Entrevista a Gonçalo Costa

“Uma história maior do que um erro”

Assim se intitula  o  livro  da  autoria deste jovem lisboeta,  que chama a   atenção  para   problemas na sua  vida

Por Paulo Silva

Gonçalo Costa nasceu a 15 de Março de 1997, em Lisboa. Tem 25 anos. A morte da sua avó materna marcou a infância de Gonçalo, assim como o acidente de carro do seu pai. Depois, o abandono do progenitor provocou-lhe imensa revolta. Momentos de angústia e de reviravoltas na sua vida foram implacáveis durante o seu crescimento. Mais tarde, refugiou-se nas redes sociais e abordou temas tabus, como a homossexualidade e homofobia, aquando da sua ida à televisão, o que ajudou muitos jovens. Um dia, num ato de desespero, cometeu um erro que foi noticiado a nível nacional, ao anunciar, através de um vídeo, a intenção de lançar o seu cão por uma janela se obtivesse muitos ‘likes’ (gostos) na Internet, tendo ficado envolvido em polémicas nas redes sociais por maus tratos a animais. Não cometeu o crime, mas deixou muitos porquês por responder, assim como os motivos e as consequências. Com uma personalidade forte nem sempre soube ter equilíbrio emocional, e mesmo tendo esta história forte para contar, o autor deixa-nos inúmeras perguntas pessoais sem resposta.

No fim de tudo, o amor, a capacidade e vontade de mudar, a determinação e a amizade fizeram com que chegasse aos dias de hoje mais feliz, intenso e cheio de objetivos. A convite da editora ‘Corte Real’, escreveu um livro intitulado «Uma história maior do que um erro», que foi publicado no dia 29 Maio de 2021.

“O importante, acho eu, é todos nós termos a sorte de ter os nossos avós, sabemos a importância que eles têm para nós e sabemos aquilo que todos nós sentimos por eles”

Pode ser uma imagem de 1 pessoa, em pé, calçado e ao ar livre

“(…) a minha infância, e lá está, foi mais por aí que eu quis tocar, foi sempre marcada pelo sentimento de perda. Perdi a minha avó materna, o meu pai teve o acidente de viação e os meus pais separaram-se. Como eu costumo dizer, os problemas nunca foram diretamente com a minha pessoa, foram sempre à minha volta. A minha vida foi marcada pelo perder, foi sempre aquele drama todo na vida, de estar a acontecer alguma coisa, parece que nunca há paz, hoje em dia isso vai-se refletindo e eu tenho de explicar.”

“(…) podemos fazer mil e uma coisas boas, mas quando fazemos uma má essa marca prevalece. Tive a infelicidade, num momento mau, para chamar a atenção da minha vida e foi da forma parva que o fiz, infelizmente. Como andava nas redes sociais, essa acusação de maus-tratos a animais foi uma chamada de atenção sem nunca ter feito isso”

“Não é mau que se queria ter redes sociais, não é mau ter ideias e querer fazer conteúdo, e não é mau as pessoas falarem. As pessoas falam, há muitos ‘likes’, seguidores e isso é que é mau. As pessoas querem aparecer, isso é completamente mentira, é o mesmo que tu ires ao teatro e as pessoas estão a aplaudir.”

“Eu   sou   apenas  um   concorrente,  um  cidadão  português   que  ganhou   um  concurso   de   televisão”

Litoralgarve: Gostaríamos que falasses um pouco de ti. Porque é que na tua infância tiveste a  vida atribulada?

Gonçalo Costa: Sim, é verdade, foi assim um bocadinho de altos e baixos, desde pequenino o que, no fundo, hoje em dia, e não pensando na altura, quando era mais pequenino, influenciou bastante a minha personalidade, a minha forma de ser e aquilo em que eu sou agora e aquilo em que me revejo.

Litoralgarve: O que é que mudarias na altura se os acontecimentos fossem agora?

