“A primeira prioridade do Bloco [de Esquerda] será a apresentação de um pacote para a habitação, incluindo a regulação das rendas, um plano de construção de habitação pública e a proibição da compra de casas por não-residentes”, promete, em entrevista por escrito ao ‘site’ «Litoralgarve», José Gusmão, que lidera a lista de candidatos a deputados deste partido pelo Círculo Eleitoral de Faro à Assembleia da República, nas eleições legislativas antecipadas, as quais têm lugar no domingo, 18 de Maio.
A campanha eleitoral no Algarve terá deixado José Gusmão confiante perante o que poderá ser a reacção do eleitorado nas urnas. “As conversas que temos tido confirmam que a habitação é o problema número um para os portugueses e queremos dar-lhe resposta. Há uma enorme saturação com os partidos do costume (PS e PSD), que têm feito as mesmas promessas, campanha após campanha, para depois fazerem turnos a adiá-las”, observa o candidato do Bloco de Esquerda. E deixa um recado ao PS para viabilizar um eventual acordo governamental: “Essas soluções passam por reforçar os direitos do trabalho, que têm sido tão atacados, salvar o SNS – Serviço Nacional de Saúde e implementar medidas para baixar o preço das casas agora e não num futuro longínquo.” Para já, o Bloco de Esquerda aposta em recuperar o deputado perdido em 2019, na região algarvia.
José Manuel Oliveira
Litoralgarve – Que perspectiva tem o Bloco de Esquerda para estas eleições legislativas antecipadas a 18 de Maio de 2025, no Círculo Eleitoral de Faro à Assembleia da República? Quantos deputados espera eleger?
José Gusmão – Queremos recuperar o deputado que já tivemos noAlgarve. Nas últimas eleições, o Bloco foi a força política àesquerda do PS, que mais se aproximou da eleição de um deputado, ficando a 1,7 p.p. (pontos percentuais) de o fazer. A única forma dea esquerda voltar a ter um deputado pelo Algarve éconcentrar o voto de esquerda no Bloco, até porque essedeputado pode bem ser eleito em detrimento daextrema-direita.
Litoralgarve – E qual a primeira medida que tomará se for eleito?
José Gusmão – A primeira prioridade do Bloco será a apresentação deum pacote para a habitação, incluindo a regulação dasrendas, um plano de construção de habitação pública e aproibição da compra de casas por não-residentes.
“Os salários no Algarve são os mais baixos do país e o custo das casas é o segundo mais elevado a seguir ao de Lisboa”
Litoralgarve – Quais são os principais problemas que sente no Algarve e como resolvê-los?
José Gusmão – O Algarve dá um contributo enorme para a economianacional, nomeadamente através do papel do turismo,nas exportações nacionais, mas tem recebido muitopouco em troca do poder central. O peso e ascaracterísticas do turismo têm consequências na região, que não têm sido combatidas. Os salários no Algarve sãoos mais baixos do país e o custo das casas é o segundomais elevado a seguir ao de Lisboa. Além disso, a ofertade emprego e a oferta de casas são sazonais edesencontradas, ou seja, quando há casa não há trabalho,quando há trabalho não há casa. Os últimos Governosnão apresentaram qualquer política para contrariar esta tendência, nem do lado da economia, nem do lado da habitação.
Uma outra injustiça é a forma como os investimentos públicos urgentes são prometidos por PS e PSD, campanha após campanha, e depois sempre adiados. Desde o Hospital Central do Algarve ao Centro Oncológico de Loulé, desde as redes de transportes colectivos, até à requalificação da EN125, desde as redes de distribuição de água ao investimento nas renováveis. A falta de investimento estruturante dificulta a fixação de profissionais qualificados e a transformação do modelo económico do Algarve, incluindo a diversificação e dessazonalização da própria atividade turística.
“A direita tem uma agenda mal escondida de privatização do Serviço Nacional de Saúde. Esse projecto significa uma saúde pior com muito mais despesa.”

Litoralgarve – E a nível nacional?
