Entrevistas

“NESTE MOMENTO, GOSTAVA DE TER A OPORTUNIDADE DE COBRIR A CRISE NA VENEZUELA”

ENTREVISTA A CONCEIÇÃO RIBEIRO – JORNALISTA DA SIC NO ALGARVE

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É dos rostos mais conhecidos das televisões no Algarve, onde trabalha na Delegação da SIC, em Faro. Com 45 anos de idade, Conceição Ribeiro frequentou durante nove meses um curso de jornalismo na TSF, em Lisboa, e foi na cidade de Lagos, onde cresceu (nasceu em Angola), que se tonou jornalista profissional na Rádio Atlântico Sul. Quando o alvará foi vendido à Rádio Capital, passou a ser correspondente até iniciar a colaboração com a SIC, em 1997. Nesta entrevista ao ‘site «Litoralgarve», Conceição Ribeiro faz uma retrospectiva da sua carreira, que já conta com 28 anos, recorda momentos de angústia, frustações e situações de sucesso em que peças da sua autoria abrem noticiários da estação televisiva. Destaca conselhos de outra geração de jornalistas e deixa recados aos mais jovens. E até já admite vir a ser professora de jornalismo.

Litoralgarve –  Como, quando e onde foi o início da sua carreira jornalística?

Conceição Ribeiro – A oportunidade de tirar um curso  de jornalismo e animação de emissão na TSF, durante 9 meses, surgiu como um caminho inesperado, mas que me levou ao sítio certo.

O meu primeiro trabalho remunerado foi na rádio Atlântico Sul, em Lagos . Quando o alvará foi vendido, transitei para a Rádio Capital (de Lisboa), onde me mantive como correspondente até iniciar a colaboração com a SIC , em 1997.

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Litoralgarve – O que a motivou para esta actividade? Quis seguir o exemplo de alguém?

Conceição Ribeiro – O jornalismo interessou-me ainda no ensino secundário, mas foi o curso profissional na TSF, em 1991, que se tornou decisivo. Tive a oportunidade de ter como monitores jornalistas como o João Paulo Baltazar, o Miguel Monteiro ou o Paulo Bastos. Foi lá também que contactei com o Adelino Gomes, Batista Bastos, Elisabete Caramelo ou a Maria Flôr Pedroso, pessoas muito experientes, outras muito jovens, mas com uma atitude irreverente e muito inspiradora.

“O meu primeiro salário foi 75 euros. Lembro-me de ter oferecido um jantar aos meus pais e comprado um disco dos INXS.”

Litoralgarve – Quanto foi o primeiro salário e em que o gastou?

Conceição Ribeiro – O meu primeiro salário foi 75 euros. Lembro-me de ter oferecido um jantar aos meus pais e comprado um disco dos INXS.

Litoralgarve – Que dificuldades sentiu inicialmente e como as superou?

Conceição Ribeiro – A dificuldade foi trabalhar sem rede. Durante o curso, na TSF, os monitores estavam por perto e tínhamos orientação. Ao voltar para Lagos e para a Rádio Atlântico Sul, senti a falta de alguém a quem pedir conselhos ou discutir ideias. Havia também uma escassez de meios enorme. De início não havia computador, muito menos Internet. Basicamente o único suporte que existia naquela mini redação de duas pessoas era um telex da Agencia Lusa, que tinha 98 % de noticias nacionais e muito poucas regionais. De pouco servia…

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Litoralgarve  – O que aprendeu na escola que lhe serviu para aplicar no jornalismo?

Conceição Ribeiro – A formação em ciências da comunicação abre-nos janelas. Há disciplinas que, por vezes, podem parecer um pouco estranhas ao jornalismo, mas que nos põem em contacto com correntes, teorias, conceitos que acabam por ser importantes no dia-a-dia da profissão. Falo de questões como a estatística, sociologia , semiótica… A cobertura de um acto eleitoral, a violência doméstica, a maçonaria são exemplos de temas que podem ser abordados de uma forma jornalística  mais completa se tivermos em conta alguns dos conceitos das cadeiras teóricas do curso. Entre as janelas que se abrem com as aulas estão também diversos autores, que dificilmente teria conhecido se não tivesse tirado o curso.

