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“BARES E DISCOTECAS A ENCERRAREM MAIS CEDO? ENTÃO, É PREFERIVEL FECHAREM AS PORTAS E TODA A GENTE FICAR DE QUARENTENA EM CASA”

Na Praia da Rocha, o proprietário de dois bares admite perda no negócio devido ao coronavírus Covid-19. “São riscos que a gente corre. A vida é um risco”, nota, ao «LITORALGARVE», Walter Gomes. “É preferível fechar tudo, incluindo as fronteiras, onde têm passado milhares de turistas sem qualquer controlo, do que estar a lidar com pessoas que não se sabe se estão infetadas”, alerta Diogo Azevedo.

“E agora, como é que eu pago 800 euros de renda mensal, os salários ao pessoal e a Segurança Social?…” – pergunta, indignado, em conversa com amigos no Café Brasil, em Portimão, o proprietário de um bar de ‘strip tease’, situado na zona da Praia da Rocha, perante as restrições impostas ao nível do horário de funcionamento dos estabelecimentos de diversão noturna, inicialmente até às 23.00 horas, a pedido da Câmara Municipal, e agora com encerramento obrigatório pelas 21.00 horas, por decisão do Governo, devido à expansão coronavírus Covid-19. Esse bar, que normalmente fecha às 06h00 da manhã, entretanto encerrou para férias até esta situação ficar resolvida.

“Existe algum controlo, com desinfetante e outras medidas higiénicas, por exemplo, nas caixas de multibanco? O dinheiro circula por muitas mãos, em qualquer estabelecimento, e ninguém sabe quem poderá infetado.”(Diogo Azevedo, trabalhador de um hipermercado)

 Diogo Azevedo, de 34 anos, que trabalha no hipermercado da cadeia Auchan, em Portimão, é de opinião de que “devia fechar tudo, com o risco de parar a economia neste concelho, as pessoas ficarem em casa e serem feitas análises” à população para despistagem do novo vírus. “Bares e discotecas a encerrarem mais cedo? Então, é preferível fecharem as portas e toda a gente ficar de quarentena em casa”, diz, ao «LITORALGARVE», Diogo Azevedo, não escondendo a sua revolta pelo que se está a passar no país e, particularmente, em Portimão.

“Existe algum controlo, com desinfetante e outras medidas higiénicas, por exemplo, nas caixas de multibanco? O dinheiro circula por muitas mãos, em qualquer estabelecimento, e ninguém sabe quem poderá estar infetado. Alguém controla essa situação?” – interroga Diogo Azevedo, para quem o futuro passa por fazer pagamentos através de cartões e transferência bancárias, e as medidas restritivas agora impostas no acesso aos centros comerciais, supermercados e a outros estabelecimentos não resolvem o problema.

“É fechar tudo! Os restaurantes, pastelarias e cafés devem ter as mesas separadas numa distância de um a dois metros? É preferível fechar tudo, incluindo as fronteiras, onde têm passado milhares de turistas sem qualquer controlo, do que estar a lidar com pessoas que não se sabe se estão infetadas”, reforça aquele cidadão residente em Portimão.

“Reduzir a distância entre as mesas no interior dos restaurantes e nas esplanadas? Não concordo.”(Carlos Vitorino, funcionário do Café Brasil, em Portimão)

Enquanto vai servindo os clientes na esplanada, Carlos Vitorino, funcionário do Café Brasil, em Portimão, garante à nossa reportagem que “não é possível” neste estabelecimento de restauração implementar a distância de segurança de um a dois metros entre as mesas, como recomenda a Câmara Municipal. “Reduzir a distância entre as mesas no interior dos restaurantes e nas esplanadas? Não concordo.” – confessa Carlos Vitorino, que, no entanto, congratula-se pelo facto de a presidente Isilda Gomes ter anunciado a isenção do pagamento da taxa às esplanadas durante o período vigente destas medidas.

“Há dias, vi praias a abarrotar de gente. É uma vergonha, isto é que ninguém controla! E as fronteiras? E os navios-cruzeiros que chegam ao nosso país, com milhares de turistas. Toda a gente tem entrado à vontade em Portugal, incluindo quem vem de Itália, um dos países da Europa com mais infetados com o coronavírus”, lamenta Carlos Vitorino.

 “Há dias, vi duas senhoras no Continente a discutirem e quase se agrediram por causa de rolos e rolos de papel higiénico. Está tudo louco!”(Luís Filipe, reformado)

Já nos hipermercados em Portimão tem sido intensa a afluência de pessoas para a compra de produtos alimentares, garrafões de água, papel higiénico, lixívia, sabão azul e gel desinfetante, entre outros artigos, o que leva muitas vezes a esgotar os ‘stocks’. “Há dias, vi duas senhoras no Continente a discutirem e quase se agrediram por causa de rolos e rolos de papel higiénico. Também num outro supermercado, duas pessoas entraram em discussão devido ao papel higiénico, porque uma tinha mais rolos do que a outra. E há farmácias com filas à porta, que chegam a atingir 30 pessoas, nas ruas de Portimão. Até parece a corrida à sopa dos pobres. Está tudo louco!” – conta, ao «LITORALGARVE», Luís Filipe, de 65 anos, reformado, para quem “os supermercados e a indústria farmacêutica é que ganham com isto.”

