“Na maioria dessas pessoas que nos procuram, são portuguesas, naturais de Lagos. A essas juntam-se estrangeiros, nomeadamente ucranianos, russos e ingleses, também”, que a ‘Redfood” está a apoiar. Nesta entrevista ao ‘Litoralgarve’, Dora Rosa reconhece que “continua a haver fome em Lagos”, aponta o desemprego como uma das causas e apela para que mais supermercados, restaurantes e outros estabelecimentos ofereçam os alimentos em sobra. Além disso, “são necessários, pelo menos, mais 40 voluntários” a juntar aos 42 já existentes, para recolher comida e distribui-la aos necessitados.
José Manuel Oliveira
No passado sábado, dia 20 de Dezembro, junto aos portões da Igreja de Santa Maria, na Praça Infante Dom Henrique, em Lagos, Dora Rosa, de 57 anos e coordenadora do Núcleo da ‘Refood’ – Aproveitar para Alimentar – existente nesta cidade, e mais duas voluntárias desta organização sem fins lucrativos colocaram ao dispor dos interessados mais de uma centena de peças de vestuário, oferecidas por várias pessoas durante dois meses.
Enquanto na ‘Aldeia de Natal’, instalada nas imediações da Igreja, muitas crianças e seus familiares recebiam presentes do Pai Natal e outros visitantes se deliciavam com várias iguarias, nomeadamente farturas e filhoses, à venda em standes, além de desfrutarem de diversões, as voluntárias do Núcleo de Lagos da ‘ReFood’ acompanhavam, atentamente, a abordagem das pessoas ao vestuário destinado aos sem-abrigo e outros carenciados.
“Tivemos, principalmente, casacos, blusas, calças, pijamas e sapatos, tudo o que seja roupa de Inverno. Isto, para além de brinquedos para as crianças”

“Tivemos, principalmente, casacos, blusas, calças, pijamas e sapatos, tudo o que seja roupa de Inverno. Isto, para além de brinquedos para as crianças. Tudo nos foi entregue durante dois meses por pessoas que já nos conhecem há muitos anos e sabem que, nesta altura, juntamos agasalhos para oferecer a quem necessita”, indicou, ao ‘Litoralgarve’, Dora Rosa.
“Houve pessoas que vieram aqui [junto à Igreja de Santa Maria] e perguntaram se a roupa se destinava a venda. Nós explicámos que não. Trata-se de oferta. E houve pessoas que passaram e levaram peças de vestuário.”
Litoralgarve – Quem vos entregou roupa já usada? Foram mais portugueses ou estrangeiros?
Dora Rosa – Foram portugueses e estrangeiros. Temos ofertas de toda a gente. Depois, houve pessoas que vieram aqui [junto à Igreja de Santa Maria] e perguntaram se a roupa se destinava a venda. Nós explicámos que não. Trata-se de oferta. E houve pessoas que passaram e levaram peças de vestuário.
Litoralgarve – E também houve, digamos, quem se aproveitasse para levar roupa e tentar, depois, vendê-la?
Dora Rosa (em sinal de concordância) – Já houve isso. (E ao seu lado, uma das voluntárias lembrou que tal aconteceu noutros anos).
“Neste ano, começámos mais tarde a recolher peças de vestuário e contámos com menos pessoas a nos dar roupa. Depois, há gente carenciada que tem vergonha de levar o que colocamos aqui para oferecer. Por isso, sobra sempre.”
Litoralgarve – Em dois meses, quantas peças de vestuário receberam para oferecer a pessoas necessitadas?
Dora Rosa – Mais de uma centena. Mas neste ano começámos mais tarde a recolher peças de vestuário e contámos com menos pessoas a nos dar roupa. Depois, há gente carenciada que tem vergonha de levar o que colocamos aqui para oferecer. Por isso, sobra sempre.
Litoralgarve – E qual é o destino dessa roupa e calçado, que sobra?
Dora Rosa – A que sobra [e era bastante, como a nossa reportagem pôde constatar] será entregue a várias instituições.
Litoralgarve – Quais?
Dora Rosa – Igrejas. Neste caso, vai ser entregue ao pastor de uma Igreja, em Portimão. Também entregaremos na Igreja de Santa Maria, em Lagos, e na Casa do Padre Almeida, nesta cidade.
Litoralgarve – Noutros anos, quem mais procurou roupa usada – portugueses ou imigrantes?
Dora Rosa – Todos. Tivemos muitas pessoas de países do leste europeu.
“Estamos já a prestar apoio alimentar a cerca de meia centena de famílias durante todos os dias da semana, excepto às quintas-feiras e aos domingos, das 16h00 às 18h00.”

