“Há fome em Lagos, muita pobreza envergonhada e muito desperdício alimentar”, alerta, em entrevista ao ‘Litoralgarve’, Dora Rosa, uma das coordenadoras do núcleo da organização ‘Refood’  nesta cidade

Depois de ter ficado sem instalações, em Julho de 2023, o Núcleo de Lagos da organização ‘Refood’, existente há quatro anos nesta cidade, onde se dedica a evitar o desperdício alimentar e a distribuir por pessoas carenciadas a comida recuperada de supermercados, restaurantes, pastelarias e de outros estabelecimentos, prepara-se para voltar à actividade, em Junho, no Mercado de Santo Amaro, num espaço cedido pela Câmara Municipal. É ali que passará a disponibilizar alimentos confeccionados e por confeccionar a quem necessitar.

Nesta entrevista exclusiva ao ‘Litoralgarve’, Dora Rosa, uma das coordenadoras do Núcleo de Lagos da ‘Refood’, explica porque teve a organização de mudar de instalações, diz que existe muita gente com fome e sente vergonha de pedir comida, além de pessoas sem-abrigo e que não querem sair das ruas. Apela à presença de voluntários no apoio aos carenciados e de mais estabelecimentos na cedência de alimentos em excesso, numa altura em que os problemas sociais se agravam, como, de resto, sucede a nível nacional.

José Manuel Oliveira

Litoralgarve – Que balanço faz sobre a actividade do Núcleo de Lagos da organização ‘Refood’, em 2023?

Dora Rosa – Foi muito mau. Tivemos de fechar as instalações, ficámos sem espaço. Estávamos na instituição ‘Fonte de Vida’ (Centro Cristão), que nos tinha cedido um espaço, e entretanto houve alguns problemas com moradores.

“As pessoas residentes no prédio disseram ao pastor Jacinto (Rosa), [do Instituto Fonte de Vida], que era muita gente a ir lá pedir comida todos os dias. Por isso, a pedido daquela instituição tivemos de sair e ficámos sem um sítio para onde ir.”

Litoralgarve – Porquê? O que se passou?

Dora Rosa – As pessoas residentes no prédio disseram ao pastor Jacinto (Rosa), [da Fonte de Vida], que era muita gente a ir lá pedir comida todos os dias. Por isso, a pedido daquela instituição tivemos de sair daquele espaço e ficámos sem um sítio para onde ir.

“Ficámos sem espaço a partir de Julho do ano de 2023. Fazíamos entregas diárias de alimentos. Tínhamos vinte famílias por dia e dezoito pessoas sem-abrigo. Portugueses e estrangeiros, nomeadamente moldavos, ucranianos, brasileiras. As pessoas sem-abrigo são estrangeiras, também.”

Litoralgarve – Quando se verificou essa situação?

Dora Rosa – Ficámos sem espaço a partir de Julho do ano de 2023.

Litoralgarve  – Como era a afluência das pessoas que iam pedir alimentação?

Dora Rosa – Fazíamos entregas diárias. Tínhamos vinte famílias por dia e dezoito pessoas sem-abrigo.

Litoralgarve – De que nacionalidades?

Dora Rosa – Portugueses e estrangeiros, nomeadamente moldavos, ucranianos, brasileiras. As pessoas sem-abrigo são estrangeiras, também.

“Fiquei bastante chocada, porque nós estávamos a ajudar pessoas e os residentes no prédio incomodavam-se por ver quem necessitava de comida e ia ali buscá-la”

Litoralgarve – Sendo uma das coordenadoras da ‘Refood’, em Lagos, como se sentiu pelo facto de terem sido residentes no edifício onde faziam entrega de comida a pessoas necessitadas a não quererem ali a vossa presença?

Dora Rosa – Fiquei bastante chocada, porque nós estávamos a ajudar pessoas e os residentes no prédio incomodavam-se por ver quem necessitava de comida e ia ali buscá-la.

Litoralgarve – O que diziam esses moradores?

