José Manuel Freire, deputado da CDU na Assembleia Municipal de Lagos, ao ‘Litoralgarve’: “Ligar o Bairro 25 de Abril, na Meia-Praia, ao nome de José Veloso será a melhor memória para o homenagear”, com uma placa toponímica

Trabalhou para o Fundo de Fomento da Habitação, como coordenador de equipas de projectos do Serviço de Apoio Ambulatório Local (SAAL), em vários concelhos do Algarve. Foi nesse quadro que ficou com o seu nome de arquitecto ligado à popular marca conhecida como ‘Os índios da Meia Praia’, perpetuada numa canção de José Afonso.

José Manuel Oliveira

O Bairro 25 de Abril de 1974, situado na zona da Meia-Praia, em Lagos, poderá vir a ostentar uma placa toponímica com o nome do arquitecto José Paulo Velho Geraldo de Albuquerque Veloso, natural desta cidade e antigo autarca do concelho, que faleceu no passado dia 19 de Janeiro, aos 93 anos de idade. “Ligar o Bairro 25 de Abril, na Meia-Praia, ao nome de José Veloso será a melhor memória para o homenagear”, reconheceu, em declarações ao ‘Litoralgarve’, o conhecido autarca do Partido Comunista Português José Manuel Freire, deputado da Coligação Democrática Unitária (CDU) – que integra o PCP e Partido Ecologista ‘Os Verdes’ – na Assembleia Municipal de Lagos.

A zona do Centro Histórico de Lagos ou a Ponta da Piedade são outros locais onde, na perspectiva do PCP, também poderia vir a ser colocada uma placa toponímica em memória de José Veloso

Recorde-se que, ao dar cumprimento a uma das principais conquistas resultantes da Revolução de Abril, ‘O Direito à Habitação’, José Veloso trabalhou para o Fundo de Fomento da Habitação, como coordenador de equipas de projectos do Serviço de Apoio Ambulatório Local (SAAL), em vários concelhos do Algarve. Foi nesse quadro que ficou com o seu nome de arquitecto ligado à popular marca conhecida com ‘Os índios da Meia Praia’, perpetuada numa canção de José Afonso.

A zona do Centro Histórico de Lagos ou a Ponta da Piedade são outros locais onde, na perspectiva do PCP, também poderia vir a ser colocada uma placa toponímica em homenagem a José Veloso. Para já, tratam-se, apenas, de sugestões.

Escritor José Saramago aguarda placa toponímica há 25 anos em Lagos, apesar de ter sido aprovada várias vezes. “Existe uma Comissão de Toponímia no município, mas não sabemos quem é o responsável, não sabemos quais as suas prioridades”, lamenta José Manuel Freire

Por outro lado, o deputado municipal José Manuel Freire lembrou que “há 25 anos propusemos para José Saramago” o nome deste escritor, galardoado com o Prémio Nobel da Literatura, em 1998, pela Real Academia Sueca, e falecido com 87 anos, ser colocado numa placa toponímica em Lagos. “Foi aprovado pelos órgãos do município, o José Saramago agradeceu, voltou a ser aprovado, ele ganhou o Prémio Nobel da Literatura e uma vez mais foi aprovado. Entretanto, morreu e continuamos à espera, pois o seu nome ainda não figura em nenhuma zona da cidade de Lagos”, observou José Manuel Freire. E ao manifestar a sua estranheza pelo sucedido, acrescentou: “Existe uma Comissão de Toponímia no município de Lagos, mas não sabemos quem é o responsável, não sabemos quais as suas prioridades”. Outro nome proposto e aprovado para ser homenageado, como nos referiu aquele deputado municipal, com uma placa numa zona desta cidade é o do músico Adriano Correia de Oliveira, falecido aos 40 anos e que se dedicava ao fado de Coimbra e à música popular portuguesa, sendo um visitante habitual de Lagos. Contudo, até ao momento nada foi feito nesse sentido.

“Desde a pandemia [da Covid-19], não há novos nomes de ruas em Lagos, que continuam em espera”, lamentou José Manuel Freire.     

O reparo pela ausência de representação a nível oficial da Câmara Municipal de Lagos e da Assembleia Municipal durante o funeral realizado no Cemitério Novo desta cidade

Recorde-se que José Veloso vivia no Lar José Filipe Fialho, em Lagos, já bastante doente, e foi sepultado na manhã do dia 20 de Janeiro de 2024, no Cemitério Novo desta cidade, numa cerimónia acompanhada por cerca de uma centena de pessoas, com velório numa das capelas mortuárias. O que acabou por surpreender o autarca José Manuel Freire, como o próprio nos confessou, foi a ausência de representação oficial por parte da Câmara Municipal de Lagos e da Assembleia Municipal. O vereador da CDU, sem pelouro, no executivo camarário local, Alexandre Nunes, marcou presença, como referiu. Mas “nenhum dos presidentes esteve presente nas cerimónias fúnebres”, notou, também ao ‘Litoralgarve’, um popular que acompanhou o cortejo.

