Numa altura em que elevadas temperaturas próprias do Verão já se fazem sentir, obrigando as autarquias a tomar medidas preventivas para enfrentar incêndios rurais, o comandante dos Bombeiros Voluntários de Vila do Bispo e coordenador do Serviço Municipal de Proteção Civil, Emerson Gomes, não tem dúvidas de que este “vai ser um ano difícil, em que vamos ter aqui muita vegetação, sobretudo combustível químico a partir de Julho, Agosto.”
O alerta foi lançado, em entrevista exclusiva ao ‘Litoralgarve’, em pleno quartel, no final da sessão comemorativa do 44º. aniversário da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Vila do Bispo. Nesse sentido, garantiu que conta com um “dispositivo robusto” durante 24 horas por dia, preparado para enfrentar este período mais crítico, com as viaturas e os operacionais necessários. Mas deixou avisos aos proprietários de terrenos ao nível da limpeza indispensável para evitar problemas.
Por outro lado, o comandante Emerson Gomes destacou a aposta no ‘Projecto Fénix 0816’, que permite, nomeadamente, novos equipamentos de protecção individual aos bombeiros, com melhores condições de segurança e conforto para combater incêndios urbanos, para os quais passa a dispor, também, de uma viatura apropriada.
Aquele responsável congratula-se com o facto de, nos últimos dois anos, ter havido uma redução de ocorrências ao nível de resgate de pessoas em falésias, através da equipa de salvamento de grande ângulo. Contudo, reconhece que, “no fundo, a nossa área de maior risco é, efectivamente, as falésias”, assegurando que os operacionais estão devidamente preparados nesse sentido.
Nesta entrevista, o comandante Emerson Gomes insistiu na necessidade de os bombeiros passarem a ter uma carreira específica, adaptada à realidade da profissão, com os riscos e desafios próprios, e que o sistema não pode estar assente no voluntariado.
José Manuel Oliveira
Litoralgarve – Como antevê esta época de maior risco de incêndios rurais, com as denominadas fases ‘Charlie’ e ‘Delta’, até final de Setembro?
Emerson Gomes – Vai ser um ano difícil, um ano em que nós vamos ter aqui muita vegetação, sobretudo combustível finos [principalmente] a partir de Julho, Agosto. E basta haver uma ignição [para arder], vai ser um ano propício para isso. Prevejo um ano muito complicado.
Chuvas no Inverno “atrasaram os trabalhos de limpeza” em terrenos particulares
“Muita gente que quis limpar não conseguiu”
“Todos nós sabemos como é que são situações sobretudo com máquinas mecânicas em alturas também de maior perigosidade. Pode ser bom para que o pessoal possa limpar. Contudo, também pode trazer aqui algumas complicações, sobretudo no que concerne à questão das próprias máquinas poderem ser, também elas próprias, muitas vezes, a originar algumas ignições.”

“Falta muitas vezes a consciência das pessoas para perceberem que nós fazemos uma parte, mas é preciso, também, que elas façam o que lhes compete.”
Litoralgarve – E como se encontram os terrenos? As chuvas durante o Inverno complicaram a situação ao nível das limpezas?
Emerson Gomes – Sim, porque atrasaram os trabalhos de limpeza. Muita gente que quis limpar não conseguiu limpar. Entretanto, já houve um prolongamento até finais de Junho. Mas todos nós sabemos como é que são situações sobretudo com máquinas mecânicas em alturas também de maior perigosidade. Pode ser bom para que o pessoal possa limpar. Contudo, também pode trazer aqui algumas complicações, sobretudo no que concerne à questão das próprias máquinas poderem ser, também elas próprias, muitas vezes, a originar algumas ignições. Ao nível das limpezas, no caso do concelho de Vila do Bispo, temos feito muitas notificações, temos substituído proprietários dos terrenos e temos conseguido aqui fazer esse trabalho. Agora, falta muitas vezes a consciência das pessoas para perceberem que nós fazemos uma parte, mas é preciso, também, que elas façam o que lhes compete.
Litoralgarve – Há muitos terrenos particulares que não estão limpos?
Emerson Gomes – Nós não temos tantos casos, sobretudo tendo em conta que os particulares têm respondido a tudo o que são reclamações [e ao exigido] da GNR. Mas acredito, também, que existem aqui terrenos que carecem dessa intervenção de limpeza. Passa por ser competência dos próprios proprietários.
