Carnaval de Odiáxere com mais de 8.000 pessoas no Entrudo, 13 carros alegóricos, música, comes e bebes, alertas sociais e recados políticos

A chuva e o vento, resultantes da depressão ‘Karlotta’ que atingiu Portugal Continental durante cerca de uma semana, chegaram a condicionar e a reajustar parte do programa de quatro dias da 28ª. edição do Carnaval de Odiáxere, no concelho de Lagos, tendo até obrigado ao cancelamento do cortejo das crianças, no domingo. Já na terça-feira de Entrudo, o sol brilhou, animando os foliões, com muita música e dança à mistura e houve negócio para todos os comerciantes.

José Manuel Oliveira

Precisamente um mês depois de o espectáculo ‘Cantar das Janeiras e dos Reis’ ter contribuído para encher a Igreja Matriz de Odiáxere, foi a vez de os festejos do Carnaval durante a tarde de terça-feira de Entrudo, dia 13 de Fevereiro de 2024, levar ao Largo da Alegria, onde se situa o moinho, mais de oito mil pessoas, entre a população local, visitantes portugueses de várias zonas do Algarve e turistas de outras nacionalidades, segundo a estimativa feita ao ‘Litoralgarve, num primeiro balanço, por Sofia Santos, presidente da Direção do Clube Desportivo de Odiáxere, responsável pela organização, com o apoio da Junta de Freguesia e da Câmara Municipal de Lagos. Além dos concertos e bailes, o evento, que teve o desfile de treze carros alegóricos como uma das principais atracções, contou, também, a exemplo do que sucede há anos, com a colaboração da Câmara Municipal de Torres Vedras, cidade geminada com Lagos, na cedência, nomeadamente, de alguns dos bonecos de maiores dimensões e diversas peças exibidos nas viaturas durante o percurso ao longo do Largo da Alegria, em Odiáxere.

Depois de a chuva e o vento, resultantes da depressão ‘Karlotta’ que atingiu Portugal Continental durante cerca de uma semana, ter condicionado parte do programa de quatro dias da 28ª. edição do Carnaval de Odiáxere, obrigando mesmo a cancelar o desfile das crianças, no domingo, já na terça-feira, desta vez o sol brilhou e o bom tempo veio para ficar. O ‘São Pedro’, mítico deus da chuva, acabou por dar tréguas, tal como aconteceu noutras zonas do Algarve e do país, permitindo aos foliões sair à rua e animar os festejos.

«Aumento da renda», «Mais IVA», «Aumento do pão», «Aumento do IMI» e «Aumento do combustível» foram as ‘prendas’ no regresso do Pai Natal com seis renas

Mais de um mês e meio após a quadra natalícia, o Pai Natal voltou a brilhar, ao decidir regressar ao terreno, marcando presença no Carnaval de Odiáxere. Desta vez vestido de azul, exibindo as famosas barbas brancas e botas pretas, apresentou-se confortavelmente sentado num cadeirão vermelho, puxado por três pares de renas. PAPA NOEL, assim se intitulava este carro, da responsabilidade do Clube Desportivo de Odiáxere, aproveitou esta visita surpresa para muita gente, para deixar várias ‘prendas’, que, afinal, fazem parte das preocupações do dia-a-dia de muitos portugueses.

Enquanto o Pai Natal (um boneco gigante) exibia na mão direita a indicação de um «presente envenenado», no chão, junto às renas, viam-se espalhadas ‘prendas’, como o «Aumento da renda», «Mais IVA», «Aumento do pão», «Aumento do IMI» e «Aumento do combustível.» Apesar das provocações, muitos foram os populares que utilizaram os seus telemóveis para registar imagens, através de fotos e filmagens do PAPA NOEL e os seus presentes envenenados em tempo de crise social. De resto, em anteriores declarações ao ‘Litoralgarve’, o presidente da Junta de Freguesia de Odiáxere, Carlos Fonseca (PS) já tinha antecipado que iria haver “surpresas” e “picantes” neste Carnaval, deixando antever que muitos políticos iriam ficar com as orelhas a arder… como se costuma dizer, numa alusão a recados dirigidos à classe. Atrás do carro, seguiam a pé vários jovens também com trajes em azul.

Pelas 15h34m., e após um período em que apenas se ouvia música, surgiu, finalmente, a voz do habitual apresentador do Carnaval de Odiáxere, Luís Bandarra, vereador da Câmara Municipal de Lagos (desta vez mais discreto, menos interventivo em comparação com outros anos), junto ao moinho, a lembrar os participantes para os concertos no Largo da Alegria, após o desfile dos carros, e os bailes até de madrugada a encerrar o Entrudo, nas instalações do clube organizador do evento.

