Quase meio milhar de pessoas aderiu à iniciativa ‘Open Day’, de manhã até ao final da tarde, com fotos e filmagens para recordação. “Foi bem organizado e uma oportunidade para vermos como funciona a atividade dos bombeiros. As pessoas só se lembram dos bombeiros para apagar fogos”, destacou, em declarações ao ‘Litoralgarve”, Susana Marreiros, enquanto os filhos se preparavam para experimentar uma embarcação destinada a salvamento aquático.
“Um, dois, três! Vou ganhar coragem para subir e ver a cidade”. Foi assim que José Silva, de 44 anos, motorista da Uber, residente em Sintra e agora em Albufeira, tentou seguir na auto-escada dos Bombeiros Voluntários de Lagos, pelas 18h51m do dia 17 de Julho de 2022 (domingo), devidamente protegido com um capacete e acompanhado por operacionais da corporação, para avistar a cidade a trinta metros de altura. Seria o último passageiro da auto-escada, integrado na iniciativa ‘Open Day’ dos Bombeiros Voluntários de Lagos, a fim de assinalar o 136º. aniversário desta associação humanitária, com o quartel aberto à população, das 10h30m às 18h30m, para mostrar a atividade que desenvolvem e as viaturas e outros meios de prestação de socorro de que dispõem.

José Silva acabou por desistir de subir na auto-escada e desabafou ao ‘Litoralgarve’: “É demasiado alto para mim e sou demasiado nervoso”
Contudo, durou pouco, ou mesmo nada, a aventura de José Silva ao desistir um minuto depois, pelas 18h52m, pedindo aos bombeiros para sair da estrutura que ia começar a ser erguida, com a auto-escada. “Obrigado pelo convite”, agradeceu aos operacionais. “É demasiado alto para mim e sou demasiado nervoso”, reconheceu José Silva, ao ‘Litoralgarve’, suspirando de alívio, ao pisar o chão. E desabafou: “É a mente que manda… Amanhã, se calhar até seria capaz…”
“É uma vista maravilhosa e foi uma experiência interessante”, enalteceu uma senhora, para quem “os bombeiros estão bem equipados”
Fotos e filmagens, sobretudo com telemóveis, serviram para centenas de passageiros que, ao longo do dia foram na estrutura de apoio à auto-escada, ficar com uma recordação da vista panorâmica sobre a cidade de Lagos e, nomeadamente, da zona da Meia-Praia. Enquanto, cá em baixo, sentado num equipamento, um bombeiro manobrava a auto-escada, um outro seguia no interior da estrutura que ia sendo levantada com as pessoas que se iam disponibilizando para o efeito. Numa das vezes, um casal e uma criança deliciavam-se com esta aventura que teve a duração de quatro minutos. O tempo máximo para o sobe e desce. “É uma vista maravilhosa e foi uma experiência interessante”, observou, ao nosso Jornal, um dos elementos do casal. Pouco depois, uma senhora, com dois filhos, de seis e sete anos, também enalteceu a “vista panorâmica” sobre Lagos, garantindo não ter tido receio das alturas. “Os bombeiros estão bem equipados”, considerou.
“Só falta o barco andar”, gracejou um menino a fazer de condutor de uma embarcação de borracha para salvamento aquático

Já pelas 19h01m, após terem desativado a auto-escada, o equipamento mais solicitado durante o dia pelo público, os operacionais do corpo dos Bombeiros Voluntários de Lagos deram por concluído o ‘Open Day’, dedicado à população e que reuniu quase meio milhar de pessoas, entre residentes e turistas.
Muitas crianças escolheram uma pequena embarcação de borracha, destinada a salvamento aquático e que estava instalada junto a um dos portões do quartel. E até ‘exercitaram’ manobras como se estivessem no mar, ao volante da embarcação, na qual se encontrava um boneco, também de borracha, a imitar um tripulante. “Só falta o barco andar”, gracejava um miúdo.
