Homem insulta e tenta agredir duas funcionárias administrativas e um enfermeira do Centro de Saúde de Lagos por não conseguir consulta médica, nem medicação, e ninguém atender os seus telefonemas ou responder aos ‘emails’ enviados

A cena ocorreu na tarde do dia 6 de Agosto de 2021. Quem assistiu, diz que o utente estava “exaltadíssimo” e um elemento da segurança do Centro de Saúde até evitou o pior. A Polícia de Segurança Pública de Lagos acabou por ser chamada.

Numa altura em que se sucedem episódios de violência contra médicos e outros profissionais de saúde no país, um homem, aparentando cerca de 30 anos e de nacionalidade portuguesa, insultou e tentou agredir duas funcionárias administrativas e uma enfermeira no primeiro andar do Centro de Saúde de Lagos. O motivo prende-se com o facto de não conseguir uma consulta, uma vez que a sua médica de família se encontrava de férias, estar sem medicação há vários dias e ninguém o atender após inúmeros telefonemas e ‘emails enviados para esta unidade.

A carência de médicos de Medicina Geral e Familiar tem contribuído para situações deste tipo, com desespero por parte dos doentes, segundo apurou o Litoralgarve.

O caso ocorreu no dia 6 de Agosto de 2021, pelas 17h45m, e obrigou à intervenção de três agentes da Polícia de Segurança Pública de Lagos (PSP), chamada ao local pelo pessoal do Centro de Saúde.

Depois de ter dirigido insultos verbais às duas funcionárias administrativas, aquele utente da unidade desferiu um soco no separador em acrílico ali instalado a servir de proteção no contacto entre pessoas, na sequência da pandemia da Covid-19. Quem o viu, diz que estava “exaltadíssimo”, na medida em que, pelo facto de a sua médica de família se encontrar na altura de férias, não conseguiu uma consulta, nem que alguém do Centro de Saúde de Lagos atendesse os seus telefonemas e ‘emails’, como já referimos. Em face dessa situação, queixou-se, aos gritos, de estar “sem tomar medicação há vários dias”.

Uma   enfermeira   ameaçou-o   levar   a  tribunal   após  o    indivíduo    filmar   as    pessoas    com    telemóvel,    dizendo    que    ia    publicar   no   ‘Facebook’

Na altura do incidente, além de ter injuriado as funcionárias administrativas e uma enfermeira que tentou acudi-las, filmou todas com o telemóvel, dizendo que ia “publicar no Facebook” esta cena. Foi então que uma enfermeira respondeu, afirmando que o ia “levar a tribunal”, o que contribuiu para “aumentar desmesuradamente a raiva” do utente que “até lhe chamou vários nomes”. Perante “o riso trocista” da enfermeira, de acordo com informações apuradas pelo Litoralgarve, o homem “avançou sobre ela para lhe bater, no que foi impedido a custo pelo segurança do Centro de Saúde e por outro utente” que aguardava a sua vez de ser atendido.

Mesmo    contra    a   vontade     da     polícia,   um   médico     atendeu   o    homem    no    seu   consultório

A situação só acalmou quando um médico o mandou inscrever-se para uma consulta, tendo-o atendido no seu consultório, mesmo contra a vontade da polícia, e lhe receitou medicação. Depois, os agentes ficaram no Centro de Saúde de Lagos a identificar e a interrogar os envolvidos no caso, procedendo à  elaboração do respetivo processo.

Mais  de  10.000   utentes   estão    sem  médico   de   família   em    Lagos

Esta unidade conta com três médicos de família. Um deles é uma médica tarefeira contratada pela empresa Kelly, a que se junta um médico indiferenciado pertencente ao quadro do Hospital do Barlavento, em Portimão, que desempenha, por nomeação, as funções de coordenador no Centro de Saúde de Lagos. São necessários quatro médicos de Medicina Geral e Familiar, na perspetiva de profissionais de saúde, “já que a população a descoberto a este nível ultrapassa os 10.000 utentes”  em Lagos, como garantiram ao nosso Jornal.

Um desses utentes, que transitou do Centro de Saúde de Portimão para o de Lagos, contou-nos que está sem médico de família “há cerca de um ano, apesar de ter sido aceite por uma médica” na unidade desta cidade “e apresentado, em Fevereiro de 2021, a respetiva documentação”. “Quando necessito de medicação, tenho de recorrer a uma consulta de recurso no Centro de Saúde de Lagos”, acrescentou esse utente, preferindo o anonimato.

Os   médicos   que   são   necessários,   além    de   um     funcionário   para   atendimento   telefónico

A dificuldade que os utentes sem médico de família estão a ter em conseguir consultas no Centro de Saúde de Lagos, ou simplesmente que alguém lhes atenda o telefone para solicitar  medicação habitual, está a levar a situações como a que se verificou agora nesta unidade, com a insólita cena de agressividade por parte de um homem.

“Faltam um médico com especialidade de Medicina Geral e Familiar a tempo inteiro na extensão da Luz; um médico com a mesma especialidade no Centro de Saúde de Lagos, para preencher a saída de uma médica há meses; e mais dois médicos especialistas para, juntamente com um médico indiferenciado das empresas de prestação de serviços, assegurarem o bom funcionamento da Unidade de Cuidados de Saúde Primários” – alertaram ao Litoralgarve.

E observaram: “Devem ser sempre médicos com a especialidade de Medicina Geral e Familiar, de modo a que o atendimento dos utentes seja igual, como defende a Secção Regional do Sul da Ordem dos Médicos. Isso, para que não haja utentes discriminados, isto é, que uns tenham um médico com a especialidade e outros sejam de segunda, por assim dizer, e tenham apenas direito a médicos indiferenciados, não especializados em Medicina Geral Familiar”.

Por outro lado, é também encarada como necessária a contratação de um funcionário para o atendimento telefónico, uma vez que a telefonista que ali trabalhava já se aposentou.

“Temos   dias    de    sair   daqui   com   a   cabeça quase    desfeita   e   depois   quem    paga   é   a nossa   família   lá   em  casa”,  lamentou   uma   funcionária

Os insultos proferidos por utentes desta unidade ao pessoal administrativo, devido a lacunas médicas e outras falhas, são frequentes e há quem até já tivesse mudado o seu local de trabalho. “Mandam-nos para o ‘alho’ e chamam-nos ‘nomes’. Temos dias de sair daqui com a cabeça quase desfeita e depois quem paga é a nossa família lá em casa”, desabafou, há meses, uma profissional, arrasada com a situação no Centro de Saúde de Lagos. 

José Manuel Oliveira

( em desenvolvimento )