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Selo Verde para o Autocaravanismo Sustentável

Os tristes acontecimentos de intimidação feita aos autocaravanistas, consubstanciam um retrocesso civilizacional por se terem revestido de um caráter terrorista o que contraria a lei e os costumes do nosso povo, podendo ser punível com prisão. Certos comentários televisivos feitos por um jornalista em tom agressivo, podem conduzir à violência contra os autocaravanistas e por si só, ao contrário do caravanismo sustentável, são comentários selvagens, que nada acrescentam de positivo.

Mais que uma simples forma de fazer turismo, o autocaravanismo encerra em si, o desejo de realizar um sonho que é difícil de descrever. Apenas os poetas o sabem dizer, de forma eloquente e transversal ao entendimento de todos, pelo que por incapacidade própria de o fazer, cito o poeta:

“Se pudesse ter uma vida paralela, gostaria de ter a vida de um caracol, carregando comigo a casa e plantando-a onde houvesse sol e silêncio, onde houvesse mar e espaço, onde houvesse tempo e distância. Onde houvesse essa improvável e louca hipótese de ser feliz fora do mundo.”

Miguel Sousa Tavares,

Não se Encontra o que se Procura.

Clube do Autor, SA, 2014.

A prática do autocaravanismo consubstancia um estilo de vida próximo da natureza, contemplando-a, protegendo-a e beneficiando de uma mobilidade fácil e de um conforto permanente, independentemente das condições do clima e do tempo. 

A simples presença do homem no meio natural, implica sempre um impacte que não tem de ser necessariamente negativo e pode até ser potencializador de práticas de preservação e defesa ambiental. 

Porém, o impacte negativo da presença humana na natureza através do autocaravanismo, é tanto mais reduzido consoante as condições disponíveis a bordo, nomeadamente, para que na natureza não sejam deixados os vestígios da presença humana tais como lixo, dejetos ou até mesmo elementos contaminantes. 

Para além da necessidade do autocaravanista ter desenvolvida uma atitude de defesa ecológica relativa ao meio ambiente, também a autocaravana tem de assegurar as condições básicas para que a passagem e/ou a estadia não deixem marcas e prejuízo ambiental.

Nesse particular, podemos distinguir dois grandes grupos de autocaravanas com as quais se podem realizar dois tipos de autocaravanismo distintos. O autocaravanismo sustentável e o autocaravanismo não sustentável.

Entende-se por autocaravanismo sustentável aquele é desenvolvido em autocaravanas que dispõem a bordo e de forma permanente, dos seguintes requisitos: 

1- Ecoponto para separação do lixo, incluindo recipiente para recolha de pilhas e lâmpadas.

2- Reservatório de água potável de pelo menos 50 l. 

3- Reservatório para água suja de pelo menos 50 l.

4- Áreas distintas no interior da autocaravana, para dormidas, WC, confeção e toma de refeições.

5- A área do WC deve ter obrigatoriamente disponível, sanita química e possibilidade de banho, com recolha das águas sujas para o reservatório respetivo. 

6- A área de confeção de alimentos deve ter água potável disponível e instalado o esgoto para o reservatório das águas sujas.

Com este tipo de autocaravanas, é possível desfrutar do ambiente natural, parando ou pernoitando sem causar dano ambiental.

Por outro lado, a paragem e em especial a pernoita de autocaravanas que não dispõem no todo ou em parte destes requisitos, são potencialmente fatores de poluição, em virtude de não garantirem que os seus ocupantes satisfaçam as suas necessidades fisiológicas protegendo o ambiente, bem como representam igualmente um perigo de poluição ambiental por não disporem de reservatórios para a recolha seletiva do lixo. Pode resumir-se com breves palavras e dizer que estas autocaravanas não garantem condições de habitabilidade para os seus utilizadores, contrariamente às autocaravanas sustentáveis.

Para realidades distintas há que regulamentar a sua atividade de forma distinta. Essa distinção deve prever o Selo Verde para o Autocaravanismo Sustentável e certificar todas as autocaravanas sustentáveis. Este selo deve materializar-se num dístico físico, atribuído a cada autocaravana que cumpra aqueles requisitos de sustentabilidade e deve ser exibido na autocaravana em lugar visível, para os devidos efeitos de identificação e fiscalização.  Para as autocaravanas sustentáveis, a paragem ou a pernoita podem ser feitas em todo e qualquer parque de estacionamento para a sua categoria automóvel, salvaguardando porém, a interdição em períodos sazonais de maior afluência automóvel, como forma de garantir a afluência do maior número de pessoas a esses espaços, em virtude de uma autocaravana com dois ocupantes poder ocupar o espaço de três automóveis ligeiros. Nos períodos de menor afluência estas autocaravanas representam sempre um impacte ambiental igual ou inferior ao dos outros automóveis ligeiros nos meses de grande afluência a esses locais.

As autocaravanas não sustentáveis, devem ter a obrigatoriedade de pernoitar em áreas devidamente apetrechadas com serviços de saneamento básico e disponibilidade de sanitários completos e ecoponto. Desta forma, pode-se praticar autocaravanismo sustentável com autocaravanas não sustentáveis.

Os autocaravanistas com as suas associações representativas, devem criar o símbolo do Selo Verde e propô-lo à tutela para aprovação. É necessário elaborar, implementar e respeitar um código de conduta para a prática do autocaravanismo, onde por exemplo entre outras obrigações, devem por cada dia de estadia dedicar algum tempo à recolha de objetos poluentes espalhados pela área, de forma a deixarem o ambiente mais limpo que aquilo que encontraram. Tão importante como a regulamentação, é o desenvolvimento de uma cultura generalizada entre todos e em especial entre os autocaravanistas, para comportamentos de respeito ambiental, tão básicos como não parar ou estacionar em áreas ambientalmente frágeis, onde pela presença de qualquer veículo motorizado possa ocorrer prejuízo para as plantas, para as dunas, para as arribas ou para quaisquer outros elementos naturais.

A prática do autocaravanismo responsável, ao invés de causar divisões entre as pessoas, deverá ser encarada como um fator de união e defesa ambiental.

Autor: Francisco Soares

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