LAGOS: UMA SEMANA NUMA CIDADE (QUASE) EM QUARENTENA

Ao longo de uma semana, o ‘Litoralgarve’ percorreu várias zonas de Lagos, onde observou uma cidade quase vazia nesta fase em que se encontra em vigor o Estado de Emergência Nacional imposto na sequência da pandemia provocada pelo novo coronavírus, Covid-19. Mesmo assim, por vezes surgem pequenas filas às portas das farmácias e de outros estabelecimentos. E no centro, indivíduos com aspeto estranho continuam a transmitir um sentimento de insegurança. 

23/03/2020 – Segunda-Feira

“Hoje é domingo?” – pergunta uma empregada da Tabacaria Garrett, em Lagos, a um cliente, após ele ter recebido o troco pela compra de um jornal. A senhora manifesta estranheza pelo facto de a maioria dos estabelecimentos estar encerrada e de o centro da cidade não ter qualquer movimento. O cliente explica-lhe o que se passa. Na altura, ainda não existiam restrições no acesso àquele estabelecimento comercial.

Já pelas 17h00, no supermercado Lidl, há a indicação de ‘stock’ limitado de várias espécies de peixe. “Alto, tem de respeitar a distância de dois metros!” – diz uma funcionária da caixa a um cliente, que se encontra na fila com mais duas pessoas. De resto, nota-se pouco movimento. 

24/03/2020 – Terça-feira

Por volta das 01h.40m. da madrugada, um carro da Polícia de Segurança Pública (PSP) de Lagos encontra-se parado à entrada do parque de estacionamento do Anel Verde, junto ao Parque da Cidade. Depois uma volta na zona, de resto habitual noutras noites, que serve, nomeadamente, para apurar que espaços estão degradados e recuperados, o repórter do ‘Litoralgarve’ dirige-se para outra área após ter visto o que pretendia. Pouco depois, o carro patrulha da PSP sai da entrada da porta do parque de estacionamento onde se encontrava, na Estrada da Ponta da Piedade, em direção à Rua da Gafaria. E passados poucos minutos, dois agentes da PSP atravessam uma área do parque, caminhando na minha direção. “Porquê fugiu da polícia?” – questiona um dos agentes. “Não fugi da polícia. Vi o que me interessava e retirei-me”- respondo. E exibi a minha carteira profissional de jornalista, acrescentando: “Este é, de resto, um dos percursos habituais todas as noites, que até serve para detetar ações de vandalismo em Lagos.”

“Sabe as limitações em curso?” – pergunta o agente. “Com certeza. Também sei que como jornalista posso circular por onde quiser, com as devidas cautelas. São, de resto, indicações dadas pelo Sindicato dos Jornalistas e pela Comissão da Carteira Profissional de Jornalista” – respondo.

“O mal é quando se misturam alhos com bugalhos”, diz o agente policial. “Faço, e continuarei a fazer, o meu trabalho. Estou a exercer a minha profissão” – responde o jornalista. Pouco depois, os agentes da PSP de Lagos retiraram-se do local e prossegui a minha caminhada. Por coincidência, nessa altura, ao contrário de outras noites, não havia viaturas, nomeadamente bicicletas, sem luzes ou a circular em contramão. E espaços degradados, além de outras ações de vandalismo no Parque da Cidade, como pude verificar, é o que não falta. A matéria irá ser incluída em próximas reportagens.

13h03m. – Padaria Central, situada na Rua 1º. de Maio, em Lagos. Só podem entrar dois clientes ao mesmo tempo. Mas na altura não há fila na rua. Num balcão à entrada, do lado direito, existe gel desinfetante. Fitas separam, numa distância de cerca de um a dois metros, os clientes dos dois balcões de atendimento onde estão as funcionárias. Mas para receber e pagar os produtos é preciso chegar até junto dos balcões.

25/03/2020 – Quarta-feira

14h.03m. – Num mini-mercado situado na Rua da Laranjeira, em Lagos, na altura não há fila no exterior. Uma fita separa o balcão de atendimento do cliente. Não se nota falta de produtos. À saída, já há duas pessoas a aguardar a vez de entrar no estabelecimento. O ambiente é calmo.  

Noutra zona da cidade, num dos polivalentes, conhecidos por ‘campinhos’ da Trindade, junto ao quartel dos Bombeiros Voluntários de Lagos, cinco jovens jogam criquete. Na descida em direção à Avenida dos Descobrimentos, nota-se pouco movimento. A Praia da Batata está vazia. E após vários dias aberta ao público mesmo sem celebrações, a Igreja de Santa Maria tem as portas fechadas. Ciclistas por cima dos passeios e noutras zonas proibidas é o que mais se vê. No supermercado Intermaché, na Avenida dos Descobrimentos, os clientes movimentam-se à-vontade, enquanto nos balcões e nas caixas o pessoal usa máscara.

16h50m. – Supermercado Pingo Doce, situado no sítio do Molião.

“Que idade tem?” – pergunta, à entrada, um funcionário de uma empresa de segurança. “Tenho 61 anos” – respondo. “Então, tem de ir para a bicha. A prioridade na entrada é a partir dos 75 anos” –  informa o funcionário, apontando para uma fila com meia dúzia de pessoas num dos parques de estacionamento. À medida que saem clientes do interior do supermercado, o funcionário faz sinal a quem está à frente na fila no exterior. Pelas 17h19m., chego a uma das caixas. Não se nota muito movimento.