Refira-se que esta embarcação de salvamento aquático conta com dois condutores, uma equipa constituída por dez mergulhadores e seis nadadores-salvadores dos Bombeiros Voluntários de Lagos.
Enquanto os filhos se preparavam para experimentar essa embarcação, a mãe, Susana Marreiros, enaltecia esta iniciativa do ‘Open Day’, em declarações ao ‘Litoralgarve’: “Foi bem organizado e uma oportunidade para vermos como funciona a atividade dos bombeiros. As pessoas só se lembram dos bombeiros para apagar fogos”.
O lamento de um operacional dos bombeiros: “Na Ponta da Piedade, quando alertamos as pessoas para o perigo de poderem cair de falésias com 50, 60, 70 metros de altura, olham-nos e nada…”
Sensivelmente a meio do quartel, podiam ver-se cordas, fios e cabos, entre outros equipamentos de apoio a resgate, destinados à Equipa de Salvamento em Grande Ângulo, criada em Novembro de 2021 nos Bombeiros Voluntários de Lagos. O material custou vinte mil euros e foi adquirido em Almada. Com um total de quinze operacionais, essa valência tem três equipas ao longo das 24 horas do dia. Já salvaram várias pessoas, entre elas um pescador lúdico na Ponta da Piedade, cães em Barão de São João de João e um pequeno cavalo que caiu num poço na zona de Odiáxere.
“Na Ponta da Piedade, quando alertamos as pessoas para o perigo de poderem cair de falésias com 50, 60, 70 metros de altura, olham-nos e nada…”, lamentou, ao ‘Litoralgarve’, um bombeiro, lembrando: “Não temos autoridade para obrigar as pessoas a saírem do local, apesar dos riscos que correm”.
Suporte Básico de Vida e manutenção de extintores de incêndios
Um outro espaço do quartel dos Bombeiros Voluntários de Lagos estava reservado para informações sobre Suporte Básico de Vida, adulto e pediátrico, prestação de primeiros socorros e equipas de primeira intervenção. Noutro local do edifício, encontrava-se veículo destinado à venda e manutenção de extintores de fogos, com assistência técnica.
ENTREVISTA AO COMANDANTE MÁRCIO REGINO

“Esta problemática das arribas é aquela que eu vejo em que há mais desrespeito pela segurança”
Em entrevista concedida ao ‘Litoralgarve’, o comandante dos Bombeiros Voluntários de Lagos desde Maio de 2020, Márcio Regino, também coordenador local da Proteção Civil, alerta para os perigos existentes neste concelho, destaca a ação da equipa de salvamento em grande ângulo, recentemente reativada, e das embarcações de prestação de socorro aquático. E explica o que está a ser levado a efeito para enfrentar a queda de edifícios degradados e sismos.
Litoralgarve – Como surgiu a ideia do chamado ‘Open Day’, com o quartel dos Bombeiros Voluntários de Lagos aberto à população?
Comandante Márcio Regino – Esta ideia do ‘Open Day’ surgiu na sequência das comemorações do 136º. aniversário da nossa associação. Portanto, somos um corpo de bombeiros histórico na região do Algarve. Devido ao estado de alerta especial no âmbito do dispositivo de combate a incêndios e por termos veículos e operacionais pré-posicionados a esse nível, não nos foi possível fazer aquilo que era a cerimónia tradicional com uma formatura e entrega de condecorações. Isto, porque não fazia sentido fazer essa cerimónia com alguns operacionais e termos outros empenhados naquilo que era o dispositivo no âmbito do alerta especial.
Surgiu-nos, portanto, a ideia de termos aqui, no quartel, algo diferente e aberto à população, nomeadamente o ‘Dia Aberto’, com um conjunto de atividades para crianças e mesmo para adultos, de forma a perceberem quais são as nossas valências operacionais para resposta às ocorrências, os nossos equipamentos.
