Entrevista ao presidente da Junta de Freguesia: “A população de Bensafrim não foi consultada, foi atropelada” no projecto dos 14 fogos. “A Câmara de Lagos jogou ao jogo de esconder” e “tenta vencer a população pelo cansaço e facto consumado”

“O erro foi projetar e decidir nos gabinetes, sem sentir o pulso da comunidade e de quem as representa”, acusa, nesta entrevista exclusiva ao ‘Litoralgarve’, Carlos Vieira, presidente da Junta de Freguesia de Bensafrim, do concelho de Lagos. Apontando como um “local central”, entre a Estrada Nacional 120 e o Mercado Municipal, o terreno onde a Câmara Municipal projectou o polémico loteamento dos 14 fogos de habitação social, o autarca de Bensafrim sublinha que a população ambiciona ver ali a sede da Junta de freguesia, com uma praça com estacionamento e espaços verdes, no seu ponto de encontro no centro desta localidade.

“Consideramos, assim, que a Câmara Municipal de Lagos deve ter a humildade de reavaliar”, afirma, em jeito de desafio, Carlos Vieira, para quem “a habitação social não deve ser vista como uma imposição, mas como uma integração”. E vai mais longe ao considerar que “o processo está parado por falta de coragem de decidir, existindo terrenos do município alternativos, que não sacrificam o bem-estar social de Bensafrim.”

Nesta entrevista, o presidente da Junta de Freguesia faz um balanço sobre os primeiros meses deste seu mandato, lamenta o estado em que encontrou Bensafrim, após a desagregação da União das Freguesias com Barão de São João, estando, agora, a “arrumar a casa”. Reconhece carências sociais, conta quais os prejuízos provocados pelas recentes tempestades, diz como está a ser feita a preparação para os incêndios florestais, no Verão, e aponta para o futuro. Entre muitos objectivos, Carlos Vieira quer ver criada uma marca própria “feito em Bensafrim” para promoção e dinamização da sua freguesia.

José Manuel Oliveira

Litoralgarve – Continua, ainda, sem solução por parte da Câmara Municipal de Lagos o processo de possível anulação da empreitada de construção de 14 fogos de habitação social em Bensafrim, num local de convívio da população, conhecido pelo ‘Largo do Mercado’, e por isso rejeitado pelos moradores e pela Junta de Freguesia. Como reage a esta situação?

Carlos Vieira – Esta situação dos 14 fogos é um exemplo clássico de gestão territorial: a urgência em responder à crise habitacional versus a preservação da identidade, lazer e a vontade dos bensafrinsenses. O erro foi projetar e decidir nos gabinetes, sem sentir o pulso da comunidade e de quem a representa, sendo este local central, onde a população ambicionava a sua sede da junta de freguesia, com uma praça com estacionamento e espaços verdes, o seu ponto de encontro central.

Consideramos, assim, que a Câmara Municipal de Lagos deve ter a humildade de reavaliar. A habitação social não deve ser vista como uma imposição, mas como uma integração. O processo está parado por falta de coragem de decidir, existindo terrenos do município alternativos, que não sacrificam o bem-estar social de Bensafrim.

“Na altura da publicitação da empreitada de conceção /construção, o projeto não teve a devida divulgação junto da população.”

“A maioria da população só teve conhecimento quando a obra estava prestes a avançar.”

“Não diria que houve falta de interesse da população; houve, sim, falta de informação acessível e transparente.”

Litoralgarve – Em recente sessão da Assembleia Municipal de Lagos e durante o período antes da ordem do dia na reunião de Câmara, realizada a 18 de Março de 2026, o presidente, Hugo Pereira, lembrou que o projeto foi aprovado, há anos, sem qualquer contestação, tanto na Freguesia de Bensafrim, como noutros órgãos autárquicos do concelho. O que se passou, concretamente, em Bensafrim a esse nível? Porque é que a população não protestou na altura?

Carlos Vieira – O projeto de execução da empreitada, segundo informação técnica de 16/03/2026, os lotes 3.14 e 3.17 do respetivo loteamento, encontra-se atualmente em fase de apreciação.

