Entrevista a Luís Morgado, presidente, há 25 anos, da Direção do Rancho Folclórico e Etnográfico de Odiáxere: “Lagos tem condições para ser Capital Nacional do Folclore”

Esse estatuto representaria “uma mais-valia para o nosso concelho” e “gostaríamos de estar inseridos nesse projecto”, assumiu, em jeito de desafio, ao ‘Litoralgarve’, o presidente da Direcção do Rancho Folclórico e Etnográfico de Odiáxere, no dia em que o grupo comemorou o seu 40º. aniversário, ao ser questionado sobre a possibilidade de Lagos poder  chegar a capital do folclore nacional. Como balanço, Luís Morgado reconheceu problemas durante a pandemia da Covid-19, nomeadamente nos elementos mais idosos, insistiu na necessidade de rejuvenescer o rancho e estimou serem precisos “50.000 euros, no mínimo” por ano para aumentar a actividade. Isto, numa altura em que até já teve de recusar convites para actuar em Espanha e França, de forma a poder gerir o orçamento disponível.

Nascido em Odiáxere a 02 de Maio de 1967, Luís Morgado, de 56 anos de idade e técnico de manutenção de piscinas, aprendeu a dançar, precisamente quando se tornou presidente do rancho folclórico, há 25 anos, sentiu dificuldades e orgulha-se da sede, entretanto, construída, entre outras actividades desenvolvidas. Hoje, também a sua família faz parte deste grupo que vai dinamizando esta tradição cultural pelo país e a nível internacional.

José Manuel Oliveira

Litoralgarve – Quais os próximos eventos em que o Rancho Folclórico e Etnográfico de Odiáxere vai participar?

Luís Montenegro – Vamos participar, no dia 25 de Abril, no âmbito das comemorações dos 50 anos desta data, no centro da cidade de Lagos, em conjunto com a Academia de Música de Lagos. A 05 de Maio, vamos a Amoreiras-Gare, no Alentejo, e no dia 07 de Julho será a vez do Festival de Folclore em Santarém. Nos dias 26 e 27 de Julho, vamos para Coimbra. E no dia 03 de Agosto, teremos o Festival de Folclore de Odiáxere, organizado pela nossa Junta de Freguesia. No dia 15 ou 16 Setembro, vamos a Leiria.

Depois, teremos outros eventos, como a tradicional ‘Descasca do Milho’, nas primeiras semanas de Setembro, em Odiáxere, organizado pela Junta de Freguesia, como no ano passado. Trata-se de uma iniciativa que mostra como se descascava o milho, antigamente, e que passou a contar, também, com música e animação.

Fomos convidados para participar, na Praia da Luz, nas comemorações do [23º.] aniversário da elevação de Luz [no concelho de Lagos] a vila, no dia 21 de Abril. Por outro lado, temos actuações em hotéis do Algarve para divulgar o nosso folclore, bem como convites que vão surgindo.

“A nossa actividade custa-nos uma média de 15 / 20.000 euros por ano”

Litoralgarve – Quanto custa a actividade e quais os apoios?

Luís Morgado – A nossa actividade custa-nos uma média de 15 / 20.000 euros por ano. Temos o apoio da nossa população, da Câmara Municipal de Lagos, a Junta de Freguesia de Odiáxere atribui-nos [para 2024] um subsídio de 950 euros, a da Luz, 200 euros. Já em relação às outras freguesias do concelho, ainda não sei qual será o valor que nos vai dar.

Anualmente seriam necessários “50.000 euros, no mínimo. Em cada saída, gastamos, no mínimo, no mínimo, 2.000 euros só em refeições”

Litoralgarve – E de quanto necessitaria anualmente?

Luís Morgado – De 50.000 euros, no mínimo. Em cada saída, gastamos, no mínimo, no mínimo, 2.000 euros só em refeições. Já o transporte é cedido pela autarquia.

Em 2024, “já recebemos três convites para nos deslocarmos a Espanha e um a França, mas não nos é possível ir ao estrangeiro para podermos gerir as finanças”

Litoralgarve – O Rancho Folclórico e Etnográfico de Odiáxere tem previstas actuações noutros países?

Luís Morgado – Neste ano, não. Já recebemos três convites para nos deslocarmos a Espanha e um a França, mas não nos é possível ir ao estrangeiro para podermos gerir as finanças. Em Espanha, convidaram-nos para participar num festival em Madrid. Não pudemos aceitar também porque já temos a nossa programação completa.

“Os elementos que temos são mais da chamada ‘terceira idade’. Alguns já estão com dificuldades em dançar. Temos de reforçar o rancho com malta mais nova. Está a ser um bocado complicado. A juventude não adere muito ao folclore. Julga que o folclore é diferente.”

