Artigo Opinião: Economia Lagos

A Economia de Lagos: Um Diagnóstico e um Desafio ao Futuro

Luís Barroso

Lagos é hoje um dos municípios mais conhecidos do Algarve e de Portugal. Beneficia de uma localização privilegiada, de um património histórico ímpar e de uma frente marítima de rara beleza. Estes ativos sustentaram, nas últimas décadas, um crescimento económico e demográfico significativo, fortemente ancorado no turismo. Mas este modelo revela sinais claros de esgotamento e fragilidade estrutural, que exigem uma reflexão séria e uma mudança de rumo.

A economia de Lagos está, de forma dominante, centrada no turismo e nas atividades que dele dependem direta ou indiretamente: construção, hotelaria, restauração, comércio, animação turística, náutica de recreio, turismo do mar e serviços associados. Este setor é, sem dúvida, o principal motor económico do concelho, tirando partido do clima excecional, da extensa linha de costa, das praias, falésias e grutas, bem como do centro histórico e do legado dos Descobrimentos.

No entanto, esta especialização excessiva torna Lagos vulnerável a choques externos e perpetua problemas estruturais bem conhecidos: forte sazonalidade do emprego, baixos salários médios, precariedade laboral e dificuldade em reter jovens qualificados. A concorrência crescente de outros destinos internacionais de “sol e praia” coloca ainda em causa a sustentabilidade futura deste modelo.

Paradoxalmente, Lagos cresce em população, mas envelhece rapidamente. A percentagem de idosos é muito elevada e o número de jovens tem vindo a diminuir. Muitos jovens lacobrigenses saem porque não encontram emprego qualificado nem habitação a preços acessíveis. O crescimento demográfico recente assenta, em larga medida, na imigração e na fixação de estrangeiros, muitos deles reformados ou residentes sazonais. Esta realidade contribui para a vitalidade económica imediata, mas não substitui uma base produtiva sólida nem uma população ativa jovem e qualificada.

Para além do turismo, a economia local apoia‑se em setores tradicionais como a pesca e a agricultura, e em alguns nichos industriais e de serviços: produção de congelados de peixe, aquacultura, comércio a retalho, serviços de saúde, contabilidade, serviços jurídicos e reparações diversas. Embora relevantes, estes setores têm um peso limitado e, em muitos casos, baixo valor acrescentado.

Falta a Lagos uma aposta clara e consistente em atividades intensivas em conhecimento, inovação e tecnologia, capazes de gerar emprego qualificado e reduzir a dependência do turismo. Falta também uma estratégia coerente de aproveitamento económico do mar para além da vertente balnear: investigação científica, biotecnologia marinha, engenharia naval ligeira, energias renováveis oceânicas e formação especializada.

Um dos problemas centrais tem sido a inexistência, ao longo de décadas, de uma verdadeira estratégia municipal de desenvolvimento económico. A Câmara Municipal dispõe hoje de recursos financeiros muito significativos, mas não os tem canalizado para projetos estruturantes capazes de transformar a base económica do concelho.

A escassez de habitação acessível, a ausência de equipamentos sociais adequados, a degradação do centro histórico e a falta de infraestruturas para acolher novas atividades económicas ilustram bem esta falta de visão estratégica e de capacidade de execução.

Lagos precisa de um novo paradigma económico, assente em quatro eixos fundamentais.

Primeiro, a diversificação da base económica, reduzindo a dependência do turismo e promovendo atividades ligadas à economia do mar, como aquacultura avançada, biotecnologia marinha, náutica e reparação naval especializada, à economia do conhecimento, às indústrias criativas e aos serviços tecnológicos.

Segundo, a criação de um polo de conhecimento e inovação, através de protocolos com universidades nacionais e estrangeiras, para atrair centros de investigação, cursos de pós‑graduação e projetos científicos ligados ao mar, ao ambiente, ao turismo sustentável, à saúde e às engenharias. Esta aposta permitiria fixar jovens qualificados e criar um verdadeiro ecossistema local de inovação.

Terceiro, a reorientação e qualificação do turismo, evoluindo do modelo “sol‑praia” para um turismo diversificado e de maior valor acrescentado: turismo cultural, científico, desportivo, náutico e de natureza, reduzindo a sazonalidade e aumentando a despesa média por visitante.

Quarto, uma política ativa de habitação e coesão social, com um programa municipal ambicioso de habitação a custos controlados, essencial para fixar jovens, famílias e trabalhadores qualificados, e com investimento sério em equipamentos sociais adequados ao envelhecimento da população.

A Câmara Municipal tem de assumir, sem ambiguidades, o papel de promotora principal do desenvolvimento económico do concelho. Isso implica definir uma visão estratégica para 15 a 20 anos, com objetivos claros e mensuráveis; mobilizar os recursos financeiros municipais para projetos estruturantes; envolver a Assembleia Municipal, empresários, universidades, IPSS e sociedade civil num verdadeiro pacto local para o desenvolvimento; e criar uma estrutura técnica municipal dedicada à promoção económica, captação de investimento e apoio ao empreendedorismo.

Lagos tem todas as condições para se afirmar como muito mais do que uma cidade balnear. Tem história, identidade marítima, qualidade ambiental, recursos financeiros e atratividade internacional. O que lhe tem faltado é visão estratégica, liderança política e capacidade de execução.

O futuro económico de Lagos depende da coragem de romper com a inércia, diversificar a economia e investir no conhecimento, na inovação e nas pessoas. Só assim será possível garantir um desenvolvimento sustentável, socialmente equilibrado e capaz de assegurar às próximas gerações um futuro com mais oportunidades no seu próprio concelho.

Luís Barroso – Licenciado em Gestão Financeira e Mestre em Gestão Empresarial