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COVID-19 – “ALGUNS PAÍSES JÁ ESTÃO A OPTAR POR FAZER TESTES À CHEGADA DOS TURISTAS E EVITARÍAMOS, ASSIM, A VINDA DE CASOS INFETADOS DE FORA”

Em entrevista ao Litoralgarve, no dia 10 de Junho, após uma visita do secretário de Estado José Apolinário, coordenador da execução de Declaração de Calamidade no Algarve, à praia do Porto de Mós, o presidente da Câmara Municipal de Lagos, Hugo Pereira, voltou a insistir em controlar,  pelo menos nos aeroportos, quem chega a Portugal, lançando esse desafio ao governo, e diz que “nem quero pensar” num eventual descalabro durante o Verão, devido à pandemia do novo coronavírus. “Já chegam os casos que temos cá”,  observou, apreensivo, o autarca, para quem este fim-de-semana prolongado, com dois feriados, pode atrair muita gente ao Algarve e com “toda esta movimentação virem pessoas infetadas”.  Apela, por isso, ao uso da máscara e ao cumprimento de outras regras de segurança, confia no relançamento da economia e acredita na ocupação turística até ao mês de Outubro.

Litoralgarve – Como encara esta época turística?

Hugo Pereira – Vamos ver… Vai começar mais tarde. Está a começar com um peso grande em todo o mundo e, em particular, no Algarve, onde o mês de Junho já era uma altura de muito movimento. Vê-se que as coisas estão a renascer, com esperança, sabendo-se que não vai ser o ano que esperávamos. Pensava-se que este pudesse vir a ser, provavelmente, um dos melhores anos turísticos de sempre para Portugal e, em especial, para a região e para Lagos. Mas, pronto, aconteceu-nos isto, reagimos, não baixamos os braços. Somos um povo resiliente, cumpridor e de descobridores.

Prejuízos? “Só para as contas do município, podemos estar a falar perto de 15 milhões de euros”

Litoralgarve – Qual é o prejuízo para o concelho de Lagos, nomeadamente ao nível do comércio, da restauração, da hotelaria e dos serviços, devido ao novo coronavírus Covid-19?

Hugo Pereira – Acredito que foi muito. São três meses de paragem, ainda por mais eram os três meses do início da época turística. Normalmente, as épocas começavam umas semanas antes da Páscoa. Em Março, Abril, dependendo sempre da data da Páscoa. Acredito que (os empresários) estão a perder umas centenas de milhares de euros cada um. Não tenho o valor total, mas acredito que este ano vai representar muitos milhões de não receita para Lagos. Só para as contas do município, podemos estar a falar perto de 15 milhões de euros entre investimento que estamos a fazer para combater o Covid, diminuição de impostos, devolução de taxas para ajudar a economia e com a possível perda de receita de alguns impostos como o IMT (Imposto Municipal sobre Transações Onerosas).

Litoralgarve – Tem manifestado preocupação sobre a falta de controlo sanitário nas fronteiras, onde, após a reabertura, não haverá quarentena para quem chegar a Portugal e, em particular, ao Algarve. O que poderá implicar essa situação?

Hugo Pereira – Tenho tentado levantar esse debate a nível da região e achava que, pelo menos, ao nível da fronteira aérea, que é a que mais gente traz para o país, fosse possível haver ali um controlo com testes à entrada. Penso que seria uma grande ajuda para evitar casos de contágio. Não se vai pedir a quem vem 15 dias de férias, para ficar 15 dias fechado num hotel. Alguns países já estão a optar por fazer testes à chegada dos turistas e evitaríamos, assim, a vinda de casos infetados vindos de fora. Mas, pronto, isso dependerá sempre do governo.

“Já chegam os casos que temos cá”

Litoralgarve – Receia um descalabro durante o Verão se isso não for feito?

