Reportagem – Perto de cem pessoas no Enterro do Carnaval de Odiáxere assistem à leitura do testamento, cremação e até fogo-de-artifício, com a viúva e as amantes do morto em discussões

Um ‘bispo’, dois ‘padres’ e uma ‘freira’ participaram no cortejo por várias ruas de Odiáxere e junto à Estrada Nacional nº. 125, no concelho de Lagos. Também não faltaram, imagine-se, um penico com água para a ‘benção’ e uma peça representando um amplo pénis. No Largo da Alegria, foi queimada a caixa de madeira, com um boneco, simbolizando o morto, envolvido num lençol, para animação geral e despedida da trigésima edição do Carnaval de Odiáxere. A tradição mantém-se.

José Manuel Oliveira

Clube Desportivo de Odiáxere, no concelho de Lagos, quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2026 – 20h00. Enquanto alguns jovens jogavam ‘snooker’ e outros aos matraquilhos, e algumas pessoas assistiam, na televisão, ao jogo de futebol entre as equipas do Clube de Brugge e do Atlético de Madrid a contar para a primeira mão do ‘play-off’ da Liga dos Campeões Europeus, a poucos metros de distância várias senhoras preparavam, sobre uma mesa, a ‘urna’, flores, um ‘terço’ e velas, que iriam servir para o Enterro do Entrudo na trigésima edição do Carnaval de Odiáxere, no Largo da Alegria.

Pelas 20h.15m., com o passo apressado, chegou um dos ‘padres’ (Luís Morgado), que pouco tempo depois juntou à ‘urna’, imagine-se, um penico e uma peça representando um amplo pénis…

Após vários preparativos, e numa altura em que Sofia Santos, ex-presidente da Direção do clube e agora presidente da Junta de Freguesia de Odiáxere, já se encontrava junto ao grupo, um homem, Jorge Sequeira, vestido de ‘bispo’, dois ‘padres’ e uma jovem trajada de ‘freira’ preparavam o início do cortejo ‘fúnebre’. Tânia Bandarrinha, pertencente à organização do Carnaval de Odiáxere, distribuía velas acesas por vários acompanhantes.

Mais de duas dezenas de pessoas, na sua maioria mulheres, acompanharam o cortejo desde a sede do Clube Desportivo de Odiáxere até ao Largo da Alegria, ao som de música ‘fúnebre’ e ‘discussões’ entre a ‘viúva’ e as ‘amantes’ do ‘morto’

Às 20h.49m., com um jovem a segurar uma coluna de som, através da qual se ouvia música ‘fúnebre’, teve lugar a saída do cortejo, em que seguiram mais de duas dezenas de pessoas, na sua maioria mulheres. Um dos ‘padres’, Luís Morgado, levou a peça representando o pénis e o penico com água. Junto à ‘urna’, a ‘viúva’ a ‘chorar’ e outras figurantes, desempenhando o papel de ‘amantes’ do ‘morto’, ‘discutiam’ entre elas, como tem sido habitual noutros enterros do Carnaval de Odiáxere. Rua Camões, junto à escola, Travessa João de Deus e Rua João de Deus foram as primeiras artérias percorridas até à chegada a um passeio na Estrada Nacional nº. 125. Pelo caminho, devido à música ‘fúnebre’, várias pessoas espreitavam pelas janelas de habitações e algumas abriam as portas para ver o que se passava. No total, era cerca de uma dezena de moradores.

Depois de atravessar a Estrada Nacional nº. 125, o cortejo seguiu pela Travessa da Caridade, Rua da Esperança e Rua da Barragem, onde estavam quase duas dezenas de pessoas a aguardar a passagem do Enterro do Carnaval (e outros residentes às janelas de apartamentos), em direcção ao Largo da Alegria, em Odiáxere.

Vereador da Câmara Municipal de Lagos, Luís Bandarra, aguardou a chegada do Enterro perto da sua casa e a filmá-lo através do telemóvel

À entrada dessa zona e a poucos metros de distância da sua casa encontrava-se, a filmar a chegada do cortejo, Luís Bandarra, vereador da Câmara Municipal de Lagos. Na véspera, dia 17 de Fevereiro, Terça-Feira de Carnaval, tinha sido homenageado junto ao palco no Largo da Alegria, ao receber um amplo quadro com imagens suas, oferecido pelo presidente da Direção do Clube Desportivo de Odiáxere, Rui Santos, no âmbito das comemorações do trigésimo aniversário deste evento. Recorde-se que o Carnaval de Odiáxere surgiu por iniciativa de Luís Bandarra e de outros dirigentes daquele clube na altura.

