Entrevista a Ângelo Mariano, dirigente da ACRAL’: Esta passagem de ano em Lagos teve “menor afluência de pessoas” e gerou “500 mil a um milhão de euros” a bares, restauração e comércio

Nesta entrevista exclusiva ao ‘Litoralgarve’, o coordenador em Lagos da Associação do Comércio e Serviços da Região do Algarve (ACRAL), Ângelo Mariano, aponta para “cerca de menos 20 por cento no volume de negócios” face à anterior passagem-de-ano. Segundo as estimativas, “dez a 15.000 pessoas assistiram ao fogo-de-artifício na Avenida dos Descobrimentos e ao espetáculo do cantor Pedro Abrunhosa.” Contudo, tal não representou mais receitas, nomeadamente para bares e restaurantes. Antes pelo contrário.

Ângelo Mariano explica o que falhou e deixa sugestões à autarquia para que os próximos ‘reveillons’ possam ser um sucesso. Tal passará, na sua perspectiva, por programas mais apelativos em Lagos e com o envolvimento de associações.

José Manuel Oliveira

Litoralgarve – Como decorreu a passagem de ano ao nível da actividade nos estabelecimentos comerciais, restaurantes, pastelarias e bares, em Lagos?

Ângelo Mariano – Comparativamente ao ano anterior, verificou-se uma menor afluência de pessoas. Tal facto está diretamente relacionado com a oferta de eventos apresentada neste ano, que ficou bastante aquém das expectativas e não conseguiu gerar o mesmo impacto e atratividade junto de visitantes e residentes.

Em Lagos, esta passagem-de-ano “ficou claramente abaixo das expectativas.” Outros concelhos do Algarve apresentaram uma programação mais apelativa, com cartazes de excelência e artistas de maior notoriedade, o que acabou por desviar uma parte significativa do público para esses territórios.”

Este ano ficou claramente abaixo das expectativas. Outros concelhos do Algarve apresentaram uma programação mais apelativa, com cartazes de excelência e artistas de maior notoriedade, o que acabou por desviar uma parte significativa do público para esses territórios.

“Estima-se que a faturação tenha sido inferior em cerca de 20% face ao ano anterior. Este decréscimo foi sentido de forma transversal por vários setores, em particular na restauração e nos bares, refletindo a menor dinâmica e permanência do público na cidade durante a noite da passagem de ano.”

Litoralgarve – Que estimativa faz em termos de negócio?

Ângelo Mariano – De forma global, estima-se que a faturação tenha sido inferior em cerca de 20% face ao ano anterior. Este decréscimo foi sentido de forma transversal por vários setores, em particular na restauração e nos bares, refletindo a menor dinâmica e permanência do público na cidade durante a noite da passagem de ano.

Litoalgarve – Apontou “cerca de 20 por cento” a menos no volume de negócios dos empresários em comparação com a anterior passagem de ano, na cidade de Lagos. Quantos milhares de euros representaram essa situação? Qual a estimativa da facturação total?

Ângelo Mariano – Faço a avaliação sempre com base em estimativas recolhidas junto dos empresários locais e na análise comparativa com o período homólogo anterior. Relativamente à quebra de cerca de 20% no volume de negócios, tal situação poderá representar, de forma aproximada, uma diminuição na ordem de algumas centenas de milhares de euros no conjunto do comércio, restauração, bares e serviços diretamente envolvidos. Estimamos que a facturação global associada à Passagem de Ano em Lagos se tenha situado entre os 500 mil e 1 milhão de euros, valor inferior ao registado na passagem de ano anterior, ainda que significativo e relevante para a economia local.


Litoralgarve – Qual é a estimativa que faz sobre o número de visitantes em Lagos? Quantas pessoas terão estado na Avenida dos Descobrimentos a assistir ao fogo-de-artifício, bem como a ver o espectáculo com o cantor Pedro Abrunhosa, além da afluência a bares, restaurantes e outros estabelecimentos?

Ângelo Mariano – No que respeita ao número de visitantes, as estimativas apontam para a presença de várias dezenas de milhares de pessoas na cidade ao longo do período festivo. Concretamente, calcula-se que entre 10.000 e 15.000 pessoas tenham estado concentradas na Avenida dos Descobrimentos para assistir ao fogo-de-artifício e ao espectáculo do cantor Pedro Abrunhosa, bem como a usufruir da oferta existente nos bares e espaços de animação da zona envolvente.

Importa salientar que estes números têm natureza meramente indicativa, resultando da perceção dos empresários e da observação no terreno, não substituindo dados oficiais que venham a ser apurados pelas entidades competentes.