Litoralgarve – Que balanço faz sobre a actividade do Núcleo de Lagos da organização ‘Refood’ – Aproveitar para Alimentar – em 2025, numa altura em que já conta com instalações (duas salas) cedidas pela Câmara no Mercado Municipal de Santo Amaro?
Dora Rosa – Neste momento, estamos já a prestar apoio alimentar a cerca de meia centena de famílias durante todos os dias da semana, excepto às quintas-feiras e aos domingos, das 16h00 às 18h00. Dessas cerca de meia centena de famílias, trinta são pessoas sem-abrigo.
“Muitas dessas pessoas estão no desemprego. Noutros casos, temos famílias, com marido, mulher e filhos. Acontece que devido aos custos para deixar crianças numa creche, as mães têm de ficar em casa com os filhos e só o marido é que trabalha. Para suportar muitas despesas, nomeadamente a renda da casa, pagamento da água, gaz e electricidade, falta, depois, dinheiro para a comida. Por isso, recorrem à ‘ReFood’, até porque já nos conhecem.”
Litoralgarve – Estão no desemprego?
Dora Rosa – Muitas dessas pessoas estão, neste momento, no desemprego. Noutros casos, temos famílias, com marido, mulher e filhos. Acontece que devido aos custos para deixar crianças numa creche, as mães têm de ficar em casa a cuidar dos filhos e só o marido é que trabalha. Para suportar muitas das despesas, nomeadamente a renda da casa, o pagamento da água, gaz e electricidade, falta, depois, dinheiro para a comida. Por isso, recorrem à ‘ReFood’, até porque já nos conhecem. Temos cada vez mais pedidos de ajuda.
Lacticínios, pão, artigos de pastelaria, carne, peixe e vegetais, como sobras provenientes de três supermercados, além de restaurantes, pastelarias e de cinco cantinas de escolas do concelho de Lagos
Litoralgarve – De onde vêm os alimentos e de que se trata?
Dora Rosa – Recebemos, por exemplo, lacticínios, pão, artigos de pastelaria, vegetais, carne e peixe, de supermercados de Lagos, como o Pingo Doce, Lidl e Continente, além de restaurantes, nomeadamente o ‘Prato Cheio’, desde sempre. Contamos, igualmente, com o apoio da Churrasqueira Marques e de pastelarias. Os alimentos que sobram em cada dia, ao perderem valor comercial nesses estabelecimentos, são oferecidos à ‘ReFood’, em Lagos, para os embalarmos e entregarmos a quem nos procura.
Por outro lado, temos um protocolo com a Câmara Municipal de Lagos, que nos permite também recolher diariamente alimentos que sobram das cantinas, para já, de cinco escolas deste concelho.
Litoralgarve – As pessoas carenciadas que se deslocam às vossas instalações para pedir comida, sentem-se constrangidas? Têm vergonha?
Dora Rosa – Não, porque também já nos conhecem, como referi.
Litoragarve – Quais são as nacionalidades?
Dora Rosa – Na maioria dessas cerca de meia centena de pessoas que nos procuram, são portuguesas, naturais de Lagos. A essas juntam-se estrangeiros, nomeadamente ucranianos, russos e ingleses, também.
“Temos, neste momento, 42 voluntários. Recolhem todos os dias excessos alimentares (sobras) junto dos vários estabelecimentos que nos oferecem, como está combinado. Depois, entregam às pessoas carenciadas que nos procuram.”
“Nada é confeccionado nas nossas instalações, pois não dispomos de cozinha”
Litoralgarve – E quantos voluntários estão envolvidos no apoio ao Núcleo de Lagos da ‘ReFood’?
Dora Rosa – Temos, neste momento, 42 voluntários.
Litoralgarve – O que fazem em concreto?
Dora Rosa – Recolhem todos os dias excessos alimentares (sobras) junto dos vários estabelecimentos que nos oferecem, como está combinado. Depois, entregam às pessoas carenciadas que nos procuram. Nada é confeccionado nas nossas instalações, pois não dispomos de cozinha.
“Queremos ajudar mais pessoas, pois temos muitos pedidos nesse sentido. Para tal, necessitamos de mais fontes de alimentos, nomeadamente mais restaurantes.”
Litoralgarve – Há meses, havia residentes em Lagos incomodados por verem carenciados a recorrer às salas da ‘Refood’, junto ao Mercado Municipal de Santo Amaro, para pedir alimentação. Ainda existe esse problema?
Dora Rosa – Ao princípio, quando o nosso núcleo começou a funcionar ali, havia essa situação. Neste momento, não. Tudo é encarado com normalidade. E queremos ajudar mais pessoas, pois temos muitos pedidos nesse sentido. Para tal, necessitamos de mais fontes de alimentos, nomeadamente mais restaurantes.