“Nesta profissão, em que o horário de saída é incerto, a única forma de conseguir conciliar a esfera privada e profissional é recorrendo à rede familiar. Nesse aspecto, os meus filhos tiveram avós incansáveis e absolutamente disponíveis. Nada teria conseguido sem eles.”

Litoralgarve – Como conciliou nessa altura a carreira com a vida familiar?

Conceição Ribeiro – Nunca é fácil. Nesta profissão, em que o horário de saída é incerto, a única forma de conciliar a esfera privada e profissional é recorrendo à rede familiar. Nesse aspeto, os meus filhos tiveram avós incansáveis e absolutamente disponíveis. Nada teria conseguido sem eles.

Litoralgarve – Que críticas ouviu? E elogios? Como reagiu a essas situações?

Conceição Ribeiro – A crítica mais aborrecida e injusta é também a mais generalizada. Com regularidade chamam aos jornalistas abutres. Acontece com frequência ao chegarmos a um local de acidente ou onde aconteceu qualquer tragédia. Não morro de amores por fazer esse género de cobertura, mas há uma relevância e interesse jornalístico nesses casos, queira-se ou não. Muitos pontos negros da EN 125, por exemplo, foram intervencionados porque a pressão mediática dos acidentes naquela zona assim conduziram as decisões políticas. Admito que possa haver exageros, mas a generalidade dos jornalistas respeita e protege a identidade das vítimas, a dor dos familiares e não atrapalha o trabalho das autoridades. Por norma, ignoro esses comentários. Pessoalmente, uma das criticas que me fazem é falar demasiado rápido e usar algumas ‘muletas’ nos diretos : repetições, ahs.. hums… Críticas que reconheço e que continuo a tentar melhorar. Elogios são sempre agradáveis, mas por humildade não os partilho.

“A primeira peça para a SIC foi com o Mário Soares, então Presidente da República, num congresso sobre os Oceanos, em Vilamoura. Só para escrever uma peça de dois minutos demorei três horas. Algo que hoje faria em menos de meia-hora.”

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Litoralgarve – Como foi chegar à SIC?

Conceição Ribeiro – Chegar à SIC foi um sonho nunca sonhado. Na altura, a estação tinha cinco anos de existência, tudo era revolucionário. O conceito de dar voz às pessoas comuns, mais do que aos ‘figurões’, foi algo que mudou de vez o jornalismo, em Portugal. Fazer parte dessa aventura tem sido uma honra.

Litoralgarve – Qual, como, quando e onde foi a sua primeira experiência de repórter e que recordações guarda?

Conceição Ribeiro – A primeira peça para a SIC foi com o Mário Soares, então Presidente da República, num congresso sobre os Oceanos, em Vilamoura. Só para escrever o texto de uma peça de dois minutos demorei três horas. Algo que hoje faria em menos de meia hora. A primeira grande história foi um acidente de comboio, em Lagoa. Foi também o meu primeiro direto. Lembro-me de estar enlameada até ao cabelo e de pedir ao editor se não podia fazer o direto ao telefone, para não se ver.

Situações angustiantes em incêndios nas serras de Monchique e do Caldeirão, com o cerco de chamas e a fugir do fogo

Litoralgarve – Qual a situação mais difícil por que passou até agora? Onde foi, quando e como a resolveu?

Conceição Ribeiro – As duas situações mais complicadas foram em incêndios. Em Monchique, há 16 anos.  Estava grávida de 38 semanas, em reportagem num vale ainda distante das chamas. De repente o vento rodou e a tarde ficou noite. Em dois, três minutos, o fogo saltou a colina e começou a rodear todo o vale. Lembro-me de atirar o tripé para a bagageira do carro, preocupada com o fumo que estava a tapar tudo e de pensar “não vamos conseguir sair a tempo”, quando olhei a cara de preocupaçao do meu colega Luís Silva, repórter de imagem, por norma super tranquilo e seguro nestas situações de crise. Mais dois minutos e não teríamos conseguido sair de lá.