Na altura da publicitação da empreitada de conceção /construção, o projeto não teve a devida divulgação junto da população. Houve falhas claras ao nível da comunicação e da participação pública. A maioria da população só teve conhecimento quando a obra estava prestes a avançar. Não diria que houve falta de interesse da população; houve, sim, falta de informação acessível e transparente.

“Conheço o projeto suficiente para saber que ele é o resultado de uma deriva técnica e política preocupante.”

Litoralgarve – O senhor conhecia este projecto? Qual é a sua opinião?

Carlos Vieira – Conheço o projeto suficiente para saber que ele é o resultado de uma deriva técnica e política preocupante. Estamos a falar de um processo que, embora tenha nascido sob um alvará municipal de 2000, foi sendo alterado ao longo do tempo. O mais grave nesta situação são as alterações de 2023. Sabemos que estes lotes específicos sofreram modificações recentes validadas, tanto no corpo técnico, como por decisão direta do senhor Presidente Hugo Pereira. Por delegação de competência da Câmara Municipal, estas alterações não foram meramente cosméticas e ignoraram a realidade morfológica e social de Bensafrim, e não envolveu a comunidade, sendo este um local sensível por ser o “coração” de Bensafrim.

“As pessoas dizem que para além de uma falha de comunicação, existe uma falha de ética política. (…) Porque não falaram com as pessoas?”

“A população só “desperta” totalmente durante a campanha eleitoral, e mais tarde com a chegada das máquinas e do estaleiro, porque a Câmara jogou ao jogo de esconder.”

“É importante dizer a verdade dos factos para que ninguém se esconda atrás de desculpas burocráticas”

“Já em abril de 2025, o antigo executivo da Junta de Freguesia enviou sinais claros à Câmara Municipal de que aquele projeto, naquele local, seria um erro estratégico e social e a Câmara decidiu ignorar.”

Litoralgarve – Quando é que a população de Bensafrim tomou conhecimento?

Carlos Vieira – A população de Bensafrim não foi consultada; a população foi atropelada. É importante dizer a verdade dos factos para que ninguém se esconda atrás de desculpas burocráticas. Já em abril de 2025, o antigo executivo da Junta de Freguesia enviou sinais claros à Câmara Municipal de que aquele projeto, naquele local, seria um erro estratégico e social e a Câmara decidiu ignorar.

Em setembro, houve uma moção votada na Assembleia de Freguesia por unanimidade contra a construção destes 14 fogos naquele espaço de todos. Quando digo unanimidade refiro-me a todas as forças políticas. O executivo da Câmara Municipal ignorou a vontade soberana dos representantes locais e nesse mesmo dia assinou o contrato para a realização da obra como se nada fosse.

Litoralgarve – Houve reação tardia? O que falhou?

Carlos Vieira – A população só “desperta” totalmente durante a campanha eleitoral, e mais tarde com a chegada das máquinas e do estaleiro, porque a Câmara jogou ao jogo de esconder. Esperaram que o processo passasse o ponto de facto consumado para confrontar os cidadãos com a ação já no terreno.

“A Câmara Municipal está a tentar vencer a população pelo cansaço e pelo facto consumado, o que é lamentável numa democracia local.”

Litoralgarve – O que dizem as pessoas?

Carlos Vieira – As pessoas dizem que para além de uma falha de comunicação, existe uma falha de ética política. Se anteriormente já tinham sido alertados, em abril e em setembro e novembro, por que razão se avançou com a implementação do estaleiro? Porque não falaram com as pessoas?

A Câmara Municipal está a tentar vencer a população pelo cansaço e pelo facto consumado, o que é lamentável numa democracia local.

“A Junta de Freguesia nunca falou com o empreiteiro. E não falou porque, neste processo, a Junta foi mantida à margem das decisões operacionais pela Câmara Municipal de Lagos.”

“O caminho mais inteligente seria negociar com o empreiteiro a transferência da obra para o terreno municipal sem contestação social. O empreiteiro mantém o trabalho e Bensafrim mantém este espaço para a construção da junta de freguesia e espaço público.”

“O custo de parar agora é o preço de um erro administrativo; o custo de continuar é a destruição da identidade de Bensafrim.”

Litoralgarve – O senhor já falou com o empreiteiro? O que diz ele?

Carlos Vieira – A Junta de Freguesia nunca falou com o empreiteiro. E não falou porque, neste processo, a Junta foi mantida à margem das decisões operacionais pela Câmara Municipal de Lagos.