“Um minuto de silêncio” em reunião do executivo camarário lacobrigense, presidido pelo PS

“José Veloso, figura incontornável da intervenção cívica e política que ficará, para sempre, associada aos movimentos pela emancipação dos povos, pela democracia, o progresso social, a paz e o socialismo. Em sua memória e homenagem, a Câmara Municipal de Lagos aprovou um voto de pesar e cumpriu um minuto de silêncio, expressando à sua família e amigos as mais sentidas condolências”, pode ler-se no início do texto enviado aos órgãos de comunicação social.

E prossegue: “Natural de Lagos, onde nasceu em 1930, José Veloso formou-se em Arquitetura e à sua terra natal regressou para exercer, em gabinete próprio, esta profissão, no âmbito da qual se viria a destacar. Envolvendo-se ativamente com o Fundo de Fomento da Habitação para ajudar a cumprir uma das maiores conquistas da Revolução de Abril, trabalhou, como coordenador de equipas de projeto do Serviço de Apoio Ambulatório Local (SAAL), em diversos concelhos algarvios. Dedicou a sua atividade profissional quase exclusivamente a projetos de equipamentos públicos, de habitação de promoção municipal e de habitação cooperativa, com obras construídas em concelhos algarvios e alentejanos, tendo recebido menções honrosas do Fundo de Fomento da Habitação em projetos de habitação cooperativa, de que é exemplo a Cooperativa 30 de Junho, no Chinicato (freguesia de São Gonçalo/Lagos), e o título de membro honorário da Ordem dos Arquitetos.”

Do MDP ao PCP, como candidato a deputado pelo Círculo Eleitoral de Faro à Assembleia da República, além de vereador na Câmara Municipal de Lagos pela APU – Aliança Povo Unido e mais tarde da CDU

“A par da atividade profissional – acrescenta – teve um papel político ativo, antes e depois do 25 de abril, participando, em 1969, no Movimento Democrático Português/Comissão Democrática Eleitoral (MDP/CDE) como candidato da CDE, por Faro, à Assembleia Nacional e, em 1975, como candidato à Assembleia Constituinte, pelo MDP-CDE. Candidato do PCP em diversas eleições para a Assembleia da República, foi membro da Assembleia Municipal de Lagos, nas listas da APU e da CDU, em vários mandatos e vereador na Câmara Municipal de Lagos, eleito pela APU [Aliança Povo Unido], no mandato de 1983 a 1985, bem como membro da Comissão Organizadora da Assembleia Constituinte da Associação Nacional dos Municípios Portugueses. Integrou, igualmente, a Comissão Concelhia de Lagos e foi membro da Direção da Organização Regional do Algarve do PCP.”

Participou “na fundação do Clube de Vela de Lagos, em 1950, do qual foi presidente da Direção e Comodoro em vários mandatos, e de outras estruturas associativas”

O comunicado da edilidade lacobrigense conclui, destacando, ainda, que José Veloso, “homem de múltiplos interesses, colaborou regularmente com artigos de opinião na imprensa regional algarvia e editou vários livros, a maior parte dos quais dedicados ao tema do mar, da vela e das embarcações”. Esta acabou por ser uma “área a que se dedicou, participando na fundação do Clube de Vela de Lagos, em 1950, do qual foi presidente da Direção e Comodoro em vários mandatos, e de outras estruturas associativas”, finaliza o texto.

“Licenciou-se em Arquitectura pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa e passou a exercer a sua profissão em Lagos, onde abriu o seu próprio Gabinete de Arquitectura. Em 1967 e em 1972, fez parte das delegações portuguesas de arquitectos aos congressos da União Internacional dos Arquitectos, respectivamente na Checoslováquia e na Bulgária.”

Também o Secretariado da Direção da Organização Regional do Algarve (DORAL), em Faro, do Partido Comunista Português, num comunicado divulgado no dia 19 de Janeiro de 2024, ao anunciar “com profundo pesar” o falecimento de José Veloso, recordou o seu percurso profissional, político e social, com o seguinte texto: “Nascido a 9 de Junho de 1930 na Freguesia de Santa Maria, em Lagos, José Veloso, licenciou-se em Arquitectura pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa e passou a exercer a sua profissão em Lagos, onde abriu o seu próprio Gabinete de Arquitectura. Em 1967 e em 1972, fez parte das delegações portuguesas de arquitectos aos congressos da União Internacional dos Arquitectos, respectivamente na Checoslováquia e na Bulgária. Em 1969 participou activamente no Movimento Democrático Português/Comissão Democrática Eleitoral (MDP/CDE) e foi então candidato da CDE, por Faro, à Assembleia Nacional. Após o 25 de Abril em 1975, foi candidato à Assembleia Constituinte, pelo MDP-CDE. Foi candidato do PCP, em diversas eleições para a Assembleia da República, sempre pelo círculo de Faro. Foi membro da Assembleia Municipal de Lagos, nas listas da APU e da CDU, nos mandatos de 1980 a 1982, 1986 a 1989 e 1990 a 1993. Foi eleito vereador na Câmara Municipal de Lagos, pela APU, no mandato de 1983 a 1985 e membro da Comissão Organizadora da Assembleia Constituinte da Associação Nacional dos Municípios Portugueses. Integrou a Comissão Concelhia de Lagos e foi membro da Direcção da Organização Regional do Algarve do PCP.”