A segunda situação foi no último grande incêndio na Serra do Caldeirão e estava com outro colega, o Ricardo Soares. Ficámos cercados de fogo, juntamente com o casal que morava no monte onde nos encontrávamos. De novo, tudo ficou escuro, o vento era medonho, com fagulhas constantemente a cair sobre nós. Tudo o que havia disponível como refúgio era uma piscina de plástico. Felizmente, o vento rodou e conseguimos sair de lá. Ambos os casos mostraram-nos como é uma ilusão pensarmos que temos tudo controlado. O vento e o fogo não são previsíveis.

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Litoralgarve – Já ficou diante da ‘camara’ sem saber o que dizer?

Conceição Ribeiro – Sim. Lembro-me de um direto durante o Europeu de Futebol, em 2004. Estava em Albufeira, rodeada de adeptos ingleses alcoolizados, uma gritaria infernal, deixei de ver o repórter de imagem, já não sabia se ainda estávamos ou não em direto e às tantas simplesmente calei-me. Foi um momento de grande angústia.

Litoralgarve – Qual a maior ‘cacha’ até ao momento?

Conceição Ribeiro – Em mais de duas décadas de televisão, já perdi a noção de quantas vezes notícias ou diretos meus abriram os jornais. A notícia do dia é sempre a mais importante e normalmente ao abrir o jornal é por ser relevante e ter a tal componente de “cacha”. A esmagadora maioria das vezes, essa informação que tanto trabalho nos deu, no dia seguinte já não importa.

Litoralgarve – E a maior frustação?

Conceição Ribeiro – A frustração terá sido eventualmente a entrevista ao casal Mccann. Ao longo do caso Maddie, eles falaram várias vezes com jornalistas, mas houve um dia específico em que se disponibilizaram para entrevistas individuais. No entanto, foi tudo muito a correr, porque eram várias as televisões nacionais e estrangeiras ‘na fila’. Confesso que saí frustrada dessa entrevista por não ter tido a capacidade de perguntar tudo o que queria, nos minutos que me foram destinados.

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Litoralgarve – Alguma vez pensou em abandonar a carreira?

Conceição Ribeiro – Nunca.

“No meu aniversário, há seis anos, estava a  almoçar com a família e não cheguei a soprar as velas do bolo. Houve um acidente com sete vítimas mortais no Alentejo…”

Litoralgarve – Como é o dia-a-dia de um correspondente da SIC no Algarve? Com quem trabalha, em que horários, como funciona, deslocações, fontes de informação, entrevistas, reportagens, diretos?

Conceição Ribeiro – Somos quatro jornalistas na Delegação do Algarve, divididos em equipas de dois. Por norma, uma equipa está de serviço no período da manhã e início de tarde e a outra à tarde/noite. Temos folgas e férias, claro, mas há sempre uma equipa de serviço, 24 horas por dia, todos os dias do ano. Essa necessidade de estar disponível a todo o momento tem custos familiares muito duros. No meu aniversário, há seis anos, estava a almoçar com a família e não cheguei a soprar as velas do bolo. Houve um acidente com sete vitimas mortais, no Alentejo… Já aconteceu trabalhar na noite de consoada, no dia de Natal, na passagem- de- ano – ano sim, ano não – , no aniversário dos meus filhos, dos meus pais… Mas é algo a que nos habituamos e que a família aprende a respeitar e compreender.

O funcionamento é semelhante a qualquer outra delegação: Há trabalhos que somos nós a propor aos editores, com base em informações que nos chegam de diversas fontes; há assuntos que nos são pedidos pela redação. Há sempre um contacto regular com fontes ligadas às forças policiais e de Proteção Civil, mas a rede estende-se a todo o tipo de entidades e cidadãos. Com muita frequência batem-nos à porta, enviam-nos mensagens pelas redes sociais, ligam-nos a dar dicas. É assim que a maior parte das reportagens começa.

