Entrevista a Hélder Martins, presidente da Direção da AHETA: “Felizmente, a crise económica e social não tem afetado o turismo no Algarve”

Em entrevista por escrito ao ‘site’ «Litoralgarve», o empresário e presidente da Direção da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA), Hélder Martins, lembra que, neste final de ano de 2023, “cada unidade tem o seu preço de acordo com o produto que oferece”, mas, garante, “não sentimos que o preço tenha sido ‘unidcap’ para a confirmação da reserva.”

Já em termos promocionais, aproveita para dirigir um recado aos responsáveis da Região de Turismo do Algarve (RTA): “Que bom teria sido termos uma campanha intensa a convidar os portugueses e espanhóis para passarem o Natal e Fim do Ano no Algarve.”

 

Hélder Martins faz um balanço positivo sobre 2023, considerando-o até “acima de 2022”, e encara, agora, 2024 “com otimismo moderado”. É que, alerta, perante os problemas existentes nesta atividade, entre os quais, a falta de trabalhadores qualificados, “com o aumento de turistas de outros mercados, especialmente o americano, implica que o destino, as empresas e unidades estejam preparadas para receber este tipo de turista”, conhecido pelo seu elevado poder de compra e exigência.

O presidente da Direção da AHETA deixa, ainda, vários avisos ao governo e diz o que tem de ser feito para o Algarve garantir mais turistas durante o Inverno. O segredo passará pela animação, “novas motivações” e diversificação da oferta no litoral e no interior desta região do sul do país.

José Manuel Oliveira

Litoralgarve – Em tempo de crise económica e social, como perspectiva a passagem-de-ano de 2023 para 2024 no Algarve? Há muitas reservas em unidades hoteleiras e empreendimentos turísticos? Quais as zonas mais procuradas?

Hélder Martins – Uma boa ocupação, com especial destaque nas unidades hoteleiras com pacote de alojamento e animação. Felizmente, a crise económica e social não tem afetado o turismo no Algarve. Os concelhos mais procurados são que têm mais oferta hoteleira, nomeadamente Albufeira, Loulé, Portimão, Lagos, Faro, Tavira, Vila Real de Santo António. Há procura em todo o Algarve.

O aeroporto de Faro está 7% acima de 2022, no mês de Dezembro”

Litoralgarve – E em comparação ao ano de 2022?

Hélder Martins – Esperamos superar a ocupação de 2022.

O aeroporto de Faro está 7% acima de 2022, no mês de Dezembro.

 “Em dezembro – mês completo – cerca de 25% das dormidas são de britânicos, 24% portugueses, alemães 8%, holandeses 8%”

 Litoralgarve – Quem vem passar a quadra a esta região? Quais as nacionalidades? São, sobretudo, famílias, grupos de amigos, ou existem outras tendências?

Hélder Martins  – São famílias ou pessoas, individuais ou em grupo, com predominância para os portugueses, mas com boa presença de clientes dos principais mercados emissores para o Algarve.

Em dezembro – mês completo – cerca de 25% das dormidas são de britânicos, 24% portugueses, alemães 8%, holandeses 8%. Considerando que os estrangeiros têm estadias prolongadas no inverno, parece que o principal mercado para a passagem de ano é o nacional.

“O ideal seria, a exemplo da Madeira, a organização de um grande evento âncora, para atrair clientes para toda a região. Assim, temos dezenas de eventos de média e pequena dimensão à escala de cada município.”

Litoralgarve – Em média, quais são os preços de alojamento por dia? Com pensão completa, incluindo o ‘reveillon’? E apenas dormida e pequeno-almoço? O que preferem os turistas?

Hélder Martins – Cada unidade tem o seu preço de acordo com o produto que oferece, mas não sentimos que o preço tenha sido ‘unidcap’ para a confirmação da reserva.

Litoralgave – Os programas de animação, com concertos e artistas, promovidos pelas autarquias nos vários concelhos, são atractivos para a passagem-de-ano no Algarve, ou esperava mais? Algo diferente?

