Entrevistas

“AS MEDIDAS DE APOIO DO GOVERNO FICAM MUITO AQUÉM DAS NECESSIDADES DA MAIORIA DAS EMPRESAS”

“Por quanto tempo os nossos empresários terão de manter os seus estabelecimentos encerrados? Como é que a economia local vai lidar com esta situação? A que tipos de apoios locais poderão recorrer?” São estas as principais interrogações levantadas, em entrevista concedida ao ‘Litoralgarve’ sobre o impacto provocado pelo novo coronavírus, Covid-19, por Ângelo Mariano, coordenador da delegação de Lagos da Associação do Comércio e Serviços da Região do Algarve (ACRAL) / Terras do Infante, que abrange os concelhos de Lagos, Vila do Bispo e Aljezur, numa altura em que mais de 80 por cento dos estabelecimentos não estão a funcionar.

Litoralgarve – Qual é a sua perspetiva em termos do impacto económico e social provocado pelo novo coronavírus, Covid-19, nos três concelhos das Terras do Infante – Lagos, Vila do Bispo e Aljezur?

Ângelo Mariano – O impacto económico e social da pandemia Covid-19 já está a ter repercussões bastante graves, sobretudo no concelho de Lagos, tal como, de resto, em todo o mundo. A incerteza económica dos próximos tempos para muitos negócios e muitas famílias e o isolamento social que assombra desde os mais velhos aos mais novos, são uma constante dos nossos dias. Nas alturas de grande dificuldade, nós portugueses conseguimos encarar estes momentos com otimismo, prevenção, respeito e com solidariedade perante as pessoas com menor mobilidade.

Litoralgarve – Quantos milhões de euros poderá perder cada um dos concelhos?

Ângelo Mariano – Relativamente quanto ao montante da perda, ainda não se pode calcular, uma vez que ainda vivemos todos os dias com um agravamento do número de casos de infetados, e acho que neste momento não é o mais importante. A vida das pessoas, sim! Tem que ser preservada e protegida. 

“Alguns espaços comerciais conseguiram  adaptar os seus serviços na entrega ao domicílio, ‘take away’ ou via Internet, mas na sua esmagadora maioria, mais de 80 por cento, não se encontra a laborar”

Litoralgarve – Qual o número de estabelecimentos comerciais e de restauração nos concelhos de Lagos, Vila do Bispo e Aljezur e quantos estão encerrados nesta altura por prevenção?

Ângelo Mariano – No total, a ACRAL conta com 65 associados nestes três concelhos, na sua maioria no de Lagos. Ou seja, são 65 estabelecimentos, a maior parte dos quais ligados ao comércio e estabelecimentos da restauração.

Após as primeiras medidas restritivas de quarentena, muitos estabelecimentos tentaram resistir ao seu encerramento. Contudo,  a insegurança instalada na população e a falta de clientes fizeram com que o nosso comércio local cedesse ao encerramento dos seus espaços. Neste momento, face ao Estado de Emergência em que o nosso país se encontra, apenas os estabelecimentos de primeira necessidade continuam abertos. Existem alguns espaços comerciais que conseguiram adaptar os seus serviços na entrega ao domicílio, ‘take away’ ou via Internet, mas na sua esmagadora maioria, mais de 80 por cento, não se encontra a laborar. É difícil de prever qual a resistência destes estabelecimentos comerciais que se encontram fechados, pois os proprietários continuam a pagar as suas rendas, os ordenados dos seus colaboradores e os seus impostos, sem qualquer reforço financeiro. A maioria do comércio local sobrevive do turismo regional, o que também é uma preocupação futura para os nossos comerciantes.

“É muito prematuro falar de despedimentos”

Autor: Hugo Rocha

Litoralgarve – Quantos postos de trabalho estão em risco?

Ângelo Mariano – Neste momento, é muito prematuro estar a falar de despedimentos, mas tenho a consciência de que os nossos empresários não estão preparados para aguentar muito tempo com os seus estabelecimentos fechados e manter os seus colaboradores no ativo.

Litoralgarve – Mesmo assim, tem conhecimento de despedimentos devido à crise resultante desta pandemia? E de outros problemas?

Ângelo Mariano – Até à data, não tenho conhecimento de despedimentos devido à pandemia Covid-19, visto que seria a partir desta data que muitas empresas contratariam mais pessoal para reforçar o seu ‘staff’ nesta altura do ano.