O Rei Jorge Humberto e as suas bailarinas, no meio de um “cambalacho”

Enquanto isso, um pequeno tractor, conduzido por um homem, puxava um atrelado também de reduzidas dimensões, com cinco passageiros, três mulheres e dois homens, e um símbolo da conhecida marca da bebida ‘Licor Beirão’. Mais atrás, podia ver-se um carro, forrado com cores a vermelho e preto, entre flores, no qual seguiam o artista Jorge Humberto, Rei do Carnaval de Odiáxere 2024, e três dançarinas. Na frente do veículo lia-se «A minha ex  ex…», do lado esquerdo «Vai haver cambalacho» e do lado direito «Vou alugar um quarto». No meio da euforia, uma mulher subiu uma escada para o carro, juntando-se à festa do rei.

«Água é vida Não desperdice», a mensagem da Santa Casa da Misericórdia de Lagos, em tempo de seca e do anunciado aumento do preço tarifário por parte de autarquias no Algarve

Uma outra viatura, da Santa Casa da Misericórdia de Lagos e na qual seguiam mais de duas dezenas idosos dos lares, exibia recados sobre a atualidade no Algarve, relacionada com a seca, o anunciado aumento do preço da água por parte de autarquias e cortes perspetivados pelo Governo durante o próximo Verão. «Água é vida», «Água é vida Não desperdice» eram algumas das mensagens. A pé caminhavam mais idosos, alguns em cadeiras de rodas, e pessoal, na sua maioria funcionárias, da instituição. Pelo meio, viam-se quatro ‘chuveiros’ envoltos em coberturas, simbolizando a preparação para um banho rápido.

“Todos bem-vindos a Odiáxere!”, incentivava, por seu turno, o apresentador Luís Bandarra, recordando às pessoas o apoio da Câmara Municipal de Lagos e da Junta de Freguesia a este evento anual, enquanto na assistência alguém lançava para o ar fitas e os tradicionais papelinhos de Carnaval. Nessa altura, o sol brilhava e sentia-se mais calor, com a temperatura perto dos vinte graus centígrados, numa tarde já a espreitar a Primavera que se aproxima.

Fanfarra dos Bombeiros Voluntários de Albufeira, a canção ‘Daqui não saio, daqui ninguém me tira’ e o menino com a camisola número sete do futebolista Ronaldo

Já um tractor, conduzido por um homem, atrelava um reboque em que se via um boneco gigante junto a um tambor de grandes dimensões e preparado para os toques com uma peça, entre flores brancas, verdes e vermelhas. No chão, atrás do veículo, seguiam seis crianças e onze adolescentes e adultos, trajando com blusas cor-de-rosa, pertencentes à Fanfarra dos Bombeiros Voluntários de Albufeira, a animar a festa, ao som do toque de tambores e música de clarinete.

«Daqui não saio, daqui ninguém me tira», era uma das canções típicas de Carnaval, escutadas através de altifalantes colocados no recinto no Largo da Alegria, em Odiáxere, enquanto muitos participantes no evento cantavam, pulavam e dançavam. No cimo de um pequeno muro, estava um menino com uma camisola vestida ostentando o número 7 e o nome do futebolista Ronaldo. Ou seja, mesmo na Arábia Saudita, o goleador internacional português acabou por marcar ‘presença’ nos festejos carnavalescos de Odiáxere.

«Na falta de água haja cerveja»

Num outro carro alegórico, o popular cantor Humberto Silva, com um chapéu vermelho e sentado junto a um órgão, fazia a festa em companhia de duas bailarinas e mais três mulheres, que também dançavam. Junto a este veículo, surgiu um curioso cartaz: «Na falta de água haja cerveja». E foi o que não faltou, já que, com o calor a apertar, durante o desfile atrás desse carro, vários dos cerca de três dezenas participantes, a pé, levavam copos de cerveja para se refrescarem. Um grupo de vários figurantes, homens e mulheres, de ‘Super Odiáxere’, com trajes de cor castanha e uma imitação de tampas de latas de cerveja a servirem de bonés, dançava e alguns deles empurravam uma caixa alusiva à ‘Super Bock’, enquanto outros exibiam abre-latas gigantes.

