Igreja de Odiáxere, no concelho de Lagos, enche com mais de 150 pessoas durante o 11º. Encontro de Cantares de Janeiras e dos Reis, animado por quatro grupos a reviver tradições populares

A iniciativa, que se prolongou por mais de uma hora na noite de sábado, 13 de Janeiro, entre discursos, recados e apelos a um Bom Ano de 2024, teve a actuação do Rancho Folclórico e Etnográfico de Odiáxere, do Grupo de Cantares da Fonte Nova – Estômbar (concelho de Lagoa), do Grupo Estrelas do Barlavento (Portimão) e do Grupo das Charolas das Barreiras Brancas, de Loulé. «Nesta vida que se perfila / Cantamos charolas neste mês/ Odiáxere passou a vila / No ano de 2003», foi uma das quadras destacadas por um dos charoleiros daquele conjunto do sotavento algarvio, a inovação neste encontro, levando o público ao rubro, entre gargalhadas e gritos “Viva!”.

José Manuel Oliveira

Odiáxere, noite de sábado, 13 de Janeiro de 2024. Um placard luminoso, instalado no exterior do edifício da Farmácia, junto à Estrada Nacional 125, indica como temperatura 13 graus centígrados. Ali perto, pouco antes das 21h00, no interior da Igreja Matriz desta localidade do concelho de Lagos, começa a sentir-se o calor humano, com muitas pessoas já sentadas e preparadas para assistir ao «11º. Encontro de Cantares de Janeiras – Vamos Cantar os Reis», numa organização, como habitualmente, a cargo dos dirigentes do Rancho Folclórico e Etnográfico de Odiáxere, tendo por objectivo manter tradições próprias desta quadra festiva, que agora se despede.

Além do rancho folclórico anfitrião, a iniciativa contou com a participação do Grupo de Cantares da Fonte Nova – Estômbar, do concelho de Lagoa, do Grupo Estrelas do Barlavento (Portimão) e do Grupo das Charolas das Barreiras Brancas, de Loulé.

Num espaço apropriado para o efeito, junto ao local onde está colocado um microfone, a poucos metros do altar principal, vê-se um amplo presépio. É ali perto, num dos bancos da frente, que se sentam os presidentes da Junta de Freguesia de Odiáxere, socialista Carlos Fonseca, e da Junta de Freguesia de São Gonçalo de Lagos, Carlos Saúde, do mesmo partido.

“Com amor se consegue paz no mundo, saber perdoar o próximo, viver melhor a nossa vida”

Pelas 21h.06m. sobe ao palco o presidente da Direcção do Rancho Folclórico e Etnográfico de Odiáxere, Luís Morgado, para anunciar o início do espectáculo, entre votos, por parte de uma senhora, de “Bom Ano, com muita saúde, com muita prosperidade, com muito amor.” “Com amor se consegue paz no mundo, saber perdoar o próximo, viver melhor a nossa vida”, apela. Em seguida, um novo apelo, desta vez para “manter as nossas tradições” e recordar que “antigamente”, grupos de amigos juntavam-se para cantar as Janeiras e os Reis, nas ruas.

“Que conta um conto, acrescenta um ponto”, observa Sara Coelho, vereadora da Câmara Municipal de Lagos, numa alusão ao conhecido provérbio, desejando que “perdure” este tipo de tradições

Numa altura em que já tinha sido notada a ausência de representante da Câmara Municipal de Lagos, surge, apressada, a vereadora Sara Coelho, que se senta ao lado dos presidentes da Junta de Freguesia de Odiáxere e da de São Gonçalo de Lagos. Pelas 21h.11m., vinte e dois elementos do Rancho Folclórico e Etnográfico de Odiáxere, incluindo três crianças, atravessam o centro do interior da Igreja, com guitarras e um acordeão. As senhoras ostentam lenços de diversas cores nas cabeças. E pouco depois, juntamente com os homens, começam a cantar em frente do altar principal. Eis algumas das quadras que o público teve oportunidade de escutar:

«Haja alegria

 E paz também

 Muita saúde

Até para o ano que vem»

«Quem serão três cavaleiros

Que sombras fazem do mar

São os três reis do Oriente

Que Jesus vão adorar»

«Fiquem com Deus senhores

Que eu com Deus me vou também

Deus vos dê muita saúde

Até para o ano que vem»

