Entrevista a Joana Reis, do Movimento ‘Lagos Mais Verde’: “Um Parque Verde Municipal, com áreas educativas e de lazer, trará benefícios muito mais duradouros do que qualquer projeto privado” 

Este projeto inovador tem como objetivo transformar o espaço da antiga Escola EB 2,3 de Lagos, que se encontra abandonado há mais de uma década, no Rossio de São João, num parque verde municipal, devolvendo-o à comunidade com novas funções: desfrutar da natureza, de convívio, bem-estar e aprendizagem em contacto com o ambiente natural.

“A motivação surgiu ao constatar que o crescimento de Lagos tem sido marcado pela construção destinada ao turismo e habitação de luxo, evidenciando a falta de espaços dedicados à comunidade.”

“Lagos precisa de mais espaços verdes para as pessoas, que promovam uma melhor qualidade de vida.”

“Com uma área verde de referência, Lagos pode florescer como uma cidade inovadora, inclusiva e sustentável.”

Em entrevista exclusiva ao ‘Litoralgarve’, a autora da ideia, Joana Reis Correia, psicóloga e membro do recém- criado ‘Movimento Lagos Mais Verde’, conta como tudo surgiu, o que inclui o projecto, destaca os seus benefícios para a cidade e enaltece o apoio da população na petição, entretanto lançada.

Para já, aguarda com expectativa a palavra da Câmara Municipal de Lagos, tendo em vista a concretização desta iniciativa. O financiamento, ainda sem números apontados, poderá passar pelo governo português e pela União Europeia, existindo verbas em programas próprios nesse sentido.

José Manuel Oliveira

Litoralgarve – De quem foi a ideia e como surgiu este projecto?

Joana Reis Correia – Pensar aquele espaço, para mim, foi um impulso irresistível, uma oportunidade única para a cidade, para todos. Eu e várias gerações de lacobrigenses andámos naquela escola, ainda estão lá as mesmas árvores, o mesmo Dinossauro com que brincávamos, as boas memórias. É um espaço público, é parte da nossa identidade, num local próximo de todos. Nós precisamos de espaços públicos verdes, onde as pessoas possam desfrutar e conviver, onde as crianças possam brincar em segurança.

O projeto foi iniciado por mim há cerca de dois anos e meio. A motivação surgiu ao constatar que o crescimento de Lagos tem sido marcado pela construção destinada ao turismo e habitação de luxo, evidenciando a falta de espaços dedicados à comunidade.

Senti que é importante equilibrar este desenvolvimento. Uma cidade moderna tem de ser mais verde, equilibrada e voltada para a comunidade. Foi isso que me levou a avançar com a ideia. Acreditei sempre que esta ideia podia fazer a diferença!

Reunimos um grupo núcleo de cidadãos que se empenhou profundamente, constituído pela Delfina Barroca e pelo Walter Ludwick (Nita e Walt, proprietários da Quinta Vale da Lama), Bruno Silva, o nosso ‘designer’, Ana Reis, professora, Rute Saraiva, empresária, Ana Ribeiro, artista plástica, Carla Sousa, guia turística, Laura Green, educadora e por mim, psicóloga.

Juntos, criámos o movimento “Lagos Mais Verde”, lançado para a comunidade em Maio de 2025. Para percebermos a vontade popular, lançámos a petição pública pela “Criação do Parque Verde Municipal de Lagos, no espaço da antiga escola EB2,3 de Lagos” (https://peticaopublica.com/?pi=PT125131), e já temos mais de 3500 assinaturas.

Hoje, é muito mais do que a ideia inicial. É um sonho coletivo, construído em conjunto e pensado para servir toda a população de Lagos e visitantes.

“Atualmente, o Movimento ‘Lagos Mais Verde’ conta com uma equipa alargada de mais de 40 voluntários. São pessoas de diversas áreas e competências, desde professores, arquitetos, biólogos, advogados ou engenheiros do ambiente, advogados e cidadãos comuns, todos unidos por um objetivo comum: tornar o projeto uma realidade!”

