Entrevistas

“A sazonalidade obriga os comerciantes a fechar portas na época mais baixa”

Em entrevista ao ‘Litoralgarve’, o novo coordenador da delegação de Lagos da Associação do Comércio e Serviços da Região do Algarve (ACRAL), Ângelo Mariano, de 36 anos e natural deste concelho, onde reside, explica qual a estratégia que os empresários deverão adoptar para atrair mais clientes, diz porque falta pessoal para trabalhar nos estabelecimentos e deixa recados sobre a falta de limpeza. “Afinal, uma cidade com ruas e calçadas sujas, lixo fora da lixeira, cães de rua e moradores nómadas dividindo o mesmo espaço é apenas o retrato da conduta dos seus moradores”, lamenta.

Litoralgarve – Como avalia a situação do comércio no concelho de Lagos? Quais os pontos positivos e negativos?

Ângelo Mariano – O concelho de Lagos é um forte ponto turístico algarvio que atrai inúmeros visitantes ao longo do ano. Desta forma, o comércio é um dos pilares da economia local. Os eventos organizados, juntamente com a Câmara Municipal de Lagos, são uma mais valia para os nossos comerciantes. Exemplos: animação e Casa do Pai Natal, no mês de dezembro, e ‘Stock-out’ promovido ao longo do ano.

  O ponto negativo é que o nosso concelho, tal como os outros no Algarve, é castigado pela sazonalidade que obrigar os comerciantes a fechar portas na época mais baixa.

Litoralgarve – Quantos estabelecimentos comerciais existem no concelho?

Angêlo Mariano – Não lhe posso garantir ao certo, porque como temos a época sazonal muito comerciantes só trabalham na época alta.

Os motivos para a falta de trabalhadores nos estabelecimentos

Litoralgarve – Em muitos estabelecimentos comerciais, nomeadamente lojas de vestuário, cafés e restaurantes, veem-se papéis nas montras a pedir pessoas para trabalhar, nalguns casos «com ou sem experiência». Como se justifica esta situação e quais as repercussões? Porque é que é difícil garantir pessoal?

Ângelo Mariano – Esta realidade é comum noutros concelhos. Na minha repetitiva, no comércio de restauração os contratos propostos são maioritariamente sazonais, o que dificulta a angariação de pessoal especializado. Noutras áreas comerciais será do tipo de ordenados que a empresa oferece. Ainda existe o estigma que no verão ganha-se para o ano todo!  

“Os turistas já não gastam como antigamente ou procuram onde é mais barato”

Litoralgarve – Quantos trabalhadores são necessários para preencher as vagas existentes? E que incentivos poderão ser dados, além do salário?

Ângelo Mariano – Neste momento, não posso avançar com números. Relativamente aos incentivos, isto cabe a cada comerciante, pois a oferta comercial em algumas zonas é pouco diversificada e a concorrência é muita, dificultando também os lucros do mesmo. No concelho de Lagos existe muito turismo, mas os turistas já não gastam como antigamente ou procuram onde é mais barato.

Litoralgarve – Há estabelecimentos encerrados por falta de pessoal?

Ângelo Mariano – Não tenho conhecimento dessa situação.

O que têm comerciantes de fazer para atrair mais clientes

Litoralgarve – E o que pensa dos proprietários dos estabelecimentos, em geral? Estão preparados para novos desafios, nomeadamente horários de funcionamento alargados, «marketing», oferta de produtos, relação com os clientes e incentivos aos empregados, entre outros aspetos?

Ângelo Mariano – Os proprietários dos estabelecimentos no comércio do concelho de Lagos são uns lutadores. Todos os anos são um desafio e uma incerteza. A adaptação que estes comerciantes têm que fazer para angariar novos clientes é uma prioridade. E aí entramos nós, também para ajudar.

Litoralgarve – E de que forma?

Ângelo Mariano – A nível logístico, tal como formação para funcionários, criação de ‘web site’ na divulgação do seu estabelecimento, entre outros.    

“O comércio tem de alterar o seu horário de funcionamento de acordo com as exigências do consumidor”

Litoralgarve – Como perspetiva o próximo Verão para o comércio em Lagos e que alertas deixa a ACRAL?