José Gusmão – A habitação já referi.Um outro tema é a saúde. A direita tem uma agenda malescondida de privatização do Serviço Nacional de Saúde.Esse projecto significa uma saúde pior com muito maisdespesa. A saúde na Holanda, por exemplo, é o modeloda direita para Portugal. A Holanda, sendo um país muitomais rico, tem indicadores de saúde piores do quePortugal e gasta mais do dobro por pessoa. A privatizaçãoda saúde não funciona. Significa cuidados de saúdecaríssimos para quem os conseguir pagar e cuidados desaúde para quem não conseguir pagar.
“Portugal vive na situação bizarra de ter privatizado as suas redes energéticas. O Bloco defende a sua renacionalização como exigência de soberania e segurança”
Litoralgarve – A que se deve, na sua opinião, o recente corte energético, conhecido por apagão? Admite ter-se tratado de um ciberataque? Como prevenir estas situações no futuro?
José Gusmão – Não há nenhum sinal de que se tenha tratado de umciberataque. Mas o incidente mostra uma enormevulnerabilidade que foi agravada pela resposta caótica eincompetente do Governo. Portugal vive na situaçãobizarra de ter privatizado as suas redes energéticas. OBloco defende a sua renacionalização como exigência desoberania e segurança.
“As deportações anunciadas não correspondem a uma decisão do Governo, mas sim à aplicação da legislação em vigor. A única novidade é termos um Governo que anuncia as deportações como se fossem um troféu de caça, com o único objetivo de ganhar votos”
Litoralgarve – A imigração é um problema em Portugal? Como encara a decisão do Governo de notificar para deixarem o país, numa primeira fase, mais de quatro mil cidadãos imigrantes indocumentados e que procuram trabalhar? Que repercussões poderá ter essa situação?
José Gusmão – As deportações anunciadas não correspondem a umadecisão do Governo, mas sim à aplicação da legislação emvigor. A única novidade é termos um Governo queanuncia as deportações como se fossem um troféu decaça, com o único objetivo de ganhar votos. Nóspensamos que a regulação dos fluxos migratórios deveser tratada com maior seriedade, até porque estamos afalar de pessoas.
“A direita não tem condições para formar um Governo e tem um Primeiro-Ministro ferido na sua credibilidade e na sua ética”
Litoralgarve – Se não houver, de novo, maioria absoluta nestas eleições legislativas, como antevê a formação do próximo Governo em Portugal? Admite que venha a ser uma legislatura de curta duração, como já sucedeu?
José Gusmão – O que sabemos é que a direita não tem condições paraformar um Governo e tem um Primeiro-Ministro feridona sua credibilidade e na sua ética. A grande novidadepara o Algarve pode ser a eleição de um deputado àesquerda. O Bloco é quem está em melhores condições para atingir esse objetivo.
“Estaremos sempre disponíveis para viabilizar soluções, como estivemos no passado”
Litoralgarve – O Bloco de Esquerda está disponível para viabilizar um governo do PS? Em que condições?
José Gusmão – Estaremos sempre disponíveis para viabilizar soluções,como estivemos no passado. Essas soluções passam porreforçar os direitos do trabalho, que têm sido tãoatacados, salvar o SNS – Serviço Nacional de Saúde e implementar medidas parabaixar o preço das casas agora e não num futurolongínquo.
“Montenegro queria eleições para fugir a uma Comissão Parlamentar de Inquérito sobre os seus negócios obscuros e provocou-as”
Litoralgarve – O que pensa da queda do actual Governo, liderado pelo social-democrata Luís Montenegro, na sequência da moção de confiança apresentada pelo primeiro-ministro e a dissolução da Assembleia da República, com a consequente convocação de eleições legislativas antecipadas por parte do Chefe de Estado, Marcelo Rebelo de Sousa?
José Gusmão – Montenegro queria eleições para fugir a uma ComissãoParlamentar de Inquérito sobre os seus negóciosobscuros e provocou-as.
“Os 3 deputados do Chega não mudaram absolutamente nada. Chegaram ao Parlamento e esqueceram tudo e mudou o quê? O Algarve precisa de ter um deputado à esquerda”
Litoralgarve – O que lhe dizem os eleitores nos contactos que tem estabelecido? Estão saturados de eleições, querem mudança?
