Padre Nelson Rodrigues, durante a Vigília Pascal, de sábado para domingo, na Igreja de São Sebastião, em Lagos: “Deus nunca nos abandona!”

“Olhamos à nossa volta perante a nossa impotência e a nossa incapacidade. Deus desce ao nosso encontro, aos nossos infernos interiores. Ele desce aos infernos e ressuscita na nossa interioridade. Desce aos infernos interiores para expandir a nossa vida, uma vida nova”, insistiu o pároco, no decurso da homilia.

E para não perturbar esta longa cerimónia religiosa da Semana Santa, evitando eventuais problemas que pudessem surgir, dois agentes da PSP de Lagos permaneceram de prevenção durante quatro horas, no pátio da igreja, em serviço remunerado.

José Manuel Oliveira

Numa homilia ao longo de cerca de vinte minutos, entre as últimas horas de sábado Aleluia, 30 de Março de 2024, e o início da madrugada de domingo da Ressurreição, dia 31, na Igreja de São Sebastião, em Lagos, onde estavam, na altura, cerca de quatrocentos fiéis, desde crianças e jovens, a adultos e idosos, o padre Nelson Rodrigues deixou várias mensagens nesta quadra pascal. Relacionou o tempo de “Jesus sepultado em silêncio” e quando “Jerusalém voltou à normalidade” no “silêncio na indiferença”, com o “vazio e indiferença” em “muitos sábados nas pessoas e nas nossas comunidades.”

“Temos muitas mortes na nossa vida, muitas crises, muitos silêncios carregados de tristeza, faltas de esperança, fracassos, dúvidas. Quantos de nós não nos sentimos angustiados na nossa sociedade, num sentimento de impotência ao olharmos para nossa vida, para a nossa sociedade?”

“Passamos na vida por muitos momentos de morte”, lembrou o pároco, referindo-se não só ao falecimento de “familiares e amigos”, como a outras situações complicadas “com que nos confrontamos na própria vida.” “Temos muitas mortes na nossa vida, muitas crises, muitos silêncios carregados de tristeza, faltas de esperança, fracassos, dúvidas”, observou Nelson Rodrigues, interrogando-se, em seguida: “Quantos de nós não nos sentimos angustiados na nossa sociedade, num sentimento de impotência, de ansiedade, ao olharmos para nossa vida, para a nossa sociedade?”

“Cristo morreu, foi sepultado e desceu à mansão dos mortos, aos infernos. Mergulhou nos infernos onde muitas vezes nos encontramos”, notou o padre, no decurso da homilia, em que várias pessoas não esconderam alguma emoção. “Desce aos infernos da nossa vida para nos ressuscitar com Ele. Olhamos à nossa volta perante a nossa impotência e a nossa incapacidade. Deus desce ao nosso encontro, aos nossos infernos interiores. Ele desce aos infernos e ressuscita na nossa interioridade. Desce aos infernos interiores para expandir a nossa vida, uma vida nova”, insistiu o sacerdote Nelson Rodrigues. E reforçou: “Deus nunca nos abandona! Ele estará sempre connosco.”

A comparação com um jogo de futebol e a mensagem aos fiéis para “desfrutar da vida”, em que “somos vencedores por mérito de Jesus”

Perto do final da celebração e com alguma ironia à mistura, o sacerdote fez alusão a “uma equipa de futebol que tem o objectivo de chegar à final”, observando, a propósito, que “o problema é que a outra equipa é muito boa.” Com o “árbitro” em campo, a equipa chega e diz: “nós já ganhámos”… E o jogo decorre “com gosto, sem stresse, sem combate, pois “não é importante ganhar”. Isto, para concluir, “na mensagem da Páscoa”, que “já ganhámos” e temos de “desfrutar a vida.” “Desfrutar esta vida, a amar uns aos outros, somos vencedores não por nosso mérito, mas por mérito de Jesus”.

Cinco fiéis batizados de madrugada, com direito a aplausos

Já na madrugada de domingo da Ressurreição, 31 de Março de 2024, o padre Nelson Rodrigues lançou um grito de boa nova: “Cristo está vivo e ressuscitado!” Ouviram-se aplausos na igreja.

Nesta sessão solene de vigília pascal na Igreja de São Sebastião, entre as 22h00 de sábado e as 01h.37m. (02h.37m. com a mudança para a Hora de Verão), acompanhada pelo coro, o pároco, além de orações, cânticos e bênção, numa altura em que a maioria dos fiéis ostentava uma vela acesa, teve, ainda, oportunidade de batizar um homem e quatro senhoras jovens. Com muitas filmagens e fotografias, através de telemóveis, por parte de quem assistia à celebração, Nelson Rodrigues pediu uma salva de palmas para cada pessoa batizada.