Litoralgarve – Quantos elementos formam o rancho?

Luís Morgado – Contamos, neste momento, com uma média de 50 pessoas.

Litoralgarve – Há meses, disse-nos que são necessários mais jovens e continua a insistir nesse apelo. O que se passa?

Luís Morgado – Os elementos que temos são mais da chamada ‘terceira idade’. Alguns já estão com dificuldades em dançar. Temos de reforçar o rancho com malta mais nova.

Litoralgarve – E acha possível?

Luís Morgado – Está a ser um bocado complicado. A juventude não adere muito ao folclore. Julga que o folclore é diferente porque temos regras para cumprir.

Litoralgarve – Porquê?

Luís Morgado – Somos sócios da Federação [do Folclore Português] e temos de cumprir as regras que nos pedem.

Neste rancho, “temos de trajar, estando a representar o século XIX. Como tal, temos de pesquisar quais as roupas e as datas, em que se usavam antigamente na nossa zona”

Litoralgarve – E o que pedem, por exemplo?

Luís Morgado – Temos de trajar, estando a representar o século XIX. Como tal, temos de pesquisar quais as roupas e as datas, em que se usavam antigamente na nossa zona.

Litoralgarve  – Os filhos e os netos dos elementos do Rancho Folclórico e Etnográfico de Odiáxere podem dar continuidade à actividade? Estão a aderir?

Luís Morgado – Felizmente, estão a aderir. São uma mais-valia.

Litoralgarve – Qual a média de idades dos elementos que compõem este grupo?

Luís Morgado – Temos pessoas dos 13 aos 80 anos. O pessoal de mais idade está com um pouco de dificuldades para esta actividade.

“Seria uma mais-valia para o nosso concelho” ser capital nacional do folclore. “Claro que Lagos tem condições nesse sentido. Gostaríamos de estar inseridos nesse projecto.”

Litoralgarve – Lagos tem condições para ser capital nacional do folclore?

Luís Morgado – Não é fácil, mas penso que sim. Se as pessoas quiserem e em conjunto com as colectividades, poderia ser tentado esse trabalho. Claro que Lagos tem condições nesse sentido, para ser capital nacional do folclore. Seria uma mais-valia para o nosso concelho. Gostaríamos de estar inseridos nesse projecto.

“Temos de repor trajes que já estão mais velhos. Agora, para trajar um par [de dançarinos], fica-nos, na média, de 300 / 350 euros. Cada casal.”

Litoralgarve – A participação noutros eventos, em 2024, para além dos já programados, dependerá, sobretudo, da disponibilidade económica?

Luís Morgado – Sim, da actividade que, ainda, conseguirmos desenvolver durante o período do Verão. Será positivo se tivermos trabalho no Verão, em que possamos ganhar algum dinheiro até para repor os trajes que já estão mais velhos.

Litoralgarve – Além da questão económica, o que falta ao Rancho Folclórico e Etnográfico de Odiáxere?

Luís Morgado – Como referi, temos de repor trajes. Agora, para trajar um par [de dançarinos] fica-nos, na média, de 300 / 350 euros. Cada casal.

Litoralgarve – E os instrumentos?

Luís Morgado – Um acordeão custa, em média, 1.000 / 2.000 euros. Temos um acordeão que é nosso. É o único que temos. Os outros [acordeões] são das pessoas [que estão no rancho] e estamos a pagar por cada actuação. Além disso, temos ferrinhos, uma gaita-de-beiços, uma viola e castanholas.

Litoralgarve – Então, quanto custa cada actuação do rancho e quanto recebe?

Luís Morgado – O que nos estão a propor [em cada convite recebido pelo rancho] é uma média de 150 /200 euros. É difícil ter três acordeonistas a ganhar 60 / 70 euros [no total], enquanto a Direcção do Rancho recebe 120 euros por actuação e ainda utiliza quatro carrinhas nas deslocações.

“Estamos a precisar, pelo menos, de três, ou quatro trajes novos. É que, também, somos avaliados pela Federação. Os seus responsáveis vêm aqui [a Odiáxere] fazer uma visita técnica, com os conselheiros, e, depois, vão avaliar quais os aspectos em que temos de melhorar.”

Litoralgarve – E quantos trajes são necessários para fazer a remodelação desejada a esse nível?

Luís Morgado – São muitos. Neste momento, estamos a precisar, pelo menos, de três, ou quatro trajes novos. É que, também, somos avaliados pela Federação. Os seus responsáveis vêm aqui [a Odiáxere] fazer uma visita técnica, com os conselheiros, e, depois, vão avaliar quais os aspectos em que temos de melhorar. Estamos a aprender todos os dias.

Litoralgarve  – As letras, versos das canções são para continuar ou poderá haver mudanças?