Litoralgarve – Acha possível anular a obra? De que forma? Quais as repercussões?

Carlos Vieira – É perfeitamente possível e quem diz o contrário está a faltar à verdade. O caminho mais inteligente seria negociar com o empreiteiro a transferência da obra para o terreno municipal sem contestação social. O empreiteiro mantém o trabalho e Bensafrim mantém este espaço para a construção da Junta de Freguesia e espaço público. O custo de parar agora é o preço de um erro administrativo; o custo de continuar é a destruição da identidade de Bensafrim.

“Encaro a possibilidade de uma indemnização [ao empreiteiro] com uma mistura de indignação e realismo. É revoltante que o dinheiro dos contribuintes tenha de ser usado para pagar erros de quem não conseguiu planear.”

“Se a Câmara tivesse travado o processo quando o antigo executivo da Junta avisou, ou quando os eleitos pela população na Assembleia de Freguesia começaram a manifestar-se, os custos de cancelamento seriam residuais ou nulos. Decidiram avançar para o facto consumado e agora certamente a fatura cresceu.”

Litoralgarve – Já se fala numa eventual indemnização ao construtor. Como encara este processo? De quem será a responsabilidade?

Carlos Vieira – Encaro a possibilidade de uma indemnização com uma mistura de indignação e realismo. É revoltante que o dinheiro dos contribuintes tenha de ser usado para pagar erros de quem não conseguiu planear, mas parece-me que terá de ser pago para evitar um mal maior – a destruição do centro social de Bensafrim.

A responsabilidade é de quem recebeu alertas e decidiu ignorar. Se a Câmara tivesse travado o processo quando o antigo executivo da Junta avisou, ou quando os eleitos pela população na Assembleia de Freguesia começaram a manifestar-se, os custos de cancelamento seriam residuais ou nulos. Decidiram avançar para o facto consumado e agora certamente a fatura cresceu.

“Essa ideia de virar o projeto para a EN 120 é prova definitiva de que a Câmara está a tentar sair de uma forma airosa desta confusão. Contudo, continua sem perceber ou querendo ignorar o que a população reivindica.”

“O problema não é a orientação, o problema é a localização. Os habitantes de Bensafrim não querem um “muro” de betão a tapar o seu centro social.”

Litoralgarve – Por outro lado, o presidente Hugo Pereira também aponta para a possibilidade de ‘virar’ o atual projeto ‘ao contrário’, colocando-o, digamos assim, de frente para a Estrada Nacional 120. Como seria, em concreto, esse projeto? Quais os reflexos? É possível? O que diz a população?

Carlos Vieira – Essa ideia de virar o projeto para a EN 120 é prova definitiva de que a Câmara está a tentar sair de uma forma airosa desta confusão. Contudo, continua sem perceber ou querendo ignorar o que a população reivindica.

Ocupar aquele terreno naquela amplitude seja de que ângulo for, aniquila o ponto de encontro de Bensafrim. Esta é uma solução que tenta esconder o problema visualmente, mas que mantém o roubo do espaço à comunidade. A população é clara, o problema não é a orientação, o problema é a localização. Os habitantes de Bensafrim não querem um “muro” de betão a tapar o seu centro social.

“É muito conveniente culpar o PSD quando se tem a maioria absoluta e se ignora a vontade do povo.”

“O senhor Presidente Hugo Pereira está a usar a oposição como escudo para esconder a sua própria paralisia política.”

“Governar é assumir responsabilidades; não é procurar ‘bodes expiatórios’ para as próprias falhas de planeamento e comunicação.”

Litoralgarve – O presidente da Câmara Municipal de Lagos culpa o PSD por falta de soluções neste processo. O que lhe parece?

Carlos Vieira – É muito conveniente culpar o PSD quando se tem a maioria absoluta e se ignora a vontade do povo. O senhor Presidente Hugo Pereira está a usar a oposição como escudo para esconder a sua própria paralisia política.

A solução não depende do PSD, depende do Presidente ter humildade de aceitar a moção unânime de Setembro de 2025 na Assembleia de Freguesia, assim como o parecer da Junta em fevereiro de 2026 e parar de forçar um projeto que ninguém quer naquele sítio. Governar é assumir responsabilidades; não é procurar ‘bodes expiatórios’ para as próprias falhas de planeamento e comunicação.