Hélder Martins – O ideal seria, a exemplo da Madeira, a organização de um grande evento âncora, para atrair clientes para toda a região. Assim, temos dezenas de eventos de média e pequena dimensão à escala de cada município.

“As forças policiais garantem a segurança. Está tudo sob controlo e não haverá problemas para quem passar o fim-de-ano no Algarve”

 Litoralgarve – Que conselhos gostaria de deixar para esta passagem-de-ano?

Hélder Martins – Que as pessoas se divirtam, deixem para trás as dificuldades de 2023 e que o ano que entra seja muito melhor para todos.

Litoralgarve – É uma altura em que se cometem excessos. Receia problemas ao nível de segurança?

 Hélder Martins – As forças policiais garantem a segurança. Está tudo sob controlo e não haverá problemas para quem passar o fim-de-ano no Algarve.

“Hoje a concorrência é global, desde o Brasil, Caraíbas e muitos outros. Há muitas opções para o cliente escolher”

 Litoralgarve – Quais são os principais países concorrentes do Algarve nesta altura do ano? Que preços praticam, em média, os hotéis e empreendimentos turísticos nesses destinos? E que atractivos oferecem aos visitantes?

Hélder Martins – Hoje a concorrência é global, desde o Brasil, Caraíbas e muitos outros. Há muitas opções para o cliente escolher.

Litoralgarve – Há muitos portugueses, e em particular residentes no Algarve, a trocar o nosso país por outros destinos turísticos para a passagem de ano?

Hélder Martins –  Os portugueses buscam outros destinos para conhecer novas formas de turismo e assim poderem comparar com o Algarve.

Litoralgarve – E o senhor onde vai passar o ano?

 Hélder Martins – No Algarve.

Litoralgarve – Em que zona?

Hélder Martins – Albufeira.

“Nas unidades de alojamento turístico classificadas deverá haver [em 2023] quase 21 milhões de dormidas, 31% de hóspedes britânicos, 21% de portugueses, 8,6% irlandeses, 8,1% alemães e 5,7% neerlandeses”

LitoralgarveQue balanço faz sobre a época turística de 2023 no Algarve? Quantos milhares de visitantes, de que nacionalidades, estiveram nesta região e quais os concelhos mais procurados?

Hélder Martins – Nas unidades de alojamento turístico classificadas deverá haver, neste ano, quase 21 milhões de dormidas, 31% de hóspedes britânicos, 21% de portugueses, 8,6% irlandeses, 8,1% alemães e 5,7% neerlandeses.

O concelho mais procurado é o de Albufeira, uma vez que concentra cerca de 40% da oferta classificada, seguido por Loulé (onde se encontram Vilamoura, Quarteira, Vale do Lobo e Quinta do Lago) e Portimão (com uma grande concentração de oferta na Praia da Rocha).

O número de dormidas previsto está 2% acima do registado em 2019 e 7% acima de 2022.

Estimamos que as dormidas nas unidades de alojamento representem cerca de 40% do total das dormidas dos turistas que nos visitam, o que eleva o total de dormidas para mais de 50 milhões, incluindo as dormidas em Alojamento local, segundas residências, Parques de Campismo, Autocaravanismo, etc.

“No Algarve, em média, um hóspede gasta 80€ por noite numa unidade de alojamento classificado”

Litoralgave – Quanto gastaram os turistas, em média, por dia?

Hélder Martins – O proveito total das unidades de alojamento classificadas em 2023 deverá rondar 1,6 mil milhões de euros, o que equivale a dizer que, no Algarve, em média, um hóspede gasta 80€ por noite numa unidade de alojamento classificado. A este valor é preciso somar os gastos fora das unidades de alojamento, ou seja, na restauração, no comércio, em atividades, nos transportes, etc.

Comparando com a totalidade de 2022, os proveitos totais estarão 12% acima, em termos nominais, sem contar com a inflação”

 Litoralgarve – Foi mais, ou menos, em comparação com o período do Verão de 2022?

