Tem 92 anos, trabalhou numa loja que fabricava sapatos em Loulé e tornou-se um ícone desta cidade. Na esplanada de um café, ao final de uma tarde de calor, o ‘senhor Amadeu’, como é conhecido e acarinhado entre a população local, aceitou conceder uma entrevista exclusiva ao ‘Litoralgarve’, durante a qual aproveitou para deixar, de forma consciente, recados à juventude, num mundo dominado pela Internet e novas tecnologias. “Podemos valorizar a nossa liberdade individual e, ao mesmo tempo, não esquecer a importância de estarmos inseridos numa comunidade e de cuidar dos outros. Esta é uma das lições que a minha geração pode partilhar com os jovens de hoje.”
Com um discurso simples e objetivo, revelando profundos conhecimentos sobre o pensa e diz, o ‘senhor Amadeu”, nesta entrevista, lançou, ainda, um repto: “Se conseguirem equilibrar o uso da tecnologia com relações humanas autênticas, se valorizarem tanto a liberdade pessoal quanto a responsabilidade coletiva, acredito que podem construir um mundo melhor do que aquele que lhes deixámos.” O ‘senhor Amadeu’ tem um telemóvel dos mais antigos, não vê Internet, mesmo que esteja ao seu dispor através de amigos, mas acompanha a actualidade regional, nacional e mundial através dos jornais ‘Correio da Manhã’ e ’Record’. Sempre com boa disposição para quem fala com ele.
Paulo Silva
Litoralgarve – O senhor Amadeu tem uma vasta experiência de vida e, certamente, observou muitas mudanças na sociedade ao longo dos anos. Como vê esta nova sociedade de jovens?
Amadeu – Essa é uma pergunta muito interessante. A sociedade de jovens de hoje é, sem dúvida, muito diferente daquela que conheci na minha juventude. Existem vários aspetos a considerar, desde a tecnologia até aos valores culturais e sociais. Deixe-me começar pela tecnologia.
Quando eu era jovem, não tínhamos acesso à internet, ‘smartphones’ ou redes sociais. A nossa comunicação era mais direta e as relações eram construídas cara a cara. Hoje em dia, os jovens têm o mundo na ponta dos dedos. Esta facilidade de acesso à informação é uma vantagem enorme, mas também traz desafios, como a dependência tecnológica e a superficialidade nas relações humanas.
“Vejo muitos jovens que não conseguem passar um dia sem o telemóvel ou sem verificar as redes sociais. Isso pode afetar a capacidade de concentração, a produtividade e até a saúde mental. A superficialidade nas relações é outro problema. Com a comunicação digital é fácil perder a profundidade e a intimidade que se ganha numa conversa cara a cara.”
Litoralgarve – Pode aprofundar um pouco mais sobre esses desafios que mencionou?
Amadeu – Claro! A dependência tecnológica, por exemplo, é um fenómeno preocupante. Vejo muitos jovens que não conseguem passar um dia sem o telemóvel ou sem verificar as redes sociais. Isso pode afetar a capacidade de concentração, a produtividade e até a saúde mental. A superficialidade nas relações é outro problema. Com a comunicação digital é fácil perder a profundidade e a intimidade que se ganha numa conversa cara a cara. Acredito que isso pode levar a um sentimento de isolamento, mesmo quando estamos ‘conectados’ virtualmente.
“Na minha juventude, a família e a comunidade tinham um papel central na vida de cada um. Hoje, noto que os jovens têm uma abordagem mais individualista.”
Litoralgarve – E quanto aos valores culturais e sociais, que mudanças observa?
Amadeu – Os valores também mudaram bastante. Na minha juventude, a família e a comunidade tinham um papel central na vida de cada um. Hoje, noto que os jovens têm uma abordagem mais individualista. Há uma maior valorização da liberdade pessoal e da autonomia, o que não é necessariamente mau, mas pode levar a um afastamento das tradições e das responsabilidades coletivas. Por outro lado, há também uma maior abertura e aceitação da diversidade, o que considero um progresso significativo.
“Hoje, em dia, vemos uma aceitação muito maior de diferentes orientações sexuais, identidades de género e culturas.”
“Os jovens são, em geral, mais tolerantes e inclusivos do que as gerações anteriores. Isto é visível, por exemplo, nos movimentos pelos direitos LGBTQ+ e na luta pela igualdade racial e de género.”
“Esses movimentos são liderados, em grande parte, pelos jovens, o que me dá esperança para um futuro mais justo e equitativo”
Litoralgarve – Pode dar-nos exemplos dessa maior aceitação da diversidade?
Amadeu – Hoje, em dia, vemos uma aceitação muito maior de diferentes orientações sexuais, identidades de género e culturas. Os jovens são, em geral, mais tolerantes e inclusivos do que as gerações anteriores. Isto é visível, por exemplo, nos movimentos pelos direitos LGBTQ+ e na luta pela igualdade racial e de género. Esses movimentos são liderados, em grande parte, pelos jovens, o que me dá esperança para um futuro mais justo e equitativo.
“Quando eu era jovem, a educação era muito mais rígida e baseada na memorização. Hoje, há um enfoque maior no pensamento crítico e na criatividade. No entanto, também vejo uma pressão enorme sobre os jovens para terem sucesso académico e profissional. O mercado de trabalho está mais competitivo do que nunca e isso pode ser muito stressante.”
Litoralgarve – E quanto à educação e ao mercado de trabalho? Que mudanças têm ocorrido?