Litoralgarve – Quem integra o movimento ‘Lagos Mais Verde’?

Joana Reis Correia – A formação do grupo-núcleo começou em Novembro de2024. A ideia foi maturando e responde a váriaspreocupações: aumentar os espaços verdes e de lazer,preservar a água doce, reduzir o calor e o ruído urbano, epromover um modelo de desenvolvimento sustentável eeducativo.

É um movimento apartidário e aberto a todos os que desejem colaborar de forma positiva. Atualmente, o Movimento ‘Lagos Mais Verde’ conta com uma equipa alargada com mais de 40 voluntários. São pessoas de diversas áreas e competências, desde professores, arquitetos, biólogos, advogados, engenheiros do ambiente, advogados e cidadãos comuns, todos unidos por um objetivo comum: tornar o projecto [do Parque Verde Municipal de Lagos] uma realidade! Os nossos valores assentam na proteção ambiental, na educação e no envolvimento ativo da comunidade, que tem sido a nossa maior aliada. O apoio dos cidadãos, através das suas ideias, partilhas e assinaturas, tem transformado este movimento num verdadeiro projecto comunitário, destinado a tornar-se parte integrante da identidade de Lagos. Temos integrado várias ideias da comunidade no projeto e juntos, queremos construir uma cidade onde a sustentabilidade, o bem-estar e a ligação à natureza sejam pilares fundamentais do seu futuro.

“Estamos a trabalhar na criação de um memorando económico e financeiro, realizámos uma proposta visual em 3D, com o apoio de arquitetos e desenhador 3D”

“E estamos a preparar a apresentação pública para a Assembleia Municipal de Lagos. Paralelamente, estamos a desenvolver uma história infantil sobre o parque e a importância da natureza, como forma de sensibilização para os mais novos.”

Litoralgarve – Que ações têm sido desenvolvidas nesse sentido?

Joana Reis Correia – Em 2024, fiz uma primeira apresentação ao Presidente da Camara, sem seguimento na altura. Fizemos uma segunda apresentação do projecto ao Presidente da Câmara, em Junho de 2025. Desde então, o projeto tem vindo a ganhar imensa força!

Temos desenvolvido várias ações presenciais para divulgação do projeto e recolher assinaturas, com excelente adesão da comunidade. Estamos a trabalhar na criação de um memorando económico e financeiro, realizámos uma proposta visual em 3D, com o apoio de arquitetos e desenhador 3D. E estamos a preparar a apresentação pública para a Assembleia Municipal de Lagos. Paralelamente, estamos a desenvolver uma história infantil sobre o parque e a importância da natureza, como forma de sensibilização para os mais novos.

Estamos, também, a estabelecer parcerias e temos mantido reuniões informais com várias associações, empresários, diretores e representantes políticos, tendo por objetivo promover o diálogo e influenciar positivamente a construção do Parque Verde Municipal de Lagos, mas também de uma cidade mais verde no geral, unida e participativa.

“Este projeto assenta em três pilares fundamentais: Natureza e Ecologia, Educação e Comunidade”

“Uma mini floresta urbana, baseada no modelo ‘Miyawaki’ [botânico japonês – n.d.r.]

• Um jardim mediterrânico;

• Um núcleo de apoio escolar;

• Zonas de lazer e piquenique e um pequeno café de apoio;

• Um parque infantil;

• Uma biblioteca municipal ou um polo da atual Biblioteca Municipal / espaço cultural;

• Um espaço ‘pet friendly’  [amigos dos animais domésticos, nomeadamente cães e gatos – n.d.r] ”

Litoralgarve – Entremos em pormenores: em que consiste, concretamente, o projecto destinado à criação do referido ‘Parque Verde Municipal de Lagos’, no local onde funcionou a Escola EB 2,3, em São João?

Joana Reis Correia – Este projeto inovador tem como objetivo transformar o espaço da antiga Escola EB 2,3, em São João, num Parque Verde Municipal de carácter ecológico, devolvendo-o à comunidade. Pretende criar um espaço com memória para as gerações que por ali passaram, onde todas as pessoas se sintam bem-vindas e possam usufruir de natureza, convívio, bem-estar e educação em ambiente natural.