Dora Rosa – Que havia barulho, como é normal numa situação deste tipo, com muita gente. Nós já fazíamos entregas de alimentos às sete e meia da noite (19.30 horas) e isso incomodava as pessoas.

“Queremos o mais breve possível, em Junho deste ano”, abrir o espaço cedido no Mercado de Santo Amaro pela Câmara Municipal de Lagos

Litoralgarve – Quando irá a ‘Refood’ retomar a atividade em Lagos, depois de a Câmara Municipal ter cedido um espaço no Mercado de Santo Amaro?

Dora Rosa – Queremos que seja o mais breve possível, em Junho deste ano.

Litoralgarve  – E que obras e outras condições são necessárias?

Dora Rosa – Melhorias diversas, pinturas. Também temos de montar arcas frigoríficas, frigoríficos, bancadas.

“Temos 28 voluntários. Se tivermos cem, será óptimo”

Litoralgarve – Quantos voluntários têm neste momento?

Dora Rosa – Temos 28 voluntários. Mas necessitamos de muitos mais.

Litoralgarve – E quantas pessoas são necessárias?

Dora Rosa – Do maior número de pessoas. Se tivermos cem, será óptimo.

Litoralgarve – Quando começarem a receber, de novo, alimentos, como será feita a gestão dos mesmos nas novas instalações do Núcleo de Lagos da ‘Refood’, a partir de Junho?

Dora Rosa – Neste momento, temos doze parceiros, entre os quais, o Continente, o Aldi, Pingo Doce, pastelarias, restaurantes. E esperamos ter, também, o supermercado Lidl. Só não tínhamos na altura em que estávamos em actividade, porque faltava espaço. Necessitamos de mais parceiros, mais fontes de alimento e mais voluntários.

Litoralgarve – Quantas toneladas de alimentos esperam receber?

Dora Rosa – Muitas.

“Há muitas famílias carenciadas e vamos conseguir ajudá-las”

Litoralgarve – Tendo em conta experiências noutros anos e as necessidades existentes nesta altura, como pensa que poderá ser, a partir de Junho, em Lagos, quando a ‘Refood’ retomar a actividade?

Dora Rosa – Há muitas famílias carenciadas e vamos conseguir ajudá-las. As pessoas vão ter connosco. E através das redes sociais, da Câmara Municipal de Lagos, da Junta de Freguesia de São Gonçalo de Lagos e da Cruz Vermelha Portuguesa, fazem-nos chegar as pessoas necessitadas.

Comida desperdiçada em Lagos? “Nem quero pensar nisso, devido aos meses em que estivemos parados por falta de espaço”

Litoralgarve – Há muita comida desperdiçada em Lagos?

Dora Rosa – Muita, mesmo! Nem quero pensar nisso, devido aos meses em que estivemos parados por falta de espaço. Houve muita comida desperdiçada durante o tempo em que não estivemos em actividade.

Litoralgarve – E onde existem mais alimentos desperdiçados – em supermercados, restaurantes ou pastelarias?

Dora Rosa – Em todo o lado. São produtos que estão em cima dos prazos [de validade]. Por exemplo, as pastelarias têm produtos que já não conseguem vender ao fim do dia. Recolhemos e ainda estão bons, mas os clientes desses estabelecimentos já não os querem. Há mesmo muita comida que está a ser desperdiçada em Lagos.

“Pessoas que estão desempregadas não têm coragem de nos pedirem ajuda” para comer

Litoralgarve – E há muita pobreza envergonhada?

Dora Rosa – Há muita pobreza envergonhada que não pede comida. São pessoas que já viveram bem e de repente ficaram desempregadas. E não têm coragem de nos pedir ajuda.

“Muitos imigrantes do leste europeu vieram para cá com as famílias no período da pandemia [da Covid-19] e também devido à guerra na Ucrânia e agora no Médio Oriente”

Litoralgarve – Há fome em Lagos?

Dora Rosa – Há.

Litoralgarve – De que nacionalidades são as pessoas que pedem ajuda à ‘Refood?

