10 de Junho em Lagos – Entrevista a Alexandre Nunes, vereador da CDU: “O discurso da escritora Lídia Jorge foi o momento mais marcante de todo o evento” 

Em declarações por escrito ao ‘site’ «Litoralgarve, o vereador da CDU – Coligação Democrática Unitária (PCP- Partido Comunista Português e PEV-Partido Ecologista «Os Verdes») na Câmara Municipal de Lagos, professor Alexandre Nunes, considera o discurso de Lídia Jorge, presidente da Comissão Organizadora das Comemorações Nacionais do Dia de Portugal, 10 de Junho de 2025, nesta cidade, “profundamente enraizado nos factos, revelador de um conhecimento sólido da nossa História coletiva e, ao mesmo tempo, intensamente atual.”

Por outro lado, embora destacando ter sido “claramente positivo” o balanço destas comemorações “como momento importante da cidade e do concelho” de Lagos, na opinião daquele autarca “seria desejável que tivessem sido criadas melhores condições para que a população pudesse assistir com maior conforto e proximidade ao evento, assim como contactar de forma mais direta com as entidades presentes.” Além disso, o vereador Alexandre Nunes diz o que pensa sobre outros aspectos relacionados com o Dia de Portugal, em Lagos, deixando recados para o futuro.

José Manuel Oliveira

Litoralgarve – Que balanço faz sobre as comemorações do Dia de Portugal, em Lagos, com a presença do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa?

Alexandre Nunes – O balanço que faço é claramente positivo. Este foi um momento importante de promoção da cidade e do concelho, precisamente numa data carregada de simbolismo, em que celebramos Portugal — o país com a sua história, mas também com os desafios e escolhas que temos pela frente.

“Quando existe vontade política, é possível organizar, limpar, cuidar do espaço público e fazer acontecer. A experiência prova que os meios existem — o que falta muitas vezes é prioridade e decisão.”

 Foi, além disso, uma demonstração concreta de que, quando existe vontade política, é possível organizar, limpar, cuidar do espaço público e fazer acontecer. A experiência prova que os meios existem — o que falta muitas vezes é prioridade e decisão. Cabe-nos agora garantir que esse esforço não se esgote num evento, mas se traduza numa prática contínua ao serviço da população.

“Destaco, também, a organização do evento, marcada por um elevado grau de rigor e coordenação, como é habitual nas estruturas de natureza militar”

Litoralgarve – Quais os aspetos positivos que destaca? E negativos? Como avalia a organização deste evento?

Alexandre Nunes – Como já tive oportunidade de referir, um dos aspetos mais positivos deste evento foi a valorização da cidade de Lagos — do seu passado, com

destaque para a sua importância histórica e militar, do seu presente enquanto território vivo e dinâmico, e da expectativa que se projeta para um futuro melhor, mais justo e participado.

Destaco, também, a organização do evento, marcada por um elevado grau de rigor e coordenação, como é habitual nas estruturas de natureza militar. Tudo decorreu de forma estruturada e eficiente, contribuindo para a dignidade do momento e para a imagem positiva que foi transmitida da nossa cidade.

“Seria desejável que tivessem sido criadas melhores condições para que a população pudesse assistir com maior conforto e proximidade ao evento, assim como contactar de forma mais direta com as entidades presentes”

“Num momento que se pretende de celebração coletiva, é fundamental garantir que as pessoas não sejam apenas espectadoras à distância, mas participantes efetivas — com espaço, visibilidade e oportunidades reais de envolvimento”

Litoralgarve – Se fosse presidente da Câmara Municipal de Lagos, que iniciativas teria tomado?

Alexandre Nunes – Seria desejável que tivessem sido criadas melhores condições para que a população pudesse assistir com maior conforto e proximidade ao evento, assim como contactar de forma mais direta com as entidades presentes.

Num momento que se pretende de celebração coletiva, é fundamental garantir que as pessoas não sejam apenas espectadoras à distância, mas participantes efetivas — com espaço, visibilidade e oportunidades reais de envolvimento.

Em termos gerais, “a população considerou o evento positivo, reconhecendo a visibilidade que trouxe à cidade e ao concelho. Naturalmente, como em qualquer iniciativa desta dimensão, foram também apontados alguns transtornos, nomeadamente ao nível do trânsito e da circulação, bem como alguma desorganização pontual.”

Litoralgarve – O que lhe dizem, em concreto, as pessoas com quem tem falado?

Alexandre Nunes – De forma geral, a população considerou o evento positivo, reconhecendo a visibilidade que trouxe à cidade e ao concelho. Naturalmente, como em qualquer iniciativa desta dimensão, foram também apontados alguns transtornos, nomeadamente ao nível do trânsito e da circulação, bem como alguma desorganização pontual.

São aspetos que devem ser tidos em conta no futuro, para que se possa conciliar a importância destes momentos com o mínimo de impacto negativo no quotidiano da população.

Os prós da intervenção de Marcelo Rebelo de Sousa: “O discurso do Senhor Presidente da República procurou traçar um retrato do que significa ser português, elencando um conjunto de factos e referências que são, de facto, incontornáveis na construção da nossa identidade coletiva. Foi uma intervenção simples, direta e com pontos de contacto com valores que partilhamos.”

E os contras: “Não posso deixar de assinalar uma distância entre as palavras proferidas e a prática política que tem marcado os seus mandatos. Há um desfasamento entre o apelo a certos princípios e a atuação concreta ao longo dos anos — sobretudo quando falamos de defesa dos direitos sociais, da justiça territorial ou do papel do Estado na resposta aos problemas do povo.”

Litoralgarve – O que pensa do discurso do Presidente da República, no dia 10 de Junho, na Avenida dos Descobrimentos? O que sentiu na mensagem transmitida por Marcelo Rebelo de Sousa nesta que foi a sua última participação nas comemorações do Dia de Portugal, como Chefe de Estado?