Será um espaço multifuncional, concebido para integrar diversas valências:

• Uma mini floresta urbana, baseada no modelo

‘Miyawaki’ [botânico japonês – n.d.r.];

• Um jardim mediterrânico;

• Um núcleo de apoio escolar;

• Zonas de lazer e piquenique e um pequeno café de apoio;

• Um parque infantil;

• Uma biblioteca municipal ou um polo da atual Biblioteca Municipal / espaço cultural;

• Um espaço ‘pet friendly’ ” [amigo dos animais domésticos, nomeadamente cães e gatos – n.d.r.]

Este projeto assenta em três pilares fundamentais:

Natureza e Ecologia, Educação e Comunidade.

“Além das árvores existentes, serão plantadas espécies autóctones e mediterrânicas, como oliveiras, sobreiros, alfarrobeiras, medronheiros, azinheiras, loureiros, espécies adaptadas ao clima e com baixas necessidades de rega”

Natureza e Ecologia

O Parque Verde valoriza a biodiversidade local, integrando um jardim mediterrânico e áreas de regeneração ecológica com uma mini floresta urbana.

Para além das árvores existentes, serão plantadas espécies autóctones e mediterrânicas, como oliveiras, sobreiros, alfarrobeiras, medronheiros, azinheiras, loureiros, espécies adaptadas ao clima e com baixas necessidades de rega, contribuindo para a redução das temperaturas urbanas.

Educação

“Duas salas de atividades integradas no ambiente natural, inspiradas em modelos de “escola na natureza” do norte da Europa, a utilizar pelas escolas do concelho”

O parque será, também, um espaço de aprendizagem em contacto com a natureza, prevendo-se a criação de duas salas de atividades integradas no ambiente natural, inspiradas em modelos de “escola na natureza” do norte da Europa, a utilizar pelas escolas do concelho.

Está amplamente comprovado que o contacto com a natureza traz inúmeros benefícios, desde a melhoria da saúde física e psicológica até ao desenvolvimento de competências cognitivas, criativas, emocionais e sociais. Promover a educação ambiental e para a regeneração é, também, um dos grandes objetivos deste espaço.

Comunidade

“Caminhos acessíveis, zonas de lazer e contemplação, áreas de piquenique e um parque infantil com elementos lúdicos que estimulem a imaginação das crianças”

Pensado para todas as idades, o Parque Verde promoverá o encontro intergeracional e o combate ao isolamento social dos mais idosos. Incluirá caminhos acessíveis, zonas de lazer e contemplação, áreas de piquenique e um parque infantil com elementos lúdicos que estimulem a imaginação das crianças.

O que propomos é muito mais do que um jardim. Este Parque Verde Municipal alia natureza, educação e inclusão social num único espaço, ao serviço de toda a comunidade.

“Estamos a preparar um memorando financeiro e económico, que inclui um plano de investimento, um plano de atividades e um orçamento, promovendo a autossuficiência. Prevemos o investimento de algum montante, mas acessível, podendo ser alocado por fases, com recurso a parcerias e fundos europeus.”

Litoralgarve – E quais são os custos? Que investimento é necessário?

Joana Reis Correia – O custo do Parque Verde deve ser visto como um investimento intergeracional. Para apoiar a tomada de decisão, estamos a preparar um memorando financeiro e económico, que inclui um plano de investimento, um plano de atividades e um orçamento, promovendo a autossuficiência. Prevemos o investimento de algum montante, mas acessível, podendo ser alocado por fases, com recurso a parcerias e fundos europeus.

Já temos algumas parcerias e ofertas e estamos convictos de que, após a aprovação do município, conseguiremos mais parcerias. É importante destacar que, atualmente, também estão disponíveis fundos, quer do governo central, quer fundos europeus, que apoiam significativamente este tipo de iniciativas.

“O terreno é propriedade do Município, pelo que a aprovação e a calendarização dependerão inteiramente da decisão do Executivo. Face ao estado de maturação do nosso projeto, se existir vontade política, o arranque poderá ser relativamente rápido.”

