Entrevista a Elidérico Viegas: “A recuperação vai, certamente, demorar 4/5 anos, apesar de a partir da Páscoa de 2021 podermos assistir a uma retoma gradual e progressiva, mas, necessariamente, muito lenta”

  “MAIS    DE    80    POR    CENTO    DOS    ESTABELECIMENTOS    ENCONTRAM-SE    ENCERRADOS    E   OS   QUE    SE     MANTÊM     EM     FUNCIONAMENTO     NÃO    TÊM   CLIENTES.   EM    JANEIRO,    POR   EXEMPLO,    AS    TAXAS     DE    OCUPAÇÃO     NÃO    FORAM    ALÉM    DOS    5,6  %”.

O  DESEMPREGO,  EM  2020,   “AUMENTOU   113%   FACE  AO  ANO   ANTERIOR  (…).  COM   O   ENCERRAMENTO   DE    MUITOS    ESTABELECIMENTOS,   OS   NÚMEROS   DO   DESEMPREGO   IRÃO   AUMENTAR    MUITO   MAIS    NOS    PRÓXIMOS    MESES”

“AO  NÍVEL  DO   ALOJAMENTO   LOCAL   E   PRIVADO,  MUITOS   EMPRESÁRIOS   OPTARAM   PELA   CESSAÇÃO  DA    ATIVIDADE,   ASSIM   COMO    NO   QUE   SE   REFERE   AOS   CHAMADOS    SIMILARES,  COMO    RESTAURANTES   E  BARES,   POR    EXEMPLO”

“O   ANO   TURÍSTICO   DE   2020    REGISTOU     OS   PIORES    RESULTADOS    DE    SEMPRE    PARA    AS    EMPRESAS    HOTELEIRAS   E   TURÍSTICAS    REGIONAIS”  (…)   O   ALGARVE   PERDEU    “MAIS   DE    800    MILHÕES   DE     EUROS”

Em entrevista ao Litoralgarve, o presidente da Direção da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve  (AHETA), Elidérico Viegas, avisa que a procura “durante a Páscoa encontra-se totalmente comprometida”, devido às limitações impostas pelo confinamento em pleno estado de emergência resultante da pandemia, e “o Verão, segundo tudo indica, será idêntico ao verificado em 2020”, sobretudo com portugueses, numa altura em que “a procura externa será muito reduzida”. E explica porquê: “Tal como aconteceu em 2020, a época de verão, quer porque as restrições  [devido à Covid-19] se mantêm nos países de origem dos turistas, quer porque a vacinação em massa está muito atrasada, deixa antever uma época idêntica à registada em 2020”. Por outro lado, Elidérico Viegas aponta para “dentro de 4 / 5 anos” a recuperação do sector e volta a insistir na necessidade de apoios por parte do Governo para salvar as empresas ligadas ao turismo no Algarve.

Litoralgarve – Que balanço faz sobre o ano de 2020? Quanto perderam os hotéis e empreendimentos turísticos do Algarve devido à Covid-19, com a agravante das restrições impostas na passagem-de-ano?

Elidérico Viegas – O ano turístico de 2020 registou os piores resultados de sempre para as empresas hoteleiras e turísticas regionais. O RevPar (rendimento por quarto disponível) baixou 45,9% para 29,53 euros, enquanto os proveitos caíram 62,8%, ou seja, mais de 800 milhões de euros. A taxa de ocupação média foi de 27,7% e o tráfego de passageiros no Aeroporto de Faro caiu 75,5%.

Litoralgarve – O que pensa das medidas em curso ao nível do confinamento? São ajustadas, eficazes, equilibradas ou exageradas as restrições para impedir o risco de contágio? Acha que o encerramento das fronteiras controla a pandemia? Que reflexos tem essa situação?

Elidérico Viegas – As restrições funcionam como um travão da economia em geral e do turismo em particular, independentemente da sua bondade, especialmente no que se refere à eficácia das mesmas no combate ao número de contágios.