De realçar que, nos últimos dois anos, criámos equipas operacionais, nomeadamente de salvamento em grande ângulo e de salvamento aquático, e investimos em formação para os operacionais e equipamentos. E neste momento, estamos a desenvolver outras valências operacionais na área dos escoramentos edificados, resgate em estruturas colapsadas. Já estamos a equipar e a formar pessoas, porque nos encontramos efetivamente numa zona sísmica e vulnerável a este tipo de ocorrências e temos de estar preparados para tal.
Este objetivo do ‘Open Day’ foi mesmo um aproximar à população, de modo a que as pessoas, tanto os habitantes do concelho de Lagos, como os nossos turistas, percebam que nós temos todas as capacidades de respostas para poder resolver as ocorrências de uma forma eficaz e eficiente.

Cerimónia oficial do aniversário possivelmente em Outubro, com condecorações e louvores
Litoralgarve – E como reagiu o público?
Comandante Márcio Regino – Tivemos muitas pessoas, se calhar umas trezentos, quatrocentas. Nem temos um apanhado oficial porque vieram muitas, muitas pessoas ao longo do dia, e tínhamos várias bancas de demonstração daquilo que é a nossa atividade. Vieram muitos cidadãos portugueses e estrangeiros, turistas que se encontram de férias e residentes no concelho de Lagos.
Litoralgarve – Quando terá lugar a cerimónia oficial das comemorações deste aniversário?
Comandante Márcio Regino – Temos todo o interesse na cerimónia, porque tínhamos planeado uma cerimónia com toda a dignidade para os nossos operacionais. E quando se iniciar agora a chamada época baixa no que diz respeito aos incêndios rurais, possivelmente em Outubro, iremos fazer esta digna cerimónia com um conjunto de condecorações, com um conjunto de louvores e com a presença de representantes das entidades que nos têm apoiado ao longo de todos os anos.
O que já conseguiu a equipa de salvamento em grande ângulo em menos de um ano
Litoralgarve – Qual é a importância da valência de salvamento em grande ângulo e Salvamento Aquático para os Bombeiros Voluntários de Lagos?
Comandante Márcio Regino – Há dois anos surgiu a reestruturação da equipa de Salvamento Aquático, uma vez que já tivemos salvamento aquático e mergulhadores. Os Bombeiros de Lagos sempre foram muito reconhecidos para estas missões. Entretanto, as coisas deixaram de acontecer…
Estamos num concelho com muitas arribas e várias casuísticas de ocorrências. A situação mais complexa tem a ver com pescadores lúdicos. Esta equipa conta com quinze operacionais, todos equipados com material bastante capaz inerente às funções, e desde que a criámos, há sensivelmente um ano, já fizemos seis resgates de pessoas, um dos quais numa situação mais complexa na zona da Ponta da Piedade, com um senhor pescador lúdico que ficou a meio de uma arriba, a uma zona muito difícil de aceder, e foi um sucesso essa operação. O objetivo é estarmos em condições de responder às ocorrências que surgirem.
Por outro lado, tivemos o episódio de um cavalo, ainda bebé, que caiu num poço, situado na zona de Odiáxere, com cerca quinze metros de profundidade e uma entrada muito estreita, que implicaram umas técnicas de salvamento que demoraram algum tempo. O cavalo não estava ferido, estava bem e tínhamos de ter toda a segurança para podermos resolver a situação, garantindo sempre, acima de tudo, a segurança dos operacionais e da nossa vítima, que neste caso era um animal. É gratificante quando assim acontece. E é gratificante quando apostamos em formação para os nossos operacionais e em equipamentos para atingirmos estes resultados.

“Já temos uma equipa composta por dez mergulhadores e um conjunto de nadadores-salvadores e condutores de embarcações de socorro, com todo o equipamento topo de gama no que diz respeito a mergulho de profundidade e de resgate”
E acrescentou:
– Neste momento, já temos uma equipa composta por dez mergulhadores e um conjunto de nadadores-salvadores e condutores de embarcações de socorro, com todo o equipamento topo de gama no que diz respeito a mergulho de profundidade e de resgate. Também com o apoio excelente da Câmara Municipal de Lagos, adquirimos uma embarcação com maior dimensão, com maior comparticipação.