Enquanto os membros do Rancho Folclórico e Etnográfico de Odiáxere continuam a cantar as Janeiras e os Reis, um homem do mesmo grupo, vestindo uma samarra e com um saco branco, acompanhado por um menino, sai do palco e dirige-se às pessoas, a fim de recolher donativos, pedido a que muitas aderem, com moedas. A actuação do conjunto anfitrião termina pelas 21h.33m. e pouco depois o presidente da Direcção, Luís Morgado, chama ao palco Sara Coelho, vereadora da Câmara Municipal de Lagos. A autarca aproveita para destacar este tipo de “tradições, com muitos anos, muita história”, em Odiáxere, e apela para que o encontro “perdure”. “Quem conta um conto, acrescenta um ponto”, nota Sara Coelho, numa alusão ao conhecido provérbio, antes de se despedir, pelas 21h.41m., formulando “votos de um excelente 2024, com paz, amor, saúde, bem-estar, compaixão e compreensão”. O púbico aplaude.

“Levar a vida a cantar”, ouve-se numa canção do Grupo de Janeiras da Fonte Nova, de Estômbar, do concelho de Lagoa, com muitas pessoas, entre o público, embaladas e a bater palmas

Segue-se a atuação do Grupo de Janeiras da Fonte Nova, de Estômbar, povoação do concelho de Lagoa, com 15 elementos, ao som de tambores e guitarras, entre outros instrumentos musicais. 

«Alegrai os céus

Cantemos com alegria

Nasceu o Jesus Menino

Filho da Virgem Maria»

Esta é a letra de uma das canções que mais entusiasmou o público, numa altura em que já estaria mais de uma centena e meia de pessoas, algumas das quais também pertencentes a outros grupos, no interior da Igreja Matriz de Odiáxere. A apresentadora de serviço do Grupo de Janeiras da Fonte Nova, com guitarra, vai explicando aos presentes o que eles vão ouvir, nomeadamente “cantar as Janeiras à nossa maneira.” À medida que vai escutando, o público vai acompanhando com palmas, numa altura em que se ouvia “levar a vida a cantar.” A vereadora do executivo camarário lacobrigense Sara Coelho também canta, bate palmas e abana a cabeça com um sorriso estampado no rosto. Já o presidente da Junta de Freguesia de Odiáxere, Carlos Fonseca, e o seu colega da Junta de Freguesia de São Gonçalo de Lagos, Carlos Saúde, mostram-se mais discretos.

“Tentamos manter tradições”, diz um apresentador, sublinhando que “os mais novos” têm de colaborar com estas iniciativas para as mesmas “não morrerem.” 

Pelas 22h.01m., um elemento do Grupo de Janeiras da Fonte Nova, de Estômbar, recebe uma caixa, contendo um bolo-rei, como oferta da organização. Antes da despedida, o grupo presenteia o público com mais uma canção, em que se podia ouvir:

 «Vamos todos, vamos todos, vamos todos

Vamos todos a Belém

Adorar o Deus Menino

Que a Virgem Maria tem»

A canção é repetida várias vezes e as pessoas, que enchem a pequena Igreja de Odiáxere, associam-se à festa, concluindo com aplausos.

“Cantar não sei…”, graceja Carlos Saúde, presidente da Junta de Freguesia de São Gonçalo de Lagos, ao ser chamado ao palco

Às 22h.10m., Carlos Saúde, presidente da Junta de Freguesia de São Gonçalo de Lagos, é convidado a entrar no palco e a tomar a palavra. “Cantar não sei…”, graceja o autarca, desejando “bom ano” de 2024 a toda a gente e aproveitando, também, para enaltecer este tipo de tradições. Recorde-se que, na noite de 05 de Janeiro, a Junta de Freguesia de São Gonçalo de Lagos organizou mais um encontro ‘Cantar os Reis’, o qual contou com nove grupos, na Igreja de São Sebastião, nesta cidade, e o apoio da paróquia local, como o nosso Jornal destacou numa reportagem.

O espectáculo na Igreja Matriz de Odiáxere prossegue, pelas 22h.12m., com a actuação do Grupo Estrelas do Barlavento, de Portimão, constituído por seis elementos (quatro senhoras e dois homens), ao som de um tambor e um acordeão, entre outros instrumentos. E ouviu-se:

«Linda noite, linda noite

Linda noite de Natal

Linda noite, linda noite,

Linda noite de Natal»

«Meu velho

Meu amor

Dá-me uma esmola

Por favor»   

“Odiáxere preserva tradições, costumes. Não há identidade sem memória”, destaca Carlos Fonseca, presidente da Junta de Freguesia

Às 22h.27m. é a vez de o presidente da Junta de Freguesia de Odiáxere, Carlos Fonseca, entrar em cena para um breve discurso. “Odiáxere preserva tradições, costumes. Não há identidade sem memória”, salienta o autarca, enaltecendo o Rancho Folclórico e Etnográfico de Odiáxere, há muitos anos nestas andanças. “É bom cantar tradições”, acrescenta Carlos Fonseca, apresentando votos de “muita saúde, muita paz” para 2024.