Os problemas que se colocam é a incerteza da durabilidade deste surto. Por quanto tempo os nossos empresários terão de manter os seus estabelecimentos encerrados? Como é que a economia local vai lidar com esta situação? A que tipos de apoios locais poderão recorrer?

“Nos meses de Abril, Maio e Junho, um restaurante que normalmente funcione em pleno deixará, agora, de faturar, em média, por mês cerca de 30 mil euros” 

Litoralgarve – E se o Estado de Emergência se mantiver pelo menos durante Abril e Maio, mês em que a Direção-Geral de Saúde aponta para o pico do surto do novo coronavírus, Covid-19, em  Portugal, como perspetiva a situação no sector do comércio e na restauração nos concelhos de Lagos, Vila do Bispo e Aljezur?

Ângelo Mariano – Vão ser momentos muito duros, é verdade… Neste momento, há que cuidar da nossa saúde e dos nossos. E quando isto passar, desejo a todos os comerciantes que não desistam e com a coragem que têm aguentado até hoje, vão com certeza ultrapassar esta crise.

Litoralgarve – Como vai ser o período da Páscoa para os comerciantes e os empresários da restauração?

Ângelo Mariano – O período da Páscoa já está aí e com o confinamento das deslocações do turismo em face do Estado de Emergência, considero que para o comércio local e restauração já está dissipado. Relativamente ao Verão, só o tempo dirá. Como sou otimista, acredito que  os empresários conseguirão contornar nessa altura a situação com o turismo.

Litoralgarve – Quanto deixará de faturar, por exemplo, em média, um restaurante em Lagos nesta altura do ano?

Ângelo Mariano – Nos meses de Abril, Maio e Junho, um restaurante que normalmente funcione em pleno deixará, agora, de faturar, em média, por mês cerca de 30 mil euros. 

“O ideal seria que os empresários pudessem recorrer a financiamentos sem pagar juros”

 Litoralgarve – As medidas de apoio aos empresários, anunciadas pelo governo, são suficientes? Quantos milhões de euros são necessários nesta zona do Algarve?

Ângelo Mariano – As medidas de apoio do governo nunca são satisfatórias e ficam muito aquém das necessidades da maioria das empresas que são micro e PME – Pequenas e Médias Empresas. No entanto, nesta fase inicial poderá ser a única forma de as mesmas não abrirem insolvência. Só após esta fase, é que é possível avançar com números referentes aos apoios necessários para a zona do Algarve. O ideal seria que os empresários pudessem recorrer a financiamentos sem pagar  juros.

Neste momento, o mais indicado é mesmo ficar em casa e sair somente quando for necessário. Os três concelhos das Terras do Infante estão atentos à evolução desta pandemia e regularmente tomaram medidas com o plano de contingência, em cada um, composto por uma série de procedimentos de prevenção à infeção do Coronavírus (COVID -19). 

Litoralgarve – Que medidas estão a ser tomadas pela ACRAL no âmbito dos três concelhos?

Ângelo Mariano – Apesar de a nossa delegação da ACRAL em Lagos estar encerrada, temos estado em contacto permanente com os nossos associados. Esta associação disponibiliza apoio direto gratuito, do gabinete jurídico para todos os seus sócios com o respetivo email: apoiojuridico@acral.pt ou através de contacto telefónico n.º 911 116 936 de 2ª a 6ª feira das 10h.00 às 12h.00m. .

“Quando isto passar, vamos consumir o que é português e apoiar o comércio local”

Litoralgarve – Que alertas pretende deixar neste momento aos comerciantes, às autarquias e ao governo?

Ângelo Mariano – Para todos em geral, vamos ser fortes, ficar em casa e cumprir com as recomendações anunciadas pela Direção- Geral de Saúde. Vamos olhar para este momento como um retiro para nos dedicarmos mais tempo a quem nos é mais próximo e com a ajuda de todos vamos conseguir reativar as nossas vidas, as nossas empresas, os nossos empregos. Quando isto tudo passar, em apoio ao nosso comércio e serviços, vamos consumir o que é português e preferencialmente comprar no nosso local de residência, de forma a apoiar o comércio local.

Entrevista de José Manuel Oliveira

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