Embarcação de salvamento aquático com maiores dimensões poderá atuar em grutas, junto a praias e em alto mar
Litoralgarve – O que vai permitir essa embarcação?
Comandante Márcio Regino – Essa embarcação, de maiores dimensões, irá permitir que consigamos ter um resultado mais positivo numa ocorrência, nomeadamente naquilo que é o tempo de resposta. Isto, além do número de operacionais e de equipamentos a poder transportar nessa embarcação de salvamento aquático. A nossa embarcação atual é mais pequena.
Litoralgarve – Onde poderão atuar esses meios de salvamento aquático? Por exemplo, nas grutas, junto às praias, em alto mar?
Comandante Márcio Regino – Podem atuar nessas zonas.
Litoralgarve – E até que distância?
Comandante Márcio Regino – Não consigo dizer quais as milhas marítimas.
Litoralgarve – Mesmo com vento sueste, considerado bastante perigoso nesta zona da costa algarvia?
Comandante Márcio Regino – Sim, com sueste, mas temos de ver as condições do mar. É que para salvarmos, também temos de ter condições. Se percebermos que não temos capacidade de salvar com aquela embarcação… E aqui ressalvo que toda a orla costeira é do domínio público marítimo, portanto, da responsabilidade da Autoridade Marítima. Mas o que tem estado a acontecer é que trabalhamos em parceria. É lógico que se tivermos aqui uma daquelas suestadas fortes, o salvamento terá de ser prestado com uma embarcação maior e a nossa poderá não ser suficiente.
“Estamos numa zona com atividade sísmica e se ficar alguém soterrado, ou edifícios prestes a ruir, o nosso objetivo é termos equipamentos e pessoas formadas para poderem fazer ali alguma suspensão de cargas, um evitar da queda de estruturas de edifícios”
Litoralgarve – Destacou, também, a aposta na valência de escoramentos em edificados. O que significa?
Comandante Márcio Regino – Já formámos dezasseis operacionais em escoramentos em edificados. Estamos numa zona com atividade sísmica e se ficar alguém soterrado, ou edifícios prestes a ruir, o nosso objetivo é termos equipamentos e pessoas formadas para poderem fazer ali alguma suspensão de cargas, um evitar da queda de estruturas de edifícios.
Litoralgarve – Existem muitos edifícios nessa situação?
Comandante Márcio Regino – Não. A casuística não é muita. Felizmente, não temos casuística com atividade sísmica, mas nunca se sabe o dia de amanhã. E a minha forma de ver as coisas é que devemos estar preparados.
Edifícios degradados, em risco de queda? “Sim, temos alguns, inclusive na zona do casco antigo da cidade de Lagos, entre outros locais”
Litoralgarve – E edifícios já degradados, em risco de cair?
Comandante Márcio Regino – Sim, temos alguns, inclusive na zona do casco antigo da cidade de Lagos, entre outros locais.
Litoralgarve – Quantos?
Comandante Márcio Regino – Não consigo apontar números, mas existem alguns edifícios nessa situação. Está a ser feito o levantamento dos mesmos para os proprietários serem notificados para resolverem as situações. O objetivo desta equipa operacional [de escoramentos em edificados] é poder fazer face a qualquer ocorrência neste âmbito. Esperemos que não aconteça, mas se acontecer temos de estar preparados. A minha ótica é mesma esta. É que não estarmos preparados para as ocorrências é muito mau. E portanto, há que investir, formar as pessoas.