Amadeu – A educação também mudou bastante. Quando eu era jovem, a educação era muito mais rígida e baseada na memorização. Hoje, há um enfoque maior no pensamento crítico e na criatividade. No entanto, também vejo uma pressão enorme sobre os jovens para terem sucesso académico e profissional. O mercado de trabalho está mais competitivo do que nunca e isso pode ser muito stressante.
“A saúde mental dos jovens é uma preocupação crescente. A pressão para ter sucesso, combinada com os desafios da vida moderna, pode levar a problemas como a ansiedade e a depressão.”
Litoralgarve – Acha que essa pressão afeta a saúde mental dos jovens?
Amadeu – Sem dúvida. A saúde mental dos jovens é uma preocupação crescente. A pressão para ter sucesso, combinada com os desafios da vida moderna, pode levar a problemas como a ansiedade e a depressão. É importante que haja apoio adequado para ajudar os jovens a lidar com essas pressões. As escolas e as universidades devem ter recursos para apoio psicológico e a sociedade, como um todo, precisa de ser mais aberta e compreensiva em relação às questões de saúde mental.
“As crianças tinham muitas responsabilidades desde cedo” noutros tempos. “Eu ajudava na lavoura e no cuidado dos animais. As nossas brincadeiras eram simples, muitas vezes ao ar livre, e a comunidade era muito unida. Havia um sentido de cooperação e de ajuda mútua que hoje em dia vejo menos frequentemente.”
Litoralgarve – O senhor mencionou a sua juventude várias vezes. Pode contar-nos um pouco sobre como foi a sua experiência de crescer em Portugal?
Amadeu – Cresci num pequeno vilarejo no interior de Portugal, numa época em que a vida era muito diferente do que é hoje. As crianças tinham muitas responsabilidades desde cedo. Eu ajudava na lavoura e no cuidado dos animais. As nossas brincadeiras eram simples, muitas vezes ao ar livre, e a comunidade era muito unida. Havia um sentido de cooperação e de ajuda mútua que hoje em dia vejo menos frequentemente.
A escola era uma parte importante da nossa vida, mas não era acessível a todos como é agora. Muitos dos meus colegas tiveram de deixar a escola cedo para ajudar as suas famílias. O acesso à educação era um privilégio e não um direito universal como deveria ser.
“A vida era dura e exigia muito trabalho físico. Não havia as comodidades que temos hoje, como eletricidade ou água canalizada, pelo menos nas áreas rurais. As famílias tinham de ser autossuficientes e aproveitávamos ao máximo o que a terra dava. Também não havia o sistema de saúde que temos hoje e as doenças podiam ser um grande problema.”
Litoralgarve – E quais eram as maiores dificuldades que enfrentava naquela época?
Amadeu – As dificuldades eram muitas, especialmente para quem vivia no campo. A vida era dura e exigia muito trabalho físico. Não havia as comodidades que temos hoje, como eletricidade ou água canalizada, pelo menos nas áreas rurais. As famílias tinham de ser autossuficientes e aproveitávamos ao máximo o que a terra dava. Também não havia o sistema de saúde que temos hoje e as doenças podiam ser um grande problema.
Além disso, a comunicação era limitada. Não tínhamos televisão e o rádio era uma novidade para muitas famílias. As notícias demoravam a chegar e estávamos muito mais isolados do resto do mundo. Este isolamento moldava a nossa visão do mundo e tornava-nos mais dependentes uns dos outros.
“A interdependência que tínhamos fomentava laços fortes e um sentido de pertença. As pessoas cuidavam umas das outras e havia um maior sentido de responsabilidade coletiva. Hoje, com o individualismo crescente, esses laços parecem enfraquecer.”
Litoralgarve – Parece que a vida era muito mais comunitária e interdependente naquela época. Como vê essa mudança para uma sociedade mais individualista?
Amadeu – Vejo com alguma preocupação. A interdependência que tínhamos fomentava laços fortes e um sentido de pertença. As pessoas cuidavam umas das outras e havia um maior sentido de responsabilidade coletiva. Hoje, com o individualismo crescente, esses laços parecem enfraquecer. Claro que a individualidade e a autonomia são importantes, mas não devem vir à custa da solidariedade e do apoio mútuo.
Acredito que é possível encontrar um equilíbrio. Podemos valorizar a nossa liberdade individual e, ao mesmo tempo, não esquecer a importância de estarmos inseridos numa comunidade e de cuidar dos outros. Esta é uma das lições que a minha geração pode partilhar com os jovens de hoje.
“Tenho esperança no futuro, especialmente ao observar a energia e a paixão dos jovens de hoje. Eles têm um potencial enorme para fazer a diferença. Estão mais conscientes das questões sociais e ambientais e têm as ferramentas para implementar mudanças significativas.”
Litoralgarve – Quais são as suas esperanças para o futuro?
Amadeu – Tenho esperança no futuro, especialmente ao observar a energia e a paixão dos jovens de hoje. Eles têm um potencial enorme para fazer a diferença. Estão mais conscientes das questões sociais e ambientais e têm as ferramentas para implementar mudanças significativas. O importante é que usem essas ferramentas de maneira construtiva, promovendo o bem comum e não apenas os interesses individuais.
Se conseguirem equilibrar o uso da tecnologia com relações humanas autênticas, se valorizarem tanto a liberdade pessoal quanto a responsabilidade coletiva, acredito que podem construir um mundo melhor do que aquele que lhes deixámos. O futuro está nas mãos deles e eu confio que podem fazer um excelente trabalho.
Agradeço a oportunidade de partilhar os meus pensamentos. Espero que as minhas palavras possam inspirar e contribuir para uma sociedade melhor.