Hugo Pereira – Não quero pensar. Obviamente, já chegam os casos que temos cá. E ao mesmo tempo, também queremos cá muita gente, que a vida continue, que se consiga dar à volta à situação e  o país só consegue com pessoas vindas de fora, com o turismo externo, apesar de neste ano o número ser muito menor. Com a quantidade de gente que vem todos os anos para Portugal, a probalidade de aumentar o número de infetados é grande. É óbvio que se toda a gente que vier, mantiver as condições sanitárias devidas ao nível do distanciamento, uso de máscaras e higienização das mãos, poderá ainda assim haver contágio, mas haverá uma diminuição desse foco de contágio porque as medidas estão a ser cumpridas.

Neste momento, tudo deverá ser posto em cima da mesa. E tudo o que for possível fazer para evitar aumentar o número de contaminados e infetados, é o ideal. Vamos ver.

Litoralagarve – Que indicações tem ao nível de reservas nos hotéis e unidades de alojamento local?

Hugo Pereira – Muitos começam a abrir agora, a partir da segunda quinzena de Junho. Os números dizem que o Algarve já está a começar a mexer, ao contrário de Lisboa –  onde há um número de infetados muito grande nos últimos tempos –  e do Porto, que são cidades maiores. O Algarve como conseguiu passar um bocadinho menos mal sobre esta situação, tenderá a ser um sítio com muito mais procura. O que se está a ver é, pontualmente, o início e com algumas marcações, mas ainda é muito prematuro dizer.

Litoralgarve – Espera o mês de Agosto cheio com portugueses?

Hugo Pereira – Desejo que assim seja, que o Agosto possa estar cheio de portugueses e não só com portugueses. E que possamos ter, pelo menos, dois, três meses, o Julho e Agosto e quiçá o Setembro. Acredito que se o Julho e o Agosto correrem muito bem quer em Portugal, quer no resto do mundo, a economia será retomada e que Setembro e Outubro também possam ser bons meses para passar férias e Portugal possa aproveitar porque temos um clima magnífico.

Bares e discotecas devem ter lugares sentados e em número limitado

Litoralgarve – Bares e discotecas devem estar abertos?

Hugo Pereira – Essa é uma longa discussão. Acredito que nos bares e nas discotecas que trabalham sem lugares sentados, ou seja com todos os pé, seja muito complicado o distanciamento.  Alguma coisa terá de ser feita porque é um sector também muito importante e que mexe com muitos postos de trabalho e com muitas empresas. E é impossível eles aguentarem muitos mais meses fechados. Acredito que podem ser criadas algumas medidas, eventualmente aqueles estabelecimentos que tenham condições para trabalhar com lugares sentados, obrigá-los a tal. E obrigá-los também a limitar o número de pessoas com base nos lugares sentados, e aí começarem gradualmente a trabalhar.

“O risco é quase igual” dançar numa discoteca ou num baile de um centro recreativo

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Litoralgarve – Com discotecas, música para dançar, isso é difícil…

Hugo Pereira – Pois… obviamente que isso quase que é o mesmo que fazer um baile num centro recreativo, num clube desportivo e cultural. O risco é quase igual. Não estamos a ver ser muito fácil de se fazer um baile para duzentas ou trezentas pessoas, como numa discoteca, com todas a se tocarem, sem distanciamento. Penso que, para já, é uma situação complicada. Mas vamos ver.

Antigo campo de futebol na Trindade, Estádio Municipal e recinto das feiras poderão ser utilizados para espetáculos com controlo das pessoas

Litoralgarve – O senhor já defendeu a realização de espetáculos em Lagos, com as pessoas a assistirem no interior das suas viaturas. Essa ideia mantém-se?

Hugo Pereira – Sim. Sim. Estamos a preparar a hipótese dos ‘drivings’ como espetáculos ao ar livre, com os distanciamentos de segurança necessários. Estamos, também, a estudar com alguns parceiros a hipótese de fazer espetáculos sem ser dentro de viaturas, mas com um controlo muito seletivo de entradas, com lugares sentados.

Litoralgarve  E em que locais?

Hugo Pereira – Neste momento, estamos a estudar várias hipóteses. Temos o antigo campo de futebol na Trindade (do Clube de Futebol Esperança de Lagos – n. d. r.), temos o recinto das feiras, como é conhecido lá em baixo (zona de São João – n. d. r.), temos o próprio Estádio Municipal. Estamos a ponderar a hipótese de fazer alguns espetáculos ao ar livre.