Curso designado Busca e Resgate em Estruturas Colapsadas terá lugar no edifício do antigo Hotel Golfinho, em Lagos

E adiantou:
– Para complementar estas formações de escoramentos em edificados, na primeira semana de Outubro deste ano iremos fazer, com a Escola Portuguesa de Salvamento, também uma formação grupinada para vinte operacionais. Trata-se de um curso com a designação BREC – Busca e Resgate em Estruturas Colapsadas, que terá em Lagos. À partida está agendado para ser no edifício do antigo Hotel Golfinho, uma vez que tem as estruturas onde podemos, de alguma forma, treinar toda esta problemática de estruturas colapsadas. É de algum modo para complementar esta primeira formação que fizemos a este nível.
“É agradável ver as esplanadas cheias com turistas, mas temos de pensar também naquilo que é o socorro, pois é um problema quando temos qualquer ocorrência”
Litoralgarve – Que alertas deixa às pessoas em Lagos, onde existem muitas esplanadas de restaurantes e ‘snack-bares’ no centro da cidade, nesta altura do ano, e que por vezes até se torna difícil a circulação pedonal de quem ali passa?
Comandante Márcio Regino – É agradável ver as esplanadas cheias com turistas, mas temos de pensar também naquilo que é o socorro, pois é um problema quando temos qualquer ocorrência. Não só ao nível de incêndios, mas também de situações com ambulâncias, em que os proprietários dos estabelecimentos têm de desmontar as esplanadas de uma forma rápida. Não está ao nosso alcance retirar as esplanadas, mas quando surge alguma ocorrência as pessoas colaboram e retiram logo essas estruturas para nos permitir uma passagem rápida.
Litoralgarve – Sente que há confusão, muito movimento no centro da cidade a esse nível para um rápido acesso de uma ambulância ou de um carro dos bombeiros?
Comandante Márcio Regino – Muitas vezes, o movimento até é apeado. A Rua 25 de Abril, que é uma das principais artérias do casco antigo da cidade, tem vários restaurantes que ocupam aquela zona. Não estão a obstruir a passagem de veículos, são as pessoas que estão a circular na via pública porque as esplanadas já estão ali instaladas. Mas, se necessário, em caso de emergência, rapidamente se desviam para que passemos.
Nas praias, as pessoas “à nossa chegada até reagem bem. Mas temos assistido que, depois, assim que viramos as costas, vão para a sombra nas arribas”, com os perigos daí resultantes
Litoralgarve – E que outros alertas pretende lançar, sobretudo em Agosto, o mês de férias para muita gente no Algarve e, em particular, no concelho de Lagos?
Comandante Márcio Regino – Existem vários alertas. Esta problemática das arribas… Também sou coordenador da Proteção Civil e em todos os anos reforçamos a sinalética, tanto no areal, como no cimo da arriba, para que as pessoas não descansem junto àquelas sombras das arribas. Por isso, colocamos sinaléticas a alertar para o perigo de queda de pedras e sensibilizamos os banhistas, bem como os nadadores-salvadores para a situação.
Litoralgarve – Como reagem as pessoas, os banhistas?
Comandante Márcio Regino – À nossa chegada até reagem bem. Mas temos assistido que, depois, assim que viramos as costas, vão para a sombra nas arribas. Esta problemática das arribas é aquela que eu vejo em que há mais desrespeito pela segurança.
As cinco praias do concelho de Lagos com arribas em risco
Litoralagarve – E onde ficam as arribas em maior perigo de desmoronamento no concelho de Lagos?
Comandante Márcio Regino – As arribas da Praia da Dona Ana, onde ainda se veem muitos banhistas às sombras, as da Praia do Pinhão, na Praia da Batata, na do Porto Mós, na zona mais próxima do Restaurante Campimar, na Praia da Luz, sobretudo no lado da zona da Rocha Negra. Trata-se de um local frequentado por menos pessoas e onde elas gostam de estar o mais à-vontade possível.