«Nesta vila adorada / Cantemos com emoção / Odiáxere é abençoada /Pela Nossa Senhora da Conceição»

Pouco depois, pelas 22h30m., entra na Igreja o Grupo das Charolas das Barreiras Brancas, de Loulé, com mais de duas dezenas de elementos, na sua maioria jovens, que acabaram por marcar a diferença na noite de sábado, 13 de Janeiro, levando o público ao rubro. Isto, porque, entre pausas musicais, após diversas canções, nomeadamente ao som de saxofone, acordeões, castanholas, ferrinhos e pandeiretas, vários membros deste conjunto do sotavento algarvio vão apresentando quadras, gritando, depois, “viva!”, o que é repetido pelos restantes elementos do grupo, além da assistência. Duas dessas quadras são dedicadas a Odiáxere.

«Nesta vida que se perfila

Cantamos charolas neste mês

Odiáxere passou a vila

No ano de 2003»

«Nesta vila adorada

Cantemos com emoção

Odiáxere é abençoada

Pela Nossa Senhora da Conceição»

“Viva!” – gritam os elementos do grupo e também pessoas presentes na Igreja.

Antigamente cantava-se as Janeiras e os Reis à luz “de velas” e as “penas de pavão” eram símbolo dos “mais ricos”, enquanto “os pobres tinham galinhas…”

O apresentador de serviço daquele grupo, Leonel Loris, presidente da Direcção da Associação do Grupo de Amigos de Loulé (AGAL), responsável pelo Grupo das Charolas das Barreiras Brancas, justifica a forma de “cantar diferente” das Janeiras e dos Reis, com “os charoleiros mais perto de Andaluzia”, região do sul da vizinha Espanha, e a influência daí resultante. “Temos quinze melodias novas todos os anos”, frisa Leonel Loris.

Lembra, por outro lado, que antigamente se cantava as Janeiras e os Reis à luz “de velas” e que “penas de pavão” eram símbolo dos “mais ricos”, enquanto “os pobres tinham galinhas…”, contribuindo para risos no público, que ouvia de forma atenta os esclarecimentos prestados. 

«Todos falamos de paz»

No planeta Terra

Jesus só falou de paz

E os homens só fazem guerra»

“Estamos aqui

De alma e coração

E não deixar morrer

Esta tradição”

“Viva!”

«Nós não estamos sós

Estamos caminhando neste mundo

Porque Jesus Cristo tem para nós

Um grande e amor profundo»

“Viva!”

«E para terminar

Fica o aviso

Vinho é sangue de Cristo

E pão é corpo de Deus»

“Viva!”

“Só mais uma!”, pede, já perto do final, alguém entre o público. Os elementos do Grupo das Charolas das Barreiras Brancas, de Loulé, correspondem ao apelo, a assistência canta, aplaude e um par do Rancho Folclórico e Etnográfico de Odiáxere até dança. Antes, porém, um homem, que, no palco, se apresentava como porta-estandarte do Grupo da Charolas das Barreiras Brancas, de Loulé, percorre a Igreja, com um saco, no qual as pessoas vão colocando dinheiro.

Após o hino do grupo, este 11º. Encontro Cantares de Janeiras e Reis, na animada noite de 13 de Janeiro de 2024 e que encheu a Igreja Matriz de Odiáxere, termina pelas 23h.14m. Seguiu-se uma ceia em ambiente de confraternização entre todos os elementos dos conjuntos participantes, nas instalações da sede do Rancho Folclórico e Etnográfico de Odiáxere, onde não faltaram mais algumas quadras, gritos ‘viva!’ e gargalhas, como aconteceu também durante o espectáculo na igreja.

Leonel Loris, presidente da Direção da associação responsável pelo Grupo de Charolas das Barreiras Brancas, de Loulé, ao ‘Litoralgarve’: “Preparar estas festas com três meses de antecedência, através de ensaios duas vezes por semana. É um pouco difícil manter estas tradições, que exigem muito tempo e gente muito unida”

“São 25 elementos que começam a preparar estas festas com três meses de antecedência, através de ensaios duas vezes por semana. É um pouco difícil manter estas tradições, que exigem muito tempo e gente muito unida”, conta, ao ‘Litoralgarve’, Leonel Loris, de 66 anos, professor do ensino primário aposentado e presidente há doze da Direcção da Associação do Grupo de Amigos de Loulé, responsável pelo Grupo das Charolas das Barreiras Brancas. Confessa que “nunca toquei” qualquer instrumento musical e apenas funciona como “relações públicas.”