“Falei com várias pessoas que confirmaram que apenas se deslocaram [à Avenida dos Descobrimentos] para ver o fogo-de-artifício. No entanto, os empresários foram unânimes em afirmar que, apesar dessa concentração pontual, o balanço geral da noite foi menos positivo do que em anos anteriores.”

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Litoralgarve – Qual o impacto da animação proporcionada pela Câmara Municipal de Lagos, com o tradicional fogo-de-artifício e, desta vez, o concerto de Pedro Abrunhosa?

Ângelo Mariano – Estive presente no espetáculo do cantor Pedro Abrunhosa e, sinceramente, ficou aquém das minhas expectativas. Já o fogo-de-artifício teve um efeito bastante positivo: muitas famílias saíram de casa propositadamente para assistir ao momento no centro da cidade, o que se traduziu numa enchente significativa na Avenida.
Falei com várias pessoas que confirmaram que apenas se deslocaram para ver o fogo-de-artifício. No entanto, os empresários foram unânimes em afirmar que, apesar dessa concentração pontual, o balanço geral da noite foi menos positivo do que em anos anteriores.

Na passagem de ano, “quem veio a Lagos fê-lo essencialmente por ser uma cidade acolhedora, tranquila e sem os elevados níveis de confusão associados a outros destinos algarvios, como Albufeira”


“Não foi o cartaz apresentado que motivou a deslocação, mas sim as características próprias da cidade. Ainda assim, os números ficaram longe dos registados no ano passado, não sendo possível falar num impacto significativo em termos de turismo adicional.”

Litoralgarve – De qualquer modo, o facto de esta passagem de ano ter permitido, em muitos casos, um fim-de-semana prolongado atraiu mais visitantes a Lagos?

Ângelo Mariano – Houve visitantes, mas em número inferior ao registado em anos anteriores. Quem veio a Lagos fê-lo essencialmente por ser uma cidade acolhedora, tranquila e sem os elevados níveis de confusão associados a outros destinos algarvios, como Albufeira.
Não foi o cartaz apresentado que motivou a deslocação, mas sim as características próprias da cidade. Ainda assim, os números ficaram longe dos registados no ano passado, não sendo possível falar num impacto significativo em termos de turismo adicional.

“Verificou-se, sobretudo, a presença de residentes e de comunidades estrangeiras que vivem e trabalham em Lagos e arredores. Houve poucos grupos vindos do exterior do país, destacando-se apenas alguns visitantes de nacionalidade espanhola e francesa.”

Litoralgarve – De onde vieram as pessoas? Portugueses, estrangeiros? Que nacionalidades se destacaram?

Ângelo Mariano – Verificou-se, sobretudo, a presença de residentes e de comunidades estrangeiras que vivem e trabalham em Lagos e arredores. Houve poucos grupos vindos do exterior do país, destacando-se apenas alguns visitantes de nacionalidade espanhola e francesa.

“A segurança esteve bem organizada, com presença visível das forças de segurança em pontos estratégicos da cidade. Importa também referir que o volume de pessoas foi inferior ao do ano anterior, o que naturalmente facilitou a gestão e o controlo da situação.”

Litoralgarve – E que balanço faz em termos da segurança?

Ângelo Mariano – Relativamente à segurança, considero que esteve bem organizada, com presença visível das forças de segurança em pontos estratégicos da cidade. Importa também referir que o volume de pessoas foi inferior ao do ano anterior, o que naturalmente facilitou a gestão e o controlo da situação.

“Lagos poderia afirmar-se como uma das melhores passagens de ano do país, sem necessidade de orçamentos elevados, mas sim com uma estratégia bem definida, muita oferta diversificada e forte envolvimento do associativismo local”


“Temas ligados aos Descobrimentos Marítimos ou à identidade histórica da cidade seriam uma mais-valia e poderiam diferenciar Lagos de outros concelhos”

Litoralgarve – O que poderá ser levado a efeito na próxima passagem de ano em Lagos? Algum evento especial durante vários dias ou dedicado a um tema específico?

Ângelo Mariano – Lagos tem um potencial enorme e único a nível cultural e histórico. Poderia afirmar-se como uma das melhores passagens de ano do país, sem necessidade de orçamentos elevados, mas sim com uma estratégia bem definida, muita oferta diversificada e forte envolvimento do associativismo local.
Temas ligados aos Descobrimentos Marítimos ou à identidade histórica da cidade seriam uma mais-valia e poderiam diferenciar Lagos de outros concelhos.

