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ENTREVISTA A ELIDÉRICO VIEGAS, PRESIDENTE DA DIREÇÃO DA ASSOCIAÇÃO DOS HOTÉIS E EMPREENDIMENTOS TURÍSTICOS DO ALGARVE: “ESTIMA-SE QUE AS PERDAS ASCENDAM A 400 MILHÕES DE EUROS” DEVIDO À PANDEMIA DA COVID-19

“Os negócios turísticos, fortemente dependentes do  exterior, estão reduzidos a zero” e “as empresas estão desesperadas para reiniciar as suas operações, embora conscientes das condicionantes que terão de enfrentar nos próximos tempos”. O alerta é do presidente da Direção da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve, Elidérico Viegas, que, em entrevista ao Litoralgarve, perspetiva a reabertura de muitas unidades nos meses de Junho e Julho, destaca a prevista afluência de muitos portugueses a esta região e o contributo nesse sentido para suprir a falta de estrangeiros, e insiste, junto do governo, na necessidade de “abater as despesas das férias no IRS, enquanto estímulo e promoção do mercado interno.”

Litoralgarve – Quantos hotéis e empreendimentos turísticos no Algarve estão encerrados devido à Covid-19? E quando irão reabrir?

Elidérico Viegas – Os hotéis e empreendimentos turísticos do Algarve encontram-se, total ou parcialmente, encerrados e sem hóspedes. As fronteiras aéreas, marítimas e terrestres estão também encerradas e, por conseguinte, os negócios turísticos, fortemente dependentes do exterior, estão reduzidos a zero. As perspetivas são para que muitos empreendimentos reabram ao longo dos meses de Junho e Julho.

Por outro lado, já o sabemos, outros permanecerão encerrados até ao início da época turística do próximo ano.

“Desemprego atingiu cerca de 2.000 trabalhadores e 4.000 sazonais não foram contratados para a época turística”

Litoralgarve – Como tem sido este período de paragem forçada com a quarentena? Tem havido despedimentos, recurso ao ‘lay-off’?

Elidérico Viegas – As empresas hoteleiras e turísticas recorreram, na sua generalidade, ao chamado lay-off simplificado. É verdade que o desemprego aumentou 41,4% em Março (cerca de 2 mil trabalhadores), e que mais 4 mil sazonais não foram contratados para a época turística. Os despedimentos incidiram sobretudo na restauração e outros estabelecimentos similares e menos nos hotéis e empreendimentos.

Litoralgarve – Qual o apoio do governo nesta fase? O que é necessário?’

Elidérico Viegas – Os apoios do governo são os mesmos que foram aprovados para o País: Lay-Off simplificado; Linhas de Crédito; Moratórias de empréstimos; Diferimento no Pagamento de alguns Impostos…

Atendendo à especificidade da economia do Algarve no contexto nacional, fortemente dependente da atividade turística, justifica-se que estas medidas sejam orientadas e ajustadas à especificidade da economia regional, uma vez que as medidas anunciadas privilegiam o curto prazo e o impacto e dimensão da crise são mais profundos no Algarve.

Litoralgarve – Quantos milhões de euros já perderam os hotéis e empreendimentos turísticos do Algarve?

Elidérico Viegas – O alojamento classificado oficialmente gera 1,25 milhões de euros em cada ano. Os meses de Junho a Outubro geram 70% da receita total, enquanto os meses da temporada baixa não vão além dos 10%. Assim sendo, estima-se que as perdas ascendam à volta dos 350 a 400 milhões de euros.

Dotar o Algarve de um Manual de Boas Práticas para induzir confiança nos turistas com melhoria de segurança sanitária

Litoralgarve – Como irão funcionar os hotéis e empreendimentos turísticos? Os funcionários usarão máscaras, viseiras, luvas? E aos clientes o que será exigido? Que restrições serão impostas?