Litoralgarve – Se o projecto for aprovado pela Câmara Municipal de Lagos, quando poderá ter início a obra? Em que ano poderá ser concretizado?

Joana Reis Correia – O terreno é propriedade do Município, pelo que a aprovação e a calendarização dependerão inteiramente da decisão do Executivo.

Face ao estado de maturação do nosso projeto, se existir vontade política, o arranque poderá ser relativamente rápido.

“Em pouco tempo já reunimos mais de 3.500 assinaturas, tanto ‘online’, como em papel, tornando esta uma das petições com mais assinaturas da história de Lagos. Este número representa cerca de 10% da população do concelho, o que é altamente significativo e demonstra de forma clara a vontade da comunidade.”

Litoralgarve – Referiu que já existe um abaixo-assinado com mais de 3.500 assinaturas. Quem aderiu? Foi fácil ou difícil recolhê-las?

Joana Reis Correia – A adesão tem sido extraordinária. Em pouco tempo já reunimos mais de 3.500 assinaturas, tanto ‘online’, como em papel, tornando esta uma das petições com mais assinaturas da história de Lagos. Este número representa cerca de 10% da população do concelho, o que é altamente significativo e demonstra de forma clara a vontade da comunidade.

Tem sido muito fácil porque é uma necessidade da população e tem tido adesão de todos os setores. É muito gratificante sentir esta força e perceber a beleza desta mobilização cívica em torno de um projeto positivo para Lagos.

“Esperamos que a autarquia reconheça a força da vontade popular e assuma o compromisso de transformar este espaço num Parque Verde Municipal multifuncional, um projeto de todos e para todos”

Litoralgarve – Quando vai ser entregue o abaixo- assinado à Câmara? O que espera da autarquia?

Joana Reis Correia – Pretendemos entregar a Petição no primeiro semestre de 2026 e apresentar publicamente o projeto à Assembleia Municipal.

Esperamos que a autarquia reconheça a força da vontade popular e assuma o compromisso de transformar este espaço num Parque Verde Municipal multifuncional, um projeto de todos e para todos. Este Parque Verde será um marco e um legado que ficará para as futuras gerações.

“Ter um terreno municipal ao abandono representa uma oportunidade rejuvenescer a Cidade, onde faltam espaços verdes acessíveis. Acreditamos que estamos a tempo de o recuperar e devolvê-lo à comunidade com um propósito coletivo digno.”

“Trata-se de um espaço com uma forte memória colectiva para muitos lacobrigenses, que foi também a minha escola, o que torna este local ainda mais adequado ao projeto do Parque Verde comunitário, com o qual a população se está a identificar e envolver.”

“Acreditamos que este terreno deve continuar a servir a comunidade e deve manter-se como um espaço público e educativo, assegurando que não seja destinado a fins privados. Este não é apenas um espaço abandonado, nem será um simples jardim, é uma oportunidade única para criar um projeto verde, educativo e regenerador no coração de Lagos.”

Litoralgarve – Como reage ao facto de aquele espaço [antiga escola EB 2,3, em São João] estar abandonado há mais de dez anos?

Joana Reis Correia – Ter um terreno municipal ao abandono representa uma oportunidade de rejuvenescer a cidade, onde faltam espaços verdes acessíveis.

Acreditamos que estamos a tempo de o recuperar e devolvê-lo à comunidade com um propósito colectivo digno. Consideramos este o local ideal para o Parque Verde Municipal, pois reúne características naturais, históricas e sociais únicas.

Primeiramente, há muitos anos que se transmite que este terreno terá sido doado ao Município para fins educacionais e sociais. Se essa informação se confirmar oficialmente, acreditamos que devemos preservar a memória desta doação e que o mesmo deve continuar a cumprir essa função, reforçando a importância de manter o espaço ao serviço da comunidade, algo plenamente alinhado com a componente educacional e social do nosso projeto.

