Entrevistas

“Mais de 80 por cento dos hotéis e empreendimentos turísticos do Algarve registam cancelamentos para os próximos meses”

Em entrevista ao «Litoralgarve», o presidente da Direção da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA), Elidérico Viegas, diz que a “Páscoa está perdida” e muitas unidades já não vão reabrir nesta altura, após terem encerrado na época baixa. “Os prejuízos ascendem a muitos milhões de euros”, alerta este responsável, para quem “o governo dá com uma mão e tira com a outra”, lamentando o facto de não existirem incentivos fiscais às empresas e os apoios financeiros anunciados terem de ser liquidados mais tarde e com juros.

Litoralgarve – Quantas reservas já foram canceladas nos hotéis e empreendimentos turísticos do Algarve e quantos milhões de euros perderam os empresários? Qual o montante que já tiveram devolver aos operadores turísticos?

Elidérico Viegas – Mais de 80 por cento dos hotéis e empreendimentos turísticos registam cancelamentos para os próximos meses. Mais de 55 por cento destes solicitaram reembolsos dos pagamentos já efetuados. Em bom rigor, não é possível determinar os montantes dos prejuízos em causa, mas ascendem a muitos milhões de euros. Refira-se que o alojamento classificado oficialmente gera uma faturação anual de  cerca de 1.200 milhões de euros.

 “Prejuízos correm por conta e risco dos empresários”

Litoralgarve – Com a expansão do vírus, restrições nas praias, bares a encerrarem às 21h00 e outros condicionalismos em espaços públicos e privados,entre outras restrições,  e o governo a admitir que o surto atingirá o pico no mês de Maio, como encara as férias do Páscoa e o próximo Verão?  Vai ser um ano perdido para o turismo no Algarve? Quem paga todos estes prejuízos?  

Elidérico Viegas – Infelizmente, como sempre acontece nestas situações, os prejuízos correm por conta e risco dos empresários. A Páscoa está perdida. Neste momento, cerca de 80 por cento dos hotéis registam um abrandamento acentuado nas vendas para a época turística, cuja média atinge os 30 por cento. Porém, existem unidades hoteleiras com cancelamentos da ordem dos 80 por cento.

É preciso termos bem presente que as linhas de crédito disponibilizadas pelo governo não são subsídios a fundo perdido, mas sim empréstimos que terão de ser pagos mais tarde, e com juros. Nesta matéria, o governo dá com uma mão e tira com a outra. O facto de os trabalhadores com filhos até 12 anos puderem ficar em casa, sendo o salário suportado em partes iguais pela Segurança Social e pelas Entidades Empregadoras não tem qualquer sentido, tanto mais que as empresas e os trabalhadores terão que pagar ainda os respectivos impostos, (Segurança Social e IRS), contrariamente ao que se verifica  em outros países, cujos governos suportam a totalidade dos vencimentos dos trabalhadores, como é, alias, da mais elementar regra de justiça.

Por outro lado, o governo adiou o pagamento de alguns impostos, mas não criou incentivos fiscais às empresas.

Litoralgarve – Há turistas a entrar em Portugal sem qualquer controlo. O país devia encerrar as suas fronteiras?

Elidérico Viegas – Não sei dizer, mas é verdade que o problema tem vindo em crescendo, pelo que todos os cenários estão em cima da mesa e não devem ser ignorados. Cabe ao governo avaliar em cada momento as ações a tomar.

 Governo está a “deitar areia para os olhos dos algarvios” nos hospitais da região

Litoralgarve – Como avalia a ação do governo no Algarve ao nível da saúde, agora com os hospitais de Faro e Portimão ativados para receber doentes com coronavirus? São suficientes?

Elidérico Viegas – Nesta, como em outras matérias, no que ao Algarve diz respeito, o governo anda sempre atrás dos acontecimentos. Qualquer algarvio sabe bem que os hospitais da região não têm condições para responder eficazmente aos problemas de saúde regionais quanto mais a um surto desta natureza. Tudo o mais é deitar areia para os olhos dos algarvios.

Litoralgarve – O governo despertou tarde para este problema? 

Elidérico Viegas – Penso que, em termos gerais, o governo vem fazendo aquilo que pode e sabe. Trata-se de um processo evolutivo em que o que hoje é verdade, amanhã é mentira, havendo que ajustar as medidas e as ações à expansão e impacto do próprio vírus.

«Manual de Procedimentos» da Direção Geral de Saúde para atuar perante casos suspeitos de coronavírus, embora precioso, chegou “tarde” às unidades hoteleiras e de alojamento turístico

Litoralgarve – Como estão os hotéis e os empreendimentos turísticos a lidar com este surto? Que indicações foram dadas pelo governo? 

Elidérico Viegas – Os hotéis e os empreendimentos turísticos tentam implementar internamente o “Manual de Procedimentos” emanado pela Direção Geral de Saúde. Embora tarde, este manual constitui, na atual conjuntura, o bem mais precioso no que se refere à forma de atuar e agir em casos suspeitos de coronavírus nas nossas unidades hoteleiras e de alojamento.

  Muitos hotéis que encerraram na época baixa já decidiram não reabrir na Páscoa como era habitual e outros estão a considerar fazê-lo, já para não falar de alguns que estando em funcionamento decidiram encerrar por iniciativa própria. É verdade que este número não é muito elevado, mas também é verdade que esta realidade já se verifica presentemente.

    “Hipótese de proceder a rescisões contratuais com os trabalhadores”

Litoralgarve – O coronavírus poderá provocar desemprego no Algarve?

Elidérico Viegas – Neste contexto, as empresas não só vão atrasar as contratações sazonais, como terão que considerar a hipótese de proceder a rescisões contratuais com os seus trabalhadores, caso a atividade entre em estagnação e/ou recessão como parece ser o caso.

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