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ENTREVISTA A ELIDÉRICO VIEGAS: COVID-19 JÁ PROVOCOU “QUEBRA NA FATURAÇÃO SUPERIOR A 800 MILHÕES DE EUROS AO NÍVEL DO ALOJAMENTO TURÍSTICO” NO ALGARVE

–  Turistas ingleses no Algarve?  Em economia  (…) não  basta  carregar  num  botão  e  esperar   que tudo   fique   bem   no   dia   seguinte”

–   “O relançamento   da  indústria   do  golfe   pode impulsionar   toda   a  atividade  turística  na   região já  a   partir   do  mês  de   Setembro”

–  “O  comportamento   do   mercado  interno  tem  sido verdadeiramente   notável”

– Na passagem de  ano,  “os  ‘reveillons’  não  estão  em   causa   e  realizar-se-ão   normalmente”   nos  hotéis   e   empreendimentos  turísticos

Em entrevista ao ‘Litoralgarve’, o presidente da Direção da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve, Elidérico Viegas, embora reconheça a importância da decisão do governo britânico em colocar  Portugal nos corredores de viagens como país seguro, lembra que “os meses por excelência do nosso turismo, Julho e Agosto, ficaram comprometidos por uma medida considerada injusta e baseada em critérios errados e poucos transparentes”.

Admite que o golfe “pode impulsionar toda a atividade turística na região já a partir do mês de Setembro”  e perspetiva  grande afluência de visitantes   durante o Grande Prémio de Portugal de Fórmula 1, a realizar no Autódromo Internacional do Algarve, no concelho de Portimão,  de 23  a   25    de Outubro.

Litoralgarve – Esperava, nesta altura, a decisão do governo do Reino Unido de “adicionar Portugal aos países incluídos nos corredores de viagens”,  considerando assim um destino turístico seguro? Como reage?

Elidérico Viegas – Em boa verdade, não existiam razões para justificar as restrições impostas pelo Reino Unido aos cidadãos oriundos de Portugal e, muito principalmente, do Algarve. Neste sentido, a medida agora tomada, apesar de pecar por tardia, é uma boa notícia para o nosso País, em geral, e para o turismo do Algarve, em particular.

No entanto, os meses por excelência do nosso turismo, Julho e Agosto, ficaram comprometidos por uma medida considerada injusta e baseada em critérios errados e pouco transparentes.

Litoralgarve – De que forma vai o Algarve aproveitar esta situação? Ainda é possível garantir a presença de turistas ingleses em Agosto?

Elidérico Viegas – Em economia, as coisas não acontecem de um dia para o outro. Ou seja, não basta carregar num botão e esperar que tudo fique bem no dia seguinte. Temos curiosidade em saber como é que os turistas britânicos vão reagir ao levantamento das restrições, uma vez que muitas pessoas que pretendiam fazer férias no Algarve viram-se forçadas a optar outros destinos nossos concorrentes.

Contudo, é possível perspetivar, por exemplo, um bom comportamento da procura de golfe, cuja temporada alta tem início em Setembro. E isto porque os Operadores Turísticos de Golfe ainda vão a tempo de retomar as suas operações normais.

“O   ALGARVE   JÁ    MOSTROU   ESTAR    PREPARADO    PARA   ENFRENTAR    A    PANDEMIA”

Litoralgarve – A vinda de turistas do Reino Unido  poderá aumentar o risco de casos de contágio da Covid-19 no Algarve ? Como encara essa situação?

Elidérico Viegas – O Algarve já mostrou estar preparado para enfrentar a pandemia, quer ao nível das unidades de saúde, quer sobretudo em matéria de hotéis e empreendimentos turísticos, cujos Manuais de Boas Práticas constituem um exemplo a seguir em matéria de proteção contra a COVID-19.

Litoralgarve – As regras de segurança, com o distanciamento social, uso de máscara e higienização, entre outras, são suficientes?

Elidérico Viegas – Todos os hotéis e empreendimentos turísticos, no âmbito dos respetivos Planos de Contingência Individuais, adotaram Manuais de Boas Práticas que respeitam integralmente as indicações da Direção Geral de Saúde, assim como tudo o que de melhor se faz mundialmente nesta matéria.

“BARES   NÃO   TÊM   CONDIÇÕES   PARA    SERVIR   REFEIÇÕES”

Litoralgarve- O que pensa das restrições ao nível dos horários de funcionamento dos restaurantes e bares? Que reflexos têm essas medidas na atividade turística?

Elidérico Viegas – Penso que ao nível dos restaurantes as questões mais importantes estão ultrapassadas e a funcionar normalmente. A falta de clientes resulta de outros fatores que não o cumprimento dos requisitos legais, apesar da imposição do chamado distanciamento social limitar o número de clientes nos estabelecimentos.

A situação que envolve os bares é mais complexa e difícil, uma vez que muitos destes estabelecimentos vinham funcionando como discotecas a céu aberto, tendo deixado de cumprir, há muito, o fim para que tinham sido licenciados. Para contornar o legalmente estipulado, estes empreendimentos requereram licenças de ‘snack-bar’ para se manterem abertos ao público nos mesmos moldes dos restaurantes, o que não deixa de revelar alguma contradição, na justa medida em que, na realidade, não têm condições para servir refeições.

Esperamos, vivamente, e fazemos votos para que estes subterfúgios não venham a ter consequências mais graves, como já se verificou em outros destinos concorrentes.

Sem pretender colocar em causa a importância destes estabelecimentos, enquanto complementos importantes da nossa oferta turística, o bom senso aconselha alguma prudência no que se refere à sua reabertura e funcionamento normal.

