Celso Costa, membro do Comité Central do PCP, ao ‘Litoralgarve”: “Os resultados maus, propriamente, não nos desanimam” e “estamos disponíveis para dar a volta à situação”

Em entrevista concedida ao nosso Jornal, após ter estado presente na inauguração da exposição sobre o 50º. aniversário do 25 de Abril, na tarde de sexta-feira, dia 15 de Março, no Armazém Regimental de Lagos, situado na Praça do Infante Dom Henrique, Celso Costa, natural de Bensafrim, neste concelho, membro do Comité Central do PCP e responsável pela Direção da Organização Regional do Algarve do partido, reconheceu “problemas” internos e disse que está a ser feita uma “avaliação” ao nível das concelhias.

 “O PCP perdeu votos em todo o lado. Mas para muitos o alvo principal parecia ser o PCP”, notou aquele dirigente comunista, considerando que a subida do Chega é uma situação “transversal” no país e um sentimento de “descontentamento” perante o governo socialista.

José Manuel Oliveira

“Tenho de esperar para ver. Mas num governo do PSD esperamos muito pior ainda do que foi o governo de há dez anos entre PSD e CDS, ao nível de retrocesso social, com ataque aos direitos dos trabalhadores, aumento do empobrecimento da população e ataque aos serviços públicos”. Foi este o cenário traçado por Celso Costa, membro do Comité Central do Partido Comunista Português (PCP), em entrevista ao ‘Litoralgarve’, quando o questionámos sobre o que espera do próximo governo, no final da inauguração da exposição sobre o 50º. aniversário do 25 de Abril, na tarde de sexta-feira, dia 15 de Março de 2024, no Armazém Regimental de Lagos, situado na Praça do Infante Dom Henrique.

Governo da Aliança Democrática “vai ser pior do que foi há dez anos”, no tempo de Passos Coelho e Paulo Portas, com a ‘troika’, cortes nas pensões e salários

Aquele dirigente comunista garantiu “não ter quaisquer dúvidas sobre as medidas de retrocesso de uma política de direita”, sublinhando que se “receia”, nomeadamente, cortes de pensões de reforma e de salários, como sucedeu durante o período da ‘troika’ (de 2011 a 2015), com o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, num governo formado pelo PSD e CDS-PP, partido então liderado por Paulo Portas. “Vai ser pior do que foi há dez anos”, insistiu Celso Costa.

“Os resultados finais nestas eleições legislativas apontam para uma maioria de direita na Assembleia da República, o que está contra a formação de um governo à esquerda. Fomos a votos com um programa próprio. Houve outros partidos de esquerda que, também, têm os seus próprios programas. Antes, como agora, o que interessa são as políticas apresentadas. Não temos quaisquer dúvidas sobre as medidas de retrocesso que continuam a que chamamos política de direita”, insistiu, nesta breve entrevista concedida ao ‘Litoralgarve, aquele membro do Comité Central do PCP e responsável, desde Janeiro de 2023, pela Direção da Organização Regional do Algarve (DORAL) deste partido.

“A nossa proposta é aumentar as pensões e os salários para comemorar condignamente o 25 de Abril, combatendo essa necessidade urgente de fazer face ao custo de vida”

No tocante à moção de rejeição a apresentar na Assembleia da República, já anunciada pelo PCP, admitiu que, apesar de a direita estar em maioria, possam ocorrer “alguns entendimentos à esquerda”. “O PCP nunca foi contra medidas positivas, como os salários e a subida das pensões. Estamos a inaugurar [em Lagos] a exposição dos 50 anos do 25 de Abril [de 1974] e a nossa proposta é precisamente aumentar as pensões e os salários para comemorar condignamente 25 de Abril, combatendo essa necessidade urgente de fazer face ao custo de vida”, sublinhou Celso Costa.