Do elogio à “persistência” dos mais novos durante a noite, a uma frase com sinal a recado: “a Igreja de fora não parece tão bonita”, numa altura em que o edifício continua em estado de degradação

No final, em tempo de agradecimentos, nomeadamente aos fiéis, aos escuteiros, ao coro e às crianças, que, com “persistência”, conseguiram permanecer durante mais de três horas e meia nesta celebração pascal, o padre Nelson Rodrigues aproveitou para deixar uma espécie de recado: “a Igreja de fora não parece tão bonita”. Isto, numa altura em que, numa parede branca no exterior do edifício, na Rua Conselheiro Joaquim Machado, em Lagos, alguém escreveu a preto: “Se me pintassem tinha mais pinta.”

Tal surge, recorde-se, num período em que se mantém uma fase de indefinição em torno das necessárias obras de reabilitação na Igreja de São Sebastião, por parte do Estado, dada a reorganização de competências da Direcção-Geral do Património Cultural, num edifício classificado como Monumento Nacional. Os trabalhos de remodelação desta igreja, há anos em estado de degradação, aguardam também por verbas do Plano de

Recuperação e Resilência (PRR), oriundas da União Europeia, como afirmou Sara Coelho, vereadora do pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Lagos, em entrevista publicada no ‘Litoralgarve’ a 20 de Setembro de 2023.

Polícia de prevenção no local para não haver perturbação da cerimónia religiosa

Numa noite chuvosa e com a temperatura a atingir 14 graus centígrados, esta Vigília Pascal contou, também, com a presença de dois agentes da Esquadra de Lagos da Polícia de Segurança Pública (PSP), mas apenas no pátio da entrada da Igreja de São Sebastião. A dupla, que tinha uma viatura policial estacionada a poucos metros da igreja, na Rua da Marombeira, como constatou o ‘Litoralgarve’, acabou por se retirar do local pelas 02h00 (03h00 já com a mudança para a Hora de Verão) da madrugada de domingo.

A presença dos dois agentes da PSP de Lagos na Igreja de São Sebastião, sabe o nosso Jornal, foi solicitada, através de um serviço remunerado, pela própria paróquia, com o objectivo de não perturbar a cerimónia religiosa. É que ainda está bem presente na memória de muitos quando, na Missa do Galo, ao princípio da madrugada de 25 de

Dezembro de 2022, um homem, em estado de embriaguez, entrou na Igreja de Santa Maria, onde a andar de um lado para o outro, chamou por Jesus Cristo, falou mais alto do que o padre Nelson Rodrigues, o que acabou por obrigar à intervenção da polícia, da qual o indivíduo, português e na ‘casa’ dos trinta anos de idade, é, de resto, bastante conhecido, devido a vários problemas e após, há anos, ter queimado o próprio corpo e ameaçado agentes. Isto, sem esquecer a presença que tem sido habitual, nomeadamente de toxicodependentes à porta da Igreja de Santa Maria durante e no final das missas a pedir esmola.

Depressão ‘Nelson’, com chuva e vento forte, impediu a realização da tradicional Via-Sacra desde a Praça de Armas até à Ponta da Piedade, em Lagos, na noite de sexta-feira, cerimónia que teve de ser transferida para a Igreja de Santa Maria

Por outro lado, refira-se que a anunciada Via-Sacra, que devia ter tido lugar, como sucede todos os anos em

Lagos, a partir das 21h00 de sexta-feira da Paixão, desde a Praça de Armas até à Ponta da Piedade, acabou desta vez por não se realizar no percurso indicado, devido ao mau tempo, com chuva e forte vento, em consequência da depressão ‘Nelson’ que atingiu Portugal. Essa celebração religiosa, com os fiéis a ostentarem velas acesas, decorreu na Igreja de Santa Maria, nesta cidade.

Procissão noturna durante quinze minutos, na quinta-feira Santa, juntou mais de centena e meia de pessoas entre a Igreja de Santa Maria e a Igreja do Carmo, com a PSP a controlar o trânsito

No dia anterior, quinta-feira Santa, dia 28 de Março de 2024, também a partir das 21h00, teve lugar a Missa Vespertina da Ceia do Senhor, igualmente na Igreja de Santa Maria, a que se seguiu uma procissão, com mais de uma centena e meia de pessoas, passando pela Travessa do Mar, Rua Lançarote de Freitas (em frente ao Centro Cultural de Lagos e a bares), Travessa Gil Vicente, Rua Gil Vicente e até à Igreja do Carmo, situada perto do Parque das Freiras e junto ao edifício da antiga Escola Comercial e Industrial de Lagos. O percurso, durante quinze

minutos, como constatou o ‘Litoralgarve’, foi também acompanhado por viaturas da PSP, para controlar o trânsito. Naquela igreja, até à meia-noite, os fiéis permaneceram em silêncio, no denominado período de Adoração.