Riscos? “Muitas vezes um simples lote que não esteja limpo numa área que ultrapasse a zona rural e que o combustível normalmente é combustível químico. Ou seja, estamos a falar de herbáceas. E, às vezes, é onde a ignição é muito mais expectável de acontecer.”
“Não podemos garantir um território completamente limpo. Podemos é garantir que o que está na nossa competência [do ponto de vista de limpeza], conseguimos fazer.”
Litoralgarve – Em que zonas se situam esses terrenos com mais risco para a possibilidade de deflagrarem incêndios rurais no concelho de Vila do Bispo?
Emerson Gomes – Temos aqui um bocadinho por todo o lado. Muitas vezes focamo-nos em zonas de mais perigosidade, esquecendo áreas que, normalmente, ultrapassam a zona rural. Dou o exemplo: muitas vezes um simples lote que não esteja limpo numa área que ultrapasse a zona rural e que o combustível normalmente é combustível químico. Ou seja, estamos a falar de herbáceas. E, às vezes, é onde a ignição é muito mais expectável de acontecer. Agora, nós não podemos garantir um território completamente limpo. Podemos é garantir que o que está na nossa competência [do ponto de vista de limpeza], conseguimos fazer.
Queimadas abusivas? “Não. Existem umas queimas. Mas não deixa de ser uma coisa que é natural de acontecer. Aliás, nós temos de aprender a usar o fogo como um instrumento para trabalhar. Agora não o façam em dias de maior perigosidade de incêndio.”
“Em Vila do Bispo, desde 01 de Junho, criámos restrições ao uso do fogo.”
“Muitas vezes as pessoas não fazem queimas com os devidos procedimentos de segurança. E rapidamente passamos de um fogo para um incêndio.”
Litoralgarve – Há queimadas abusivas?
Emerson Gomes – Não. Existem umas queimas. Mas não deixa de ser uma coisa que é natural de acontecer. Aliás, nós temos de aprender a usar o fogo como um instrumento para trabalhar. Agora não o façam em dias de maior perigosidade de incêndio. Em Vila do Bispo, desde 01 de Junho, criámos umas restrições ao uso do fogo.
Litoralgarve – Que restrições?
Emerson Gomes – No fundo, é limitar entre a fase ‘Charlie’ e a fase ‘Delta’, estamos a falar de Junho até Outubro. Vamos ter de restringir o uso do fogo, porque muitas vezes as pessoas não fazem queimas com os devidos procedimentos de segurança. E rapidamente passamos de um fogo para um incêndio.
Litoralgarve – Perante uma época de incêndios complicada, de que forma vão os bombeiros de Vila do Bispo enfrentar a situação?
Emerson Gomes – Vamos enfrentar com um dispositivo robusto. Na prática, já é apanágio dos anos anteriores. E temos um dispositivo adequado.
Litoralgarve – Com quantos veículos e meios humanos?
Emerson Gomes – Neste momento, só estamos a contar com três veículos de combate a incêndios rurais – dois veículos autotanques também só para estas ocorrências. E estamos à espera, até ao final do ano, que cheguem mais dois veículos ligeiros de combate a incêndios, um para a zona rural e outro só florestal.
Acredito que, do ponto de vista de meios, vamos estar bem. Temos recursos humanos montados durante 24 horas por dia, com duas equipas de combate a incêndios e uma equipa de apoio logístico. Estamos a falar de que 24 por dia obriga-nos a ter de gerir 24 operacionais só para a vertente dos incêndios rurais, com equipas preparadas também para fins-de-semana. Mas é isso a que estamos habituados. Agora, é desgastante.
“No quadro actual, temos 65 operacionais, com os elementos estagiários que estão prontos, quatro, cinco que vão ser promovidos. Por isso, estamos bem. Mas podemos aumentar.”

“É possível” ter “oitenta operacionais.” Trata-se de “um trabalho muito rigoroso, muito planeado. Tem de se dar condições às pessoas.”
Litoralgarve – Quantos operacionais tem o corpo de bombeiros de Vila do Bispo?
Emerson Gomes – No quadro actual, temos 65 operacionais, com os elementos estagiários que estão prontos, quatro, cinco que vão ser promovidos. Por isso, estamos bem. Mas podemos aumentar.
Litoralgarve – E qual é o número total com que gostaria de contar?
Emerson Gomes – Oitenta operacionais. E é possível. É um trabalho muito rigoroso, muito planeado e assente em dados. Tem de se dar condições às pessoas.