“Dando cumprimento a uma das maiores conquistas da Revolução de Abril.  «O Direito à Habitação», José Veloso trabalhou para o Fundo de Fomento da Habitação, como coordenador de equipas de projecto do Serviço de Apoio Ambulatório Local (SAAL), com projectos construídos em diversos concelhos algarvios. É nesse quadro que José Veloso ficou com o seu nome de arquitecto irreversivelmente ligado a um extraordinário acontecimento popular, marca da Revolução de Abril: «Os índios da Meia Praia», sublinha o PCP, neste comunicado.


”Diversas obras suas foram escolhidas pelo Inquérito à Arquitectura Portuguesa do Século XX, IAPXX, promovido pela Ordem dos Arquitectos. Fez parte de listas para os corpos sociais da Associação dos Arquitectos Portugueses”


“Como membro da Cooperativa BLOCO, Crl., dedicou a sua actividade profissional quase exclusivamente a projectos de equipamentos públicos, de habitação de promoção municipal e de habitação cooperativa, com obras construídas em vários concelhos algarvios e alentejanos. Recebeu menções honrosas do Fundo de Fomento da Habitação, em projectos de habitação cooperativa, em Lagos, e tem uma obra, em Monchique seleccionada pelo IPPAR [Instituto Português do Património Arquitectónico]. Diversas obras suas foram escolhidas pelo Inquérito à Arquitectura Portuguesa do Século XX, IAPXX, promovido pela Ordem dos Arquitectos. Fez parte de listas para os corpos sociais da Associação dos Arquitectos Portugueses, antecessora da Ordem dos Arquitectos, tendo sido eleito para o conselho de delegados”, lembra o PCP.

Autor de vários livros e também sócio fundador e eleito Presidente da Mesa da Assembleia Geral da TERTÚLIA, Associação Sócio-Cultural de Aljezur, José Veloso teve “uma vida inteiramente dedicada à luta e intervenção pela emancipação dos povos, pela democracia”

“Em 2021, a Ordem dos Arquitectos homenageou-o com o Titulo de Membro Honorário.

Além de projectos de arquitectura, publicados em revistas da especialidade, colaborava frequentemente na imprensa regional do Algarve, com artigos de opinião. Editou vários livros, nomeadamente «Lagos e outras terras, memórias soltas e alguns pensamentos sobre gentes da borda d`água, barcos, mar e rios», «Houve fascismo em Portugal, testemunhos de um cidadão», «Brevíssima foto-história da Cidade marítima, ao longo do século XX, memórias da cidade bela», e «Grandes navios de vela de bandeira portuguesa, compilação fotográfica com alguma história”.

Foi participante do grupo fundador do Clube de Vela de Lagos, em 1950, e eleito em vários mandatos como Comodoro e como Presidente da Direcção. Foi membro eleito do Conselho Técnico da Federação Portuguesa de Vela, em 1973/74, foi sócio fundador e eleito Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação Lacobrigense  Desportistas Náuticos, foi sócio fundador e eleito Presidente da Mesa da Assembleia Geral da TERTÚLIA, Associação Sócio-Cultural de Aljezur. José Veloso teve uma vida inteiramente dedicada à luta e intervenção pela emancipação dos povos, pela democracia, o progresso social, a paz e o socialismo», enaltece o PCP.

Da paixão pelo mar e viagens, ao sentimento de segurança e tradição nos Açores, onde “ainda há muitas pessoas que saem das suas casas e deixam as chaves nas portas”, sem esquecer o combate político em sessões da Assembleia Municipal de Lagos durante madrugadas

Em Lagos, quem conhecia José Veloso não esquece a sua “paixão” pelo mar, por barcos à vela e viagens. “Nos Açores, ainda há muitas pessoas que saem das suas casas e deixam as chaves nas portas”, contava o arquitecto a amigos, ao salientar o ambiente de segurança e tradição que sentia naquela região. Irmão de João Veloso, antigo professor e vereador do Partido Social Democrata (PSD) na Câmara Municipal de Lagos (já falecido), o arquitecto José Veloso, pai de três filhos, era também conhecido pelo seu espírito bastante crítico e de permanente combate político, há anos, como deputado da APU e, depois, da CDU, em sessões da Assembleia Municipal de Lagos, de maioria socialista, e muitas das quais se prolongavam pelas madrugadas, devido à necessidade da aprovação de orçamentos. “O fascismo destrui Lagos!” – foi uma das frases que ficaram na memória de quem acompanhou essas reuniões do município, quando José Veloso recordava problemas nesta cidade antes de Abril de 1974.