árvores no passeio que dão sombra aos caminhantes? Não importa que filtrem poluentes dos carros ou reduzam o ruído e o vento?”

“Estamos a criar uma cidade onde o espaço para a natureza se torna cada vez mais reduzido”, lamentou, acrescentando: “E isto é particularmente relevante quando outras cidades europeias fazem exatamente o contrário, removem betão para dar lugar ao verde.”

“Proteger árvores é uma responsabilidade ambiental e de saúde pública, que deve ser levada com seriedade.Por isso, queremos pedir: Relatórios técnicos acessíveis, caso a caso; Aplicação das alternativas ao abate; Planeamento urbano com espaço adequado para as árvores; Catálogo das árvores de Lagos e proteção das árvores antigas;Reforço da educação ambiental; Informação clara sobre o plano de substituição.”

“Lagos não deve ficar para trás nem cometer os erros que outros já estão a corrigir. Proteger árvores é uma responsabilidade ambiental e de saúde pública, que deve ser levada com seriedade. Por isso, queremos pedir: Relatórios técnicos acessíveis, caso a caso; Aplicação das alternativas ao abate; Planeamento urbano com espaço adequado para as árvores; Catálogo das árvores de Lagos e proteção das árvores antigas; Reforço da educação ambiental; Informação clara sobre o plano de substituição.”

E em seguida, dirigindo-se “aos cidadãos e cidadãs”, em geral, Joana Reis Correia deixou um apelo: “Quando virmos uma árvore madura a ser abatida, não fiquemos como observadores. Intervenham, perguntem onde está o relatório técnico que justifica aquele abate. Em caso de dúvidas, contactar a GNR ambiental ou o SEPNA [Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente / GNR] perante existência de ninhos.”

“Há dois anos atrás perguntava-me onde estão as pessoas que se preocupam com a natureza? Aqui estamos nós,  unidos, pelo nosso património natural!”

E a concluir: “Só com cidadãos envolvidos, podemos proteger o que é de todos nós. Há dois anos atrás perguntava-me onde estão as pessoas que se preocupam com a natureza? Aqui estamos nós,  unidos, pelo nosso património natural! Cuidar das árvores é cuidar das pessoas. Por um Lagos mais Verde! Muito obrigado.”

Ouviram-se, de imediato, fortes aplausos no auditório por parte de populares, que escutavam, atentamente, como notou o ‘Litoralgarve’, no local, a porta-voz do Movimento ‘Lagos Mais Verde’. Já o vice-presidente da Câmara Municipal de Lagos, Paulo Jorge Reis, chamou a atenção dos presentes para o facto de tal não ser permitido em sessões públicas do município.

Em seguida, Joana Reis Correia dirigiu-se à mesa, na qual estavam os autarcas, e entregou uma cópia da intervenção que tinha acabado de ler, e um outro documento sobre árvores e espaços verdes em Lagos, a que o ‘Litoralgarve’ teve acesso.

Muralha Baluarte

GESTÃO SUSTENTÁVEL DOS ESPAÇOS VERDES DE LAGOS

1º. Tema: Técnicas utilizadas em outras cidades que previnem o risco de queda e mantêm a segurança das pessoas.

Para prevenção de risco de queda e segurança humana existem técnicas de ancoragem ao solo, cabos, escoras que devem ser utilizadas antes de se considerar o abate de árvores maduras

Tema 2: Colocação de palmeiras e pedras em locais em que antes estavam arbustos e árvores

 e novas construções até à beira da estrada

Têm sido realizadas intervenções nos espaços verdes da cidade de Lagos, que levantam preocupações quanto à sua sustentabilidade ambiental. A ampla impermeabilização do solo com calçada e o uso amplificado de pedras e palmeiras contrariam os princípios de uma abordagem ecológica equilibrada, especialmente num contexto de escassez de água. Embora possa ser apresentada como uma estratégia de curto prazo para “poupar água”, a longo prazo poderá ter precisamente o efeito contrário.

A remoção de relva pode, de facto, ser uma medida adequada, desde que seja substituída por coberturas vegetais adaptadas ao clima local e com reduzidas necessidades de rega. Passamos a explicar:

  1. Substituição de árvores e arbustos por palmeiras

Árvores e arbustos autóctones são essenciais para a biodiversidade, a regulação térmica e a infiltração de água nos lençóis freáticos. Árvores de copa larga sequestram mais carbono e ajudam a purificar o ar, beneficiando a saúde pública. As palmeiras, na maioria não autóctones, não seguem as atuais diretrizes de reflorestação urbana. Produzem menos sombra, arrefecem menos o ambiente e têm menor valor ecológico, oferecendo pouco suporte à fauna. Exigem manutenção regular, são vulneráveis a pragas como o escaravelho-vermelho e, em geral, sequestram menos carbono e retêm menos água no solo.