Gonçalo Costa: Na altura, eu acho que não queria mudar assim grande coisa, principalmente porque era muito jovem. Portanto, em pequenino era quase impossível não é, não temos bem noção das coisas que estão acontecendo. E depois, na adolescência, foi das fases mais complicadas e com alguns problemas, portanto não havia quase como pensar e ter de pedir neste caso conselhos a alguém, ou poder mudar alguma coisa. Hoje em dia, é mais fácil falar e pensar, coisa que na altura era quase impossível na infância.

Litoralgarve: No livro descreves a separação dos teus pais, após um acidente de automóvel. O que pensas que levou o teu pai a tomar tal decisão depois do desastre que sofreu?

Gonçalo Costa: Não posso aqui garantir, porque não estou no lugar dele, e, portanto, é sempre mais fácil falarmos quando estamos de fora do que quando passamos todas estas situações. Muita gente costuma perguntar-me o porquê? Como é que é esta história com o meu pai? As pessoas não conseguem perceber que eu tinha uma boa relação com os meus pais, seja mãe ou pai, nós estamos sempre presentes, que gostamos daquele nosso apoio, e que é aquilo em que nós aos 12 anos esperamos, porque a nossa família  eu e o meu pai tínhamos uma ligação muito forte. Portanto, ele já estava na tropa e quando saiu da tropa para ser pai, foi entretanto quando ocorreu o acidente. Até fui eu que tomei conhecimento do acidente do meu pai. Sempre fomos uma família unida, eu fui mais conhecido, mais amigo, e portanto ainda foi, de certa forma, um apoio maior.

A ligação foi sempre mais forte, porque tinha muito mais responsabilidade e tinha muito mais tempo para estar com o meu pai do que muitos jovens, ou as famílias ditas normais, nas quais não existem problemas. E portanto, o meu pai, depois do acidente, quando se viu no estado em que estava, deve ter passado muita coisa pela sua cabeça. Mas o que é certo é que ele, assim como todos nós, tomou decisões que não foram as melhores para a vida dele,  tenho a certeza disso, o que me afetou muito.

“(…)  tenho a certeza absoluta de que se ela [a avó materna] estivesse viva seria tudo muito mais prático para mim, porque era daquelas pessoas que me entendia e que já sabia dos problemas que pudessem existir. Portanto, eu não precisava de dizer nada para ser ela a me perguntar se havia algum problema, se estava tudo bem, ou se eu precisava de ajuda em alguma coisa”

Litoralgarve: Antes do acidente do teu pai, faleceu a tua avó Necas, que para ti era um enorme pilar. Na tua ótica, se a tua avó ainda fosse viva, essa dor, esse sofrimento que passaste, seria menor?

Gonçalo Costa: Sim, eu quando estive no programa da TVI “Goucha”, comentei isso mesmo e tenho a certeza absoluta de que  se ela estivesse viva seria tudo muito mais prático para mim, porque era daquelas pessoas que me entendia e que já sabia dos problemas que pudessem existir. Portanto, eu não precisava de dizer nada para ser ela a me perguntar se havia algum problema, se estava tudo bem, ou se eu precisava de ajuda em alguma coisa. O importante, acho eu, é todos nós termos a sorte de ter os nossos avós, sabemos a importância que eles têm para nós e sabemos aquilo que todos nós sentimos por eles.

Neste caso, quando eu era mais novo face à situação de os meus  pais trabalharem, passei mais tempo com a minha avó, sempre fui muito ligado a ela e passou a ser muito complicado para mim a ausência dela. Até porque era muito novo, mas era daquelas crianças muito atentas à conversa dos adultos, e então eu tinha muito a ideia das coisas. Seria  tudo mais fácil se ela  estivesse Cá. Neste caso, uma das únicas tristezas que eu sinto é não ter tido mais tempo para aproveitar com ela. Gostava de ter tido a minha avó materna em adulto para poder ter tido outras experiências com ela.