Litoralgarve – No mês de Agosto?

Hugo Pereira – Ainda não temos data certa, mas pode ser entre Julho e Agosto, com a possibilidade de ser em lugares sentados, em que as pessoas entram a uma hora marcada, para não ser dura a entrada com filas. E toda a gente tem, obrigatoriamente, de se sentar com os devidos distanciamentos.

Litoralgarve – E uso de máscaras…

Hugo – Sim, obrigatoriamente, o uso de máscaras. A exemplo do que é agora com o Mercado do Levante (junto ao Pavilhão Municipal e piscinas – n. d. r.), que apesar de ser um espaço ao ar livre, entendemos que é mais seguro para toda a gente, quer vendedores, quer compradores, ter o uso de máscara.

Quatro pessoas infetadas em Lagos já foram recuperadas e existem 14 sob vigilância pelas autoridades de saúde, o que está em contradição com os números divulgados pela Direção-Geral da Saúde

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Litoralgarve – Afinal, o concelho de Lagos tem quatro casos de Covid-19 já recuperados, ou existem cinco, como indica o boletim diário da Direção-Geral da Saúde?

Hugo Pereira  – Lagos, desde o princípio, teve até hoje só quatro casos, casos esses que foram, felizmente, rapidamente tratados, grande parte deles sem qualquer necessidade clínica. Trataram-se por si só quase. E só tivemos quatro. Quanto à Direção-Geral da Saúde, acredito que tem de se preocupar com tanto, tem de tratar, cruzar tanta informação, que pontualmente pode haver essa situação.

Litoralgarve – E há cinco pessoas em vigilância pelas autoridades de saúde?

Hugo Pereira – Não. Há mais. Há 14 pessoas em vigilância. Os dados que nós aceitamos como os mais corretos são aqueles que nos são enviados localmente pela nossa Delegada de Saúde. São coordenados a nível da região, são mais depurados, são mais próximos da realidade. Se formos à Direção-Geral  da Saúde ver os outros concelhos, pelo menos aqui na região, são poucos os casos também em que os números da região são iguais aos números da Direção-Geral da Saúde. Achamos que quatro ou cinco é pouco importante. Importante é pensarmos que o mal, ou que isto pode estar ali ao virar da esquina e temos, quando lá chegar, de ter as condições de segurança.

“Este é um fim-de-semana grande, muita gente com certeza vem para baixo e com toda esta movimentação podem vir pessoas infetadas”

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Litoralgarve – A situação está sob controlo em Lagos?

Hugo Pereira – À primeira vista, sim. Mas este é um fim-de-semana grande, muita gente com certeza vem para baixo e com toda esta movimentação podem vir pessoas infetadas.

Litoralgarve – Receia essa situação?

Hugo Pereira – É um mal com que temos de viver e daí a obrigação da utilização da máscara mesmo, inclusive, na entrada e na saída da praia e em todos os locais onde vamos e temos contacto com outras pessoas. O uso da máscara é meio caminho andado para evitar contágio. Não é cem por cento, mas é muito perto disso. Daí que a higienização, o uso da máscara e o distanciamento constituam meio caminho andado para podermos lidar em sítios com possíveis infetados.

1.200 camas de reserva em Zonas de Apoio à População para casos com Covid-19

Litoralgarve  – O Pavilhão Municipal de Lagos continua reservado como Zona de Apoio à População, para eventuais problemas relacionados com o novo coronavírus?

Hugo – Sim. Para já, continua, bem como os outros locais que temos neste momento. Temos, também, o Motel Âncora, a Pousada da Juventude, a Messe Militar e alguns espaços espalhados pelas outras zonas de freguesia do concelho.

Litoralgarve – Quantas camas existem no total?

Hugo Pereira – Temos à volta de 1.000 / 1.200 camas disponibilizadas. Por exemplo, no caso do Motel Âncora, como o proprietário quer reabri-lo durante o mês de Junho/Julho, obviamente que vamos libertá-lo. Queremos que encha com clientes e não como zona para infetados.

Autor: José Manuel Oliveira

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