“Independentemente dos resultados finais, pouco alterará a situação, em que existe uma maioria de direita na Assembleia da República”

Numa altura em que ainda faltam eleger quatro deputados para o Parlamento (dois do Círculo da Europa e dois Fora da Europa, resultados que só serão conhecidos no dia 20 de Março, quarta-feira), desconhecendo-se qual o partido mais votado nestas eleições legislativas, apesar de a esquerda se encontrar em minoria, aquele dirigente do PCP lembrou: “Tudo isto encaixa, perfeitamente, naquilo que sempre dissemos. [Ou seja], que as eleições para a Assembleia da República são para eleger 230 deputados e não o primeiro-ministro, nem a formação de qualquer governo. Independentemente dos resultados finais, pouco alterará a situação, em que existe uma maioria de direita na Assembleia da República.”

“Qualquer apoio quer da Iniciativa Liberal, quer do Chega, a qualquer governo do PSD, suportado pelo CDS, vai ser um programa mau”

Perante esse novo quadro, o futuro do país “vai depender da correlação de forças na Assembleia da República e entendimentos que a Direita irá fazer.” “Mais do que nesta fase, qualquer apoio quer da Iniciativa Liberal, quer do Chega, a qualquer governo do PSD, suportado pelo CDS, vai ser um programa mau”, perspectivou Celso Costa. Isto, porque, reforçou, “não vai dar resposta aos problemas que aí estão e daí esta luta desencadeada pelo PCP durante esta campanha eleitoral.”

“Problemas nossos também os temos e estamos, agora, a fazer a avaliação. Não diria propriamente [que é] um problema do Algarve. O PCP perdeu votos em todo o lado. Mas para muitos o alvo principal parecia ser o PCP”

E o que se se passou no Algarve para o PCP (integrado na CDU – Coligação Democrática Unitária, com o Partido Ecologista ‘Os Verdes’) não conseguir eleger um único deputado, como, de resto, sucede há anos. O que poderá ter falhado?

“O que poderá ter falhado?…”, interrogou-se, ele próprio, Celso Costa, em jeito de reflexão, reagindo logo em seguida: “O PCP bateu-se por esse objectivo. Há aqui uma conjuntura nacional, os problemas do Algarve são problemas a nível nacional, uma consequência ideológica forte contra o partido”.

Por outro lado, “problemas nossos também os temos e estamos, agora, a fazer a avaliação, o rescaldo”, reconheceu aquele dirigente comunista. Mas o que poderá ter falhado? – insistiu o repórter do ‘Litoralgarve’. “Não diria propriamente [que é] um problema do Algarve. O PCP perdeu votos em todo o lado. Mas para muitos o alvo principal parecia ser o PCP, uma ofensiva contra o PCP”, observou. E sem hesitação, Celso Costa reforçou a ideia, de resto, defendida pelo partido: “O PCP está sempre em luta. O resultado contra todas as forças que o queriam deitar abaixo, é uma prova de vitalidade, prova de força e, sobretudo, de que estamos cá e prontos para a luta”, vincou.

E prosseguiu: “Temos, agora, as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, toda a luta da força dos trabalhadores, vamos continuar a apoiar. Na sexta-feira [dia 15 de Março de 2024] estivemos presentes nas concentrações de jornalistas em solidariedade na greve de jornalistas [em luta por melhores salários e condições no desempenho da sua actividade – n.d.r.] e noutras acções que venham a ter desenvolvimento, também estaremos presentes.”

“Estamos em plena campanha para o Parlamento Europeu (…) O objectivo será, se possível, aumentar o número de votos e de percentagem. Neste momento, temos dois deputados. Tentaremos a eleição de mais um deputado.” 

Depois das legislativas antecipadas, no dia 10 de Março de 2024, aquele membro do Comité Central do PCP aponta já às eleições para o Parlamento Europeu, que terão lugar a 09 de Junho deste ano. “Estamos em plena campanha para o Parlamento Europeu. Na sexta-feira, a nossa deputada no Parlamento Europeu, Sandra Pereira, já esteve com pescadores em Albufeira, com trabalhadores da grande distribuição do Centro Comercial da Guia [neste concelho] e à porta de um hotel em Albufeira a contactar trabalhadores. E no sábado, a contactar a população no Mercado Municipal de Faro”, referiu Celso Costa.