“Não, os 14 fogos não estão atribuídos. De de acordo com o regulamento municipal de habitação, a atribuição só acontece numa fase mais avançada do processo.”

“Eu não conheço a calendarização da obra e, para ser sincero, creio que ninguém conhece com rigor. Talvez o senhor Presidente e o empreiteiro o deverão saber, pois não existe placa de obra detalhada no local.”

Litoralgarve – Os 14 fogos projetados já estão atribuídos? Vai haver atrasos?

Carlos Vieira – Sobre a atribuição, a resposta é clara: não, os 14 fogos nãoestão atribuídos. De de acordo com o regulamento municipalde habitação, a atribuição só acontece numa fase maisavançada do processo.

Eu não conheço a calendarização da obra e, para ser sincero, creio que ninguém conhece com rigor. Talvez o senhor Presidente e o empreiteiro o deverão saber, pois não existe placa de obra detalhada no local.

Litoralgarve – E que outros projetos de habitação social estão previstos para Bensafrim? Onde, quantos fogos e para quando?

Carlos Vieira – Estão previstos mais 20 fogos entre a rua Mestre Romãoe a rua dos Dez Reis. Segundo informações do próprioexecutivo, esta obra já foi adjudicada ao mesmoempreiteiro e deve iniciar-se brevemente.

“Os 34 fogos previstos para a nossa vila são mais um contributo num universo de muitas famílias inscritas, para ajudar a resolver a crise habitacional no concelho. Contudo, os regulamentos atuais nada garantem que as famílias locais sejam contempladas.”

“A carência habitacional é um problema transversal que se arrasta há décadas, e em Lagos a estratégia falhou em algum momento e continuam a fazer falta fogos habitacionais.”

Litoralgarve – Com estes projectos, a freguesia de Bensafrim resolverá os problemas habitacionais? Ou quantos fogos seriam, ainda, necessários?

Carlos Vieira – Bensafrim é a freguesia que mais acolhe no concelho deLagos quando levamos em conta o número de residentes.Os 34 fogos previstos para a nossa vila são mais umcontributo num universo de muitas famílias inscritas,para ajudar a resolver a crise habitacional no concelho. Contudo, os regulamentos atuais nada garantem que as famílias locais sejam contempladas.

Não recusamos a nossa responsabilidade social, mas a carência habitacional é um problema transversal que se arrasta há décadas, e em Lagos a estratégia falhou em algum momento e continuam a fazer falta fogos habitacionais.

O impacto provocado pelas recentes tempestades “foi devastador e as repercussões continuam ainda bem presentes no dia-a-dia da nossa população. Assistimos à queda de taludes e à subpressão de caminhos rurais e asfaltados, que aqui isola populações, dificultando o acesso às habitações dispersas e prejudicando a população em geral.”

“Tivemos danos em edifícios públicos, nomeadamente os cemitérios municipais e edifícios da junta de freguesia. Houve, ainda, arranque de telhados e queda de algumas árvores por toda a freguesia.”

Litoralgarve – Que repercussões causaram as recentes tempestades na freguesia de Bensafrim?

Carlos Vieira – As recentes tempestades em Bensafrim expuseram a nossa maior e mais dolorosa vulnerabilidade, sendo uma freguesia maioritariamente rural. O impacto foi devastador e as repercussões continuam ainda estão bem presentes no dia-a-dia da nossa população. Assistimos à queda de taludes e à subpressão de caminhos rurais e asfaltados, que aqui isola populações, dificultando o acesso às habitações dispersas e prejudicando a população em geral.

As tempestades não pouparam ninguém, tivemos danos em edifícios públicos, nomeadamente os cemitérios municipais e edifícios da junta de freguesia. Houve, ainda, arranque de telhados e queda de algumas árvores por toda a freguesia.

“As carências são estruturais, parte da freguesia ficou “esquecida ou diluída” durante os anos da união de freguesias. O desafio, agora, é que a população espera uma resposta mais rápida nas diferentes áreas: Saneamento básico, o fim de esgotos a céu aberto existentes na freguesia; arranjos de caminhos rurais e limpeza de valetas, ordenamento do tráfego, estacionamento e passeios, os serviços de saúde de proximidade; estimular casais jovens a se fixarem na freguesia, fomentar sistema de apoio domiciliário aos idosos, a criação de identidade com uma marca própria “feito em Bensafrim”, preservação dos equipamentos e monumentos da freguesia.”