Quando a ‘urna’ chegou, finalmente, ao Largo da Alegria, estavam ali mais de sessenta pessoas. De novo, surgiram ‘choros’ da ‘viúva’ e ‘discussões’ com as ‘amantes’ do ‘morto’. “Sai daqui! Tem vergonha!”, gritava a ‘viúva’. Um dos ‘padres’ decidiu ‘pôr ordem no enterro’, gritando: “Não quero porrada aqui!” Entre o público que assistia ao espectáculo, com filmagens através de telemóveis, não faltavam risos. Já a presidente da Junta de Freguesia de Odiáxere, Sofia Santos ‘confortava’  a ‘viúva’, com um abraço e festas. Noutros anos, cabia a Sofia Santos, então presidente do Clube Desportivo de Odiáxere, organizador do Carnaval, entrar na ‘algazarra’ com outras participantes durante o Enterro, desempenhando o papel de ‘viúva’.

Mais de 20 velas acesas animaram a cena, enquanto um dos ‘padres’ e o ‘bispo’ (um de cada vez) procediam à leitura do ‘testamento’. O outro ‘padre’ segurava a peça representando um amplo pénis, entre a risota geral. Já a ‘freira’ pegava no microfone junto à coluna de som.

À minha querida Viúva

Com grande estima e consideração

Deixo-lhe uma grade de minis

E toda a minha ARMAÇÃO (cornos)

À minha adorada amante FONTONA

Minha grande Paixão

No meu legado lhe deixo

Um bom tinto e o meu CHOURIÇÃO

Ao Senhor Vereador Bandarra

Homem do Odiáxere em folia

Deixo-lhe uma caixinha

De pastilhas para azia

Ao Senhor Presidente da Câmara

Que tantas dificuldades tem

Deixo-lhe a cabeça da minha burra

Para lhe ajudar a pensar bem.

CARNAVAL ODIÁXERE 2026

TESTAMENTO DO ENTRUDO

I

Bem-vindos a Odiáxere

Como esta vila não há igual

Espero que todos se divirtam

Com este maravilhoso Carnaval

Já que aqui estão

Vão ouvir o que tenho para contar

E fiquem sabendo

Que ninguém me pode calar

Aqui homenageamos o SANTO ENTRUDO

Que era forte e valentão

Para todos os presentes aqui temos

O testamento deste grande FOLIÃO

Está aqui deitado neste caixão

Mas olhai que belo este momento

Para que podeis divertir à vontade

Escutai bem este seu testamento

Como faz parte da tradição

A sua herança vai partilhar

Mas tende paciência meu povo

Nada de bom vos vai calhar

Às santinhas desta terra

Sei eu bem o que lhes fazia

Levá-las todas comigo para o inferno

Seria festa todo o dia

À minha querida Viúva

Com grande estima e consideração

Deixo-lhe uma grade de minis

E toda a minha ARMAÇÃO (cornos)

Ao meu querido filho RATATÚ

Rapaz cheio de Rococós

Deixo-lhe para o buraquinho do cú

Uma Caixinha de Ilhós

Para ver se deixa de andar de perna aberta

Com o cio de uma gata

Deixo à minha adorada filha ADALBERTA

Uma boa rolha de espumante para a RATA

À minha adorada amante FONTONA

Minha grande Paixão

No meu legado lhe deixo

Um bom tinto e o meu CHOURIÇÃO

À senhora presidente de junta freguesia

Mulher de muito trabalho

Deixo-lhe as minhas cerolas

Para lhe servir de agasalho

Ao Senhor Vereador Bandarra

Homem do Odiáxere em folia

Deixo-lhe uma caixinha

De pastilhas para azia

Ao restante Executivo Municipal

Grandes e bons amigos da folia

Deixo-vos a obrigação de continuar a apoiar este Carnaval

Pois a vila bem vos agradecia.

Ao Senhor Presidente da Câmara

Que tantas dificuldades tem

Deixo-lhe a cabeça da minha burra

Para lhe ajudar a pensar bem.