“É como tudo na vida, eu sentia que era uma mentira quando perguntam a um jovem, uma criança, «então, já tens namorada?». Nós temos que mentir, portanto temos que dizer não. E eu tenho o direito de dizer não, não tenho, nem vou ter, porque eu não vou ter namorada, porque eu não gosto de mulheres. E portanto é como é.”

Pode ser uma imagem de 1 pessoa, livro e texto que diz "CATEGORIA ESCOLHA DO LEITOR 2021 GONÇALO COSTA UMA HISTÓRIA MAIOR QUE UM ERRO UMA HISTÓRIA MAIOR QUE UM ERRO PREFÁCIO Dr. Quintino Aires cordel prata cordeld' prata GAORES D"

Litoralgarve: Segundo relatas no teu livro, a tua mãe ficou chateada contigo pela forma como soube, através das redes sociais, a tua orientação sexual. Queres falar sobre isso?

Gonçalo Costa: Sim, ficou chateada. Mas se fosse hoje, não tinha sido dessa forma como fiz. Naquela altura, foi. Lá está, também o tempo vai passando e as coisas vão ficando mais fáceis, porque temos pessoas, neste caso como eu, e juntamente como tantos outros, que expomos o tema, que falamos do tema, que tornamos isto algo realmente normal. Porque é que as pessoas continuam a não meter isso na cabeça? Na altura, foi  a forma que eu achei para contar. Umas pessoas acharam piada, mas tens outras pessoas que não acharam piada nenhuma. Mas isso é como tudo na vida, eu sentia que era uma mentira quando perguntam a um jovem, uma criança: “então, já tens namorada?” Nós temos que mentir, portanto temos que dizer não. E eu tenho o direito de dizer não, não tenho, nem vou ter, porque eu não vou ter namorada, porque eu não gosto de mulheres. E portanto é como é. Se fosse hoje, não seria assim, mas na altura foi aquilo que me surgiu, foi dessa forma e ajudou muita gente.

“Nunca maltratei qualquer tipo de animal, nem pessoas. Na altura, disse que se tivesse dez mil ‘likes’, mandaria o meu cão da janela, mas não o fiz. Há pessoas que gostam de frisar que isso aconteceu, mas não aconteceu. Fui a tribunal e paguei pelo meu erro, mas o erro foi difundir imagens de maus-tratos a animais. O meu animal estava no processo e estava bem tratado. Há pouco tempo disse que ele estava super bem tratado na altura em que me o retiraram”

Litoralgarve: Foste acusado de maus tratos a animais e ainda hoje és criticado por esse passado negro na tua adolescência. Como lidas com estas críticas e acusações?

Gonçalo Costa: Este tema deve ser aquele que é o mais marcante da minha vida. Foi e vai ser a vida toda, porque podemos fazer mil e uma coisas boas, mas quando fazemos uma má essa marca prevalece. Tive a infelicidade, num momento mau, para chamar a atenção da minha vida e foi da forma parva que o fiz, infelizmente. Como andava nas redes sociais, essa acusação de maus-tratos a animais foi, como referi, uma chamada de atenção sem nunca ter feito isso. Nunca maltratei qualquer tipo de animal, nem pessoas. Na altura, disse que se tivesse dez mil ‘likes’, mandaria o meu cão da janela, mas não o fiz. Há pessoas que gostam de frisar que isso aconteceu, mas não aconteceu. Fui a tribunal e paguei pelo meu erro, mas o erro foi difundir imagens de maus-tratos a animais. O meu animal estava no processo e estava bem tratado. Já tive contacto com a pessoa que ficou com ele e está bem. Há pouco tempo disse que ele estava super bem tratado na altura em que me o retiraram. E na altura de toda a polémica que tem acompanhado o meu percurso de vida, tenho sentido que  tenho crescido, que me tenho desenvolvido a nível pessoal, a nível profissional e isso é que é importante para mim. Fico triste por ter cometido uma falha, todos nós temos ‘telhados de vidro’ e este vai ser o meu, a ‘minha pedra no sapato’ da minha vida. Não escondo, não finjo que não existe, mas ninguém tem o direito de me criticar, nem de me pisar por causa disso. Porque simplesmente estava mal, errei e paguei pelo meu erro. Eu assumo, não me identifico com aquilo, todos nós mudamos e crescemos na vida, e acho que é necessário as pessoas preocuparem-se um pouco mais com a sua própria vida, do que andar a gozar com a vida dos outros, com o passado de cada um. Acho que, assim, seriamos todos mais felizes.