Pralavamos “para o inferno ou para o céu”

Mais atrás circulava uma viatura, na qual se podia ler PRALAVAMOS, entre uma coreografia simbolizando chamas, com flores pretas e vermelhas e peças utilizadas pelo diabo, e um espaço com ornamentos em azul e branco. A mensagem que se pretendia transmitir ao público significava “para lá vamos: para o inferno ou para o céu”, contaram ao ‘Litoralgarve’. Enquanto isso, mais de uma dezena de elementos, entre crianças e adultos, fazia a festa, a que se juntaram mais pessoas a pé.

“Gosto muito do carro da Santa Casa da Misericórdia de Lagos, até pela mensagem que transmite sobre a necessidade de poupar água. É muito giro”, reconheceu, ao ‘Litoralgarve’, o conhecido antigo atleta e treinador Carlos Cabral

Quem também esteve presente no Carnaval de Odiáxere foi Carlos Cabral, antigo profissional de atletismo, internacional do Sporting Clube de Portugal e do Esperança de Lagos (em que acabou por ser igualmente treinador de jovens), entre outros clubes, natural desta cidade, onde recentemente escreveu um livro sobre a sua carreira desportiva, como o nosso Jornal noticiou aquando da apresentação no auditório do edifício dos Paços do Concelho Século XXI, situado na zona de São João. “Já leu o meu livro?” – perguntou, de imediato, Carlos Cabral na altura em que nos viu. E em relação ao desfile, destacou: “gosto muito do carro da Santa Casa da Misericórdia de Lagos, até pela mensagem que transmite sobre a necessidade de poupar água. É muito giro.” E logo se apressou a sair do local, à procura de um familiar.

O elogio de Duarte Rodrigues: “É bom ver tanta gente alegre, a curtir, numa tarde em que o tempo melhorou, depois de dias com chuva, o que até me fez recear vir ao Carnaval de Odiáxere. Mas correu tudo bem e a organização esteve boa”

Já Duarte Rodrigues, de 49 anos, jardineiro, que assistia aos festejos em companhia da sua mulher, Nelly Legal, de nacionalidade francesa, preferiu apontar a viatura “da ‘Super Bock’ como a melhor” deste corso. “É bom ver tanta gente alegre, a curtir, numa tarde em que o tempo também melhorou, depois de dias com chuva, o que até me fez recear vir ao Carnaval de Odiáxere. Hoje [terça-feira] correu tudo bem e a organização esteve boa”, sublinhou Duarte Rodrigues, que já segue o Carnaval “há mais de vinte anos.” “Ainda me lembro quando havia desfile de carros no Carnaval, na Avenida dos Descobrimentos, em Lagos”, acrescentou, sem esconder alguma saudade desses tempos.  

Uma vistosa noiva a dançar, que, afinal, era um homem…

No meio da festa, uma senhora, aparentando ser imigrante de um país do leste europeu, dançava com um bebé ao colo, protegendo-lhe o ouvido esquerdo devido ao som da música, enquanto o companheiro registava o momento através de um vídeo em telemóvel. E quem também não faltou a este Carnaval foi uma noiva vestida a rigor, de branco, véu e segurando o respectivo ramo de flores, ao mesmo tempo ia pulando e dançando em várias partes do recinto. Mas não tardou a perceber-se que, afinal, se tratava de um homem, com barba e maquilhado.

Um carro da China, um menino polícia e outro mascarado de bombeiro

Em jeito de homenagem ao povo do Oriente e a muitos imigrantes residentes no Algarve daquela zona asiática, sobressaiu um carro com decoração simbolizando a China, bem ornamentado, com um cadeirão e outras peças, e que também animou os festejos, numa iniciativa do Clube Desportivo de Odiáxere. Já num outro veículo, Mazinha, surgiram peças de cor cinzenta escuro, a transmitir a imagem de um ambiente alusivo a uma série infantil, com crianças e adultos num reboque e outros a pé. Na parte final do desfile desceu desse espaço um menino disfarçado de polícia, com o respectivo cassetete. Enquanto isso, fora do cortejo, apareceram uma freira, um rapaz vestido de bombeiro, numa altura em que, curiosamente, os Bombeiros Voluntários de Lagos continuam a procurar reforços para a sua corporação, e alguns figurantes em representação do ‘Batman’.

Da Academia de Ballet, Dança & Arte, de Sofia Rodrigues, ao boneco da Urber, com distribuição de comida, e um circo

Uma carrinha, ostentado o nome de Sofia Rodrigues, transportava, no espaço de caixa aberta, mais de duas dezenas de elementos da Academia de Ballet, Dança & Arte, situada na zona de Odiáxere. E por iniciativa do Clube Desportivo de Odiáxere surgiu um veículo simbolizando a distribuição de comida pela Uber, com um boneco a carregar uma embalagem às costas, servindo de estafeta, enquanto várias caixas representativas de pizas e hamburgures estavam espalhadas pelo chão.

