Entrevistas

“É raro o Algarve unir-se todo com uma só uma perspetiva e foi claramente essa união que permitiu evitar exploração de petróleo”

Atentado terrorista? “Portugal é um país de muito baixo risco. Isso não quer dizer que estejamos totalmente isentos.” (…) “Temos até um manual de atuação em cenários de crise, com o Turismo de Portugal.”

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“Não houve um único ferido entre os turistas no incêndio na Serra de Monchique em 2018”

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“Algarve necessita de energias renováveis e não de exploração de petróleo”

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“Há que rever o regulamento do horário de funcionamento de estabelecimentos de diversão noturna”

Nesta segunda e última parte da entrevista ao concedida ao ‘Litoralgarve’, o presidente da Região de Turismo do Algarve (RTA), João Fernandes, destaca a “união” que evitou a exploração de petróleo na zona da costa vicentina, como planeavam grupos empresariais em contratos já assinados com o governo português, congratula-se com a reação a nível social e turístico no concelho de Monchique na sequência do violento incêndio ocorrido em 2018, e avisa que o Algarve tem de estar preparado para enfrentar qualquer situação anómala, nomeadamente resultante de sismos.

Litoralgarve – Que repercussões teria um eventual ataque terrorista  no Algarve?

João Fernandes – Um recente relatório de segurança sobre estas matérias elaborado, creio, pela Europol, referia que a este nível Portugal é um país de muito baixo risco. Isso não quer dizer que estejamos totalmente isentos. Não há risco! Devemos estar sempre preparados seja para estas matérias, seja para fenómenos de riscos extremos climatéricos, seja para incêndios. Para qualquer situação anómala, nós temos de estar preparados para responder.

Como reagiu Monchique ao violento incêndio em 2018

Litoralgarve – E o Algarve está preparado?

João Fernandes  Aquilo que tenho visto do ponto de vista da Proteção Civil, do trabalho das forças e serviços de segurança é um trabalho com uma grande capacidade de coordenação de meios e de atuação no terreno.

   Às vezes, há fenómenos climatéricos, tremores de terra. É que a capacidade não só de reagir aos problemas, mas também de comunicar a evolução dessa atuação e de conseguir acompanhar o bem-estar das pessoas que nos visitam, são fatores fundamentais para a retoma mais rápida de um destino turístico. E essa é uma capacidade que temos vindo a desenvolver. Temos até um manual de atuação em cenários de crise com o Turismo de Portugal; temos vindo a fazer parte das reuniões da Comissão Distrital de Proteção Civil para podermos concertar a comunicação a fazer aos residentes estrangeiros, aos turistas de várias nacionalidades, na sua própria língua, aos turistas nacionais, bem como criar canais para poder também informar os operadores turísticos internacionais através da rede externa do Turismo de Portugal; de poder falar com os canais diplomáticos para que estes prestem informação mais acertada aos seus cidadãos; e até com a imprensa internacional.

Portanto, temos vindo a atuar nestes diferentes canais. Muitas vezes não é visível até porque esse trabalho é feito lá fora. Mas pudemos assistir, por exemplo, à diferença que houve na comunicação dos incêndios em Monchique ao longo de um período relativamente curto, por esta ação que desenvolvemos.

Em 2018, não houve uma catástrofe na serra de Monchique. Catástrofe seria se tivessem estado em risco vidas humanas. E a Proteção Civil teve o cuidado extremo de acautelar o bem-estar físico de toda a gente. Por exemplo, não houve um único turista ferido e havia turistas em Monchique em vários hotéis e alojamentos locais, ou em restaurantes da região, ou a fazer atividades de animação turística, nomeadamente turismo da natureza. E, volto a frisar, não houve um único ferido entre os turistas.

Por outro lado, nas visitas efetuadas a Monchique desde o incêndio, tenho visto a grande capacidade de recuperação da própria serra, que está a ficar cada vez mais verde, tenho visto a capacidade dos agentes económicos de reagir, nomeadamente os agentes do turismo da natureza, os hoteleiros. E até tenho visto uma outra coisa, que é uma nova dinâmica nas principais unidades hoteleiras de Monchique. Quer o ‘Monchique Resort and SPA Hotel’, quer os hotéis das Termas de Monchique, estão com um fulgor maior e uma maior procura. Foi importantíssimo ver passadas duas semanas da extinção desse grande incêndio, que já estávamos a trabalhar na reabilitação de caminhos, ou a procurar caminhos alternativos para rotas de percursos pedestres.

Passados dois dias da extinção do incêndio, já estava o Posto de Turismo aberto e com turistas a serem recebidos. Houve, portanto,  uma grande capacidade dos diferentes agentes de reagirem.

