Entrevista a Ângelo Mariano, dirigente da ACRAL: “Os acontecimentos internacionais têm sempre impacto no turismo. Portugal tem sido visto como um destino seguro e isso pode influenciar as escolhas dos turistas”

“Ainda assim, devemos encarar essa situação com prudência e continuar a apostar na qualidade da oferta turística”, afirmou, em entrevista ao ‘Litoralgarve’, Ângelo Mariano, coordenador da Associação do Comércio e Serviços da Região do Algarve (ACRAL), nos concelhos de Lagos, Aljezur e Vila do Bispo.

O aviso surgiu ao ser confrontado pelo nosso Jornal com as repercussões do conflito no Médio Oriente, entre os Estados Unidos da América, Israel e o Irão, numa altura em que empresários do sector turístico apostam num “bom Verão” nesta zona do sul do país. E também durante a Páscoa.

Por outro lado, num encontro com empresários de Lagos, promovido pela ACRAL no auditório dos Paços do Concelho Século XXI, no dia 02 de Março, a partir das 17h.30m., que teve a presença do vice-presidente da Direção, Paulo Alentejano, da directora-executiva, Ana Fernandes, do dirigente Ângelo Mariano e (inicialmente) da vereadora da autarquia, Sara Coelho, a proprietária de um estabelecimento comercial lançou um recado: “No Verão todos vivem”, mas na época baixa do turismo, sobretudo em Janeiro e Fevereiro, “não há nada que atraia as pessoas ao centro da cidade”  de Lagos, para fazer compras, altura em que muitos restaurantes fecham para férias.

A falta de formação de empresários, o desconhecimento de vários aspectos da legislação e o consequente incumprimento de regras foram outros dos problemas destacados no encontro, durante o qual os responsáveis da ACRAL pretenderam auscultar os participantes, prestaram os esclarecimentos solicitados e disponibilizaram-se para apoiar os proprietários dos estabelecimentos com toda a informação necessária.

Ao mesmo tempo, foram apresentadas sugestões para dinamizar a actividade comercial em Lagos, nomeadamente a criação do cartão do munícipe, com descontos e outras vantagens em compras. Contudo, o que, para já, está em causa é a gestão do espaço público na zona do Centro Histórico por parte da autarquia e a falta de incentivos, de forma a atrair a população ao centro da cidade.

A animação de rua, com espetáculos diversos, eventos culturais e mercados temáticos, entre outras iniciativas, é, nesta entrevista de Ângelo Mariano, a aposta da ACRAL, que terá de passar pela Câmara Municipal de Lagos.

José Manuel Oliveira

Litoralgarve – Neste encontro promovido pela ACRAL, em Lagos, compareceram apenas dez empresários locais. A que se deve essa reduzida participação?

Ângelo Mariano – A participação ficou aquém do desejável, mas compreendemos que muitos empresários enfrentam horários exigentes e, por vezes, dificuldade em conciliar a gestão dos seus estabelecimentos com a presença em reuniões institucionais. Ainda assim, acreditamos que encontros desta natureza são fundamentais para discutir problemas comuns e procurar soluções conjuntas. Para futuras iniciativas, a ACRAL pretende reforçar a divulgação e procurar horários mais ajustados, de modo a facilitar uma maior participação dos empresários do concelho.

“Em muitos casos, os empresários enfrentam constantes atualizações legislativas, nomeadamente nas áreas fiscal, laboral, segurança alimentar e segurança contra incêndios.”

“Nem sempre é fácil acompanhar todas essas alterações. O desconhecimento pode, efetivamente, originar situações de incumprimento e consequentes coimas ou sanções administrativas.”

Litoralgarve – Há necessidades de formação dos empresários e situações de desconhecimento da legislação. O que está concretamente em causa?

Ângelo Mariano – Em muitos casos, os empresários enfrentam constantes atualizações legislativas, nomeadamente nas áreas fiscal, laboral, segurança alimentar e segurança contra incêndios. Nem sempre é fácil acompanhar todas essas alterações. O desconhecimento pode, efetivamente, originar situações de incumprimento e consequentes coimas ou sanções administrativas. A ACRAL tem procurado promover ações de informação e formação precisamente para apoiar os empresários e prevenir esse tipo de situações.

“É essencial dinamizar o centro histórico durante os meses de menor afluência turística. Isso poderá passar pela organização de eventos culturais, mercados temáticos, animação de rua, iniciativas gastronómicas e campanhas promocionais que incentivem a população local e visitantes a frequentar o comércio tradicional.”

Litoralgarve – O que pode ser feito para atrair pessoas ao centro de Lagos na época baixa do turismo?

Ângelo Mariano – É essencial dinamizar o centro histórico durante os meses de menor afluência turística. Isso poderá passar pela organização de eventos culturais, mercados temáticos, animação de rua, iniciativas gastronómicas e campanhas promocionais que incentivem a população local e visitantes a frequentar o comércio tradicional. A colaboração entre comerciantes, associações e a autarquia será determinante para criar um calendário regular de atividades.