“Continua a haver fome em Lagos e faltam alimentos para essas pessoas”
Litoralgarve – Quantos pedidos estão pendentes? Qual o número de pessoas necessitadas de comida?
Dora Rosa – À volta de mais vinte pessoas. Mas não conseguimos ajudar todos os carenciados. Continua a haver fome em Lagos e faltam alimentos para essas pessoas. Além da ‘Refood’, só a Santa Casa da Misericórdia de Lagos, a Câmara Municipal e a Casa do Padre Almeida apoiam gente com fome.

Retomar, a partir do mês de Março de 2026, as caminhadas solidárias com o objectivo de alertar as pessoas para a necessidade de haver mais apoios, tendo em vista ajudar os mais carenciados
Litoralgarve – Quais os vossos projetos para 2026?
Dora Rosa – Pretendemos, a partir do mês de Março, retomar as caminhadas solidárias com o objectivo de alertar as pessoas para a necessidade de haver mais apoios, tendo em vista ajudar os mais carenciados. E necessitamos de mais voluntários.
“Necessitamos de, pelo menos, mais 40 voluntários no núcleo de Lagos da ‘Refood’ para nos ajudar nas diversas tarefas”
Litoralgarve – Quantos?
Dora Rosa – Necessitamos de, pelo menos, mais 40 voluntários no núcleo de Lagos da ‘Refood’ para nos ajudarem nas diversas tarefas, desde a recolha de alimentos junto dos estabelecimentos que nos oferecem, até à sua preparação para distribuir pelas pessoas que nos procuram.
Litoragarve – É necessário aumentar as instalações?
Dora Rosa – Neste momento, não. Temos duas salas, as quais nos foram cedidas pela Câmara Municipal de Lagos junto ao Mercado de Santo Amaro, como já referido.
“Se a nossa instituição, em Lagos, tivesse transporte próprio, os voluntários poderiam ir para o terreno procurar pessoas com fome. E sabemos que há famílias com uma, duas, três, quatro crianças, a passar por esses problemas.”
Litoralgarve – Admite que a ‘Refood’, em Lagos, possa ir à procura de pessoas carenciadas para lhes entregar alimentos?
Dora Rosa – Não temos essa possibilidade por falta de transporte nesta instituição. É que somos nós próprios, voluntários, a utilizar as nossas viaturas para recolher alimentos junto dos supermercados, restaurantes, de pastelarias e da Churrasqueira Marques. Se a nossa instituição em Lagos tivesse transporte próprio, os voluntários poderiam ir para o terreno procurar pessoas com fome. E sabemos que há famílias com uma, duas, três, quatro crianças, a passar por esses problemas.
Litoralgarve – Onde, em concreto?
Dora Rosa – São mais casos à volta da cidade.
Litoralgarve – Há cidadãos estrangeiros residentes em Lagos a ajudar pessoas carenciadas?
Dora Rosa – Muitos, sobretudo ingleses, holandeses e alemães, que contribuem com doações.
Pessoas sem-abrigo dormem em casas devolutas ou em praias abrigadas, com arribas
Litoralgarve – Onde passam os sem-abrigos as noites?
Dora Rosa – Alguns dormem em casas devolutas, outros ficam em praias abrigadas, as que têm arribas, nesta cidade.
Litoralgarve – E junto à estação da CP, com sucedia há anos?
Dora Silva – Agora já não. Muitas dessas pessoas que ali passavam as noites, foram para um edifício situado na Meia-Praia, em Lagos, onde funcionava o MAPS – Movimento de Apoio à Problemática da Sida.
Em Lagos, “nota-se já uma tendência para a imigração baixar”, pois “muitas dessas pessoas de várias nacionalidades começaram a procurar trabalho noutros países”. Tal sucede numa altura em que o governo português prepara a Lei da Nacionalidade
Litoralgarve – Que repercussões poderá ter, em Lagos, a Lei da Nacionalidade, após ser alterada, aprovada e entrar em vigor?
Dora Rosa – Nota-se já uma tendência para a imigração baixar em Lagos. Muitas dessas pessoas de várias nacionalidades começaram a procurar trabalho noutros países antes que comecem a ter problemas em Portugal. Há imigrantes que se começam a preparar para ir embora.
Os núcleos da ‘Refood’ no Algarve
São os seguintes os núcleos da organização ‘Refood’ – Reaproveitar para Alimentar – existentes no Algarve: Lagos, Portimão, Silves (ainda em fase de implantação) Albufeira, Faro, Olhão, Almancil (concelho de Loulé),Tavira e Vila Real de Santo António.