Hélder Martins – Foi acima de 2022. Comparando com a totalidade de 2022, os proveitos totais estarão 12% acima (em termos nominais, sem contar com a inflação).

Litoralgarve – O que é necessário para atrair mais visitantes ao Algarve, na chamada época baixa do turismo, ou seja, no Inverno?

 Hélder Martins – Mais atividades de animação, novas motivações, reforçar a possibilidade de promover atividades de ar livre, quer no litoral quer no interior, nas áreas de saúde e bem-estar.

“Vamos ver se superamos 2019”, em termos turísticos, antes da pandemia da Covid-19

Litoralgarve – Em entrevista concedida, em Agosto, ao ‘Litoralgarve’, o secretário de Estado do Turismo, Comércio e Serviços, Nuno Fazenda, afirmou que 2023 seria o melhor ano turístico de sempre, superior ao período antes da pandemia da Covid-19. O que lhe parece? Correspondeu às expectativas da AHETA?

Hélder Martins – Correspondeu, sim, mas vamos ver se superamos 2019.

“Na hotelaria são necessárias várias centenas de trabalhadores em todas as áreas”

Litoralgarve – Que problemas têm sentido os empresários da hotelaria no Algarve devido à falta de trabalhadores, numa altura em que aumenta a oferta de emprego e se vêem papéis nas montras de estabelecimentos e noutros locais, bem como informação diária nas redes sociais a pedir pessoal?

Hélder Martins – Todos temos falta de recursos humanos qualificados para completar as equipas. Enquanto não tivermos a possibilidade de construir habitação para fornecer aos nossos colaboradores, não teremos condições, dignas, para atrair mais gente para a hotelaria, restauração e animação, no Algarve. Só que o governo ainda não viu esta necessidade.

Litoralgarve – Quantos trabalhadores são necessários e em que áreas?

Hélder Martins – Na hotelaria são necessárias várias centenas em todas as áreas de trabalho.

“A habitação é um dos entraves a que mais pessoas optem por trabalhar no Algarve. O aumento do custo de vida e a política fiscal do governo também não ajudam.”

 Litoralgarve – A falta de pessoal deve-se, também, a baixos salários por parte das empresas, ausência de habitação a preços acessíveis, ou muita gente não quer trabalhar, preferindo receber o subsídio de desemprego?

 Hélder Martins – A muitos fatores. A habitação é um dos entraves a que mais pessoas optem por trabalhar no Algarve. O aumento do custo de vida e a política fiscal do governo também não ajudam.

Litoralgarve – O recurso a trabalhadores de outros países, nomeadamente africanos, asiáticos e do Brasil, é a solução para a escassez de mão-de-obra em Portugal e, em particular, no Algarve? Quais os reflexos dessa situação? É necessária formação profissional a esses trabalhadores? Que problemas sentem eles?

Hélder Martins – O problema é o que já citei atrás, do alojamento e a formação necessária para esses trabalhadores. Por exemplo, os trabalhadores de Cabo Verde ou do Brasil têm uma vantagem de já conhecerem a língua portuguesa.

“Por vezes, queremos dar um prémio de desempenho aos trabalhadores e são os mesmos que nos pedem para não dar, pois isso vai mexer com o IRS e passam a receber menos…”

Litoralgarve – Além da escassez de pessoal para trabalhar, que outros problemas têm enfrentado os empresários da hotelaria e de empreendimentos turísticos?

 Hélder Martins – O problema da escassez de água é um dos maiores, além da questão da elevada carga fiscal das pessoas e das empresas. Por vezes, queremos dar um prémio de desempenho aos trabalhadores e são os mesmos que nos pedem para não dar, pois isso vai mexer com o IRS e passam a receber menos….