Luís Morgado – Não podemos mudar. São recolhas que efectuámos aqui na freguesia e no concelho de Lagos. Não podemos mudar os enxertos que lá estão.

“O que mais marca é o facto de conseguirmos manter o grupo, que é federado, e ter a nossa sede. É o maior orgulho que a gente tem.”

Litoralgarve – Nestes 25 anos como presidente da Direcção do Rancho Folclórico e Etnográfico de Odiáxere, qual foi o momento que mais o marcou?

Luís Morgado – O que mais marca é o facto de conseguirmos manter o grupo, que é federado, e ter a nossa sede. É o maior orgulho que a gente tem.

Com a pandemia da Covid-19, “estivemos durante dois anos sem trabalhar, sem nada ganhar. E este pessoal vai velho sentiu o efeito das vacinas e tudo o mais. Foram as pessoas mais afectadas”

Litoralgarve – Há quantos anos este rancho é federado?

Luís Morgado – Estamos federados antes da pandemia da Covid-19. [desde 03 de Julho de 2015 – n.d.r.]

Litoralgarve – A pandemia condicionou a vossa actividade?

Luís Morgado – Muito, muito…

Litoralgarve – De que forma?

Luís Morgado – Estivemos durante dois anos sem trabalhar, sem nada ganhar. E este pessoal vai velho sentiu o efeito das vacinas e tudo o mais. Foram as pessoas mais afectadas.

Litoralgarve – O futuro deste rancho folclórico depende, sobretudo, das condições económicas e para desenvolver um bom trabalho e aceitar convites para deslocações ao estrangeiro seriam necessários 50 mil euros por ano. É essa a conclusão…

Luís Morgado – Isso seria o ideal. Para atingir esse nível, o fundamental seria termos 50 mil euros.

Receitas provenientes de eventos e de convites para actuações em unidades hoteleiras dão “para as despesas e para ir mantendo a nossa actividade.” “Temos quatro carrinhas, seguros para pagar, mais o seguro do pessoal, que atinge 600 euros.”

Litoralgarve – E para que chega, afinal, o dinheiro que recebem das actuações nos hotéis e em eventos no Algarve e noutras zonas do país?

Luís Morgado – Para as despesas e para ir mantendo a nossa actividade. Temos quatro carrinhas, seguros para pagar, mais o seguro do pessoal, que atinge 600 euros. Depois, temos de dar os trajes aos elementos do rancho.

Litoralgarve – Há condições em Lagos ao nível de espaços, instalações, para eventos como o folclore?

Luís Morgado – Temos condições para um Festival de Folclore. Mas para tal, vamos ter três grupos a dormir na escola e nas instalações do Clube Desportivo de Odiáxere. E ainda teremos de recorrer a uma escola em Lagos para meter mais dois ou três grupos.

“Os espaços existentes estão muito ocupados por outras coletividades. Não conseguimos fazer um projecto de um ano para o outro.”

Litoralgarve – E espaços para o público assistir?

Luís Morgado – Haver, há. Temos é de arranjar maneira de encontrar disponibilidade. Os espaços existentes estão muito ocupados por outras colectividades. Não conseguimos fazer um projecto de um ano para o outro. Temos tido uma adesão espectacular e vejo que as pessoas aderem ao folclore.

Litoralgarve – Quantos ranchos existem nesta zona do Algarve?

Luís Morgado – No concelho de Lagos só existe o nosso. No barlavento, há o Rancho do Calvário [no concelho de Lagoa] e o da Ladeira do Vau [em Portimão]. No sotavento existem mais ranchos.

“Aprender a dançar” foi o primeiro desafio ao ser eleito presidente da Direção do Rancho Folclórico e Etnográfico de Odiáxere. “Eu não sabia dançar. Na altura, tinha 18 anos”

Litoralgarve – No final do almoço do 40º. aniversário do Rancho Folclórico e Etnográfico de Odiáxere, o senhor disse que aceitou ser presidente da Direcção, há 25 anos, porque o desafiaram. Qual foi o seu primeiro trabalho, o primeiro desafio?

Luís Morgado – Foi aprender a dançar. Eu não sabia dançar. Na altura, tinha 18 anos.

Litoralgarve – E foi, ou não, difícil?

Luís Morgado – Foi difícil. Mas, pronto, com o tempo tudo se fez.

“Ser presidente do rancho era um objectivo que eu tinha” (…) “A minha família está toda no folclore”

Litoralgarve – E em relação ao cargo em si de presidente que passou a desempenhar?

Luís Morgado – Foi a aposta que fizeram em mim e não foi difícil. Ser presidente do rancho era um objectivo que eu tinha.

Litoralgarve – E a sua família, esposa e filhos?

Luís Morgado – A minha família está toda no folclore. (concluiu, entre risos)

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