Por vezes pergunto-me se os que tomam decisões por estas bandas das Terras do Infante conhecem realmente o território onde vivem. Lagos, Aljezur e Vila do Bispo — três nomes que deviam ressoar com orgulho histórico e força comunitária, parecem cada vez mais sufocados por um Estado Social que falha naquilo que devia ser básico: garantir dignidade e equidade.
Nas freguesias mais pequenas, ainda se ouve o eco de promessas antigas: centros de saúde que não avançam, habitação social que nunca chega, apoio aos idosos entregue à caridade das IPSS locais. E os jovens? Esses ou partem, ou desistem. Não há creches suficientes, não há transporte digno, não há futuro palpável. Falamos muito em “territórios de baixa densidade” — parece bonito no papel — mas esquecemo-nos que esses mesmos territórios gritam por políticas públicas que não se fiquem pelas intenções.
E Lagos, com o seu peso histórico tão profundo, que papel tem neste puzzle? Vive esmagada entre a pressão turística e a sua herança cultural. Todos adoram mostrar a Fortaleza da Ponta da Bandeira ( com buracos e quase caí, não cai ) ou o Mercado de Escravos aos visitantes. Mas pergunto: quantos dos nossos jovens já lá foram? Quantas escolas locais integram verdadeiramente este património nas suas aulas?
É que o património cultural não é só pedra e azulejo — é memória viva. E se não cuidarmos dela, se não a passarmos com orgulho às próximas gerações, perde-se. A história de Lagos é gloriosa, sim, mas também dolorosa. Enfrentar o passado — da escravatura às conquistas marítimas — exige coragem, não apenas fundos europeus.
A verdade é que esta região continua dividida entre o que foi e o que devia ser. Temos potencial para ser modelo de coesão social e valorização cultural. Mas falta-nos visão, falta-nos proximidade e, acima de tudo, falta-nos vontade política para tratar o Algarve interior como mais do que um postal de verão
Paulo Silva