“Isto é como um sismo: vai acontecer, não sabemos é quando. A pedra de uma falésia, de vez em quando cai, por isso mesmo é que alertamos as pessoas”
Litoralgarve – E a qualquer momento poderá cair uma pedra, um pedaço de uma arriba…
Comandante Márcio Regino – Isto é como um sismo: vai acontecer, não sabemos é quando. A pedra de uma falésia, de vez em quando cai, por isso mesmo é que alertamos as pessoas. E acho que deve haver uma consciencialização individual das pessoas. Também gosto de frequentar a praia, mas nunca me coloco nesses sítios. Isso vai da minha consciência. O importante aqui é que existe uma preocupação no município de Lagos em sensibilizar os banhistas, os nadadores-salvadores e na colocação de sinalética nas principais praias a alertar para o perigo de queda de desmoronamento de arribas. Aliás, a sinalética processa-se sempre de uma forma articulada com a Autoridade Marítima e com a Agência Portuguesa do Ambiente. Não podemos colocar as placas só porque pretendemos em determinado sítio.
“Sobretudo neste período do ano em que temos muitos turistas, pessoas que às vezes até desconhecem as regras de trânsito do nosso país, notam-se nas rotundas alguns descuidos por parte de condutores. Temos tido algumas situações de acidentes, coisas leves. Mas realmente acontecem”
Litoralgarve – Em relação ao trânsito de veículos, que alerta pretende lançar, num concelho onde se verificam, diariamente, atropelos ao Código da Estrada?
Comandante Márcio Regino – A área do trânsito não é propriamente a minha área de conforto. Sobretudo neste período do ano em que temos muitos turistas, pessoas que às vezes até desconhecem as regras de trânsito do nosso país, notam-se nas rotundas alguns descuidos por parte de condutores. Temos tido algumas situações de acidentes, coisas leves. Mas realmente acontecem. Sei que as autoridades policiais com responsabilidade, fazem as suas ações de sensibilização. Nós no Algarve, através do Comando Regional de Emergência e Proteção Civil, também nos períodos de épocas festivas, nomeadamente na Páscoa, no Natal e na passagem-de-ano, também fazemos campanhas de sensibilização com veículos pré-posicionados no sentido de sensibilizar as pessoas para cumprirem as regras de trânsito, de forma a evitar acidentes. Começa a haver cada vez mais um cuidado neste capítulo.
Litoralgarve – Mas veem-se cada vez mais, por exemplo, bicicletas por cima dos passeios, em zonas pedonais e noutros locais onde é a proibida a circulação de trânsito… E até sem luzes à noite. Acha necessário algum aviso aos ciclistas em manobras de infração?
Comandante Márcio Regino – Também vejo todos os dias essa situação. Até mesmo na estrada. Mas não sei responder a essa questão.
“Estamos a apostar em tudo o que seja formação diferenciada, nomeadamente em formar os nossos operacionais em técnicas de controlo de acidentes com matérias perigosas (…) temos um tráfego muito grande de veículos com combustíveis, gás e outras matérias perigosas na nossa região”
Litoralgarve – Que outros projetos têm os Bombeiros Voluntários de Lagos?
Comandante Márcio Regino – Neste momento, estamos a apostar em tudo o que seja formação diferenciada, nomeadamente em formar os nossos operacionais em técnicas de controlo de acidentes com matérias perigosas. O que volto a dizer é que a casuística, felizmente, também não é muita. Mas é uma situação em que temos de estar com aptidão para tal, porque temos um tráfego muito grande de veículos com combustíveis, gás e outras matérias perigosas na nossa região. Temos de estar preparados para resolver estas ocorrências, que são de alguma forma diferentes, mais complexas do que um próprio incêndio. Estamos também a apostar muito naquilo que é formação interna ou externa na área dos incêndios urbanos. Isto sempre aconteceu, mas estamos a dar continuidade cada vez mais aos nossos operacionais para estarem preparados do ponto de vista formativo e em equipamentos nesta área dos incêndios urbanos.
“Há um ano fizemos a aquisição de equipamento para extinção de incêndios para veículos”
Litoralgarve – E de que forma está a ser desenvolvido esse trabalho?