17h49m . – Num mini-mercado situado na Rua de Levante (junto ao local onde se realiza aos sábados o mercado da ‘reforma agrária’, agora suspenso), um cliente procura sabão azul (anteriormente esgotado) e para surpresa sua até encontra vários pacotes. 

26/03/2020 – Quinta-feira

17h15m. – Dois ciclistas circulam em zonas pedonais, atravessando a Praça Gil Eannes, a Rua Lima Leitão e seguindo pela Rua Marreiros Neto. No interior da Farmácia Silva, um cliente pergunta a uma funcionária: “Tem álcool?” “Não. Talvez para a semana haja” –  responde a senhora.

Já na zona de São João, surge um homem, aparentando cerca de 50 anos, de bicicleta, por cima de passeios junto à rotunda de acesso à Ponta Dona Maria, atravessa uma passadeira para peões e continua a circular sobre o passeio. Uma pessoa até tem de se desviar para evitar atropelamento, enquanto o ciclista continua, indiferente à situação.

17H50m. – No supermercado Pingo Doce, no sítio do Molião, não há filas no exterior. Lá dentro, o movimento é normal.

27/03/2020 – Sexta-feira

13h33m. – A Câmara Municipal de Lagos anuncia, em nota de imprensa, que a partir desta data e “por tempo indeterminado” estão interditas à circulação mais áreas no concelho, uma das quais o passeio da frente ribeirinha da Avenida dos Descobrimentos (calçada do lado nascente junto à ribeira), além de praias e respetivas frentes de mar e parques de estacionamento. São identificados como “locais aprazíveis” e como tal “mais propícios à concentração de pessoas e suscetíveis de gerarem comportamentos contrários aos objetivos que levaram à imposição do Estado de Emergência Nacional”.

17h00m – Precisamente no passeio da zona ribeirinha na Avenida dos Descobrimentos, uma das zonas agora interditas à circulação, veem-se ciclistas e pessoas a passear e outras em corrida. Na Rua Vasco da Gama, vários ciclistas circula em contramão e depois seguem por cima dos passeios.  

28/03/2020 – Sábado

13h50m. – Várias pessoas estão em pequenas filas na Padaria Central e num mini-mercado. No centro e noutras ruas da cidade, há populares que conversam, mantendo a distância de segurança. Algumas pessoas entram e saem do edifício da Caixa Geral de Depósitos, onde efetuam operações nas caixas de multibanco. Na zona, indivíduos, alguns deles estrangeiros, com aspeto estranho (de resto uma situação comum ao longo dos dias) transmitem um sentimento de insegurança a quem circula para ir às compras, ou para outros afazeres. “A polícia tem andado por aí” – conta ao ‘Litoralgarve’ uma empregada comercial.

17h.00m. – Noutras zonas de Lagos, com a maioria dos estabelecimentos agora encerrados e sem movimento nas ruas e avenidas, mais parece ser domingo ou feriado.

29/03/2020 – Domingo

15h20m. – Na Farmácia Lacobrigense, o atendimento continua a ser efetuado no exterior, através do mecanismo utilizado quando as farmácias estão de serviço durante a noite. O movimento é fraco, não há filas na rua. No interior do estabelecimento, os funcionários usam máscaras. Numa varanda do primeiro andar do mesmo edifício, pode ler-se a mensagem «Vai ficar tudo bem» num papel com um desenho a cores, numa alusão ao combate à pandemia no novo coronavírus, Covid-19.

16h.00m. – Um casal e duas crianças, uma delas de bicicleta e com capacete, passeiam, descontraidamente, no passeio da frente ribeirinha na Avenida dos Descobrimentos, zona interdita à circulação de pessoas desde o dia 27/03/2020 por decisão da Câmara Municipal de Lagos. Pouco depois, atravessam a avenida e seguem para casa na Rua D. Vasco da Gama. De resto, há pouco movimento nas ruas.

17h05m. – No Supermercado Pingo Doce, situado no sítio do Molião, desta vez os clientes entram à vontade, sem qualquer limitação. Numa mesa, instalada entre duas portas, há gel desinfetante, mas poucas pessoas o utilizam. “Está fraco…” – reconhece um funcionário num dos balcões de atendimento, referindo-se à afluência de pessoas. Numa caixa, a funcionária aguarda, há algum tempo, por clientes. “Porque é que não usa máscara?” – pergunto. “A Direção-Geral de Saúde disse para não usar” – responde. No interior do estabelecimento, apenas dois ou três clientes usam máscara, enquanto percorrem os corredores à procura de produtos.

Pouco depois, de regresso ao centro da cidade, noto as irregularidades do dia-a-dia, com ciclistas a circular sobre passeios, em zonas pedonais e noutras áreas proibidas. Pelas 20h06m., dois ciclistas atravessam o Parque da Cidade e um deles prossegue em alta velocidade e sem luz por cima do passeio em direção a uma rotunda na Rua da Gafaria.

Autor: José Manuel Oliveira

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