“Os bombeiros voluntários não têm carreira. E a maioria do nosso voluntariado é feita por bombeiros profissionais que, nas horas vagas, fazem esse trabalho voluntário.”
Litoralgarve – Que tipo de condições? Falou-se no aniversário dos Bombeiros Voluntários de Vila do Bispo, que não é justo, por exemplo, um operacional deste concelho receber menos do que um bombeiro de Tavira ou de Olhão…
Emerson Gomes – Na prática, mais de oitenta por cento deles são profissionais e não é justo terem um ordenado que, de certa forma, não alinha com o ordenado de um sapador. Neste momento, graças à situação de patamar existente, estamos acima do ordenado mínimo [dos bombeiros, que varia entre 950 e 1.200 euros]. Mas precisamos de mais. Os bombeiros precisam de uma carreira. Os bombeiros voluntários não têm carreira. E não esquecer que estão assentes no voluntariado. E a maioria do nosso voluntariado é feita por bombeiros profissionais que, nas horas vagas, fazem esse trabalho voluntário.
“Não digo que o voluntariado esteja em causa. Os que estão cá vão fazendo esse trabalho. Mas o sistema não pode estar assente nos voluntários. O sistema tem de entregar aos bombeiros uma carreira específica, com rigor.”
Litoralgarve – Deixou alertas nesse sentido na sessão comemorativa dos 44 anos da associação…
Emerson Gomes – Deixei alertas porque acho que é preciso seguir essa aposta. Não digo que o voluntariado esteja em causa. Os que estão cá vão fazendo esse trabalho. Mas o sistema não pode estar assente nos voluntários. O sistema tem de entregar aos bombeiros uma carreira específica, com rigor. E adaptar o corpo de bombeiros à sua realidade, à sua especificidade, no fundo, aos seus desafios e riscos.
Litoralgarve – Em que consiste o ‘Projecto Fénix 0816,’ agora em destaque nos bombeiros de Vila do Bispo? Qual é a aposta?
Emerson Gomes – Trata-se de um projecto que lançámos com vista à adaptação para a vertente dos incêndios urbanos. Na prática, nós tínhamos aqui pessoal com alguns equipamentos de protecção individual que vieram de aeroportos de Inglaterra e da Bélgica. Estamos a falar há mais de 15 anos. Os novos equipamentos são respiratórios e mais seguros. Temos, também, um veículo que vai chegar, no âmbito do PRR [Plano de Recuperação e Resilência] Algarve. O veículo vem trazer uma capacidade do ponto de vista da resposta urbana. Tem condições para combater incêndios rurais e, ao mesmo tempo, também uma resposta para incêndios urbanos, que nós não tínhamos. A aposta passa por mais rapidez e eficácia, para uma capacidade de resposta segura.
E em jeito de observação, acrescenta:
– Assim, com a questão de novos equipamentos de protecção individual e de uma viatura de combate a incêndios rurais e urbanos, equipar um bombeiro custa, em média, cerca de dois mil euros.
Resgate de pessoas nas falésias? “Nos últimos dois anos, tem havido uma redução de ocorrências. Mas, no fundo, a nossa área de maior risco é, efectivamente, as falésias.”
“Neste momento temos um veículo completamente recuperado e equipamento de protecção individual para os operacionais. E essa questão tem sido reforçada.”
“Estamos preparados com equipamentos de salvamento em grande ângulo.”
Litoralgarve – Muitos turistas procuram as falésias do concelho de Vila do Bispo, sobretudo para registar imagens, obter as melhores fotos da paisagem da Costa Vicentina. Essa situação continua a ser um perigo, principalmente na época do Verão?
(Entretanto, ouve-se uma voz feminina sobre um acidente rodoviário na Estrada 268 e o comandante dá indicações com vista à deslocação de operacionais para o terreno)
Emerson Gomes – Felizmente, nos últimos dois anos tem havido uma redução de ocorrências operacionais. Mas, no fundo, a nossa área de maior risco é, efectivamente, as falésias. Estamos preparados com equipamentos de salvamento em grande ângulo. Neste momento, além desses equipamentos, numa aposta feita nos últimos três anos, temos um veículo completamente recuperado e equipamento de protecção individual para os operacionais. E essa área tem sido reforçada.