José Gusmão – Temos tido muitas mensagens de apoio durante acampanha. As conversas que temos tido confirmam que ahabitação é o problema número um para os portuguesese queremos dar-lhe resposta. Há uma enorme saturaçãocom os partidos do costume (PS e PSD), que têm feito as mesmas promessas, campanha após campanha, para depois fazerem turnos a adiá-las. Os 3 deputados do Chega não mudaram absolutamente nada. Chegaram ao Parlamento e esqueceram tudo e mudou o quê? O Algarve precisa de ter um deputado à esquerda e o Bloco é quem está em condições de o eleger.
“A abstenção cresce por causa da desilusão que existe na região, após anos e anos de promessas adiadas”
Litoralgarve – Receia o aumento da abstenção? Como é possível cativar votos?
José Gusmão – A abstenção cresce por causa da desilusão que existe naregião, após anos e anos de promessas adiadas. A únicaforma de combater a abstenção é apresentar propostas que mudem a política da região.
Litoralgarve – Como foi a campanha do Bloco de Esquerda no Algarve? Quais os custos?
José Gusmão – Os custos da nossa campanha foram baixíssimos eresumem-se a custos de deslocação dos ativistas emateriais de informação sobre as nossas propostas para o país.
“Portugal é um país construído por gente que é muito maltratada”
“A Escola pública é um dos maiores instrumentos de igualdade na sociedade portuguesa, mas está há vários anos sob ataque”
Litoralgarve – Que futuro para Portugal?
José Gusmão – Igualdade. Portugal é um país construído por gente que émuito maltratada. Não tem de ser assim. Temos estado acomemorar o 25 de Abril e as transformações que ocorreram nesse período. Elas mostram que não há inevitabilidades. Não há limites para o que um povo mobilizado pode construir. Nesse tempo, como no nosso. A Escola pública é um dos maiores instrumentos de igualdade na sociedade portuguesa, mas está há vários anos sob ataque. Professores, técnicos especializados e assistentes operacionais têm um papel insubstituível na vida das escolas, não apenas nas suas funções específicas, mas também na identificação de problemas familiares e sociais nos contextos em que as escolas se inserem. Infelizmente, o desinvestimento na escola pública e nas carreiras dos que a fazem leva a que também aqui as carências sejam graves, em número e condições de trabalho. O Bloco defende a valorização das carreiras de todos os profissionais da escola pública. Investir na escola pública é investir no país.
Num breve auto-retrato, José Gusmão, de 49 anos, economista e residente em Bruxelas, na Bélgica, “por razões profissionais”, aponta a “cobardia” como o que mais detesta nas pessoas. Conta como ocupa os tempos livres, é sportinguista e destaca o polvo à lagareiro em termos gastronómicos
Nome completo: José Guilherme Figueiredo Nobre de Gusmão
Data do nascimento: 20 de Julho de 1976. Tem 49 anos de idade.
Estado Civil: Solteiro
Filhos (idades): Tenho duas filhas, de 8 e 11 anos
Naturalidade: Lisboa
Residência: Bruxelas (por razões profissionais)
Filiação partidária: Bloco de Esquerda
Cargos políticos que já desempenhou (e exerce):
Deputado à Assembleia da República, Deputado ao
Parlamento Europeu e Dirigente do Bloco de Esquerda
Profissão: Economista
Habilitações literárias: Licenciatura
Idiomas que domina: Português
Clube desportivo da sua preferência: Sporting
Como ocupa os tempos livres: Cinema, Forró e Danças europeias, futebol, visto e (mal) jogado, Padel
Gastronomia/prato preferido: Polvo à lagareiro e comida em geral
Religião: Não sou crente
A sua principal virtude: a modéstia
E o seu principal defeito: a falta de modéstia
O que mais admira nas pessoas: empatia
E o que mais detesta: cobardia
“O mandato de António Guterres nas Nações Unidas é
um motivo de orgulho para o país”
A figura nacional que mais aprecia e porquê: Para evitar
nomes do meu campo político, escolheria António
Guterres. Penso que o seu mandato nas Nações Unidas é
um motivo de orgulho para o país.
E a que mais detesta e qual o motivo: Detesto muito
pouca gente e os poucos que detesto têm tempo de
antena que chegue.
E a nível internacional e porquê: Francesca Albanese,
Relatora especial das Nações Unidas, que tem sido uma
incansável lutadora contra o Genocídio de Gaza.