“A ideia de um cartão do munícipe pode ser uma ferramenta interessante para incentivar o consumo local. Poderia funcionar através de parcerias entre o comércio local e a autarquia, oferecendo descontos ou benefícios em determinadas compras.”

Litoralgarve – O cartão do munícipe com descontos poderá ser uma solução para o consumo?

Ângelo Mariano – A ideia de um cartão do munícipe pode ser uma ferramenta interessante para incentivar o consumo local. Poderia funcionar através de parcerias entre o comércio local e a autarquia, oferecendo descontos ou benefícios em determinadas compras. O importante seria garantir que o sistema fosse simples, transparente e vantajoso tanto para os consumidores, como para os comerciantes.

“Grandes superfícies comerciais acabam por atrair consumidores devido à diversidade de oferta e campanhas promocionais. Contudo, o comércio local de Lagos tem qualidade, proximidade e um serviço personalizado que deve ser valorizado. O desafio passa por reforçar essa valorização e criar incentivos para que os residentes façam as suas compras na cidade.”

Litoralgarve – Muitos residentes em Lagos preferem fazer compras na localidade da Guia, situada no concelho de Albufeira, e em Portimão. Como avalia essa situação?

Ângelo Mariano – É uma realidade que também acontece noutras regiões. Grandes superfícies comerciais acabam por atrair consumidores devido à diversidade de oferta e campanhas promocionais. Contudo, o comércio local de Lagos tem qualidade, proximidade e um serviço personalizado que deve ser valorizado.

Litoralgarve – De que modo?

Ângelo Mariano – O desafio passa por reforçar essa valorização e criar incentivos para que os residentes façam as suas compras na cidade.

Litoralgarve – Também faz compras fora de Lagos?

Ângelo Mariano – Tal como qualquer cidadão, ocasionalmente faço algumas compras fora de Lagos, sobretudo quando procuro determinados produtos que não se encontram facilmente no comércio local. No entanto, procuro sempre privilegiar os estabelecimentos da cidade, pois é fundamental apoiar a economia local.

Litoralgarve – Há a questão das placas publicitárias de estabelecimentos na via pública e multas perante incumprimentos. Como vê esta situação?

Ângelo Mariano – A organização do espaço público é importante e deve obedecer a regras claras. No entanto, também é essencial que exista diálogo entre os comerciantes e a autarquia para que se encontrem soluções equilibradas. O objetivo deve ser permitir a divulgação dos estabelecimentos sem comprometer a estética e a circulação nos espaços públicos.

“Alguns empresários, sobretudo os de menor dimensão, podem ter dificuldades na adaptação às plataformas digitais e às obrigações fiscais associadas ao comércio ‘online’. A ACRAL pode desempenhar um papel importante através de ações de esclarecimento e formação, ajudando os comerciantes a adaptar-se a esta realidade.”

Litoralgarve – As vendas ‘online’ têm de ser declaradas. Há dificuldades dos empresários nesse processo?

Ângelo Mariano – Alguns empresários, sobretudo os de menor dimensão, podem ter dificuldades na adaptação às plataformas digitais e às obrigações fiscais associadas ao comércio ‘online’.

A ACRAL pode desempenhar um papel importante através de ações de esclarecimento e formação, ajudando os comerciantes a adaptar-se a esta realidade.

Trotinetes e bicicletas? “A circulação desregulada pode colocar em risco a segurança dos peões. A solução passa por uma regulamentação clara, fiscalização adequada e sensibilização dos utilizadores para o respeito pelas zonas pedonais.”

Litoralgarve – A circulação de trotinetes e bicicletas nas zonas pedonais, em Lagos, é um problema apontado por muita gente…

Ângelo Mariano – Tem sido uma preocupação manifestada por vários comerciantes e residentes. A circulação desregulada pode colocar em risco a segurança dos peões. A solução passa por uma regulamentação clara, fiscalização adequada e sensibilização dos utilizadores para o respeito pelas zonas pedonais.

“A Feira de Natal tem sido uma iniciativa muito positiva para dinamizar o comércio e atrair visitantes. A possibilidade de alargar ou complementar este evento a outros espaços da cidade poderá ser analisada, sempre em articulação com a autarquia e os comerciantes.”

Litoralgarve – A Feira de Natal poderá ser alargada a outros locais da cidade?

Ângelo Mariano – A Feira de Natal tem sido uma iniciativa muito positiva para dinamizar o comércio e atrair visitantes. A possibilidade de alargar ou complementar este evento a outros espaços da cidade poderá ser analisada, sempre em articulação com a autarquia e os comerciantes, de forma a beneficiar o maior número possível de estabelecimentos.