E adianta:

– Se formos pegar nas várias vertentes de intervenção, só em equipamentos de protecção individual para os operacionais, na prática os custos são mais de cinco mil euros na área do grande ângulo. Mas esta é uma área que está a ser completamente tratada e os bombeiros estão devidamente treinados. E temos tido reforço de equipamento na área do salvamento em grande ângulo.
Ampliar o quartel? “Temos estado a fazer algumas melhorias. Mas vamos ter um investimento no futuro. Temos de ir à procura de alguma candidatura [de verbas da União Europeia] para ampliar o quartel. O nosso objectivo não é só adaptar; é alargar as instalações.”
“No caso do corpo feminino, quando aqui cheguei havia um grupo de dez; hoje, são 24/25.”
Litoralgarve – Para quando está prevista a ampliação do quartel dos Bombeiros Voluntários de Vila do Bispo, de que há tanto tempo se fala?
Emerson Gomes – Temos estado a fazer algumas melhorias. Mas vamos ter um investimento no futuro. Agora, como é óbvio, carece de dinheiro. Temos de ir à procura de alguma candidatura [de verbas da União Europeia] para ampliar o quartel. O nosso objectivo não é só adaptar; é alargar as instalações.
No caso, por exemplo, do corpo feminino, passámos de um grupo de dez, quando aqui cheguei [no dia 09 de Junho de 1983] – [para um aumento que] hoje, são 24/25. É preciso dar condições.
Neste Verão, com o aumento do número de pessoas, entre a população residente a os turistas, “vai haver acidentes, vai haver um aumento de situações de emergências pré-hospitalares e outras ocorrências. É uma época de muita complicação”
Litoralgarve – Como perspectiva este Verão no concelho de Vila do Bispo, face ao aumento do número de pessoas, entre residentes e turistas?
Emerson Gomes – Vai haver acidentes, vai haver um aumento de situações de emergências pré-hospitalares e outras ocorrências. Temos muito trabalho pela nossa frente. É uma época de muita complicação. E continuamos preparados para enfrentar todas as situações. É essa a nossa missão.
Quartel dos bombeiros, Museu de Vila do Bispo – Celeiro da História e pavilhões de Sagres, Budens e Barão de São Miguel poderão acolher pessoas em caso de terramoto neste concelho do barlavento algarvio

Além do quartel dos bombeiros, o Museu de Vila do Bispo – Celeiro da História e os pavilhões situados nas localidades de Sagres, Budens e Barão de São Miguel podem acolher pessoas em caso da ocorrência de um sismo de maior magnitude, o qual possa evoluir para um tsunami, neste concelho do barlavento algarvio. E as juntas de freguesia estão munidas de colchões, almofadas, camas e tendas de campanha, entre outros equipamentos, para apoiar eventuais desalojados nesses espaços.
Foi essa a convicção expressa ao ‘Litoralgarve’ pelo comandante do Corpo de Bombeiros Voluntários de Vila do Bispo, Emerson Gomes, quando há um ano, nas comemorações do 43º. aniversário desta associação humanitária o questionámos sobre as condições existentes para enfrentar um terramoto de magnitude 6.9 como o ocorrido, a 09 de Setembro de 2023, em Marrocos e que se fez sentir com intensidade em Mali, Argélia, na vizinha Espanha e em Portugal, nomeadamente no Algarve, neste caso sem causar danos.
Escolas a lares de idosos figuram entre prioridades para acudir a necessitados, sendo preocupação do Serviço Municipal de Protecção Civil, designadamente, “desobstruir espaços resultantes da queda de estruturas para garantir buscas mais seguras”, apontou, então, o Comandante dos Bombeiros Voluntários de Vila do Bispo. E garantiu, na altura, existirem “medidas para dar resposta” a um sismo de maior intensidade, também com ‘kits’ preparados, nomeadamente com sinalização para evacuação.
“Aprendemos muitas lições” com o apagão em Portugal Continental
Por outro lado, e numa altura em que ainda se faziam sentir os efeitos do ‘apagão’, o qual deixou, no dia 28 de Abril de 2025, Portugal Continental às escuras durante doze horas consecutivas, Emerson Gomes lembrou, ao nosso Jornal, que, na sequência dessa situação “aprendemos muitas lições”. Quais? “Ter alternativas às comunicações e outras, com a aposta na rede de banda alta, mais geradores e condições em estações elevatórias, água, oxigénio e condições gerais em locais como o edifício dos Paços do Concelho e lares de idosos”, sublinhou.