Que façam coisas boas, que cada um seja empreendedor, que trabalhe, que lance livros, que faça algo bom por alguém, que seja produtivo e que seja,neste caso, adulto, com maturidade. Tudo o que eu faça pode estar bem, mas como estou bem, vão sempre falar do passado. Portanto, as pessoas têm sempre de picar no ponto fraco de alguém. Hoje, já não falam tanto disso e quando falam é numa de me tentar diminuir. Pronto, é mais por aquela tentativa de inferiorizar os outros e eu não me sinto inferior. Porque, repito, foi um dos piores momentos da minha vida que me fez crescer e eu não vou esconder isso nunca. É assim, não tenho orgulho nenhum, mas também não vou fugir da minha realidade. Se  fosse hoje, não faria, como é óbvio. Não foi exemplo para ninguém, as pessoas que olham para o meu presente e para o futuro, deviam esquecer um bocadinho o meu passado. Posso ter tido uma atitude má e posso ser a melhor pessoa deste mundo.

“Fui ao programa (da RTP) “O Preço Certo”, como milhares de pessoas em Portugal vão (…)  O que acontece é que eu já tinha tentado uma vez e não ganhei nada, tentei a segunda vez e não ganhei nada, e à terceira vez tive a sorte de ganhar a Montra final, no valor de 18.500 €, o que, por sinal, tem feito comichão a muita gente, porque  se trata do Gonçalo Costa e o meu nome é muito fácil para fazer correr tinta e criar polémica”

Litoralgarve: Participaste no programa da RTP “O Preço Certo”. Como analisas as críticas que te são feitas por teres ganho a montra final?

Gonçalo Costa: Fui ao programa “O Preço Certo”, como milhares de pessoas em Portugal vão. É um dos programas que existe há mais anos, já tinha participado como concorrente e já assisti só na plateia. Já lá levei amigos, familiares, e há um regulamento do programa, como todos os programas, que indica que podemos participar as vezes que quisermos, mas não se pode ganhar Montra e ir outra vez, neste caso. Quem ganha a Montra final não pode participar mais. O que acontece é que eu já tinha tentado uma vez e não ganhei nada, tentei a segunda vez e não ganhei nada, e à terceira vez tive a sorte de ganhar a Montra final, no valor de 18.500 €, o que, por sinal, tem feito comichão a muita gente, porque  se trata do Gonçalo Costa e o meu nome é muito fácil para fazer correr tinta e criar polémica.

E pronto, é o que acontece. Não consigo perceber, por exemplo, no dia em que fui gravar, estava lá um senhor que me disse que eu: “já  é  a  sexta vez que cá venho”. Não consigo perceber como é que as pessoas não sabem nada sobre o programa, que nunca lá foram e gostam de fazer polémicas que não existem.

Inclusive foi publicada uma notícia numa revista a dizer que houve polémica. E depois, dentro da notícia diz que não houve polémica nenhuma, porque o regulamento permite. É só ridículo, a comunicação social no nosso país está um bocadinho tremida, porque não se informa sobre as coisas, não fala com as pessoas e simplesmente escrevem tudo à maneira que querem. Não pode ser assim, eu sou apenas um concorrente, um cidadão português que ganhou um concurso de televisão.