Um tractor puxando um reboque com um circo, um gigante macaco e imagens de outros animais, entre os quais uma girafa e um leão, também deu nas vistas, tal como a viatura em que seguiam bailarinas exibindo amplas penas e plumas.

«É o bicho, é o bicho…» e «Apito o comboio», com o artista Jorge Humberto e três bailarinas a puxarem pelo público

Por outro lado, junto à zona onde se encontra o moinho, além de uma bancada destinada ao público, a organização reservou espaços para as crianças, com um carrossel, dois insufláveis e equipamentos nos quais se podiam saltar através de cordas.

Depois do desfile dos carros alegóricos, já pelas 17.50 horas, subiram ao palco, também instalado num espaço situado no Largo da Alegria, o artista Jorge Guerreiro, Rei do Carnaval 2024, e três esbeltas bailarinas, Joana, Inês e Mariana, para darem início ao primeiro espectáculo musical do dia/noite da terça-feira de Entrudo. «É o bicho, é o bicho…” foi uma das populares canções portuguesas ouvidas, que agitou o público. Mas a que mais movimentou as pessoas, que caminhavam e dançavam em filas, acabou por ser «Apito comboio que coisa tão linda / Apito comboio perto de Coimbra / Apito comboio que coisa tão linda/ Apito comboio perto de Coimbra / Apito comboio, lá vai apitar / Apito comboio, à beira do mar / À beira do mar, mesmo à beirinha / Apito comboio, no centro da linha».

Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa também entraram na festa… em gravações televisas exibidas num ecrã gigante

No ecrã gigante instalado no fundo do palco, surgiram, a certa altura, imagens do Presidente da República da República, Marcelo Rebelo de Sousa, a dançar com uma senhora, durante uma visita, ao que sabemos, a Moçambique. Mais tarde, entrou em cena o primeiro-ministro, António Costa, também a bailar, através de imagens de arquivo de um canal televisivo.

A noite no recinto ficou preenchida com outro espectáculo a cargo da dupla de cantores Manuel João e Ricardo Glória, que também colocou muita gente, na sua maioria mulheres, a dançar, tendo concluído com um tema romântico, por outro artista. O concerto terminou pelas 22.00 horas, altura em que as pessoas começaram a dirigir-se para a sede do Clube Desportivo de Odiáxere, a fim de continuarem a diversão em bailes neste Carnaval, ao som de música e canções de Humberto Silva e Cláudio Ribeiro. 

Mais de duas dezenas de ‘stands’ de ‘comes e bebes’. “Houve muita gente e isto esteve animado, o que é importante para todos”, disse Adriano Fernandes, ao nosso Jornal, após ter servido cervejas a clientes. Uma vendedora de farturas notou que o negócio “foi ela por ela”, admitindo que “pareceu-me estar menos gente do que no ano passado” no Carnaval de Odiáxere

No recinto no Largo da Alegria, em Odiáxere, onde também se viam militares da Guarda Nacional Republicana e elementos do Núcleo de Lagos da Cruz Vermelha Portuguesa, com uma ambulância, estavam instalados mais de duas dezenas de pequenos ‘stands’ pertencentes a empresários do Algarve, para venda de ‘comes e bebes’, nos quais não faltaram hambúrgueres, bifanas, filhoses, cerveja, refrigerantes, sumos e águas, entre outros produtos, obrigando os vendedores a uma permanente azáfama durante a tarde e a noite, perante filas de pessoas que se formavam para ver o que podiam adquirir.

“Houve muita gente e isto esteve animado, o que é importante para todos”, disse, ao ‘Litoralgarve’, Adriano Fernandes, após ter servido cervejas, o produto com maior consumo, a mais clientes, já pouco depois das 22.00 horas. Num ‘placard’ estavam afixados preços. Por exemplo, uma imperial por 1,50 euros, uma caneca de cerveja a 3,50 euros, enquanto um sumo e uma garrafa de água custavam dois e um euro, respectivamente.

O negócio “foi ela por ela”, observou, por seu turno, uma vendedora de farturas, admitindo que, neste Carnaval de Odiáxere, “pareceu-me estar menos gente do que no ano passado.” Mas, pelos vistos, todos acabaram por sair dali com satisfação, na terça-feira de Entrudo, após ter regressado o bom tempo a esta zona do Algarve, o que permitiu um ambiente de folia e o negócio a ser rentabilizado.