Litoralgarve – Foi eleito presidente da Junta, na sequência das eleições autárquicas em Outubro de 2025? Como encontrou a freguesia? Que carências existem?

Carlos Vieira – Com a reversão da freguesia como entidade autónoma, não se trata de como encontramos uma freguesia, mas sim, hoje como refundar a nova freguesia. Tivemos que nos adaptar de acordo com a reestruturação administrativa e da logística herdada, pela divisão efetuada pelas comissões de extinção da União de Freguesias de Bensafrim e Barão de São João.

Primeiramente, saber logisticamente aquilo que “herdamos” e financeiramente também. Depois, a criação de contas bancárias, de novos contratos com os serviços básicos de funcionamento: água, eletricidade, serviços de comunicações, Internet e seguros.

Posteriormente, quase às “escuras” fazer um orçamento e fixar o quadro de pessoal de uma nova freguesia e a criação de regulamentos para aprovação em assembleia de freguesia.

Implementar, ainda, uma estrutura administrativa que desse resposta a todas estas alterações e, simultaneamente, desse resposta ao desafios diários de uma freguesia.

Desenvolver, ainda, um plano de limpeza e manutenção urbana com os recursos existentes e com outros prestadores, de acordo com o plano orçamental e as delegações de competências transferidas pelo município de Lagos.

As carências são estruturais, parte da freguesia ficou “esquecida ou diluída” durante os anos da união de freguesias. O desafio, agora, é que a população espera uma resposta mais rápida nas diferentes áreas: Saneamento básico, o fim de esgotos a céu aberto existentes na freguesia, arranjos de caminhos rurais e limpeza de valetas, ordenamento do tráfego, estacionamento e passeios, os serviços de saúde de proximidade, estimular casais jovens a se fixarem na freguesia, fomentar sistema de apoio domiciliário aos idosos, a criação de identidade com uma marca própria “feito em Bensafrim”, preservação dos equipamentos e monumentos da freguesia.

“Os primeiros meses, após as eleições de outubro de 2025, têm sido certamente um período de “arrumar a casa” e afirmação da nova autonomia.”

“Com a restauração da freguesia de Bensafrim, o executivo tem tido que lidar com a transição administrativa e ao mesmo tempo responder aos problemas latentes, destacando-se: o embate com o urbanismo (situação dos 14 fogos), ações de proximidade e infraestruturas, manutenção rural, manutenção de edifícios, apoio social, incentivo à natalidade, reestruturação administrativa.”

Litoralgarve – Como têm sido os primeiros tempos? Quais as ações desenvolvidas?

Carlos Vieira – Os primeiros meses, após as eleições de outubro de 2025, têm sido certamente um período de “arrumar a casa” e afirmação da nova autonomia. Com a restauração da freguesia de Bensafrim, o executivo tem tido que lidar com a transição administrativa e ao mesmo tempo responder aos problemas latentes, destacando-se: o embate com o urbanismo (situação dos 14 fogos), ações de proximidade e infraestruturas, manutenção rural, manutenção de edifícios, apoio social, incentivo à natalidade, reestruturação administrativa.

“Este cargo obriga a uma dedicação de 24 horas por dia, embora o regime seja de meio tempo”

“Depois, temos ainda o “Presidente de bolso”. Como sabem, Bensafrim é uma comunidade onde todos se conhecem e o pedido surge no café, no supermercado, no ‘WhatsApp’, no ‘Facebook’ . É um compromisso constante.”

Litoralgarve – Quantas horas por dia dedica à Junta de Freguesia? O que pedem os habitantes?

Carlos Vieira – Este cargo obriga a uma dedicação de 24 horas por dia, embora o regime seja de meio tempo. Na prática, as horas dividem-se assim: horário de gabinete reservado à burocracia necessária, editais, as reuniões com a Tesoureira e com o Secretário, atendimento agendado. No trabalho de campo: visitas a locais degradados, em diversos locais rurais, limpeza urbana e acompanhamento dos funcionários da Junta; representação institucional: reuniões da Assembleia municipal, eventos das associações, festividades religiosas e culturais.

