Inês Real, deputada e porta-voz do PAN, ao ‘Litoralgarve’: “Na Madeira existem alternativas para manter um acordo de incidência parlamentar. Por isso, apelo à serenidade do Presidente da República, sob pena de penalizar o país”

A deputada do partido Pessoas-Animais-Natureza, na Assembleia da República, concluiu uma deslocação ao Algarve, inserida nesta fase da pré-campanha para as eleições legislativas, que terão lugar a 10 de Março de 2024, com uma visita ao Mercado de Levante, em Lagos, onde apreciou produtos da agricultura biológica, ouviu queixas sobre a falta de água e o dispêndio dos escassos recursos hídricos na produção de abacates, e lhe garantiram promessas de votos no PAN. No final, em entrevista ao nosso Jornal, lançou recados em várias direcções.

José Manuel Oliveira

“Olá, como está? Ainda ontem vi a senhora na Madeira e hoje já aqui…”, dizia, surpreendida e sorridente, uma vendedora no Mercado de Levante, em Lagos, durante a tarde da passada quarta-feira, dia 31 de Janeiro de 2024, para a deputada do PAN – Pessoas-Animais-Natureza, na Assembleia da República, Inês Sousa Real, também porta-voz deste partido, quando ali participou numa acção inserida na pré-campanha para as eleições legislativas que terão lugar a 10 de Março. “Veio de avião, foi rápido”, observou alguém da comitiva constituída por quase uma dezena de elementos, que acompanhavam a deputada, entre os quais Saúl Rosa, que encabeça a lista de candidatos do PAN pelo Círculo Eleitoral de Faro, Margarida Maurício, de Lagos, Pedro Glória, Carlos Edgar e Isabel Figueira, de Loulé.

“A minha ‘patroa’ já me disse que vai votar em vocês nas próximas eleições.” Palavras um vendedor, referindo-se à promessa da sua mulher ao ver bandeiras do PAN empunhadas por militantes deste partido

“A minha ‘patroa’ já me disse que vai votar em vocês nas próximas eleições”, contou um vendedor, referindo-se à promessa da sua esposa, ao ver cinco bandeiras do PAN empunhadas por militantes deste partido. Inês Sousa Real foi ouvindo, sorrindo e pelo meio parou para atender uma chamada no seu telemóvel. Com este equipamento aproveitou, também, para fotografar e filmar produtos que viu numa das bancas, nomeadamente tomates e alfaces. “Está com vergonha?…” – perguntou, a certa altura, um dos elementos da comitiva a uma vendedora, que parecia estar meio escondida no seu ‘stand’ no Mercado de Levante, situado junto ao terminal rodoviário desta cidade.

“Estão a dar cabo do planeta”

Depois, a senhora, que tem uma quinta na zona do Sargaçal, no concelho de Lagos, chegou até junto dos elementos do PAN. “Vivemos da natureza, da agricultura biológica”, notou, queixando-se da falta de água nas barragens do Algarve e à polémica produção de abacates em grandes terrenos agrícolas, os quais consomem os já escassos recursos hídricos existentes nesta região do sul do país. Entre o barulho próprio num mercado, a deputada do PAN ouviu e falou com a vendedora, prometendo encontrar soluções para os problemas. “Eles estão a dar cabo do planeta”, lamentou a vendedora de produtos hortícolas, nomeadamente alfaces, abóboras e tangerinas.

Beijos, abraços, fotos e carícias a dois cães

Num outro espaço do Mercado de Levante, onde músicos preparavam a sua orquestra para actuar mais tarde, uma conhecida doceira saiu da banca que lhe está destinada para ir ao encontro da deputada Inês Sousa Real. Não faltaram beijos, abraços e fotos para registar o momento. “Sou fã do PAN”, garantiu a vendedora, acrescentando: “Temos de lutar para ajudar as pessoas a acreditar em vocês.”

Já perto do final desta visita àquele mercado em Lagos, a deputada ainda teve tempo para acariciar dois cães, um preto e outro de cor castanha clara, pertencentes a um casal que ali se encontrava sentado no chão. Para a despedida nesta acção de pré-campanha eleitoral, pouco depois das 18.00 horas, o grupo de militantes do PAN pousou para uma fotografia, que não tardou em colocar nas redes sociais.

“Não podemos continuar a ter grandes produtores a vir devastar o território. A nova lei da água prejudica ao pecar na especialidade para aplicar uma regra séria e forte na gestão de sessenta por cento da água para todos os agricultores, não fazendo diferença entre a produção tradicional, regional e local, e os grandes produtores”

Depois do encontro, em entrevista ao ‘Litoralgarve’, Inês Real, de 41 anos, jurista e de novo candidata a deputada do PAN pelo Círculo Eleitoral de Lisboa à Assembleia da República, efectuou um balanço desta sua deslocação ao Algarve, que incluiu, nomeadamente uma reunião do seu partido com membros da Direção do Hospital do Barlavento, em Portimão, e a visita ao sítio das Alagoas Brancas, em Lagoa, onde a comitiva contactou líderes do movimento de defesa desta importante zona húmida, a qual esteve sob ameaça da construção de um empreendimento de serviços e comércio (tipo ‘retail pak’), situação entretanto resolvida após uma providência cautelar aceite pelo Tribunal Administrativo e Fiscal de Loulé, garantindo a preservação daquele espaço ambiental.

Litoralgarve – No Mercado de Levante, em Lagos, ouviu queixas de uma vendedora devido ao problema da seca e à utilização da água na produção de abacates em extensos terrenos agrícolas, o que tanta polémica tem provocado nos últimos anos. Como avalia esta situação?