“PERSPETIVAS  POSITIVAS  PARA   O   GOLFE   TURÍSTICO”

Litoralgarve – Como perspetiva os próximos meses?  O golfe poderá funcionar como o grande impulsionador da vinda de turistas ingleses para o Algarve?

Elidérico Viegas – O levantamento das restrições por parte do Reino Unido deixa antever, de facto, algumas perspetivas positivas para o golfe turístico, uma vez que a estação alta do golfe coincide, precisamente, com a época baixa do turismo.

Nestes termos, acreditamos que o relançamento da indústria do golfe pode impulsionar toda a atividade turística da região já a partir do mês de Setembro, embora a gestão hoteleira durante a estação baixa seja deficitária.

NO  GRANDE   PRÉMIO   DE   PORTUGAL   DE   FÓRMULA  1,  EM  PORTIMÃO,    “O    DESAFIO   É   GARANTIR   A    CONTINUIDADE   DA    PROVA     NOS    ANOS     VINDOUROS”

Litoralgarve – E que impacto terá no Algarve o Grande Prémio de Portugal de Fórmula 1, no concelho de Portimão, de 23 a 25 de Outubro? Poderá funcionar, de alguma forma, como “o mês de Agosto”, como dizem alguns responsáveis?

Elidérico Viegas – O Grande Prémio de Portugal de Fórmula 1 deve ser entendido, sobretudo, como um meio privilegiado de promoção e divulgação turística no exterior, atendendo à elevada cobertura mediática internacional.

O desafio é garantir a continuidade da prova nos anos vindouros, uma vez que isso não se encontra assegurado neste momento. É verdade que o evento vai atrair muitas pessoas ao Algarve neste período, apesar das limitações serem, como sabemos, muito grandes em matéria de transporte aéreo e viagens.

Sem deixar de reconhecer que se trata de um evento muito positivo, convém lembrar que o mesmo ocorre na estação baixa e por um curto período de dias, sendo o maior número de espetadores nacionais.

Litoralgarve – Acha que o Algarve está preparado para receber um evento com esta dimensão?  

Elidérico Viegas – É óbvio que a região está mais que preparada para eventos desta natureza, designadamente no que se refere à capacidade de alojamento disponível e outras facilidades turísticas, como transferes, restauração, etc.

Litoralgarve – Que outros eventos poderão ter lugar nesta região? O que sugere a este nível?

Elidérico Viegas – O Algarve carece, de facto, de um conjunto de eventos âncora, capazes de atrair fluxos turísticos importantes nos períodos de menor procura, de que a Fórmula 1 constitui um bom exemplo, quer a nível desportivo, quer de índole cultural, musical e outros.

Litoralgarve – Admite a realização de ‘reveillons’ no fim-de-ano, mesmo com restrições, ou é preferível não tomar iniciativas a esse nível para evitar ajuntamento de pessoas?

Elidérico Viegas – Desde que se respeitem as regras definidas pelas autoridades competentes, não vejo razão para que essas realizações não se realizem. Acresce que, já agora, no que aos hotéis e empreendimentos turísticos diz respeito, que as celebrações do réveillon não estão em causa e realizar-se-ão normalmente.

“PODERÃO   ENCERRAR   MAIS   DE   50   POR   CENTO    DAS   UNIDADES   HOTELEIRAS   E   EMPREENDIMENTOS   TURÍSTICOS   DURANTE   A   ÉPOCA   BAIXA”

Litoralgarve – Vão encerrar unidades hoteleiras e empreendimentos turísticos no Algarve durante a época baixa do turismo? Quando e quantos estarão nessa situação?

Elidérico Viegas – Cerca de 50 por cento das unidades hoteleiras e empreendimentos turísticos já encerravam durante a época baixa do turismo em anos anteriores, ou seja, entre os meses de Novembro e Março do ano seguinte. Penso que neste ano, este número poderá ser superior, na medida em que mais ou menos 20 por cento dos estabelecimentos se mantiveram encerrados mesmo durante a temporada alta.

Litoralgarve – Qual o impacto económico que a pandemia da Covid-19 já causou na região algarvia?  Quanto milhões de euros perderam os empresários da hotelaria e dos empreendimentos turísticos?

Elidérico Viegas – Se considerarmos que o alojamento classificado oficialmente gerou, em 2019, cerca de 1.250 milhões de euros, podemos perspetivar uma quebra na faturação na ordem dos 800 milhões de euros face ao período homólogo, podendo este valor ser superior.

Litoralgarve – E ao nível de postos de trabalho, houve despedimentos?

Elidérico Viegas  –  Os números oficiais do desemprego são elucidativos, sendo expectável que, atendendo à não existência de medidas de apoio, o desemprego cresça exponencialmente a partir do final do mês de Setembro e, sobretudo, a partir do mês de Outubro.

“A   PROCURA   DE   FÉRIAS   NESTA  REGIÃO, NESTE  ANO,   TEM-SE   RESUMIDO    PRINCIPALMENTE    AOS   TURISTAS    NACIONAIS”

Litoralgarve – Como tem estado a decorrer o mês de Agosto? Como estão a funcionar os hotéis e empreendimentos turísticos? De onde vieram os turistas?

Elidérico Viegas – A procura de férias na região, neste ano, tem-se resumido principalmente aos turistas nacionais. O comportamento do mercado interno tem sido verdadeiramente notável, já que, atendendo às circunstâncias que atravessamos, não baixou mais do que 10 por cento face ao ano anterior.

Litoralgarve – Tiveram de baixos os preços para aumentar a procura? Qual o impacto a esse nível?

Elidérico Viegas – Apesar de alguns ajustes em baixa nos preços praticados, a verdade é que não houve grandes reduções. Esta realidade resulta do facto da diminuição da procura residir em outros factos que não exclusivamente a relação oferta / procura.

José Manuel Oliveira

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