   E acrescenta, em tom crítico: “Em 2015, ninguém andou preocupado, por exemplo, quando houve o «vírus do Nilo», no Algarve, com um mosquito a atacar as pessoas. Agora, é que toda a gente anda em pânico. A classe política é muito culpada por tudo o que está a acontecer, ao não controlar, na devida altura, a situação. Depois, querem obrigar as pessoas a estar de quarentena em casa. Está tudo maluco, ou quê? Enquanto os bares fecham à noite no concelho de Portimão, há dias vi em Albufeira estabelecimentos de diversão repletos de gente. A malta nova quer é copos e o resto é conversa.”

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Um outro popular, que pede o anonimato, entra conversa: “o problema do coronavírus Covid-19 em Portimão começou com uma estudante que foi passar as férias de Carnaval a Itália, tendo obrigado a fechar duas escolas, com dois professores e dois alunos contaminados. Então, a jovem não sabia dos problemas em Itália? Porque é que foi para lá? Depois, fecha tudo. E ninguém é responsabilizado?”

Há máscaras de proteção, cujo preço é 1,5 euros, a serem vendidas por sete euros

 Já uma funcionária de um hotel na Praia da Rocha, destaca: “Há cidadãos italianos que fogem do seu país, vão para Inglaterra, onde apanham para vir para passar férias ao Algarve. E ninguém os controla na fronteira, como eles próprios dizem.”

Entretanto, segurou apurou o «LITORALGARVE», várias imigrantes do leste europeu, que trabalhavam em Portimão, regressaram aos seus países devido a esta situação. “O Casino da Praia da Rocha fechou temporariamente, o que leva muita gente a entrar em esquemas clandestinos relacionados com o jogo”, alerta outro popular. E até há relatos de casos sobre máscaras de proteção, cujo preço é 1,50 euros, a serem vendidas por sete euros.   

“A gente também tem de saber perder, não é só ganharmos”(Walter Gomes, proprietário de dos bares na Praia da Rocha)

Na Praia da Rocha, Walter Gomes, proprietário do «On the Rocks Bar» e do bar «Ireland’s», diz, ao «LITORALGARVE», que vai cumprir o que a presidente da Câmara Municipal de Portimão pediu, admitindo que esta nova situação da redução do horário “afeta um bocado” o seu negócio. “A gente também tem de saber perder, não é só ganharmos”, ressalvou o empresário. “Isto pode afetar o negócio dos estabelecimentos de diversão noturna. São riscos que a gente corre. A vida é um risco”, reconhece Walter Gomes.

“Não estou receoso. Penso que mais um mês, mês e meio, isto irá parar devido ao calor e a situação vai equilibrar-se”

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Evitar aglomerações de pessoas no mesmo espaço, mesas de estabelecimentos da restauração, no interior e nas esplanadas, separadas umas das outras, com uma distância de um a dois metros, são algumas das medidas da autarquia. “Nada é obrigado, são recomendações e bem feitas. E vou tentar cumprir ao máximo possível, estou aqui para colaborar”, garante aquele  empresário, considerando que “vêm no tempo certo, numa altura em que em Portimão começaram a surgir pessoas com o coronavírus.” “Todos nós devemos colaborar”, reforça.

Em face desta pandemia, como perspetiva a Páscoa, período habitual de grande afluência de turistas no Algarve, e o Verão? “Não estou receoso. Penso que mais um mês, mês e meio, isto irá parar devido ao calor e a situação vai equilibrar-se”, admite Valter Gomes, referindo-se à expansão do coronavírus Covid-19 Contudo, antecipa, “penso que a Páscoa não vai ser boa” ao nível do turismo no Algarve e, no concelho de Portimão, em particular, “porque já houve cancelamentos” de reservas, bem como de eventos. “Em primeiro lugar, está a saúde de todos nós. E depois, logo se verá”, sublinha este empresário da Praia Rocha, acrescentando que os seus estabelecimentos “têm gel desinfetante e até sabão azul e branco” nas casas de banho.

“Trabalho, sobretudo, com ingleses, escoceses, irlandeses, turistas do País de Gales, e todos eles mostram-se tranquilos. Dizem que está tudo bem e não têm medo.”(Walter Gomes, proprietário de dois bares na Praia da Rocha)

As noites na Praia da Rocha até “têm estado mais ou menos” em termos de afluência de visitantes. “Estão normais, nada de alarmante”, afirma Walter Gomes, tentando desdramatizar a situação. Mas, assume, “estou apreensivo.” Se outros bares não cumprirem o horário de encerramento, é um cenário que não o preocupa. “Concorrência desleal? Não quero saber.” E em relação à forma como os turistas reagem, o empresário assegura que “estão tranquilos.” “Trabalho, sobretudo, com ingleses, escoceses, irlandeses, turistas do País de Gales, e todos eles mostram-se tranquilos. Dizem que está tudo bem e não têm medo.”