“Estes jovens representam uma mais-valia em termos culturais no concelho de Loulé, onde residem e trabalham e alguns são estudantes”, refere Leonel Loris, destacando “a boa disposição” de cada um dos elementos deste grupo de charolas, o qual, na medida do possível, “actua em todo o Algarve, desde Vila Real de Santo António até, sobretudo, esta zona do barlavento, por convites em eventos inseridos neste período festivo”. “Só terminamos no dia 28 de Janeiro, com um encontro de charolas em Loulé”, adianta aquele dirigente.

Por outro lado, aproveita para sublinhar a recente presença, no dia 21 de Dezembro de 2023, no canal de televisão SIC, em Lisboa, num programa com Joana Latino e Nuno Pereira, bem como a participação daquele grupo de charolas em eventos, nomeadamente o bolo-rei com 150 metros de comprimento, na Praça da República, em Loulé, a 05 de Janeiro de 2024, além da animação, por exemplo, em restaurantes e moradias.

É “difícil” atrair jovens para o Rancho Folclórico e Etnográfico de Odiáxere. “Não aderem muito. No Algarve, os jovens não entram nestas tradições” e estão vocacionados para “outras actividades”, sobretudo “a Internet”, reconhece Dora Silva

Quem, também, não esconde orgulho nestas tradições do cantar das Janeiras e dos Reis, é Dora Silva, de 50 anos, um dos rostos mais conhecidos do popular Rancho Folclórico e Etnográfico de Odiáxere, que assinalará o seu quadragésimo aniversário da fundação no dia 17 de Março de 2024. “Ensaiamos às sextas-feiras, que é o dia com mais disponibilidade para os elementos deste grupo”, lembra, ao ‘Litoralgarve’. E para preparar as actuações integradas na quadra festiva, os ensaios decorrem durante um mês em duas vezes por semana. “Já contamos com mais de cem versos”, observa Dora Silva, que considera “difícil” atrair jovens para este rancho folclórico. “Não aderem muito. No Algarve, os jovens não entram nestas tradições”, lamenta a senhora, notando que os mais novos estão vocacionados para “outras actividades”, sobretudo “a Internet.”

Já no tocante à possibilidade de vir a ser criado, em Odiáxere, um grupo de charolas, Dora Silva é peremptória ao excluir tal cenário. “Não. Não há tradição” a esse nível, nesta zona do concelho de Lagos.   

“Existem “quatro gerações” no Rancho Folclórico e Etnográfico de Odiáxere, com a tradição a passar para “filhos e netos”, destaca Luís Morgado, presidente da Direcção. Apesar disso, admite que, agora, os mais novos “encaram o folclore como algo mais antigo, para pessoas mais velhas”

Por sua vez, o presidente da Direcção do Rancho Folclórico e Etnográfico de Odiáxere, Luís Morgado, lembra que este grupo conta com “quatro gerações”, salientando que a tradição tem passado nas famílias da localidade, para “filhos e netos.” “É importante manter estas tradições para o povo”, numa altura em que os jovens “querem outras actividades, mais desporto, mais futebol e dedicam-se, também, mais às redes socais, ao ‘Facebook’. Encaram o folclore como algo mais antigo, para pessoas mais velhas”, nota, em declarações ao ‘Litoralgarve’, Luís Morgado, de 56 anos e desde há 25 na presidência da Direcção do Rancho Folclórico e Etnográfico de Odiáxere.

Ruas, casas e restaurante também entram no roteiro do Rancho Folclórico e Etnográfico de Odiáxere para cantar as Janeiras e os Reis

Com o objectivo de preservar estas tradições culturais nas épocas festivas, recorda que, no dia 05 de Janeiro de 2024, além de terem participado no encontro do Cantar dos Reis, na Igreja de São Sebastião, em Lagos, os elementos do Rancho Folclórico e Etnográfico de Odiáxere percorreram “ruas da cidade [de Lagos], casas e até se deslocaram ao restaurante Adega da Marina.” “Estas tradições atraem muito público, as pessoas adoram. No final, temos tudo ao nosso dispor como ofertas, incluindo dinheiro” para ajudar nas despesas do Rancho Folclórico e Etnográfico de Odiáxere, conclui Luís Morgado. Também a povoação do Chinicato, no concelho de Lagos, e Portimão, entre outras zonas do Algarve, foram incluídas no roteiro do grupo na entrada neste Novo Ano.