Depois, temos ainda o” Presidente de bolso”. Como sabem, Bensafrim é uma comunidade onde todos se conhecem e o pedido surge no café, no supermercado, no ‘WhatsApp’, no ‘Facebook’. É um compromisso constante.

Os pedidos dividem-se em dois blocos:

– Manutenção-edifícios públicos, limpeza, iluminação e caminhos;

– Apoio social e serviços – Saúde, Transportes, Apoio à terceira idade, Associações e horários de transportes (‘Onda’ e transporte de crianças).

Sobre a agregação das freguesias de Bensafrim e Barão de São João, nos últimos anos, “num modo geral, a comunidade aponta como negativa, pelo distanciamento do presidente com o eleitorado e com as associações locais. Os serviços públicos estagnaram neste período, dificultando ainda mais a gestão deste território que, por si só, já é disperso e fragmentado.”

Litoralgarve – Que consequências sentiu devido à agregação das freguesias de Bensafrim e Barão de São João, nos últimos anos? Foi positiva ou negativa?

Carlos Vieira – Num modo geral, a comunidade aponta como negativa, pelo distanciamento do presidente com o eleitorado e com as associações locais. Os serviços públicos estagnaram neste período, dificultando ainda mais a gestão deste território que, por si só, já é disperso e fragmentado.

Quanto ao nível financeiro, não foi sentido qualquer impacto, pois os cidadãos não registaram uma freguesia mais forte financeiramente para a resolução prática das necessidades do território.

Litoralgarve – Bensafrim está melhor na situação atual? O que mudou?

Carlos Vieira – Podemos afirmar que sim, porque recuperou a sua identidade. Contudo, ainda está num processo de “cura”. Estamos a direcionar o orçamento para situações que consideramos basilares, mas a herança é pesada, onde foram anos de manutenção mínima em alguns pontos que agora exigem investimentos avultados, e a delegação de competências não liberta verba suficiente para cobrir num só ano as deficiências já identificadas.

“Sim, as carências sociais em Bensafrim são uma realidade silenciosa, onde o presidente por vezes é o primeiro porto de abrigo. O apoio solicitado é sobretudo feito por idosos isolados e famílias monoparentais.”

Litoralgarve – Em tempo de problemas sociais, sente necessidades a esse nível em Bensafrim? Há pessoas a pedir apoio à Junta para pagar despesas? Existem carências alimentares?

Carlos Vieira – Sim, as carências sociais em Bensafrim são uma realidadesilenciosa, onde o presidente por vezes é o primeiro portode abrigo. O apoio solicitado é sobretudo feito por idososisolados e famílias monoparentais.

Nas carências alimentares, no apoio a idosos, entre outros, a Junta funciona como parceiro do “Radar Social” da Câmara Municipal de Lagos, que apresenta uma solução estrutural eficiente para dar resposta à maioria das situações já apresentadas.

“Para o ano de 2026, o primeiro orçamento “pleno” após a consolidação da autonomia de Bensafrim, o foco recai na recuperação do tempo perdido e na criação de bases sólidas para o futuro, ou seja, “arrumar a casa ao nosso jeito”.”

“Ainda não temos uma base final sobre o seu orçamento, embora os valores exatos dependam ainda de negociações finais com o município, nomeadamente sobre a FETAAL – Feira de Tradições e Artes do Alagrve, o cemitério e mercado. Este orçamento da freguesia de Bensafrim situa-se por volta dos 375.000.00€ anuais para funcionamento e pequenas intervenções.”

Litoralgarve – Que projectos tem para 2026? Qual é o orçamento da Junta?

Carlos Vieira – Para o ano de 2026, o primeiro orçamento “pleno” apósa consolidação da autonomia de Bensafrim, o foco recaina recuperação do tempo perdido e na criação de basessólidas para o futuro, ou seja, “arrumar a casa ao nossojeito”.