Comandante Márcio Regino – Sensivelmente há um ano fizemos a aquisição de equipamento para extinção de incêndios, mais propriamente para veículos. Também temos casuística de incêndios em viaturas. Rapidamente extingue o fogo em veículos, não há validade nenhuma de haver reativação e provoca logo um arrefecimento no veículo. Tentamos sempre evoluir nestes equipamentos para tornar as ocorrências mais eficazes e eficientes.
Mata Nacional de Barão de São João encontra-se protegida com silvicultura preventiva para evitar fogos e caçadores “têm sido uma mais-valia”
Litoralgarve – Nesta época de Verão, com intenso calor, propícia a incêndios florestais, como está a Mata Nacional de Barão de São João, neste concelho?
Comandante Márcio Regino – A Mata de Barão de São João, nos últimos anos, tem sido alvo de muito trabalho de silvicultura preventiva. Portanto, este ano foi mais um, em que, com recurso aos nossos Sapadores florestais das Terras do Infante, criámos bastantes hectares de faixas de gestão combustível. Ao mesmo tempo, protocolámos com os caçadores naquilo que são as zonas de caça deles e que convergem com áreas de perigo de incêndio rural, tendo criado muitos hectares neste âmbito da silvicultura preventiva, nomeadamente em faixas de rede primária e faixas de rede de combustível. Os caçadores têm sido uma mais-valia porque são uns parceiros fundamentais no decorrer destes trabalhos, bem como nestes períodos de vigilância, em que estão sempre atentos, pois também têm os seus interesses que estas áreas rurais estejam conservadas.
Litoralgarve – E como tem sido a ação dos Bombeiros Voluntários de Lagos nos incêndios rurais no Algarve?
Comandante Márcio Regino – Gostaria de realçar que nestes períodos de alerta laranja, ou alerta vermelho, por solicitação do Comando Regional de Emergência e Proteção Civil, constituímos três equipas de combate a incêndios e mais duas equipas de logísticas de apoio. Ou seja, são três veículos de combate a incêndios, mais dois veículos autotanques guarnecidos. Nestes períodos de alerta, temos cerca de 30 a 35 operacionais de serviço, que é a prontidão máxima que podemos ter.
Noventa operacionais no ativo, oito ambulâncias, e à espera de mais uma, além de um novo veículo de combate a incêndios urbanos e de desencarceramento
Litoralgarve – O que vai mudar no edifício do quartel, com obras a levar a efeito?
Comandante Márcio Regino – Está prevista, dentro em breve, a remodelação das instalações, nomeadamente o aproveitamento do espaço da antiga piscina para parque de viaturas. Volto a reforçar o apoio da Câmara Municipal de Lagos, com veículos, operacionais e equipamentos. Há 40 anos, quando foi construído, este era um dos melhores quartéis do país. Neste momento, para a realidade existente já está a ficar com dimensões mais reduzidas. Vamos aproveitar o espaço da antiga piscina, porque estamos a fazer fortes investimentos em equipamentos e veículos.
Litoralgarve – Quantas viaturas têm e quantas ainda vão adquirir?
Comandante Márcio Regino – Temos oito ambulâncias. E dentro de mais uma duas semanas, teremos uma outra, uma ambulância de socorro, no ativo. Além das viaturas de combate a incêndios que já referi, iremos contar com um novo veículo com as valências de combate a incêndios urbanos e de desencarceramento. Como já indiquei, temos uma embarcação mais pequena e aguardamos uma outra de maiores dimensões, sendo nosso objetivo que esta fique atracada na zona da Marina de Lagos, de modo a que, perante qualquer ocorrência, nos possamos, rapidamente, deslocar para o local.
Litoralgarve – Qual o total de bombeiros desta corporação e quantos são necessários?
Comandante Márcio Regino – Contamos com noventa operacionais no ativo. Mas mais importante do que aumentarmos o número de efetivos, é termos operacionais com qualidade e disponibilidade, capazes de responder às solicitações.
Reportagem de José Manuel Oliveira