O turismo obriga o consumidor a deslocar-se ao local de produção dos serviços, uma vez que os valores turísticos não são fisicamente transferíveis. Para usufruir do clima e praias do Algarve, os turistas têm que cá vir. Numa altura em que o virtual vem ganhando terreno no mundo, esta característica da atividade turística é também o garante da sua continuidade e sucesso futuro.

Litoralgarve – Quantas unidades hoteleiras estão fechadas nesta altura no Algarve? E empreendimentos turísticos? São mais, ou menos, do que em 2020? O que representa isso para o sector?

Elidérico Viegas – Mais de 80 por cento dos estabelecimentos encontram-se encerrados e os que se mantêm em funcionamento não têm clientes. Em Janeiro, por exemplo, as taxas de ocupação não foram além dos 5,6%.

Litoralgarve – E hotéis a funcionar?

Elidérico Viegas – As últimas restrições contribuíram, decisivamente, para que muitos dos estabelecimentos que ainda se mantinham em funcionamento tivessem optado pelo encerramento.

Litoralgarve – Há empresários a desistir da atividade?

Elidérico Viegas – Ao nível do alojamento local e privado, muitos empresários optaram pela cessação da atividade, assim como no que se refere aos chamados similares, como restaurantes e bares, por exemplo. Os hotéis e empreendimentos turísticos constituem máquinas organizativas muito pesadas, pelo que não podem, pura e simplesmente, cessar a atividade de um momento para o outro, atendendo a vários fatores, nomeadamente à natureza dos investimentos que, como é sabido, estão suportados em capitais alheios e outros financiamentos externos. O investimento hoteleiro e turístico é de capital intensivo e de rentabilização a longo prazo, o que torna o sector muito vulnerável às crises.

Litoralgarve – E como está a situação em termos de desemprego?

Elidérico Viegas –  Em 2020, o desemprego aumentou 113%, face ao ano anterior, embora estes números sejam enganadores, na medida em que não levam em consideração os trabalhadores que se encontram em ‘layoff’ e em regime de formação, por exemplo. Com o encerramento de mais estabelecimentos, os números do desemprego irão aumentar muito mais nos próximos meses.

“O  VERÃO,   SEGUNDO   TUDO   INDICA,  SERÁ    IDÊNTICO    AO    VERIFICADO     EM    2020.    A    PROCURA    TURÍSTICA   SERÁ,   ESSENCIALMENTE,   DE   TURISTAS    NACIONAIS,    UMA   VEZ    QUE    A   PROCURA    EXTERNA    SERÁ     MUITO    REDUZIDA”

Litoralgarve – Com a sucessiva renovação do estado de emergência em Portugal e as atuais medidas restritivas até à Páscoa, a 04 de Abril de 2021, como perspetiva as próximas semanas, e em particular este período festivo, no Algarve?

Elidérico Viegas – A procura turística durante a Páscoa encontra-se totalmente comprometida. A Páscoa é, tradicionalmente, o motor de arranque da época turística. Porém, tal como aconteceu em 2020, a época de verão, quer porque as restrições se mantêm nos países de origem dos turistas, quer porque a vacinação em massa está muito atrasada, deixa antever uma época idêntica à registada em 2020.

Litoralgarve – Qual o prejuízo para o sector turístico?

Elidérico Viegas – Os prejuízos traduzem-se no facto de, em 2021, o ano turístico não ser muito diferente do verificado em 2020, quer em termos de ocupação, quer no que se refere a resultados económicos e empresariais.

Litoralgarve – E o Verão como será? Com que mercados?

Elidérico Viegas – O Verão, segundo tudo indica, será idêntico ao verificado em 2020. A procura turística será, essencialmente, de turistas nacionais, uma vez que a procura externa será muito reduzida.

FEIRAS,  EXPOSIÇÕES  E  FESTIVAIS  DE   MÚSICA    “SÃO    EVENTOS MUITO   IMPORTANTES,     MAS     APENAS     NO     PERÍODO    A   SEGUIR     À   PANDEMIA”

Litoralgarve – Que eventos são necessários? Festivais de música, feiras e exposições?