Como esta é uma freguesia restaurada, o orçamento é uma combinação das transferências do Estado do Fundo de financiamento de freguesias e verbas da Câmara Municipal de Lagos, através dos contratos de delegação de competências e receitas próprias. Ainda não temos uma base final sobre o seu orçamento, embora os valores exatos dependam ainda de negociações finais com o município, nomeadamente sobre a FETAAL – Feira de Tradições e Artes do Algarve, o cemitério e mercado. Este orçamento da freguesia de Bensafrim situa-se por volta dos 375.000.00€ anuais para funcionamento e pequenas intervenções.

“Quero que daqui a quatro anos os habitantes de Bensafrim sintam que têm uma Junta que não se limita a “estar lá”, mas que age, protege e valoriza a sua terra e as suas gentes.”

Litoralgarve – Nestes quatro anos de mandato, qual é a sua grande aposta? Que marca gostaria de deixar?

Carlos Vieira – A grande aposta neste mandato é ter uma proximidade eficiente, um compromisso simples. Quero que daqui a quatro anos os habitantes de Bensafrim sintam que têm uma Junta que não se limita a “estar lá”, mas que age, protege e valoriza a sua terra e as suas gentes.

“A relação institucional com o Presidente Hugo Pereira é de trabalho e respeito, independentemente das forças políticas.”

“Terei uma posição firme de ser o seu parceiro crítico no desenvolvimento deste território.”

Litoralgarve – Bensafrim é a única freguesia do concelho de Lagos, que foi conquistada pelo PSD. Como é a sua relação com o presidente da Câmara Municipal de Lagos, socialista Hugo Pereira?

Carlos Vieira – A relação institucional com o Presidente Hugo Pereira é de trabalho e respeito, independentemente das forças políticas. É importante sermos rigorosos nos projetos a realizar para o bem comum, existindo mérito da Câmara Municipal quando desenvolve obra nesta freguesia, onde terei uma posição firme de ser o seu parceiro crítico no desenvolvimento deste território.

“O Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) é uma oportunidade única sobretudo para habitação e requalificação, mas exige uma agilidade técnica que, actualmente, as juntas de freguesia raramente conseguem ter sozinhas”

Litoralgarve – De que forma pode a freguesia de Bensafrim aproveitar as verbas do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), provenientes da União Europeia?

Carlos Vieira – O Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) é umaoportunidade única sobretudo para habitação erequalificação, mas exige uma agilidade técnica que,actualmente, as juntas de freguesia raramente conseguemter sozinhas. E sendo Bensafrim uma freguesia de parcosrecursos, a sua estratégia deve ser apresentada pelaCâmara Municipal de Lagos, pois não temos argumentospara realizar uma candidatura sozinhos.

Preparação para os incêndios florestais no Verão? “A Proteção Civil, no concelho [de Lagos] não está apenas atrás da secretária, mas sim com os “pés no terreno”.

“A liderança desta ação está a ser bem gerida no terreno, com uma “fiscalização amigável e sensibilização”, limpeza e desobstrução de alguns ribeiros e ações em terrenos estratégicos, com abertura de faixas de limpeza.”

Litoralgarve – A poucos meses do Verão, como poderá a freguesia de Bensafrim evitar incêndios florestais? Há terrenos por limpar? Como se está a preparar para esse período?

Carlos Vieira – Existe um trabalho articulado pela Proteção Civil muitoeficiente, entre os municípios e as freguesias, ondegarantem que os recursos são aplicados onde sãoprecisos. Bensafrim é um território vasto e rico embiodiversidade, e protegê-lo é um dever de todos. Mas aliderança desta ação está a ser bem gerida no terreno,com uma “fiscalização amigável e sensibilização”, limpezae desobstrução de alguns ribeiros e ações em terrenos estratégicos, com abertura de faixas de limpeza. AProteção Civil, no concelho, não está apenas atrás dasecretária, mas sim com os “pés no terreno”.

Sem filiação partidária, tem 52 anos, reside em Bensafrim, onde nasceu, e é Oficial de Operações de Socorro em Aeródromos

Nome completo: Carlos Miguel dos Santos Vieira

Data do nascimento:28/05/1973 (52 anos)

Naturalidade: Bensafrim

Residência: Bensafrim

Profissão – Oficial de operações de socorro em aeródromos

Foi eleito presidente da Junta de Freguesia de Bensafrim para o mandato de 2025/2029, na lista da coligação PSD/CDS-PP, mas não tem filiação partidária.