“As lojas de vestuário destacaram-se, claramente, como as que registaram maiores vendas durante a quadra natalícia”

Litoralgarve – E como foi a quadra natalícia para os estabelecimentos comerciais em Lagos? O que mais se vendeu?

Ângelo Mariano – Ano após ano tem-se verificado um aumento do número de participantes e uma maior diversidade de oferta. Desta vez, as lojas de vestuário destacaram-se, claramente, como as que registaram maiores vendas durante a quadra natalícia.

Litoralgarve – Que balanço faz em comparação com o ano anterior?

Ângelo Mariano – Em comparação com o ano anterior, registou-se um ligeiro aumento global, o que consideramos positivo. Foi, sem dúvida, um sucesso e uma ajuda importante para os empresários, sobretudo numa altura em que o centro histórico enfrenta cada vez mais desafios, nomeadamente a concorrência das grandes superfícies comerciais.

“Algumas lojas continuam a apostar na decoração das montras com temática natalícia, o que é muito positivo. Contudo, [para concurso de montras] é necessário tornar os prémios mais apelativos, nomeadamente através de vales, em articulação com o parceiro Câmara Municipal de Lagos, de forma a incentivar uma maior adesão dos empresários.”

Litoralgarve – Porque não tem havido concurso de montras? O que é necessário para atrair os empresários nesse sentido?

Ângelo Mariano – Algumas lojas continuam a apostar na decoração das montras com temática natalícia, o que é muito positivo. Contudo, é necessário tornar os prémios mais apelativos, nomeadamente através de vales, em articulação com o parceiro Câmara Municipal de Lagos, de forma a incentivar uma maior adesão dos empresários.

A cidade esteve bem decorada. Talvez fosse importante uma melhor distribuição da decoração por algumas ruas que não foram contempladas”

Litoralgarve – Faltou um presépio na via pública ou uma árvore de Natal?

Ângelo Mariano – Considero que a cidade esteve bem decorada. Talvez fosse importante uma melhor distribuição da decoração por algumas ruas que não foram contempladas, mas, no geral, Lagos apresentou-se composta e com uma imagem cuidada.

“Para Lagos, a grande aposta [da ACRAL] passa por distribuir os eventos ao longo de todo o ano, evitando a concentração excessiva nas épocas altas. É fundamental combater a sazonalidade”

Já em relação “a Vila do Bispo e Aljezur, a ACRAL continuará a apoiar projetos que promovam a atividade económica local, estando sempre disponível para colaborar com as entidades e agentes locais”

Litoralgarve – Quais são os projetos da ACRAL para o concelho de Lagos, em 2026? E para Vila do Bispo e Aljezur, onde também é coordenador desta associação?

Ângelo Mariano – Para Lagos, a grande aposta passa por distribuir os eventos ao longo de todo o ano, evitando a concentração excessiva nas épocas altas. É fundamental combater a sazonalidade.
Existem inúmeras associações culturais e teatrais capazes de dinamizar a cidade com atividades de baixo custo. Lagos tem condições para criar eventos todos os meses, de forma organizada e estratégica.
Relativamente a Vila do Bispo e Aljezur, a ACRAL continuará a apoiar projetos que promovam a atividade económica local, estando sempre disponível para colaborar com as entidades e agentes locais.

“Um projeto gastronómico dedicado ao polvo”

Litoralgarve – É possível, por exemplo, dedicar uma semana a um produto gastronómico?

Ângelo Mariano – Sim, é perfeitamente possível. Inclusive, já demos entrada a um projeto gastronómico dedicado ao polvo, que poderá ser desenvolvido em parceria, encontrando-se ainda em fase de estudo.

“A valorização desta certificação [do doce Dom Rodrigo] é essencial para proteger o produto, promover a sua autenticidade e criar valor económico para os produtores locais”

Litoralgarve – E o doce Dom Rodrigo?

Ângelo Mariano – O Dom Rodrigo já tem uma forte presença na Feira da Arte Doce [em Lagos], onde foi apresentado o maior Dom Rodrigo do mundo, estando bem destacado nesse contexto.

Litoralgarve – Como pode ser rentabilizada a Indicação Geográfica Protegida deste produto?

Ângelo Mariano – Existe uma associação, a ADRA, da qual a minha esposa, Elisete Machado, faz parte dos corpos diretivos, que tem desempenhado um papel fundamental neste processo. A valorização desta certificação é essencial para proteger o produto, promover a sua autenticidade e criar valor económico para os produtores locais.