Inês Real – Há uma grande preocupação quer por parte dos vendedores, quer por parte dos pequenos produtores, no que respeita a esta parte da gestão da água, um bem essencial, na mais recente alteração à Lei da Água, concebida na Assembleia da República [que promove o processo de eliminação de licenças, autorizações, actos de procedimentos dispensáveis, entre outras situações, passando a renovação de licenças de recursos hídricos a ser automática, caso não existam alterações, com redução do impacto ambiental – n.d.r.]. Não podemos continuar a ter grandes produtores a vir devastar o território. Por outro lado, [a nova lei] prejudica ao pecar na especialidade para aplicar uma regra séria e forte na gestão de sessenta por cento da água para todos os agricultores, não fazendo diferença entre a produção tradicional, regional e local, e os grandes produtores. Existem prejuízos na quota da água para todos os agricultores, bem como para a produção nacional, local e tradicional, mas também ao nível da pegada ambiental.

“A produção de abacates está a prejudicar a agricultura tradicional”

“São necessárias mais medidas para apoiar o comércio local e o sustento dos produtores, em vez de haver cortes cegos no abastecimento da água. Continuamos a ter hotéis com campos de golfe a funcionar e, por outro lado, há pouca água a circular nas torneiras”

Litoralgarve – A agricultura tradicional está a ser prejudicada pela produção de abacates, que implica maior dispêndio de água?

Inês Real – A produção de abacates está a prejudicar a agricultura tradicional. Em causa, está a sustentabilidade dos pequenos produtores, do comércio local, essencial para uma qualidade de vida mais saudável e para o comércio local ao nível de produtos dos mercados, que começam agora a escassear nas prateleiras. Nesse sentido, são necessárias mais medidas para apoiar o comércio local e sustento dos produtores, em vez de haver cortes cegos no abastecimento da água. Continuamos a ter hotéis com campos de golfe a funcionar e, por outro lado, há pouca água a circular nas torneiras.

Litoralgarve – Acredita no corte de abastecimento água durante o Verão no Algarve para controlar a situação provocada pela seca?

Inês Real – Estou expectante neste momento. O que é necessário é tomar medidas, como incentivos à gestão da água, bem como ao processo de dessanalização e a um parque ambiental.

“É fundamental haver médicos de família, que são a base essencial para evitar a sobrecarga nas urgências dos hospitais (…) Quinhentos enfermeiros são uma necessidade no Algarve”

Litoralgarve – Como decorreu a reunião no Hospital do Barlavento, em Portimão? O que ouviu?

Inês Real – É fundamental haver médicos de família, que são a base essencial para evitar a sobrecarga nas urgências dos hospitais. Continuam a faltar médicos e enfermeiros no Algarve, sendo essencial um plano mais alargado para a população residente. Para isso, é preciso, de uma vez por todas, criar condições para a construção do Hospital Central do Algarve, uma necessidade há uma década identificada como oficial na região e que poderá contribuir também com outras especialidades, outras alternativas, outras ofertas para reforçar o talento com mais médicos e enfermeiros, com maior atractividade. Quinhentos enfermeiros são uma necessidade no Algarve.

“Ainda há um longo caminho a percorrer para a recuperação daquele habitat natural”, como as Algoas Brancas, em Lagoa

Litoralgarve – Já está salva a zona húmida de Alagoas Brancas, em Lagoa?

Inês Real – Conseguimos travar o processo. Mas, ainda, há um longo caminho a percorrer para a recuperação daquele habitat natural. Neste momento, já voltámos a ter água nas Alagoas Brancas, o que é um passo importante. Mas nesta grande conquista que foi feita com o papel da Câmara Municipal de Lagoa, o fundamental é acautelar o que vá ser construído. Para já, foi uma grande vitória de entidades a nível local.

“Todo o contexto político acaba por pôr em causa a estabilidade do país e o PRR – Plano de Recuperação e Resilência (com verbas da União Europeia) em termos de execução orçamental para este ano”

Litoralgarve – Quatro eleições durante o ano de 2024 – a eleição antecipada para o parlamento da Região Autónoma dos Açores, as legislativas também antecipadas para a Assembleia da República, no dia 10 de Março, a eleição para o Parlamento Europeu, em Junho, e a já prevista marcação de eleições antecipadas na Região Autónoma Madeira, após a recente demissão do presidente, Miguel Albuquerque. São eleições a mais? Que reflexos poderão ter?

Inês Real – Todo o contexto político acaba por pôr em causa a estabilidade do país e o PRR – Plano de Recuperação e Resilência (com verbas da União Europeia) em termos de execução orçamental para este ano. É preciso ter a cautela necessária para olhar para outras soluções, de forma a garantir estabilidade política. Não só na Madeira, como nos Açores e na Assembleia da República, com a dissolução do parlamento, tem havido uma grande contestação no país. Não podemos andar a reboque da judicialização da política, nem da politização da justiça. É uma grande trapalhada ao longo de todo este processo. No caso da Madeira está também em causa a presunção de inocência [dos arguidos no processo que levou à detenção de empresários e do presidente da Câmara Municipal e do Funchal, além de ter sido constituído arguido o presidente do governo da Região, Miguel Albuquerque, que assumiu funções com o apoio do PAN –  n.d.r.].,

Há alguma preocupação por parte do senhor Presidente da República na execução do PRR. Na Madeira existem alternativas para manter um acordo de incidência parlamentar. Por isso, apelo à serenidade do Presidente da República, sob pena de penalizar o país.