Alexandre Nunes – O discurso do Senhor Presidente da República procurou traçar um retrato doque significa ser português, elencando um conjunto de factos e referênciasque são, de facto, incontornáveis na construção da nossa identidade coletiva.Foi uma intervenção simples, direta e com pontos de contacto com valoresque partilhamos.

No entanto, não posso deixar de assinalar uma distância entre as palavras proferidas e a prática política que tem marcado os seus mandatos. Há um desfasamento entre o apelo a certos princípios e a atuação concreta ao longo dos anos — sobretudo quando falamos de defesa dos direitos sociais, da justiça territorial ou do papel do Estado na resposta aos problemas do povo. E esse é, também, um debate que importa continuar a fazer.

Lídia Jorge “soube olhar o presente com lucidez e projetar, com sentido crítico, os desafios que se colocam ao nosso futuro enquanto país”

Litoralgarve – E acerca da intervenção da Presidente da Comissão Organizadora das Comemorações Nacionais do Dia de Portugal, em Lagos, a escritora Lídia Jorge?

Alexandre Nunes – Confesso que, para mim, o discurso da escritora Lídia Jorge foi o momento mais marcante de todo o evento. Um discurso profundamente enraizado nos factos, revelador de um conhecimento sólido da nossa História coletiva, e ao mesmo tempo intensamente atual.

Foi uma intervenção que soube olhar o presente com lucidez e projetar, com sentido crítico, os desafios que se colocam ao nosso futuro enquanto país.

Lídia Jorge recordou-nos que o tempo que vivemos exige escolhas — escolhas conscientes sobre o Portugal que queremos construir. Foi um apelo sereno, mas firme, à responsabilidade cívica e democrática de todos nós.

“A homenagem ao General Ramalho Eanes faz sentido, sobretudo pelo seu papel no percurso militar e institucional do país. É uma homenagem que, à luz da sua contribuição para a estabilização do regime democrático, pode ser considerada justa.”

Contudo, “é importante sublinhar que, no contexto político atual, este tipo de gestos pode também ser lido de forma diversa. A forma como se evocam certas figuras e momentos históricos nem sempre é neutra — e pode servir propósitos que nem sempre coincidem com a valorização do projecto democrático e progressista de Abril.”

Litoralgarve – Como reage à homenagem prestada ao general Ramalho Eanes? É justa? Porquê? 

Alexandre Nunes – O distanciamento no tempo tem frequentemente este efeito: permite uma avaliação mais serena e abrangente dos percursos individuais. Nesse sentido, considero que a homenagem ao General Ramalho Eanes faz sentido, sobretudo pelo seu papel no percurso militar e institucional do país. É uma homenagem que, à luz da sua contribuição para a estabilização do regime democrático, pode ser considerada justa.

No entanto, é importante sublinhar que, no contexto político atual, este tipo de gestos pode também ser lido de forma diversa. A forma como se evocam certas figuras e momentos históricos nem sempre é neutra — e pode servir propósitos que nem sempre coincidem com a valorização do projecto democrático e progressista de Abril. Essa é, naturalmente, a leitura crítica que também importa ter presente.

Litoralgarve – Teve oportunidade de falar com Marcelo Rebelo de Sousa? Em caso afirmativo, o que lhe disse? E que resposta obteve? 

Alexandre Nunes – Não tive oportunidade. Só um cumprimento breve.

Litoralgarve – E com membros do atual governo?

Alexandre Nunes – Não tive oportunidade, só um cumprimento breve.

“Foi interessante constatar que, quando há vontade política e sentido de responsabilidade, encontramos os meios e os recursos para fazer acontecer”

“A forma como se cuidou da limpeza e do embelezamento da cidade é prova disso mesmo. Mostra que, com organização e compromisso, é possível responder com eficácia às necessidades do território e da população. A questão que se impõe agora é: por que não manter esse nível de atenção e investimento no dia-a-dia?”

Litoralgarve – Como avalia o aproveitamento de Lagos nestas comemorações do Dia de Portugal? O que resulta deste evento?

Alexandre Nunes – Como referi anteriormente, a promoção do nosso concelho — e em particular da cidade de Lagos — foi claramente positiva. Foi interessante constatar que, quando há vontade política e sentido de responsabilidade, encontramos os meios e os recursos para fazer acontecer.

A forma como se cuidou da limpeza e do embelezamento da cidade é prova disso mesmo. Mostra que, com organização e compromisso, é possível responder com eficácia às necessidades do território e da população. A questão que se impõe agora é: por que não manter esse nível de atenção e investimento no dia-a-dia?

“Este evento voltou a demonstrar a enorme capacidade dos trabalhadores do município e da população, em geral, para acolher, com calor e generosidade, todos os que estiveram envolvidos — mesmo com os naturais constrangimentos que uma iniciativa desta dimensão acarreta”

Litoralgarve – Deve servir de exemplo para outros eventos? Quais?

Alexandre Nunes – Este evento voltou a demonstrar a enorme capacidade dos trabalhadores domunicípio e da população, em geral, para acolher, com calor e generosidade,todos os que estiveram envolvidos — mesmo com os naturaisconstrangimentos que uma iniciativa desta dimensão acarreta.Fico, por isso, com um sentimento de confiança e otimismo quanto ao futuro.

Quando é chamada, a população responde, e fá-lo com dedicação e qualidade. O verdadeiro desafio para nós, eleitos e responsáveis políticos, é criar condições para que essa participação vá além dos grandes eventos e se estenda à vida quotidiana — à resolução dos problemas concretos, à construção coletiva de soluções, ao exercício efetivo da cidadania.