Ao CLUBE DESPORTIVO DE ODIÁXERE

Clube da nossa paixão

Para não se ver em dificuldades

Que faça uma rifa do meu caixão

Ao nosso Rancho de Odiáxere

Agremiação de grande valor

Que tantas condecorações tem ganhado

Vou lhe deixar um louvor

Uma carroça e um camião

Um acordéon desafinado

E um pífaro de tocar a mão

Aos Bombeiros Voluntários de Lagos

Bons soldados sempre prontos a ajudar

Deixo-lhe a minha pasteleira

Para o comando treinar

Às forças de Segurança da nossa cidade

Gente prestável e de bom conviver

Deixo-lhe uma caixa de simpatia e humildade

Para sempre nos proteger

Às amigas ESTRUDES E ZULMIRA

Mulheres marafadas

Deixo-lhes um garrafão de medronho

Para as deixar consoladas.

Para todos os foliões

Que neste ano me deram atenção

Deixo-lhes um álbum de recordações

Para lhes animar o coração

A todos os que não mencionei

Não me levem a mal

Aos aldrabões que não me lembrei

Não me levem a tribunal

Já vai longa a cerimónia

O testamento chegou ao fim

Assim fica para história

Tudo o que levaram de mim

ENTRUDO — ENTRUDO

O CANSAÇO JÁ NOS PESA

FOSTE UM FALHADO NOS ENGATES

A TUA MERECIDA SENTENÇA

É SERES ENFORCADO PELOS TOMATES…….

DECLARO MORTO E EM VIAS DE SER ENTERRADO

O ENTRUDO 2026

Jorge Sequeira

2026

“Sai daqui aldrabona! Vai-te embora! Fiquei sem nada”, gritava a ‘viúva’ para as ‘amantes’ do ‘morto’, enquanto a ‘urna’ ardia

Com o início da ‘cremação’, houve também fogo-de-artifício lançado junto ao edifício do antigo moinho de Odiáxere. O ‘morto’ era, como habitualmente, um boneco envolvido num lençol branco. As velas acesas ajudaram a queimá-lo no interior de um caixa de madeira, para a qual também foram atiradas flores. Antes, porém, não faltaram mais ‘choros’ da ‘viúva’, vestida de preta, com óculos escuros e segurando um ramo de flores amarelas. E mesmo enquanto a ‘urna’ ardia, ela e duas ‘amantes’ voltaram a envolver-se em ‘algazarra’. “Sai daqui aldrabona! Vai-te embora! Fiquei sem nada”, gritava a pobre ‘viúva’.

Um dos ‘padres’, Luís Morgado, com um pincel junto a um penico, ia lançando água para as pessoas em sinal de ‘benção’. Já o outro ‘padre’, na presença do ‘bispo’, mostrava à ‘viúva’ a peça que representava um pénis. “O Pai Natal está aqui…”, dizia-lhe um dos ‘padres’.

Sofia Santos, presidente da Junta de Freguesia de Odiáxere: “Espero que tenham gostado. Para o ano haverá mais. Obrigado a todos”

“Viva o Carnaval de Odiáxere!”, gritou, na despedida, Tânia Bandarrinha, do clube organizador

Esta tradição popular, que, como o ‘Litoralgarve’ constatou no local, juntou perto de uma centena de pessoas no Largo da Alegria, numa noite calma, com dez graus centígrados, terminou cerca das 21h20m. Houve palavras de agradecimento de Sofia Santos, presidente da Junta de Freguesia de Odiáxere, e de Tânia Bandarrinha, dirigente do clube responsável pela organização do Carnaval.

“Espero que tenham gostado. Para o ano haverá mais. Obrigado a todos”, disse Sofia Santos. “Viva o Carnaval de Odiáxere!”, gritou, entre aplausos, Tânia Bandarrinha, que convidou os presentes a se deslocarem à sede do Clube Desportivo de Odiáxere para a oferta de uma bebida.

Homicídio na noite de terça-feira de Carnaval, em Odiáxere, levou a Direcção do clube a cancelar o Enterro do Entrudo em 2025

Recorde-se que, em 2025, não houve o Enterro do Carnaval de Odiáxere. Como o ‘Litoralgarve’ descreveu na altura, em várias reportagens, tal ficou a dever-se a um homicídio com tiros, ocorrido na rua, junto à sede do Clube Desportivo de Odiáxere, na sequência de discussões entre dois homens, conhecidos de longa data com conflitos e que tinham tido problemas durante a tarde dessa terça-feira de Carnaval. Na noite de 04 de Março de 2025, cerca das 23h30m., como então o nosso Jornal referiu, enquanto decorria um megabaile nas instalações do clube, Samuel, há muito tempo a contas com a justiça, devido a tráfico de droga, entre outros crimes, atingiu mortalmente António Martinho Martins, conhecido por Tó, que chegou a ser futebolista em Odiáxere. A festa acabou em solidariedade para com a tragédia.