“Em Albufeira, foram assinados contratos locais de segurança para reforçar o policiamento e acompanhamento de situações críticas,  nomeadamente na Rua da Oura”

Litoralgarve – A outro nível: que medidas devem ser tomadas para evitar situações de violência em zonas de diversão noturna, nomeadamente Albufeira e Praia da Rocha, no concelho de Portimão?

João Fernandes – É bom destrinçarmos animação noturna e violência. A animação noturna é um ativo da região. Não queremos deixar de ter animação noturna. As pessoas vêm para o Algarve para descansar, para se divertir e, portanto, têm de ter diferentes ofertas. Há animação noturna e o consumo, excessivo, de bebidas alcoólicas. Tínhamos já desenvolvido uma iniciativa também na Escola de Hotelaria e Turismo do Algarve sobre esta matéria destinada à região, com o Ministério da Administração Interna. Numa iniciativa levada a efeito em Albufeira, foram assinados contratos locais de segurança para reforçar a capacidade de policiamento e acompanhamento de situações críticas, nomeadamente na Rua da Oura. Mas há outras questões que acho que são fundamentais.

Litoralgarve – Como, por exemplo?

João Fernandes – Por exemplo, rever o regulamento de horários de funcionamento destas estruturas por forma a mitigar o potencial de algumas situações que também temos de reconhecer que são ocasionais em alguns pontos concretos do Algarve e não extensíveis a toda a região, nem a todo o momento.

“Penso que essa proposta da exploração de petróleo no Algarve está completamente arredada”

Litoralgarve – Um dos problemas que tanta polémica suscitou no Algarve foi a pretendida exploração de petróleo na costa vicentina, com incidência na zona de Aljezur. Essa hipótese está definitivamente afastada ou ainda, digamos assim, existem ameaças nesse sentido? O que acontecerá às praias do Algarve e ao turismo se houver exploração de petróleo na nossa costa?

João Fernandes (refletindo) – Bem… felizmente, penso que…

Em primeiro lugar, devemos reconhecer que é raro o Algarve unir-se todo com uma só perspetiva. E neste caso foi claramente essa união que permitiu que não fosse explorado petróleo no Algarve. Penso que essa proposta está completamente arredada e ainda bem que assim acontece. De facto, nós temos um grande ouro na região, que é o turismo, e este poderia ser gravemente afetado por esta exploração de petróleo. E por outro lado, o que queremos do ponto de vista energético é que tenhamos cada vez mais energias renováveis e não fontes de hidrocarbonetos como energia para a região.

“Somos a região que mais faz recolha seletiva dos plásticos, vidros, cartão e que tem diversificado as fontes energéticas”

(após uma breve pausa) – Depois, também há que dizer que felizmente é este o desenvolvimento que o Algarve tem vindo a prosseguir numa perspetiva de maior sustentabilidade ambiental, de uma melhor gestão de recursos, nomeadamente, por exemplo, ao nível dos resíduos sólidos. Somos a região que mais faz recolha seletiva, portanto recolha dos plásticos, vidros, cartão, etc. Somos uma região que tem diversificado as fontes energéticas, desde o biogás, a biocombustíveis, até a energia eólica, energia solar e até hídrica em pequenas soluções que penso que podem vir a ser interessantes.

A qualidade do ar medida pelas estações metrológicas tem vindo a ser reconhecida e a qualidade das praias, nomeadamente a qualidade da água nas praias é sobejamente conhecida. Aliás, temos mais de 80 praias com Bandeira Azul. No fundo, temos um reconhecimento por várias entidades, desde a Agência Portuguesa do Ambiente até à Agência Europeia, que fazem estas medições da qualidade da água, passando, por exemplo, pela Administração Regional de Saúde do Algarve e pela Administração Hidrográfica da Região. E todas essas instituições apontam para que temos uma boa qualidade ambiental.

Atenuar  a  taxa de sazonalidade no turismo tem permitido ao Algarve emprego ao longo do ano e não apenas no Verão

(e reforçando o seu raciocínio) –  Temos vindo a atenuar a taxa de sazonalidade, seja nas dormidas dos hóspedes, ou dos passageiros, o que também ajuda a que o Algarve permita, por exemplo, emprego ao longo do ano e não apenas no pico da procura, no Verão, com empresas que atuam durante um período mais lato no sector turístico. Portanto, a redução da sazonalidade do ponto de vista económico, social, cultural ou ambiental tem vindo a ser reforçado. É esse o nosso caminho e não a exploração de petróleo.

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