Ângelo Mariano – O comércio tradicional deve aproveitar a dinâmica criada para no Verão repensar e adaptar os seus horários. Como sempre temos defendido, o comércio tem de alterar o seu horário de funcionamento de acordo com as exigências do consumidor. É preciso haver comércio com horário alargado, concertos e animação de rua.

Da segurança “em qualquer altura do ano” à falta de limpeza na cidade

Litoralgarve – A cidade de Lagos é segura? Há policiamento?

Ângelo Mariano – No meu ponto de vista, a cidade de Lagos é uma das cidades mais seguras do Algarve em todos os aspetos, com um grande reforço na época alta. Sinto-me seguro nesta cidade e com grande apoio mútuo entre o munícipe e as forças de segurança, que com elevada organização faz de Lagos um lugar seguro em qualquer altura do ano.

Litoralgarve – E como avalia a limpeza no concelho de Lagos?

Ângelo Mariano – Viver em sociedade exige algumas responsabilidades, entre elas o cuidado com os espaços de uso comum. Mais que obras e serviços do poder público, atitudes individuais também fazem a grande diferença para a construção de lugares bons (e limpos!) de se viver. Afinal, uma cidade com ruas e calçadas sujas, lixo fora da lixeira, cães de rua e moradores nómadas  dividindo o mesmo espaço, é apenas um retrato da conduta de seus moradores. Destaco a importância da colaboração da população e o entendimento de cada munícipe de que a área pública é uma extensão do privado. O espaço público é o bem mais importante de uma cidade, é um local onde as pessoas exercem o direito à cidade, para usufruir do cenário da vida urbana, do convívio democrático, onde ocorre a troca de experiências. Precisamos mudar essa visão de que o meu espaço é a minha casa e a rua não é de ninguém. Isso é uma visão ultrapassada, as pessoas têm que resgatar essa dimensão humana das áreas públicas.

Polícia Municipal? “É fundamental que se defina de forma muito clara as suas prioridades de intervenção”

Litoralgarve – Lagos vai ter Polícia Municipal. Qual deverá ser o seu papel? Que alertas deixa?

Ângelo Mariano – A existência da Polícia Municipal é de grande interesse para o Município e para a comunidade. Mas é fundamental que se defina de forma muito clara as suas prioridades de intervenção, porque as competências que lhe são conferidas, essas estão definidas, e bem, em legislação própria. A questão tem a ver com a “ação” e não com as competências atribuídas por decreto.

Iniciativas da ACRAL em Lagos durante o ano de 2020

Litoralgarve – Quais as iniciativas da ACRAL em Lagos para 2020?

Ângelo Marino – Para este ano já estão várias atividades a serem planificadas, tais como:

  • 25 e 26 de abril 2020 – Mostra de Doçaria e ‘Stock-Out’;
  • Final de maio / início de Junho – Festival Gastronómico; 
  • 29 de agosto – Festa do Banho 29;
  • 24 e 25 de Outubro ( integrado nas comemorações do Dia da Cidade) – Moda Reciclada + ‘Stock Out’;
  • Mês Dezembro – Natal no centro histórico da cidade com chegada do Pai Natal e montras natalícias na cidade;

Litoralgarve – Com que problemas se debate esta associação?

Ângelo Mariano – Neste momento, a ACRAL encontra-se bem, com força para assegurar os novos desafios que lhe espera e garantir aos nossos associados  todos os dispositivos e matérias para o grande sucesso.

Empresário em várias áreas, trabalha com extintores nos Bombeiros Voluntários de Lagos, gosta de animais e é árbitro da Federação de Patinagem de Portugal

Ângelo Mariano, de 36 anos e natural do concelho de Lagos, é empresário em várias áreas, formador e técnico de segurança. Trabalha com extintores nos Bombeiros Voluntários desta cidade. Considera-se um “amante incondicional de animais”, pertence a várias associações locais e é arbitro da Federação de Patinagem de Portugal. Em Outubro de 2019,  Ângelo Mariano assumiu as funções de coordenador da delegação de Lagos da ACRAL – Associação do Comércio e Serviços da Região do Algarve (da qual já fazia parte), substituindo no cargo Sandra Oliveira, que passou a ocupar, desde essa altura, o lugar de vereadora do PS na Câmara Municipal de Lagos, na sequência da eleição de Joaquina Matos como deputada do partido na Assembleia da República.

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