Qual é o vosso objectivo nas eleições para o Parlamento Europeu? “O objectivo será, se possível, aumentar o número de votos e de percentagem. Neste momento, temos dois deputados [João Pimenta Lopes e Sandra Pereira]. Tentaremos a eleição de mais um deputado”, respondeu. 

Subida do Chega no Algarve, onde é o partido mais votado? “Estamos a fazer uma avaliação nas concelhias. Estas coisas não se baseiam numa freguesia específica, ou num contexto específico. Há aqui uma situação que foi transversal.”

Já em relação à subida do Chega, sobretudo no Algarve, onde se tornou o partido mais votado, e em particular no concelho de Lagos, em que obteve a maioria dos votos nas freguesias da Luz e de Odiáxere, aquele dirigente comunista, natural de Bensafrim, disse que o seu partido está a avaliar a situação. “Estamos a fazer uma avaliação nas concelhias. Estas coisas não se baseiam numa freguesia específica, ou num contexto específico. Há aqui uma situação que foi transversal. Faz parte da ofensiva política e ideológica que aí está também para um projecto reaccionário. A Iniciativa Liberal e o Chega promovem uma alternativa ao PS que, durante estes dois anos e meio, comprovou que não deu soluções ao país. E o Algarve teve uma expressão mais expressiva do Chega a nível nacional”, sublinhou Celso Costa.

“Mais do que essa votação no Chega, muitas pessoas manifestaram descontentamento pela actual situação, no Algarve, agravada por questões particulares. A nível nacional [a votação] conseguiu transformar uma força reaccionária num projecto político que não responde aos problemas que aí estão. Pelo contrário, criam-se outros problemas, dificuldades sem soluções.”

E adiantou: “Mas mais do que essa votação no Chega, muitas pessoas manifestaram descontentamento pela actual situação, no Algarve, agravada por questões particulares. A nível nacional, [a votação] conseguiu transformar uma força reaccionária num projecto político que não responde aos problemas que aí estão. Pelo contrário, criam-se outros problemas, dificuldades sem soluções”, lamentou aquele elemento do Comité Central do PCP.

Perante tal cenário, em tempo de crise e numa altura em que continua a perder eleitores, Celso Costa acabou por deixar um recado: “O PCP está disponível para dar a volta à situação. O PCP continua na luta. Os resultados bons animam-nos; os resultados maus, propriamente, não nos desanimam. Isto porque sabemos que os nossos adversários sabem que o PCP não desanima.”

Regressar à ‘geringonça’, com PS, PCP e Bloco de Esquerda? “Esses tempos já lá foram e agora esta situação política não se enquadra nessa situação. Mas temos de estar disponíveis para apoiar todas as medidas positivas”

Sobre o futuro e um eventual regresso àquilo que ficou conhecido por ‘geringonça’, num acordo parlamentar estalecido entre o PS, o PCP e o Bloco de Esquerda, que permitiu ao socialista António Costa chegar a primeiro- ministro e formar governo, em 2015, quando o PSD e o CDS-PP tinham vencido as eleições legislativas com maioria relativa, Celso Costa mostrou-se, acima de tudo, cauteloso e realista. “É uma questão muito específica em torno de uma solução política e medidas concretas. Essa palavra geringonça deduz, sem especificar, uma vida política nacional, em que traduz propriamente o avanço de travar aquela política de direita do PSD e CDS. Ainda bem que, nesse momento, travou a situação criada durante quatro anos e foi possível voltar a conquistar algumas medidas e repor direitos e garantias dos trabalhadores e do povo”, afirmou o dirigente do PCP. Contudo, notou, “esses tempos já lá foram e agora esta situação política não se enquadra nessa situação”, que levou à ‘geringonça’, com o acordo estabelecido pelo PS, PCP e Bloco de Esquerda na Assembleia da República. “Mas temos de estar disponíveis para apoiar todas as medidas positivas”, prometeu, a concluir, Celso Costa.