Em 2026, o ‘Grupo ‘Aqui Há História’, de Lagos, tem, entre outros projetos, ’workshops’ de dança medieval e a iniciativa “Um Dia Cavaleiro”, que permite ao público experienciar e compreender como era ser cavaleiro na Idade Média

Litoralgarve – Que planos existem para o grupo “Aqui Há História”, em Lagos, de que o senhor também faz parte?

Ângelo Mariano – O grupo passou recentemente a associação e já submeteu à Câmara Municipal o plano de atividades para 2026. Estão previstas importantes representações da cidade de Lagos em várias feiras em Portugal e Espanha.
Destacam-se, ainda, projetos como ‘workshops’ de dança medieval e a iniciativa “Um Dia Cavaleiro”, que permite ao público experienciar e compreender como era ser cavaleiro na Idade Média. São projetos extremamente enriquecedores e importantes para colmatar a falta de conhecimento histórico do público em geral.

Proibição do fogo-de-artifício na próxima passagem de ano na Holanda? “É uma medida que resulta de uma realidade muito concreta daquele país e de um histórico significativo de incidentes associados ao uso indiscriminado de fogo-de-artifício.”

“No entanto, considero que cada país deve avaliar esta questão de acordo com a sua própria realidade cultural, social e territorial.”

Litoralgarve – Segundo foi agora anunciado, a Holanda vai acabar com o fogo-de-artifício na próxima passagem de ano. Concorda com essa medida?

Ângelo Mariano – Compreendo perfeitamente as razões que levam a Holanda a tomar essa decisão, nomeadamente as preocupações com a segurança pública, o bem-estar animal, a redução de acidentes e a diminuição do impacto ambiental. É uma medida que resulta de uma realidade muito concreta daquele país e de um histórico significativo de incidentes associados ao uso indiscriminado de fogo-de-artifício.

No entanto, considero que cada país deve avaliar esta questão de acordo com a sua própria realidade cultural, social e territorial. O fogo-de-artifício continua a ser, em muitos locais, um elemento simbólico de celebração e de forte atração para residentes e visitantes, devendo por isso ser analisado com equilíbrio e bom senso.

“Em Portugal, uma eventual proibição total teria impactos relevantes, sobretudo ao nível da atratividade turística e da animação associada a datas festivas, como a passagem de ano, festas populares e eventos municipais.”

“Para muitos territórios, o fogo-de-artifício continua a ser um fator de mobilização de pessoas e de dinamização da economia local”

“Caso se avance nesse sentido, será fundamental encontrar alternativas igualmente apelativas, como espetáculos de drones, projeções de luz, música ao vivo ou outras soluções tecnológicas e culturais, de forma a manter a vivência coletiva e o impacto positivo na atividade económica.”

Litoralgarve – Se tal vier a ser aplicado noutros países, nomeadamente em Portugal, que repercussões poderão ter?

Ângelo Mariano – Em Portugal, uma eventual proibição total teria impactos relevantes, sobretudo ao nível da atratividade turística e da animação associada a datas festivas, como a passagem de ano, festas populares e eventos municipais. Para muitos territórios, o fogo-de-artifício continua a ser um factor de mobilização de pessoas e de dinamização da economia local.

Caso se avance nesse sentido, será fundamental encontrar alternativas igualmente apelativas, como espectáculos de drones, projeções de luz, música ao vivo ou outras soluções tecnológicas e culturais, de forma a manter a vivência coletiva e o impacto positivo na atividade económica.

“É inegável que o fogo-de-artifício pode causar grande stress e ansiedade aos animais, em particular aos cães e gatos. Em alguns casos, pode mesmo provocar comportamentos de fuga, acidentes e problemas de saúde.”

“A aposta em fogo-de-artifício silencioso, horários bem definidos, campanhas de sensibilização junto da população e alternativas menos ruidosas pode ser um caminho equilibrado”

Litoralgarve – Os animais, nomeadamente cães e gatos, podem estar em perigo?

Ângelo Mariano – Sim, é inegável que o fogo-de-artifício pode causar grande stress e ansiedade aos animais, em particular aos cães e gatos. Em alguns casos, pode mesmo provocar comportamentos de fuga, acidentes e problemas de saúde.

Por essa razão, é importante que estas preocupações sejam tidas em conta na definição das políticas públicas. A aposta em fogo-de-artifício silencioso, horários bem definidos, campanhas de sensibilização junto da população e alternativas menos ruidosas pode ser um caminho equilibrado, permitindo conciliar a tradição festiva com o respeito pelo bem-estar animal.

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