Elidérico Viegas – A generalidade da oferta turística, nomeadamente os hotéis e os empreendimentos turísticos, já está a proceder a alterações dos seus Planos de Contingência, visando ajustá-los e adaptá-los às novas realidades decorrentes do Covid-19. No entanto, e apesar de todos estarmos empenhados e comprometidos nesse objetivo, aguardam-se orientações das entidades competentes nesta matéria. O que mais sobressai é a necessidade de dotarmos o Algarve de um Manual de Boas Práticas de forma a induzir confiança nos consumidores de férias, através da melhoria dos parâmetros de segurança sanitária.

Litoralgarve – Haverá limite na capacidade de cada unidade hoteleira e empreendimento turístico? E nos bares, discotecas e nos restaurantes? E nas piscinas?

Elidérico Viegas – Penso que é prematuro avançar, pelo menos para já, com cenários que antecipamos, mas que ainda não se encontram devidamente consensualizados ao nível das diversas entidades envolvidas, nomeadamente na área da saúde.

Já existem reservas em hotéis e empreendimentos turísticos e a tendência é para o aumento da procura por parte de portugueses

Litoralgarve – Como perspetiva a próxima época turística? Há reservas? As restrições, com o afastamento social, poderão afastar turistas?

Elidérico Viegas – Existem reservas e, segundo tudo indica, logo que os estabelecimentos reabram a tendência é para um aumento da procura, especialmente por parte do mercado interno que, como é sabido, é o mais importante na época alta do turismo.

Os mercados externos estão muito dependentes da evolução do transporte aéreo. Sabe-se que algumas companhias aéreas já divulgaram que retomarão os voos a partir do final do mês de Junho ou princípios de Julho, embora de forma gradual. Neste sentido, o turismo externo nos próximos meses será residual.

Abater as despesas das férias no IRS como estímulo e promoção do mercado nacional

Litoralgarve – O primeiro-ministro, António Costa, tem apelado aos portugueses para passarem férias no país. O Algarve pode ser beneficiado?

Elidérico Viegas – Penso que sim. O mercado interno pode contribuir, decisivamente, para esbater os efeitos negativos da falta de procura externa. É por estes motivos que vimos defendendo a necessidade de abater as despesas das férias no IRS, enquanto estímulo e promoção do mercado interno.

Litoralgarve – Como encara o período a seguir ao fim do estado de emergência nacional? O que é preciso fazer para iniciar a retoma económica e defender a saúde?

Elidérico Viegas – É cada vez mais consensual que a economia tem de ser retomada no mais curto espaço de tempo. Porém, sem pessoas não há economia, pelo que importa acautelar as medidas preventivas e de contenção da doença. As empresas estão desesperadas, como se calcula, para reiniciar as suas operações, embora conscientes das condicionantes que terão de enfrentar nos tempos mais próximos.

“O civismo demonstrado até agora pelo povo português, deixa antever que as restrições serão cumpridas na generalidade”

Litoralgarve – Concorda com a proibição de circulação entre concelhos no próximo fim-de-semana, prolongado, devido ao feriado do 1º. de Maio?

Elidérico Viegas – O País foi capaz de mitigar a doença e, no caso do Algarve, controlar a propagação do vírus. Isso deveu-se aos confinamentos e às restrições que foram implementados. Contudo, manda o bom senso, que importa conciliar as medidas de proteção com o desenvolvimento económico. É nesse equilíbrio que devemos encarar o regresso à normalidade económica e social.

Litoralgarve – Como é possível, nos próximos tempos, controlar pessoas para manterem distância social nas praias, nos hotéis, restaurantes e noutros espaços públicos?

Elidérico Viegas – O civismo demonstrado até agora pelo povo português, deixa antever que as restrições serão cumpridas na generalidade, apesar de haver sempre quem não cumpra. Nesses casos, os responsáveis pelo controlo e fiscalização devem atuar em conformidade. Uns quantos não podem sobrepor-se aos restantes.

Autor: José Manuel Oliveira

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