Litoralgarve – Que eventos podem ser promovidos nos meses da denominada época baixa, sobretudo Janeiro e Fevereiro, para atrair pessoas ao centro da cidade de Lagos?

Ângelo Mariano – Existem várias possibilidades, como animação de rua, espetáculos musicais, eventos culturais, concursos temáticos ou mercados tradicionais, como já referi. O importante é criar motivos para que as pessoas visitem o centro histórico e, consequentemente, dinamizem o comércio local.

Litoralgarve – Para quando uma semana gastronómica dedicada ao polvo, de que se tem falado?

Ângelo Mariano – Essa é uma ideia que tem sido discutida há algum tempo e que pode valorizar a gastronomia local. A concretização depende da articulação entre associações, restauração e entidades locais. Esperamos que seja possível avançar com uma iniciativa desse género num futuro próximo.

“Os empresários devem apostar na qualidade do serviço, na inovação, na formação das equipas e na adaptação às novas tendências de consumo. A preparação antecipada é essencial para responder às exigências do mercado.”

Litoralgarve – A situação de conflito internacional no Médio Oriente poderá beneficiar o turismo no Algarve?

Ângelo Mariano – Os acontecimentos internacionais têm sempre impacto no turismo. Historicamente, Portugal tem sido visto como um destino seguro e isso pode influenciar as escolhas dos turistas. Ainda assim, devemos encarar essa situação com prudência e continuar a apostar na qualidade da oferta turística.

Litoralgarve – Como se devem preparar os empresários?

Ângelo Mariano – Os empresários devem apostar na qualidade do serviço, na inovação, na formação das equipas e na adaptação às novas tendências de consumo. A preparação antecipada é essencial para responder às exigências do mercado.

“As perspetivas [para o Verão] são positivas, embora o setor esteja sempre sujeito a fatores externos.”

“Se mantivermos a qualidade da oferta e uma boa promoção do destino, acreditamos que Lagos continuará a atrair muitos visitantes.”

“A escassez de mão-de-obra é um desafio que afeta vários setores, sobretudo o turismo e a restauração. Será importante apostar na valorização das profissões, na formação e em condições de trabalho que permitam atrair e fixar trabalhadores.”

Litoralgarve – Como perspetiva o próximo Verão?

Ângelo Mariano – As perspetivas são positivas, embora o setor esteja sempre sujeito a fatores externos. Se mantivermos a qualidade da oferta e uma boa promoção do destino, acreditamos que Lagos continuará a atrair muitos visitantes.

Litoralgarve – A falta de trabalhadores poderá condicionar a atividade?

Ângelo Mariano – A escassez de mão-de-obra é um desafio que afeta vários setores, sobretudo o turismo e a restauração. Será importante apostar na valorização das profissões, na formação e em condições de trabalho que permitam atrair e fixar trabalhadores.

“Em determinadas zonas da cidade [de Lagos], sobretudo no centro histórico, a questão do estacionamento continua a ser uma preocupação para residentes, comerciantes e visitantes.”

Litoralgarve – Que lacunas existem em termos de estradas, ruas e estacionamento em Lagos?

Ângelo Mariano – Em determinadas zonas da cidade, sobretudo no centro histórico, a questão do estacionamento continua a ser uma preocupação para residentes, comerciantes e visitantes. É importante procurar soluções equilibradas que facilitem o acesso sem prejudicar a mobilidade urbana.

“A instalação de câmaras de videovigilância pode ser um instrumento importante para reforçar a segurança e a prevenção da criminalidade.”

Litoralgarve – A videovigilância poderá ajudar a combater o tráfico de droga?

Ângelo Mariano – A instalação de câmaras de videovigilância pode ser um instrumento importante para reforçar a segurança e a prevenção da criminalidade. Naturalmente, trata-se de uma decisão que envolve várias entidades e deve respeitar o enquadramento legal existente.

Litoralgarve – Como avalia a atuação das forças de segurança no concelho de Lagos?

Ângelo Mariano – As forças de segurança desempenham um papel fundamental na manutenção da ordem pública. Sabemos que enfrentam desafios, nomeadamente ao nível de recursos humanos, mas reconhecemos o esforço e a dedicação dos profissionais que diariamente trabalham para garantir a segurança da população.

“A ACRAL continuará a promover encontros com empresários, ações de formação, iniciativas de dinamização do comércio local e projetos que contribuam para o desenvolvimento económico da região” do Algarve

Litoralgarve – Quais as próximas iniciativas da ACRAL em Lagos, Vila do Bispo e Aljezur?

Ângelo Mariano – A ACRAL continuará a promover encontros com empresários, ações de formação,iniciativas de dinamização do comércio local e projetos que contribuam para o desenvolvimento económico da região. O objetivo é fortalecer o tecido empresarial e criar condições para um comércio mais competitivo e sustentável.