Dora Rosa – De várias nacionalidades. Muitos imigrantes do leste europeu vieram para cá com as famílias no período da pandemia [da Covid-19] e também devido à guerra na Ucrânia e agora no Médio Oriente.

Existem famílias com bebés a passar fome em Lagos e até pessoas com 70, 80 anos

Litoralgarve – Qual é a média de idades dessas pessoas que pedem comida por não terem dinheiro para a comprar?

Dora Rosa – De todas as idades. Há famílias com bebés e pessoas com 70, 80 anos.

Litoralgarve – E há lugar para todos os imigrantes?

Dora Rosa – Há. Nós temos disponibilidade, estamos cá para ajudar.

“Há pessoas que ficaram sem tecto e tiveram de ir para a rua. E há pessoas que se chatearam com as famílias. Havia 18 sem-abrigos. Neste momento, poderão ser muitos mais. Dormem, por exemplo, junto à estação dos comboios de Lagos e em praias. Muitas pessoas sem-abrigo não querem sair das ruas”

Litoralgarve – Onde dormem as pessoas sem-abrigo?

Dora Rosa  – Em vários locais, como por exemplo, junto à estação dos comboios de Lagos e em praias.

Litoralgarve – No início de 2023, a senhora dizia que havia muitos sem-abrigos que não aceitavam alojamento, preferindo dormir nas ruas, na via pública…

Dora Rosa – E continua a haver essa situação. Muitas pessoas sem-abrigo não querem sair das ruas.

Litoralgarve – São pessoas sem família ou têm outros problemas?

Dora Rosa – São de todos os tipos. Há pessoas que ficaram sem tecto e tiveram de ir para a rua. E há pessoas que se chatearam com as famílias. Havia 18 sem-abrigos. Neste momento, poderão ser muitos mais.

Litoralgarve – Onde dormem?

Dora Rosa – Em vários locais, como por exemplo, junto à estação dos comboios de Lagos e em praias.

Litoralgarve – Como antevê o Verão de 2024?

Dora Rosa – Temos de ir para o terreno para ver essas pessoas que estão a necessitar de apoio.

“Connosco, toda a gente aceita a comida que damos já confeccionada e também por confeccionar”

Litoralgarve – E qual a sua perspectiva quando passarem a recolher alimentos e a distribui-los pelas pessoas carenciadas?

Dora Rosa – Não faço a mínima ideia. Quando abrirmos o novo espaço, teremos mais comida para resgatar. Pergunte-me no fim do ano e saberei responder.

Litoralgarve  – Há quem não aceite comida, preferindo dinheiro?

Dora Rosa – Não, não. Connosco, toda a gente aceita a comida que damos já confeccionada e também por confeccionar.  

“Alguns tentam enganar-nos”, mas  “temos um controlo efectivo”

Litoralgarve  – Haverá quem se aproveite de situações? Existe sinceridade por parte das pessoas que dizem que necessitam de alimentos e não têm dinheiro para os adquirir?

Dora Rosa – Como em todo o lado, alguns tentam enganar-nos.

Litoralgarve – De que forma?

Dora Rosa – Dizem que precisam de levar comida e às vezes não necessitam. Mas temos um controlo efectivo.

Litoralgarve – Existem períodos mais críticos, como por exemplo o Natal e outras épocas do ano?

Dora Rosa – Durante a nossa actividade, em todos os dias, temos pessoas carenciadas de alimentos, que nos procuram.

Fatias de pão espalhadas de sacos do lixo em ruas de Lagos, porque as pessoas “não têm a quem entregar”

Litoralgarve – Como se justifica haver, por exemplo, fatias de pão espalhadas de sacos do lixo em ruas de Lagos, durante as madrugadas?

Dora Rosa – São de pessoas que não têm a quem entregar. E é isso que combatemos: o desperdício alimentar. É por isso que vamos para o terreno recolher o excesso de comida desperdiçada para a entregar a pessoas necessitadas.