Enterro do Carnaval em Odiáxere faz parar trânsito na EN 125 e termina com acordeão, testamento, recados, cremação e até fogo-de-artifício

Pouco mais de cem pessoas, entre figurantes e elementos da população local, despediram-se, durante a noite da quarta-feira de cinzas, da 28ª. edição do Carnaval de Odiáxere, com um cortejo que percorreu várias ruas desta vila do concelho de Lagos, até ao Largo da Alegria, ao som do toque, pausado, de um tambor, a que juntaram freiras, o padre, flores, cruzes, velas, ‘choros’ e lamentos junto a uma carrinha transportando o defunto. Também não faltou a curiosidade de moradores nas janelas e nas portas das suas casas, além de água ‘benta’ lançada pelo ‘sacerdote’ e piadas pelo meio. O ‘Litoralgarve’ também esteve lá e conta o que se passou.

José Manuel Oliveira 

Noite de quarta-feira de cinzas, 14 de Fevereiro de 2024, 20h56m., 16 graus centígrados de temperatura. Junto ao edifício onde está situada a sede do Clube Desportivo de Odiáxere, no concelho de Lagos, tem início o tradicional Enterro do Carnaval, ao som do toque pausado de um tambor, a cargo de um homem que comanda a marcha. Ao contrário do ano passado, o cortejo, composto por seis freiras e um padre vestido a rigor, na frente de mais de meia centena de pessoas, entre, nomeadamente, flores, crucifixos, velas, imitação de choros, lamentos e até alguns risos à mistura, passa numa zona paralela ao campo de futebol, transportando a urna com o defunto dentro de uma carrinha. Só alguns metros mais adiante, vira à direita para entrar noutras ruas do interior da vila de Odiáxere.

O toque do tambor começa a despertar a atenção de vários moradores, que vão às janelas ou abrem as portas das suas casas para ver a passagem do cortejo. “Coitadinho, que Deus lhe perdoe…”, grita uma mulher, que integra o Enterro, junto ao Centro Infantil de Odiáxere, enquanto também se ouvem gargalhadas. “Ai, meus Deus, o que vai ser de mim?”, queixa-se a viúva, acompanhada e confortada por outras senhoras, já na Rua de Camões, perto do edifício da antiga Escola Primária, entre outros lamentos.

”Vocês vão enterrar o Carnaval a esta hora? O cemitério está fechado…”, ironiza um habitante, após a ‘benção’ do padre com arremesso de água à porta de uma casa

Enquanto o padre, com um balde e um pincel, em jeito de bênção, vai lançando água às pessoas, que, com curiosidade, se dirigem até ao exterior das habitações, um homem não esconde a sua ironia e diz-lhe: “Vocês vão enterrar o Carnaval a esta hora? O cemitério está fechado…” O cortejo prossegue, agora na Rua da Liberdade, passa a zona junto ao jardim, a poucos metros da Junta de Freguesia de Odiáxere e, pelas 21h.13m., prepara-se para atravessar a Estrada Nacional 125. Apesar da luz verde nos semáforos para o trânsito, os condutores dos carros preferem parar, até para ver o que se passa, os participantes no Enterro aproveitam a oportunidade e, após passarem para o outro lado da via, seguem num espaço junto a vários estabelecimentos comerciais em direcção à Rua da Barragem. São 21h.16m., a noite está escura e mais alguns residentes dirigem-se às janelas ou portas das suas casas também para se despediram da 28ª. edição do Carnaval de Odiáxere. Pouco depois, às 21h.21m., o cortejo chega, finalmente, ao Largo da Alegria, local de festa, música e dança, com comes e bebes à mistura, durante a tarde e noite do dia anterior, terça-feira de Entrudo, entre muita folia e carros alegóricos, e agora transformado em funeral… À espera da cerimónia final estão mais de duas dezenas de pessoas, dispersas por vários espaços. A viatura com a urna entra num pequeno largo, onde decorrem as cerimónias, juntando-se, como constatou o ‘Litoralgarve’, pouco mais de uma centena de pessoas.

“Sai daqui!… Tu és uma ladrona!”, grita a viúva. “Tu és uma falsa, só pensas na Segurança Social!”, acusa, a certa altura, uma outra mulher, enquanto se ouvem gargalhadas no público

“Tão bom que ele era…”, elogia uma senhora. O caixão é colocado no chão e pelas 21h.24m. acendem-se cinco velas. Com a urna aberta, ouvem-se choros e insultos. “Sai daqui!…. Tu és uma ladrona!”, grita a viúva, enquanto os telemóveis registam imagens. Um homem, ao som de um acordeão, presta a última homenagem ao falecido, enquanto várias mulheres discutem entre si. Uma até ‘desmaia’ e com apoio acaba por se levantar. “Quero o ouro!”, exige outra, como herança. “Vou enterrar-te e vim com o compadre”, diz uma outra, junta à urna.