Além disso, como já referido, trata-se de um espaço com uma forte memória coletiva para muitos lacobrigenses, pois foi a escola de muitos de nós, o que torna este local ainda mais adequado ao projeto do Parque Verde municipal, com o qual a população se está a identificar e envolver, tornando-se um verdadeiro projeto comunitário.

E prosseguiu:

– Por outro lado, do ponto de vista ecológico, trata-se de um solo de aluvião, muito fértil, situado numa antiga zona de confluência da ribeira de Bensafrim há séculos atrás. É protegido do vento, o que favorece a plantação de espécies autóctones e um ecossistema regenerativo.

Sendo uma área sujeita a cheias, a manutenção do solo permeável é essencial para retenção natural em situações extremas.

O terreno já conta com diversas espécies maduras e de fruto, como oliveiras, alfarrobeiras, amendoeiras, aloés, pereiras, laranjeiras, figueiras, aroeira salsa, pinheiros, entre outras, além de um eucalipto muito antigo que merece ser preservado pela sua idade e beleza.

A localização central e acessível do terreno torna-o ideal para uso comunitário e educativo, num contexto urbano cada vez mais denso. O facto de estar vedado assegura condições de segurança essenciais para a escola na natureza e para o parque infantil.

Por tudo isto – reforçou Joana Reis Correia – acreditamos que este terreno deve continuar a servir a comunidade e deve manter-se como um espaço público e educativo, assegurando que não seja destinado a fins privados. Esta é uma oportunidade única para criar um projeto verde, educativo e regenerador no coração de Lagos.

“A criação de um Parque Verde Municipal, com áreas educativas e de lazer, trará benefícios ambientais, sociais e económicos muito mais duradouros do que qualquer projeto privado ou destinado a públicos específicos, uma vez que as diversas valências propostas servirão toda a comunidade.”

Litoralgarve – Fala-se de que o local poderá vir a ser aproveitado para um projeto urbanístico. O que sabe acerca disso?

Joana Reis Correia – Até ao momento, nunca recebemos qualquer informação oficial sobre a intenção de avançar com um projeto de construção urbanística naquele terreno.

Já realizámos várias reuniões na Câmara Municipal de Lagos, envolvendo urbanistas, os serviços de património e o presidente da Câmara, com o objetivo de discutir e refletir sobre o futuro do espaço.

É provável que tenham surgido propostas privadas, tendo em conta o elevado valor do terreno, propostas essas que, naturalmente, não estariam orientadas para habitação acessível. Entre as possibilidades mencionadas nessas reuniões, foi colocada a hipótese de destinar parte da área a usos mais restritos e condicionados, o que poderia implicar a impermeabilização do solo e até a perda de património natural existente, algo que consideramos imprescindível evitar, e que comprometeria o uso por toda a comunidade.

Foi, também, referida a hipótese de um modelo inspirado numa espécie de “mini Gulbenkian”, que apresenta pontos de contacto com a nossa visão. Ainda assim, entendemos que qualquer solução desse tipo deveria garantir dois princípios fundamentais: a preservação do património natural do terreno e o acesso público, livre e inclusivo para toda a comunidade.

A nossa posição tem sido apresentada de forma clara e construtiva. Consideramos fundamental que o terreno mantenha uma forte componente verde, seja maioritariamente permeável e ambientalmente protegido.

É que, insisto, a criação de um Parque Verde Municipal, com áreas educativas e de lazer, trará benefícios ambientais, sociais e económicos muito mais duradouros do que qualquer projeto privado ou destinado a públicos específicos, uma vez que as diversas valências [por nós] propostas servirão toda a comunidade.

“Durante o processo, o Presidente [da Câmara Municipal de Lagos, Hugo Pereira] demonstrou abertura para o diálogo e colaborou com o que foi solicitado, incluindo visitas ao terreno e escuta ativa da apresentação.”

“É natural que existam diferentes perspetivas e o presidente manifestou algumas reservas sobre a necessidade de criar um novo espaço verde no centro da cidade, sublinhando que Lagos já dispõe de áreas naturais importantes.”

Litoralgarve – Já falou com o Presidente da Câmara Municipal, Hugo Pereira, sobre este projeto inovador para a cidade de Lagos. Como tem sentido a reação dele?

