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PSICÓLOGO RUI CARVALHO COSTA, EM ENTREVISTA AO LITORALGARVE: “PENSO QUE SE SEGUIRÁ UM PERÍODO DE DEPRESSÃO A NÍVEL ECONÓMICO E DE SEQUELAS A NÍVEL PSICOLÓGICO”

“As pessoas ativas e em idade adulta/profissional serão seguramente as mais afetadas, pois ficarão privadas das suas rotinas diárias e um sentimento de vazio instalar-se-á.”

“Os jovens terão uma maior facilidade de adaptação, visto que as suas interações e comportamentos sociais estão ligados intimamente à tecnologia e ao espaço casa” 

“Será sem dúvida importante ser criativo nesta fase”

“O tempo irá ditar as respostas emocionais à situação”

“Talvez deva mudar a forma como nos relacionamos connosco próprios e com os outros”

“As consequências da quarentena a nível pessoal serão imprevisíveis, pois dependerão da forma como a pessoa integrar para si mesmo este período, no entanto pressinto que exista uma alteração ao nível do sentimento de segurança quase inato que todos adquirimos durante o nosso desenvolvimento nesta forma de sociedade e ‘livre de perigos’”. É este um dos alertas do psicólogo Rui Carvalho Costa, especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, que nesta entrevista ao ‘Litoralgarve’, reconhece os problemas dos pais ao trabalharem em casa junto dos filhos ainda crianças, antevê um período de depressão a nível económico e de sequelas em termos psicológicos na população, e deixa conselhos para tentar enfrentar esta fase crítica imposta pelo estado de emergência decretado em Portugal, com vista a travar a pandemia do novo coronavírus, Covid-19. 

Litoralgarve – Ficar em casa e por tempo indeterminado devido à expansão do novo coronavírus, Covid-19, é a principal recomendação das autoridades. O que poderá provocar esta situação nas pessoas? Quem são os mais afetados pelo isolamento social?

Rui Carvalho Costa – A situação atual motivada pelo COVID 19 é estranha a todos nós, pois a liberdade de decisão e movimento é pelas sociedades ocidentais assumido como algo adquirido, logo é contranatura esta necessidade de reclusão e isolamento social.  A nível psicológico e sintomático maioritariamente poderá gerar ansiedade, forte tensão emocional, irritabilidade, reactividade e frustração.  

As pessoas activas e em idade adulta/profissional serão seguramente as mais afectadas, pois ficarão privadas das suas rotinas quotidianas e um sentimento de vazio instalar-se-á. Igualmente as crianças cuja percepção da problemática não é completa, sentirão dificuldade em gerir emocionalmente a perda de rotinas.

Os jovens terão uma maior facilidade de adaptação visto que as suas interacções e comportamentos sociais estão intimamente ligados à tecnologia e ao espaço casa, pelo que provavelmente existirá alguma satisfação inicial. Contudo, o tempo irá ditar as respostas emocionais à situação.

“O isolamento e confinamento por si só não predispõe ao suicídio”

Litoralgarve – Como deve ser ocupado o tempo em casa?

Rui Carvalho Costa – Deveremos todos tentar ao máximo manter actividades próximas das normais, sejam estas de carácter lúdico, intelectual ou físico. Talvez seja um tempo em que existirá a oportunidade de privarmos mais com os nossos e assim vivenciarmos os momentos que no dia a dia se perdem pelas ocupações e desgaste. Será sem dúvida importante ser criativo nesta fase.

Litoralgarve – Receia a ocorrência de casos de suicídio? Quem poderá ser mais vulnerável a esse tipo de situações?

Rui Carvalho Costa – O isolamento e confinamento por si só não predispõe ao suicido, visto que a passagem ao acto, salvo caso específicos, normalmente está associada a um profundo sentimento de desespero perante a realidade própria, a um vazio do ser e ao sentimento de incapacidade de resolução – “Desesperança perante passado, presente e futuro”.

No entanto, esta “reclusão” sanitária irá potenciar uma previsível situação de crise económica futura que poderá gerar condições pessoais graves que possam levar a comportamentos reactivos e à perda do controle do impulso como forma resolutiva.

“O melhor conselho para a ansiedade é perceber-se que a ansiedade não se controla, mas sim, gere-se

Litoralgarve – Quais os conselhos que deixa às pessoas para controlar a ansiedade nesta fase de quarentena e com o prolongamento do estado de emergência em Portugal?

Rui Carvalho Costa – O melhor conselho para a Ansiedade é perceber que a Ansiedade não se controla, mas sim gere-se. Para tal é necessário aceitá-la, vivenciá-la, compreendê-la e depois, sim, e com dificuldade geri-la. É um processo complexo que subjaz na interação dinâmica entre a avaliação das situações ansiogénicas e a avaliação de nós próprios e nossos recursos, na qual a atribuição de carga emocional tem um papel fundamental.

De uma forma prática nesta fase de quarentena, a gestão da ansiedade deverá passar pela racionalização da problemática actual, na manutenção de actividade, rentabilização do tempo pelo foco em algo estimulante e prazeroso e pela projeção de si no futuro.

Litoralgarve – E como reagir perante as restrições à circulação das pessoas no período da Páscoa e visita a familiares, por exemplo?

Rui Carvalho Costa – Relativamente a esta época, sinto que será a oportunidade para avaliarmos a nossa capacidade altruísta e tentarmos ficar em casa a proteger os nossos de nós próprios. Poderá ser um momento em que as nossas motivações de aproximação deixam de ser centradas em nós mesmos, seja por compensação, deferência, culpa, carência ou obrigação, e passam a ser apenas por afecto e protecção dos nossos, afastando-nos.