“Já conhecia a senhora que tem o “Ruca”  [o  cão] e neste momento a própria disse-me que ele está bem tratado.  Ficou com ele e pediu-me para eu não lhe tirar-lhe o “Ruca”. Sei que está com uma pessoa que o trata bem.  Portanto, acho que é uma história que já passou há tantos anos, é uma história que está arrumada”

Litoralgarve: Se existisse a possibilidade de ficares novamente com o “ Ruca”, o teu cão, aceitarias?

Gonçalo Costa: Eu penso em mim, como é óbvio, e acho que todos nós temos de pensar em nós. Mas, também, penso nos outros. Estou rodeado de outras pessoas e de animais e quando penso naquilo que aconteceu no passado, não gosto. Porque eu não me revejo naquilo, como disse anteriormente. Já conhecia a senhora que tem o “Ruca” e neste momento a própria disse-me que ele está bem tratado. Ficou com ele e pediu-me para eu não lhe tirar o “Ruca”. Sei que está com uma pessoa que o trata bem. Portanto, acho que é uma história que já passou há tantos anos, é uma história que está arrumada.

Aliás, o “Ruca” até recentemente pesava 60 kgs, pesa mais do que eu que vivo num apartamento pequeno no centro de Lisboa. E onde está, ele está muito melhor, está feliz, está tudo bem. Acho que isso é que é o mais importante, pensarmos no bem-estar dos outros.

“Foi preciso muita coragem para escrever uma biografia, porque temos de revelar alguma intimidade, alguns dos nossos segredos, algumas coisas que fazem parte da nossa vida e que não é qualquer pessoa que sabe”

Pode ser uma imagem de uma ou mais pessoas e texto que diz "GONÇALO COSTA UMA HISTÓRIA MAIOR QUE UM ERRO PREFÁCIO Dr. Quintino Aires cordel.d'prata En prata"

Litoralgarve: O que te levou a escrever esta biografia intitulada “Uma história maior do que um erro”?

Gonçalo Costa: Visto que, na altura houve um impacto enorme quando cometi o maior erro da minha vida, os anos foram passando e foi sempre existindo “o diz que disse” para notícias falsas. Amigos e família também foram prejudicados por aquilo que aconteceu. E então o que  eu decidi, já sou adulto, é que eu já tenho uma história com esta idade, eu vou pegar em tudo aquilo que aconteceu ao longo dos anos, em que, inclusive, já tinha ido à televisão abordar vários temas em relação ao meu pai e o abandono, e a minha sexualidade. Abordei muitos temas em televisão. Como na altura eu  tive uma exposição muito grande, tudo foi dito sobre mim, achei que poderia mostrar isso às pessoas.

Porque, como é óbvio, se eu só mostrar uma parte a alguém, só essas pessoas vão pensar aquilo que eu acho. Assim, tinha um dever e o direito de mostrar um bocadinho mais daquilo que eu realmente sou, porque eu sei que é difícil falar para uma pessoa que comete um erro e tentarmos fazê-las ver o lado bom das pessoas. E neste caso nem tudo é bom, nem tudo é fácil e decidi mostrar a realidade, ter a coragem de mostrar a minha história. Nesse sentido, foi preciso muita coragem para escrever uma biografia, porque temos de revelar alguma intimidade, alguns dos nossos segredos, algumas coisas que fazem parte da nossa vida e que não é qualquer pessoa que sabe.

 Muitos mantêm sempre alguns segredos, que acho que todos nós temos na vida, há coisas que são nossa intimidade e só pertencem a nós e aos nossos. E acho que o ‘feedback’ [da biografia] foi super positivo, que é o mais importante, não pelo erro em si cometido, mas para que se perceba, de uma vez por todas, que não interessa a idade que temos, nem nada daquilo que parece, porque na verdade todos nós temos uma história, todos nós temos um lado bom.