Joana Reis Correia – Sim, já apresentámos o projeto ao Presidente da Câmara por duas vezes. Ao longo do processo, o Presidente demonstrou disponibilidade para dialogar e colaborou com o que foi solicitado, incluindo visitas ao terreno e escuta atenta da apresentação.

É natural que existam diferentes perspetivas, tendo o Presidente manifestado algumas reservas quanto à necessidade de criar um novo espaço verde no centro da cidade, sublinhando que Lagos já dispõe de áreas naturais relevantes.

Da nossa parte, sentimos que existe margem para continuar o diálogo. O crescente apoio da população demonstra que os cidadãos valorizam a criação deste parque verde. Acreditamos que esta mobilização é importante para ajudar o executivo a compreender o alcance da vontade comunitária e que, através de um diálogo contínuo, será possível esclarecer dúvidas e reconsiderar algumas reservas iniciais.

“Acreditamos, também, que o executivo, fiel ao seu lema “pelas pessoas”, continuará a ouvir atentamente a população antes de tomar decisões, valorizando o envolvimento da comunidade na definição do futuro deste espaço. O Parque Verde, volto a referir, será um legado para a história da nossa cidade e para as futuras gerações.”

Continuaremos, assim, a apresentar este projeto de forma construtiva e colaborativa, mantendo a convicção de que proteger o património natural e garantir um espaço verdadeiramente público representam uma oportunidade significativa para o futuro sustentável de Lagos, bem como uma alternativa às praias num contexto de turismo crescente.

Como tal, acreditamos, também, que o executivo, fiel ao seu lema “pelas pessoas”, continuará a ouvir atentamente a população antes de tomar decisões, valorizando o envolvimento da comunidade na definição do futuro deste espaço. O Parque Verde, volto a referir, será um legado para a história da nossa cidade e para as futuras gerações.

“Lagos dispõe de alguns espaços com potencial para aliar natureza e lazer, como o Anel Verde e o Parque Júdice Cabral. O Anel Verde é, actualmente, o único parque público disponível e o Parque Júdice Cabral (Parque das Freiras), está encerrado há vários anos.”

“No entanto, o novo Parque Verde é mais inovador, não será um simples jardim. Trata-se de uma área dedicada à educação ambiental, à ecologia e regeneração, ao ensino, ao contacto com a natureza e à promoção da cultura.”

“Quando comparamos Lagos com outras cidades da Europa e do mundo, percebemos que a cidade tem poucos parques verdes e jardins, bem como escassos parques infantis com sombra e em contacto com a natureza.”

“Ao longo dos anos, vários jardins históricos de Lagos desapareceram, como o Jardim da Praça do Infante Dom Henrique/ Jardim da Constituição, o Jardim do Rossio de São João ou o Jardim do Ferro de Engomar. Torna-se, por isso, fundamental criar e preservar jardins com espécies autóctones e resistentes à seca.”

Litoralgarve – Em que noutras zonas de Lagos poderiam ser criados mais parques verdes?

Joana Reis Correia – Lagos dispõe de alguns espaços com potencial para aliar natureza, lazer e cultura, como o Anel Verde e o Parque Júdice Cabral. O Anel Verde é, actualmente, o único parque público disponível, enquanto o Parque Júdice Cabral (Parque das Freiras) se encontra encerrado há vários anos e seria perfeito para aliar cultura com natureza.

No entanto, o projeto do novo Parque Verde na antiga escola EB 2,3 distingue-se por ser um projeto mais inovador. Trata-se, como já sublinhei, de um espaço dedicado à educação, à ecologia e regeneração, ao contacto direto com a natureza e um espaço de magia para as crianças.

Já nos [outros] dois espaços referidos, não é viável proporcionar este tipo de experiência, o que torna o projeto do Parque Verde na antiga escola EB 2,3 verdadeiramente único em Lagos.

Acresce que se trata de uma zona central da cidade e que já não existem outros terrenos disponíveis com condições para criar uma valência desta qualidade. Isso torna esta oportunidade especialmente relevante, tanto para preservar a área, como para evitar a sua ocupação com outros fins.