Elidérico Viegas – Estes eventos são necessários e muito importantes, mas apenas no período a seguir à pandemia. Até lá, eventos desta natureza não só não têm condições logísticas para serem realizados, como não serão capazes de atrair fluxos turísticos relevantes.

Excetua-se o GP de Fórmula 1 que, atendendo à enorme cobertura mediática internacional, funciona como meio privilegiado de promoção e divulgação da região, mesmo sem expectadores.

Litoralgarve – Para quando a recuperação da atividade turística no Algarve?

Elidérico Viegas  – A recuperação vai, certamente, demorar 4/5 anos, apesar de a partir da Páscoa de 2021 podermos assistir a uma retoma gradual e progressiva, mas, necessariamente, muito lenta.

Litoralgarve – E como encara a concorrência?

Elidérico Viegas – A concorrência será feroz, na medida em que o turismo é uma atividade estratégica e prioritária para a generalidade dos países em todo o mundo. Daí que sejamos defensores de medidas destinadas a manter as nossas empresas em condições de poder responder, eficazmente, a estes desafios na fase de retoma. Empresas débeis não serão competitivas.

OS   INVESTIMENTOS   NECESSÁRIOS     PARA  RECUPERAR    O   ALGARVE   E  OS   APOIOS    DE   QUE   AS    EMPRESAS    PRECISAM    PARA   JÁ

Litoralgarve – O que defende a AHETA para recuperar o turismo nesta região? Que apoios são necessários? De quantos milhões de euros precisam os empresários?

Elidérico Viegas – A pandemia descaracterizou a economia em geral e o turismo em particular. O Algarve precisa de um Plano Específico de Emergência para Recuperar o Turismo. Este Plano deve enquadrar investimentos em infraestruturas e equipamentos que ainda não temos, como um Hospital Central, um Pavilhão Multiusos / Centro de Congressos, Ligação Ferroviária ao Aeroporto, eletrificação e modernização da linha férrea do Algarve e respetivo material circulante, Requalificação definitiva da EN 125 até Vila Real de Santo António, Policlínica Desportiva para Atletas de Alta Competição, Resolução definitiva da questão que envolve o fornecimento e abastecimento de água para consumo e regas, (transvaze do Guadiana para o sistema Odeleite/Beliche, Barragem da Foupana, Centrais de Dessalinização) etc.

No entanto, e no que às empresas diz respeito, é necessário o seguinte:

  • Medidas de apoio ao emprego, através da institucionalização do ‘layoff’ simplificado;
  • Reforço financeiro das linhas de crédito existentes;
  • Alargamento do prazo das moratórias fiscais e financeiras;
  • Aprovar medidas de apoio à comercialização e vendas das empresas exportadoras;
  • Maior eficácia na gestão atempada das medidas aprovadas, através da criação de um Balcão Único;
  • Apoios financeiros para a recapitalização de empresas, através de subvenções a fundo perdido, quer para o reforço da tesouraria, quer para transformar dívida em capital social;
  • Medidas destinadas a recuperar a confiança internacional no nosso País;
  • Ações de promoção e divulgação internacionais na fase de retoma;
  • Isenções fiscais temporárias, etc., etc.

Academia de Golfe Palmares Ocean Living & Golf, Lagos, Algarve

Litoralgarve – Que ilações retira desta pandemia? O que é necessário fazer para prevenir este tipo situações no futuro?

Elidérico Viegas – O mundo mudou e, com ele, tudo o que se relaciona com o “modus vivendi” social e económico, tal como o conhecemos.

Mais, a nova ordem económica mundial, em construção, vai acelerar de forma gradual e exponencial, rumo a uma sociedade mais igualitária, humanista e solidária, mas também mais seletiva e competitiva.

O mundo parou, mas a humanidade está superiormente obrigada a cumprir o seu desígnio – progredir e continuar a viver rumo ao futuro.

José  Manuel Oliveira

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