“No meio destes problemas que foram acontecendo, começo a tornar-me uma pessoa mais fria e isso, hoje, é um dos defeitos que eu tenho. Portanto, sou um bocadinho bruto para com as pessoas, não sinto orgulho nisso, mas acontece naturalmente”

Litoralgarve: No teu livro descreves todas as ocorrências que tiveste na tua infância. O falecimento do teu pai foi mais um “balde de água fria” na tua vida?

Gonçalo Costa: Sim, até porque a minha infância, e lá está, foi mais por aí que eu quis tocar, foi sempre marcada pelo sentimento de perda. Perdi a minha avó materna, o meu pai teve o acidente de viação e os meus pais separaram-se. Como eu costumo dizer, os problemas nunca foram diretamente com a minha pessoa, foram sempre à minha volta. A minha vida foi marcada pelo perder, foi sempre aquele drama todo na vida, de estar a acontecer alguma coisa, parece que nunca há paz, hoje em dia isso vai-se refletindo e eu tenho de explicar.

Olhem para nós, olhem para as pessoas com o seu percurso num todo, porque aquilo que somos hoje tem influência naquilo que nós passamos e, portanto, durante os anos que vamos vivendo e sem dúvida que essa altura foi mais complicada.

Até porque os pais não vão conseguir nunca explicar aos filhos como é que têm um filho fruto de amor entre os dois, e depois separam-se e ainda perguntam a um filho, com qual deles quer ficar. Portanto, isso é uma coisa muito forte de lidar, suportar, de entender e as pessoas não conseguem perceber.

As pessoas, hoje em dia, banalizam tudo o que não acontece com elas próprias. Portanto, a única resposta que eu tenho para isso é que foi super complicado e vai ser a minha vida toda, os momentos mais marcantes, porque eu sempre fui habituado a amor, a carinho, a afeto. E nos últimos anos ,isso foi-se perdendo.

No meio destes problemas que foram acontecendo, começo a tornar-me uma pessoa mais fria e isso, hoje, é um dos defeitos que eu tenho. Portanto, sou um bocadinho bruto para com as pessoas, não sinto orgulho nisso, mas acontece naturalmente.

Antes via um filme, emocionava-me, eu via programas de televisão, em que choravam e eu emocionava-me. Isso hoje sucede algumas vezes. Fui ao programa da Fátima Lopes, na TVI, na altura à procura do meu pai, tentei mais que tudo não chorar.

“Já tive muitas coisas boas [na Internet], conheci muita gente, é verdade, mas depois há o lado mau que é  a exposição, parece que  tens de dar justificações da tua vida. (…) as redes sociais são como tudo, têm o lado bom e o lado mau, temos é de saber gerir e lidar com a era digital”

Litoralgarve: Para finalizarmos, o que aconselhas aos mais novos quanto à utilização das redes sociais?

Gonçalo Costa: Durante dois, três anos, quase não utilizei redes sociais, mesmo para fazer um ‘detox’ [limpeza]. Depois de tudo o que aconteceu, eu precisava disso. As redes sociais são um meio de comunicação muito bom para nós, ajudam-me imenso. Mas também têm um lado mau. Como tudo, acho que os jovens, ou quaisquer pessoas que estejam na Internet e que usem redes sociais, têm de ir com esse pensamento. Não é mau que se queria ter redes sociais, não é mau ter ideias e querer fazer conteúdo, e não é mau as pessoas falarem.

As pessoas falam, há muitos ‘likes’, seguidores e isso é que é mau. As pessoas querem aparecer, isso é completamente mentira, é o mesmo que tu ires ao teatro e as pessoas estão a aplaudir.

Já tive muitas coisas boas, conheci muita gente, é verdade, mas depois há o lado mau que é a exposição, parece que tens de dar justificações da tua vida. Portanto, reafirmo, as redes sociais são como tudo, têm o lado bom e o lado mau, temos é de saber gerir e lidar com a era digital.

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