Embora possam ser esteticamente apelativas e, por vezes, consumir menos água, não são adequadas para uso generalizado numa cidade sustentável. Em contraste, árvores autóctones de copa larga necessitam de pouca rega após o estabelecimento e oferecem benefícios ecológicos superiores.

2. Desvantagens da utilização de pedras em espaços urbanos

– Aumentam a temperatura da cidade, pois retêm calor durante o dia e libertam-no à noite, contribuindo para o efeito de “ilha de calor” urbano e reduzem a absorção de água, o que afeta a recarga dos lençóis freáticos e aumenta o risco de enxurradas.

3. Impacto ambiental e consumo de água

Verificam-se contradições na gestão hídrica dos espaços públicos urbanos, especialmente quando se compara a promoção de medidas de poupança de água com a manutenção de infraestruturas e atividades de elevado consumo hídrico, como campos de golfe, piscinas e determinadas plantações comerciais. Esta discrepância levanta questões quanto à coerência das políticas de gestão sustentável dos recursos hídricos.

3º TEMA: PODAS INCORRETAS

A realização de podas drásticas, nomeadamente através do atarracamento, constitui uma prática prejudicial para a saúde e estabilidade das árvores. Este tipo de intervenção remove grande parte da copa, expondo subitamente os ramos e o tronco à radiação solar. Essa exposição repentina à luz intensa e ao calor pode danificar os tecidos vivos da árvore. Os cortes de grande dimensão representam ferimentos significativos, dificultando a cicatrização e aumentando a vulnerabilidade a pragas, doenças e infeções. Em resposta ao stress, a árvore tende a produzir rebentos rápidos e desorganizados, estruturalmente frágeis e mais suscetíveis à quebra.

Como consequência, estas práticas comprometem a saúde da árvore a médio e longo prazo, podendo conduzir à morte prematura. Paralelamente, aumentam o risco de queda de ramos ou da própria árvore no futuro, colocando em causa a segurança de pessoas e bens.

Propostas de Planeamento urbano e medidas propostas

– Elaboração de um catálogo das árvores de Lagos e criação de mecanismos de protecção legal para árvores antigas e de valor patrimonial.

– Aplicação de alternativas ao abate mencionadas anteriormente, privilegiando a conservação e recuperação das árvores existentes.

– Reforço da educação ambiental junto da população.

– Planeamento urbano adequado, garantindo espaço radicular suficiente, evitando árvores demasiado isoladas e promovendo a utilização de diferentes estratos vegetais. A presença de várias camadas arbóreas e arbustivas contribui para a redução do impacto do vento e aumenta a resistência durante eventos climáticos extremos.

– Combinação equilibrada de elementos minerais (pedra) com plantas nativas, arbustos e coberturas de solo adaptadas ao clima local, garantindo um equilíbrio entre estética, biodiversidade e sustentabilidade.

Adoção de espécies autóctones e mais espaços verdes

– Promoção da plantação de espécies como medronheiro, loureiro, alfarrobeira, figueira, oliveira, zambujeiro, alecrim, lavanda, Medicago e Salvia, entre outras, adaptadas ao clima seco e com reduzidas necessidades hídricas.

Estas espécies contribuem para o aumento da humidade local, favorecem a infiltração e retenção de água nos solos e, a longo prazo, ajudam a mitigar os efeitos da seca, promovendo ciclos naturais da água mais equilibrados.

Promovem a biodiversidade, oferecem sombra natural e contribuem para a redução da temperatura urbana.

Soluções de retenção e reaproveitamento de água

– Implementação de jardins de chuva – depressões no terreno, concebidas para captar e infiltrar a água da chuva, reduzindo o risco de inundações, promovendo a recarga dos lençóis freáticos e prevenindo a erosão. São compostos por solo permeável e vegetação adaptada.

– Aumento da captação e armazenamento de água da chuva em diferentes pontos da cidade.

– Reforço da educação na área da regeneração ecológica para toda a população.

– Renaturalização e proteção de zonas húmidas.

– Políticas de gestão hídrica mais equitativas.

– Monitorização do consumo de água por setores de elevado consumo.

– Garantia de que grandes utilizadores, como campos de golfe, hotéis, habitações de elevado consumo e plantações comerciais, adotam medidas rigorosas de eficiência hídrica.

Conclusão: A remoção de vegetação densa e a sua substituição por elementos que não favorecem a biodiversidade nem a retenção de água podem comprometer a sustentabilidade ambiental da cidade. A adoção de uma abordagem ecológica, baseada na preservação e no uso eficiente dos recursos naturais, é essencial para garantir um equilíbrio entre o desenvolvimento urbano e a proteção do meio ambiente.

A implementação destas medidas contribuirá não só para a melhoria da qualidade de vida da população, como também para a preservação do ecossistema local, posicionando Lagos como um exemplo de sustentabilidade e boa gestão dos espaços verdes.