 Sobre o coronavírus Covid-19, Walter Gomes também confessa: “estou apreensivo. Mas, pronto, isto é como tudo…” E rejeita a ideia de ir com mais frequência aos supermercados para garantir o abastecimento de produtos antes que se esgotem. “Não, não. Vai ser o normal”, garante. “Esta situação vai passar”, insiste, num tom procurando transparecer otimismo.

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Não pensa fazer qualquer teste de despistagem do coronavírus, nem ficar em casa mais tempo como medida de precaução. Nem de quarentena. “Não. Vou fazer a minha vida de forma normal e tranquila”, afiança Walter Gomes.

 “Vai ser péssimo para os empresários, para os empregados, vai ser péssimo para toda a gente”  (Nuno Ribeiro, segurança)

Também Nuno Ribeiro, que trabalha como segurança na Praia da Rocha e em empresas privadas no concelho de Portimão, considera “corretas” as recomendações da Câmara Municipal, porque, adianta, “isto é uma pandemia e alastra muito rapidamente e as pessoas têm de ter cuidado durante um ´tempínho´ de estar confinadas para o vírus não se propagar ainda mais.”

Esta situação “afeta tudo, a economia toda”, sublinha Nuno Ribeiro. Por exemplo, em relação ao encerramento dos bares e de outros estabelecimentos de diversão noturna, agora às 21h00, “todos têm de cumprir, porque isto é um problema mundial. Não é brincadeira.” “Vai ser péssimo para os empresários, para os empregados, vai ser péssimo para toda a gente”, lamenta Nuno Ribeiro. Porém, nota, o Governo “pediu para não haver grandes multidões e há dias as praias estavam cheias de gente.” “As pessoas têm de se consciencializar e pensar que isto é grave. A Praia da Rocha, por exemplo, devia fechar. Devia fechar tudo! Não pode estar muita gente nos mesmos sítios, porque um pode propagar o vírus a outro sem saber.” E já tomou medidas? “Estou a evitar sair de casa”, responde Nuno Ribeiro.

 “As fronteiras já deviam ter sido encerradas, logo no início desta situação”

Restaurantes com as mesas afastadas umas das outras, em um ou a dois metros de distância, “ao certo e ao pormenor não acredito que seja possível, mas que as pessoas têm de tentar, têm”, observa aquele profissional de segurança. As noites na Praia da Rocha têm estado “más” ao nível de movimento e as perspetivas para a Páscoa “são péssimas” em face do coronavírus Covid-19.    Contudo, “quero acreditar que não” provocará desemprego no sector da restauração. “É uma situação temporária, é pouco tempo Estou receoso por nós todos”, adianta Nuno Ribeiro, que, no dia-a-dia, nota que os turistas, e as pessoas, em geral, “têm medo.” “Acho que as fronteiras já deviam ter sido encerradas, logo no início” desta situação.

“Nesta altura do ano, talvez não seja assim uma grande perda (Bruno Rosário, funcionário de um bar)

Na Avenida Tomás Cabreira, na Praia da Rocha, Bruno Rosário, funcionário do bar «Boogie»/ Karaoke & sports», afirma ao nosso Jornal: “O horário de funcionamento é até às 04h00 da madrugada, mas no Inverno acabamos por fechar mais cedo porque não há movimento. Agora, vamos cumprir o que foi recomendado.” Admite que, “nesta altura do ano, talvez não seja assim uma grande perda, até porque nem sequer há pessoas na rua e temos fechado sempre cedo, por volta das 22h30/23h00.”

Se o impacto provocado pelo coronavírus Covid-19 continuar, “a altura da Páscoa será má, muitos voos foram cancelados e esta situação, como é natural, está a afetar o turismo na Praia da Rocha, o que já se nota bastante”, alerta Bruno Rosário. Todavia, “acho que não vai haver desemprego” neste sector e é de opinião que a melhor forma de controlar o vírus “é ficar em casa.” “A quarentena deve ser cumprida, até porque é a melhor maneira de não alastrar ainda mais” esta pandemia, defende. E lembra que, curiosamente, após o encerramento de duas escolas em Portimão, devido ao Covid-12, por exemplo, “no sábado (dia 07 de Março) tivemos bastantes jovens.” “Acho que as pessoas não estão conscientes para esta situação. Não têm consciência do que podem estar a causar.” Mas entende “que estão a ser tomadas as medidas necessárias” por parte da Câmara Municipal de Portimão e pelas autoridades a nível nacional. “Depois, só cabe na consciência de cada um, segui-las ou não.”

“É melhor a Praia da Rocha ficar agora deserta à noite durante pouco tempo, do que por muito tempo. Mas se o fecho de estabelecimentos é para uns, deve ser para todos”, alerta Bruno Rosário, que vê diariamente “as pessoas a evitarem muito os cumprimentos.” “Acho isso engraçado”, conclui o funcionário daquele bar. 

Reportagem de José Manuel Oliveira

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