“Tu és uma falsa, só pensas na Segurança Social!”, acusa, a certa altura, uma mulher. Entre o público ouvem-se algumas gargalhadas. E pelas 21h.32m. é fechada a urna, com uma flor por cima. Pouco depois, quando eram 21h.38m., o padre pega em oito folhas de papel para iniciar a leitura do testamento. “Oremos Irmãos e Irmanas / Avé Maria Cheia de Graça/ O Pau é para elas / O Senhor é Connosco.” “Antes do mundo deixar / E a terra me engolir / Aqui quero declarar / Aquilo que vou repartir” “Minha extremosa esposa Dª. Fodéncia / Nesta hora aqui a chorar / Pessoa honrada simples e sem melícia / Passou toda a minha via a me encornar”. “Sei bem que em cada dia fazia a sua escapadela / Casei contigo, mas tive muitas mulheres / Tinha razão já me faltava pedalada para ela/ Agora sem mim podes fazer o que quiseres”. “À amante de Prazeres imensos / Minha doce e querida Giona / Deixo-lhe uma caixa de pensos / Para pôr na marafona”. “Ao meu querido companheiro / O que eu vou deixar nem eu sei / Ah! Se não tivesse morrido / Havia ainda casamento gay”.

“E para não andar de perna aberta / Com o cio de uma gata / Deixo à filha Adalberta / Uma boa rolha para rata”. “Cunhada amiga de peito / Josefina de mão e graça / Deixo-te o meu rabanete / Para vender na praça”.

“Para a nossa Junta de Freguesia [de Odiáxere] / Que tanto empenho mostrou / Deixo-lhe com muita cortesia / O orçamento que sempre desejou”

E “para a Câmara Municipal [de Lagos] / Deixo-lhe um Plano de Alterações / Para que na Estrada Principal [EN 125 – n.d.r.] / Não se cometam mais aberrações”. “O meu grande coração / Que sempre andou folgado / É para os vereadores da oposição / Continuarem a olhar para o lado”, são algumas das frases do testamento

“À Paróquia de Odiáxere / E à Nossa Senhora da Conceição / Deixo-lhes um terço / Que cabe na palma da minha mão / Assim como a minha colecção de cinzeiros / Com Anjinhos de Asas no Centro / Para que assim caibam mais beatas lá dentro”. “Aos amigos do lar, belos momentos / Muita conversa castiça / Deixo a alguém / A minha dentadura postiça”. “Para o Centro de Saúde / Das enfermeiras vou sentir saudades / Deixo os meus dedos / E assim lhes continuar a fazer maldades”. “Para a nossa Junta de Freguesia / Que tanto empenho mostrou / Deixo-lhe com muita cortesia / O orçamento que sempre desejou”.

“Para a Câmara Municipal / Deixo-lhe um Plano de Alterações / Para que na Estrada Principal / Não se cometam mais aberrações”. “O meu grande coração / Que sempre andou folgado / É para os vereadores da oposição / Continuarem a olhar para o lado”.

“Aos odiaxerenses críticos e derrotistas / Aqueles que nada fazem / Vou deixar-lhes um grande saco / Para a cabeça lá enfiarem”. “A todos os que não mencionei / Não me levem a mal / Aos aldrabões de que não me lembrei / Não me levem a Tribunal”

“Para todos os foliões / Que neste ano desfilaram / Deixo-lhes um álbum de recordações  / Para lhes animar os corações / E para o ano regressarem”. “Para o pessoal da GNR / Que todos os anos me acompanharam / Deixo cumprimentos a agradecimentos / Pelo trânsito e segurança que controlou”

“Aos odiaxerenses críticos e derrotistas / Aqueles que nada fazem / Vou deixar-lhes um grande saco / Para a cabeça lá enfiarem” (…) “A todos os que não mencionei / Não me levem a mal / Aos aldrabões de que não me lembrei / Não me levem a Tribunal”.

“Já vai longa a cerimónia / O testamento chegou ao fim / Assim fica para a História / Tudo o que levaram de mim”

Foi, então, que uma das mulheres em disputa com outras, e entre risadas do público, lamentou: “A mim não me deixou nada…” Enquanto isso, uma outra apresentava condolências à viúva.

Bidão de grandes dimensões serve para queimar boneco que desempenhou o papel de morto neste Enterro do Carnaval

Em seguida, e ao contrário de sucedeu noutros anos, teve lugar a cremação, com o morto, que, afinal, não passava de um boneco, a arder num bidão de grandes dimensões. Pouco depois, e já com um altifalante ligado no recinto, Sofia Santos, presidente da Direção do Clube Desportivo de Odiáxere, entidade organizadora do Carnaval, agradeceu a ajuda, entre outros, do “Grupo de Amigos do Chinicato”, da “Câmara Municipal de Lagos”, da “Junta de Freguesia”, do “senhor José Franco”, também colaborador no evento, e de “Luís Morgado [presidente da Direção do Rancho Folclórico e Etnográfico de Odiáxere- n.d.r] que desempenhou “mais um ano” o papel de “padre” neste Enterro, e à sua colega “Tânia” Bandarriha. “Espero que tenham gostado e muito obrigado”, acrescentou Sofia Santos, depois de lamentar o mau tempo que acabou por condicionar os festejos do Carnaval antes do Entrudo.

Por sua vez, Tânia Bandarrinha, membro da Direção do Clube Desportivo de Odiáxere, dirigiu um agradecimento aos “presentes e ausentes” e despediu com “Viva o Carnaval de Odiáxere!” Ouviram-se aplausos.

E como novidade neste ano, um segredo bem guardado pela organização do evento, ainda houve tempo para ver, durante cerca de um minuto, antes das 22h30, fogo-de-artifício lançado junto ao moinho, do outro lado do local onde decorreu o Enterro, para surpresa de quem assistia ao espectáculo que aposta em manter bem vivas tradições culturais nesta localidade do concelho de Lagos.