Entrevistas

ANTÓNIO PINA, PRESIDENTE DA AMAL, AO ‘LITORALGARVE’ : “AUTARQUIAS TENTARÃO MANTER O MESMO PLANO DE INVESTIMENTOS ATÉ PORQUE SÃO IMPORTANTES PARA A RETOMA ECONÓMICA”

“Agora, também se torna cada vez mais evidente que aquilo que são as receitas das autarquias vão diminuir, desde logo o IMT, dada a paragem económica”, perspetiva António Pina, presidente da Câmara Municipal de Olhão e da Comunidade Intermunicipal do Algarve / AMAL, associação que junta os 16 municípios da região. Em declarações ao ‘Litoralgarve’, e numa altura em que aguarda para “ver como será a retoma” depois do fim do estado de emergência nacional devido à pandemia da Covid-19, destaca o “apoio social” a famílias carenciadas devido à quarentena como a grande preocupação dos autarcas e diz que “não é possível ainda prever” o que poderá ser o Verão no Algarve.

Litoralgarve – Qual o impacto económico que o novo coronavírus, Covid-19, poderá provocar nas autarquias e nos sectores económico e social do Algarve?

António Pina – A minha expectativa é má. Agora, ninguém consegue ainda medir a dimensão desta fase. Todos nós sabemos que será grande. Ainda não sabemos qual a sua dimensão, porque mesmo que o período de emergência nacional se conclua até ao final do mês de Maio, os constrangimentos nas movimentações e nas movimentações económicas vão ainda manter-se. Portanto, ainda não sabemos medir exatamente quais são as consequências.

Litoralgarve – Oito mil milhões de euros por ano foi o valor apontado recentemente como sendo a soma entre aquilo que gere o turismo e a restante economia no Algarve. Admite prejuízos nesse montante?

António Pina – Ainda não estamos a tempo de começar a avançar com números. Será grande, de certeza, infelizmente.

António Pina

“Não é possível ainda prever o que será o Junho, o Julho ou o Agosto”

Litoralgarve – Quando é que as pessoas, no Algarve, poderão começar a ter uma vida normal, ir à praia, conviver, assistir a espetáculos e tudo o mais?

António Pina – Só talvez dentro de quinze dias, período durante o qual é importante manter este esforço grande, poderemos ter uma perceção do que é que se pode ir abrir. Mas estou convicto de que pelo menos durante o mês de Maio essa abertura não será total. Será, ainda, condicionada. Não é possível ainda prever o que será o Junho, o Julho ou o Agosto.

Litoralgarve – O Festival do Marisco, em Olhão, a FATACIL, em Lagoa, o Festival da Sardinha, em Portimão, a Feira Medieval de Silves, os Dias Medievais em Castro Marim, entre muitos outros eventos que fazem parte do cartaz turístico do Algarve ao longo do Verão, poderão ficar comprometidos em 2020?

António Pina – Como lhe disse, ainda é prematuro tirar conclusões.

“Recomendo tendencialmente também o uso da máscara”

Litoralgarve – No futuro, as pessoas poderão cumprimentar-se? Beijos e abraços? Vão mesmo acabar, ou voltaremos à vida normal gradualmente?

António Pina – É evidente que, enquanto não houver uma vacina, ou pelo menos um medicamento que seja comprovadamente eficaz no tratamento, essa nossa cordialidade será ainda difícil de retomar na íntegra.

Litoralgarve – O que recomenda às pessoas? Cumprimentos à distância?

António Pina – Recomendo aquilo que tem sido recomendado até agora. É o afastamento social e tendencialmente também o uso da máscara.

“As receitas das autarquias vão diminuir, desde logo o IMT, dada esta paragem económica”

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Litoralgarve – As câmaras municipais do Algarve vão ficar com muitas obras, muitos projetos adiados até final deste mandato, em 2021, devido à situação provocada pela pandemia?

António Pina – Certamente que as autarquias tentarão manter o mesmo plano de investimentos. Até porque esses investimentos são importantes para a retoma económica. Agora, também se torna  cada vez mais evidente que aquilo que são as receitas das autarquias vão diminuir, desde logo o IMT (Imposto Municipal sobre as Transmissões Onerosas de Imóveis), dada esta paragem económica. Vamos ver como será a retoma. Isto, para além do investimento adicional que teremos todos de fazer no apoio social no próximo ano.

Litoralgarve – Quanto poderá o Algarve necessitar para se reerguer e concretizar obras planeadas até ao final deste mandato autárquico, em 2021?

António Pina – Ainda não estamos em tempo de avançar com números. Em primeiro lugar, há que terminar o estado de emergência e voltar gradualmente à vida normal. E só depois, poderemos deitar contas à vida.

Ficheiro:Mercado de Olhao.JPG – Wikipédia, a enciclopédia livre

“Sabemos que as pessoas por vezes se envergonham de pedir ajuda e tentamos chegar até elas de forma discreta, muito discreta”

Litoralgarve – Que preocupações lhe têm manifestado os seus colegas, autarcas do Algarve?

António Pina – As principais preocupações que temos nesta fase, neste último mês e meio, dois meses, foram colaborar com os nossos funcionários, com os nossos colaboradores, com a população, em geral, para potenciar ao máximo este afastamento social, esta contenção. Preocupa-nos o apoio social. Temos estado todos no máximo alerta para perceber que às vezes, até, algumas necessidades são escondidas, mas tentamos descobri-las e chegar até elas.

Litoralgarve – Como, por exemplo? O que se está a esconder?

António Pina – Não é o que se está a esconder. Sabemos que as pessoas por vezes se envergonham de pedir ajuda e tentamos chegar até elas de forma discreta, muito discreta.

“Algumas centenas” de pedidos de apoio alimentar têm chegado às autarquias no Algarve

Litoralgarve – Há fome no Algarve?

António Pina – Há mais alguns pedidos do que tínhamos.

Litoralgarve – Pode quantificar? São dezenas, centenas?

António Pina – São algumas centenas, sim.

Litoralgarve – Mais de meio milhar ?

António Pina – Não. Não chega a meio milhar. São algumas centenas, nesta fase.

Litoralgarve – Há concelhos com mais problemas? Quais são?

António Pina – É transversal. Só mais tarde é que se conseguirá medir qual o impacto desta paragem no turismo.

Praia da Fuseta Ria (Praia dos Tesos), Olhão

Litoralgarve – Três concelhos do Algarve – Alcoutim, Vila do Bispo e Aljezur continuam sem registar casos do novo coronavírus, Covid-19. O que significa para si?

António Pina – Satisfação por não haver nesses concelhos e uma palavra de apreço a todos os que têm trabalhado. E também a esses autarcas que têm certamente mérito nessa situação.

Litoralgarve – E como encara o facto de o concelho de Albufeira ser onde se regista maior número de casos – mais de 60 –  ao nível do Algarve?

António Pina – Entende-se até com alguma normalidade. Porque vejamos, esta pandemia foi trazida por quem veio de fora. Resulta dessa situação.

Autor: José Manuel Oliveira

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