Joana Reis Correia aproveitou, ainda, para lançar outros alertas:

– É que quando comparamos Lagos com outras cidades da Europa e do mundo, percebemos que a cidade tem poucos parques verdes e jardins, bem como escassos parques infantis com sombra e em contacto com a natureza. Ao longo dos anos, vários jardins históricos de Lagos desapareceram, como o Jardim da Praça do Infante Dom Henrique/ Jardim da Constituição, o Jardim do Rossio de São João ou o Jardim do Ferro de Engomar. Torna-se, por isso, fundamental criar e preservar jardins com espécies autóctones e resistentes à seca.

Esta é a nova dinâmica de desenvolvimento urbano a nível europeu e mundial: cidades que apostam numa rede de parques e corredores verdes, capazes de ligar diferentes zonas e diversificar usos, reconhecendo que cada espaço cumpre funções distintas.

“A mascote simbólica do futuro parque verde, que gostaríamos de restaurar e integrar como uma peça de memória e afeto, é o antigo escorrega da escola EB 2,3. Uns dizem que é um dinossauro, outros, uma girafa. Por isso, batizámo-lo de “Girossauro” ”

Litoralgarve – Para além de um parque municipal verde com características inovadoras, que outros projectos tem o ‘Movimento Lagos Mais Verde’?

Joana Reis Correia – Neste momento, o foco principal do ‘Movimento Lagos Mais Verde’ é a concretização do projeto do Parque Verde Municipal no antigo ciclo (antiga escola EB 2,3), que por si só já representa um grande desafio. Trata-se, repito, de uma iniciativa exigente, desenvolvida por um grupo de voluntários e que envolve múltiplas dimensões, desde o planeamento ecológico, ao envolvimento da comunidade e ao diálogo com os poderes públicos.

O ‘Movimento Lagos Mais Verde’ também faz parte da comunidade de restauração de ecossistemas do sudoeste algarvio, facilitada pelo Instituto Vale da Lama.

O nosso grande objetivo é a educação ambiental, educar para a regeneração, preservar o solo e a água doce e pensar no futuro da nossa cidade, promovendo a cidadania ativa. Procuramos, também, influenciar positivamente o debate público e político local, promovendo uma visão de cidade mais resiliente, onde a natureza, a saúde e a qualidade de vida da comunidade estejam no centro das decisões.

Na parte final desta entrevista, Joana Reis Correia recordou:

– A mascote simbólica do futuro Parque Verde, que gostaríamos de restaurar e integrar como uma peça de memória e afeto, é o antigo escorrega da escola EB 2,3. Uns dizem que é um dinossauro, outros, uma girafa. Por isso, batizámo-lo de “Girossauro”. 

Da protecção das cegonhas que ali nidificam, ao desafio das alterações climáticas e cumprimento dos vários dos objetivos de desenvolvimento sustentável da agenda 2030 da ONU – Organização das Nações Unidas

“Lagos tem aqui a oportunidade de ser um exemplo nacional e até internacional na área da ecologia e regeneração, educação, do turismo sustentável e de democracia participativa”

E a concluir:  “Este projeto assenta em princípios éticos fundamentais: a preservação das árvores antigas existentes no terreno, a proteção das cegonhas que ali nidificam e o compromisso com iniciativas de educação, regeneração ambiental, criando um espaço dedicado à educação e à comunidade. Este é um projeto verdadeiramente inovador, porque une duas dimensões essenciais: por um lado, responde ao maior desafio do nosso tempo, as alterações climáticas, através da criação de um espaço verde que melhora a qualidade do ar, protege a água e promove a biodiversidade e cumpre vários dos objetivos de desenvolvimento sustentável da agenda 2030 da ONU (Organização das Nações Unidas); e por outro, coloca a comunidade no centro de todo o processo, desde a ideia inicial até à sua concretização. 

Lagos tem aqui a oportunidade de ser um exemplo nacional e até internacional na área da ecologia e regeneração, educação, do turismo sustentável e de democracia participativa.