“Agora, para muitas famílias que, por exemplo, têm empréstimo [bancário] da casa, torna-se difícil fazer férias no Algarve, ou em qualquer outro destino. Segundo vários estudos, há mais de 30% de portugueses ‘proibidos’ de fazer férias, por esse motivo”

Litoralgarve – Como encara o ano de 2024 ao nível do turismo no Algarve? O que é necessário mudar? Onde tem de haver maior procura, mais investimento em termos de mercados?

Hélder Martins – Com otimismo moderado. Os problemas já citados com o aumento de turistas de outros mercados, especialmente o americano, o que implica que o destino, as empresas e unidades estejam preparadas para receber este tipo de turista.

Litoralgarve – Os portugueses ainda continuam a procurar o Algarve. Porquê?

Hélder Martins – Porque é o destino de eleição para os portugueses e são extremamente bem-vindos. Agora, para muitas famílias que, por exemplo, têm empréstimo [bancário] da casa, torna-se difícil fazer férias no Algarve, ou em qualquer outro destino. Segundo vários estudos, há mais de 30% de portugueses ‘proibidos’ de fazer férias, por esse motivo.

O desejo de que o presidente da Região de Turismo do Algarve, André Gomes, “consiga um dos seus objetivos, de aumentar o orçamento da RTA, para poder pôr em prática campanhas de promoção do destino, especialmente na sua área de atuação, Portugal e Espanha

 

“Que bom teria sido termos uma campanha intensa a convidar os portugueses e espanhóis para passarem o Natal e Fim do Ano no Algarve”

Litoralgarve – Que alertas deixa ao novo presidente da Região de Turismo do Algarve, André Gomes?

 Hélder Martins – Que consiga um dos seus objetivos, de aumentar o orçamento da RTA, para poder pôr em prática campanhas de promoção do destino, especialmente na sua área de atuação, Portugal e Espanha. Que bom teria sido termos uma campanha intensa a convidar os portugueses e espanhóis para passarem o Natal e Fim do Ano no Algarve.

Alojamento local? “Uma machadada na atividade e um convite à fuga para o mercado paralelo. São decisões tomadas por quem ‘vive no mundo da lua’!!!”

Litoralgarve – O que pensa da polémica em torno do alojamento local?

Hélder Martins – Uma machadada na atividade e um convite à fuga para o mercado paralelo. São decisões tomadas por quem ‘vive no mundo da lua’!!!

Guerras entre Israel e o grupo islâmico Hamas e na Ucrânia, “infelizmente, muitas vezes têm impacto positivo, pois desviam turistas de outros destinos para zonas mais afastadas do teatro de guerra”

Litoralgarve – Que consequências têm, em termos turísticos, as guerras entre Israel e o grupo islâmico Hamas, naquela zona do Médio Oriente, e na Ucrânia?

Hélder Martins – Infelizmente, muitas vezes têm impacto positivo, pois desviam turistas de outros destinos para zonas mais afastadas do teatro de guerra.

“O recado de Hélder Martins ao próximo governo: O Algarve necessita de “um ministro do Turismo”

 “Mas se isso não for possível, ao menos que voltássemos a ter um Secretário de Estado só para o turismo e não partilhado com outra atividade económica, como agora acontece”

A concluir a entrevista que concedeu ao ‘Litoralgarve’, a poucas horas do início do ano de 2024, Hélder Martins presidente da Direção da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve, deixou mais um recado e desta vez já dirigido ao próximo governo que vier a ser formado, na sequência das eleições legislativas antecipadas, no dia 10 de Março: “Os meus votos de Ano Novo seriam que o Algarve se pudesse afirmar, cada vez mais, como um destino de excelência e que pudéssemos ter o que merecemos: Um ministro do Turismo, pela importância da atividade. Mas se isso não for possível, ao menos que voltássemos a ter um Secretário de Estado só para o turismo e não partilhado com outra atividade económica, como agora acontece. Que seja reconhecido ao turismo a sua importância, sem complexos nem medo. É a recomendação ao novo governo!”

“Já agora que não abandone o Algarve, com a implementação de investimentos estruturantes, nas diversas áreas de atuação”, disse, a finalizar, Hélder Martins.