Uma cidade vazia “é algo que se assemelha um cenário de guerra”

Litoralgarve – Que efeitos psicológicos pode provocar às pessoas uma cidade com cafés, restaurantes, bares e estabelecimentos comerciais agora encerrados, condicionamento no acesso, nomeadamente a supermercados, mini-mercados e padarias, além da proibição no acesso às praias e a zonas de lazer, entre outras restrições? Como evitar problemas?

Rui Carvalho Costa – É realmente algo que se assemelha a um cenário de guerra, no qual a vida se esvaiu da cidade e nesta se instala um estado de sítio onde a desconfiança e insegurança nos simples e mundanos actos nos molda o comportamento. As restrições implementadas, apesar de necessárias e passiveis de racionalização/compreensão, despoletam algo mais profundo e complexo que é a restrição de nós próprios e nossa liberdade de acção. Como sermos capazes de aceitar esta impossibilidade própria sem nos mudarmos a nós mesmo. Não é possível, toda esta vivência levará a processos adaptativos que em função do tempo de restrições mudará a forma como somos como pessoas e em última instância como vemos e interagimos com o outro e o mundo físico ao nosso redor.

Pais a trabalharem em casa com os filhos ainda crianças ? “Os problemas que advêm desta interacção impossível serão o conflito familiar e a ineficácia laboral e resolvem-se não trabalhando em casa.”

Litoralgarve – Pais a trabalharem em casa com os filhos ainda crianças. Que problemas poderão existir e como resolver as situações?

Rui Carvalho Costa – É de todo incompatível e é incompreensível como se possa vê-lo como algo viável. As crianças necessitam de atenção e afectos e nós temos o dever como pais em proporcionar-lhes de forma devida, nomeadamente numa situação como a actual que é para criança de um grau de instabilidade emocional maior. Penso que o trabalho se faz no trabalho e não em casa com a família e filhos, são espaços distintos com importâncias distintas, se os juntamos no mesmo espaço o trabalho é de menor importância. Os problemas que advêm desta interacção impossível serão o conflito familiar e a ineficácia laboral e resolvem-se não trabalhando em casa.

Litoralgarve – Que conselhos pode deixar às autoridades policiais na abordagem e no controlo das pessoas na via pública, sabendo-se que vão aumentar as restrições impostas pelo estado de emergência?

Rui Carvalho Costa – Que primem pela atitude educativa e não repressiva, pois dada a dificuldade adaptativa que a situação implica serão muitos os cidadãos a não compreender ou aceitar a necessidade de confinamento e isolamento social. As forças da autoridade terão um papel muito importante na sensibilização para uma acção coerente em prol de uma causa comum.

“As consequências da quarentena a nível pessoal serão imprevisíveis, pois dependerão da forma como a pessoa possa integrar para si mesmo este período”

Litoralgarve – Que sequelas vai causar às pessoas esta fase de quarentena? E a perda de postos de trabalho nas empresas?

Rui Carvalho Costa – As consequências da quarentena a nível pessoal serão imprevisíveis, pois dependerão da forma como a pessoa integrar para si mesmo este período, no entanto pressinto que exista uma alteração ao nível do sentimento de segurança quase inato que todos adquirimos durante o nosso desenvolvimento nesta forma de sociedade desenvolvida e “livre de perigos”.

 A perda de emprego será um dos grandes problemas futuros e terá consequências devastadoras a nível social com o agravamento das dificuldades económicas das famílias e a mudança nos estilos de vida, a semelhança do vivenciado durante a crise iniciada em 2008/2009, mas com a agravante de ser a nível global e com uma durabilidade provavelmente maior. Penso que se seguirá um período de depressão a nível económico e de sequelas depressivas a nível e psicológico inerente ao sentimento de perda a vários níveis, perda de estabilidade, perda material, perda de projectos e objectivos, perda de relações, perda de entes queridos, perda de segurança, perda do que somos actualmente.

“Talvez seja a oportunidade para mudanças estruturais a nível económico, político e social”

Litoralgarve – O que deve mudar na vida das pessoas depois desta crise?

Rui Carvalho Costa – Talvez deva mudar a forma como nos relacionamos connosco próprios, com os outros e com o meio envolvente, como definimos as prioridades e principalmente a forma como valorizamos e gerimos o tempo – um bem perecível mas sentido como eterno. Talvez seja a oportunidade para mudanças estruturais a nível económico, político e social.

Recurso a psicólogos e psiquiatras “será transversal a toda a população”

Litoralgarve – O recurso aos psicólogos e aos psiquiatras vai ser a solução para muita gente?

Rui Carvalho Costa – A solução estará sempre na própria pessoa, mas sem dúvida que vai ser um recurso importante na, e usando a palavra que tanto se ouve actualmente de forma adequada, mitigação de várias problemáticas resultantes desta crise.

Litoralgarve – Quem irá recorrer mais a estes profissionais: homens ou mulheres? E de que idades? E profissões?

Rui Carvalho Costa – Penso que será transversal a toda a população, não me parece que algo com a magnitude e imprevisibilidade do que está a ocorrer tenha repercussões maiores em função de género, faixa etária ou profissão especifica. Percebamos que todos directa ou indirectamente vamos sofrer com esta situação.

 Termino referindo que somos na nossa essência seres adaptativos e mutáveis e que a nossa plasticidade cognitiva nos permitirá evoluir com a experiência actual criando novas redes, caminhos e formas de atuar talvez até mais consentâneas com a nossa existência.

Entrevista de José Manuel Oliveira

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