“O direto mais longo que fiz foi no ‘caso Maddie’, durou 20 minutos. Foi no dia em que o casal McCann foi constituído arguido, na Polícia Judiciária, em Portimão”

Litoralgarve – Aprecia mais um directo ou gravar uma reportagem?

Conceição Ribeiro –  Pessoalmente, prefiro fazer reportagem do que direto. Há mais controlo e capacidade de filtrar o que é emitido. Num direto, se alguém começar a proferir insultos, por exemplo, ou a chorar ou se sentir mal, não há forma de proteger o espectador e o entrevistado dessas situações. Para salvaguardar o estarmos a trabalhar “sem rede”, tentamos preparar os entrevistados, certificarmo-nos que estão em condições de serenidade para falar, em segurança, etc. Por exemplo, na semana passada houve um acidente de viação em Aljustrel. Dois jovens morreram e outros dois ficaram feridos com gravidade. A comoção na zona era grande. Optei por fazer o direto sem entrevistados por ter consciência de que quem conhecia os jovens não tinha, naquela altura, serenidade emocional para dar entrevistas. Por vezes, no pico da adrenalina, as pessoas até querem falar, apesar do choque. Cabe ao jornalista proteger a pessoa nesse momento de fragilidade e não estender o microfone.

Litoralgarve – Quanto tempo demora um direto?


Conceição Ribeiro – O direto mais longo que fiz foi no ‘caso Maddie’, durou 20 minutos. Foi no dia e que o casal Mccann foi constituído arguido, na Polícia Judiciária, em Portimão, Por norma, os diretos são mais curtos, demoram três a cinco minutos.

Já as reportagens têm em média de dois a quatro minutos. Mas podem levar duas horas ou dois dias a fazer. Depende do assunto.

Litoralgarve – O que tem prejudicado na sua vida, pessoal e familiar, para ser jornalista? Vale a pena?

Conceição Ribeiro – O descanso e o tempo em família. É um preço caro, mas que se tem de pagar. Compensamos de outras formas e noutros momentos. Vale sempre a pena, apesar de ter noção de que os meus filhos – sobretudo o mais velho – foram muito penalizados quando eram pequenos. É difícil explicar a uma criança que acabou de chegar à praia e ainda nem estendeu a toalha na areia, que afinal não pode ir molhar os pés porque aconteceu algo e a mãe tem de voltar a voar para o trabalho.

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Litoralgarve – Quantas horas de trabalho consecutivo já efectuou e em que circunstâncias?

Conceição Ribeiro – O mais duro é sempre os incêndios. Já me aconteceu sair de manhã para um fogo na Serra do Caldeirão, chegar a casa já depois da uma da manhã, estar a tomar banho e receber um telefonema a dizer que a situação se tinha voltado a complicar. Saí e voltei a casa na noite seguinte.

No último incendo, em Monchique, um dos meus colegas caiu semi-desmaiado de exaustão, quando nos preparávamos para um direto já de madrugada. Tínhamos estado o dia inteiro a correr, sem tempo para almoçar, jantar ou beber água, sequer.

Litoralgarve – Que tipo de reportagens mais aprecia?

Conceição Ribeiro – As situações ligadas aos fenómenos naturais implicam um risco e uma capacidade de antecipação que torna a recolha do material de reportagem muito desafiante. É nesses momentos de tensão que quer eu, quer o resto da equipa melhor respondemos. A nossa produtividade, criatividade e sangue frio são desafiados ao máximo e é aí que damos também o nosso melhor.

“… Já me confundiram com jornalistas de outras estações, mandam beijinhos para a Júlia Pinheiro, ou reclamam da hora da novela. Há de tudo.”

Litoralgarve – Qual a reportagem para que gostaria de ser destacada?

Conceição Ribeiro – Neste momento, gostava de ter a oportunidade de cobrir a crise Venezuelana. Outra questão que há muito tempo me toca é a da travessia  de migrantes no Mar Mediterrâneo.

Litoralgarve – Que críticas lhe dirigem na redação, em Lisboa? E elogios? E conselhos?

Conceição Ribeiro – As críticas são por norma situações muito pontuais, mas construtivas. Por exemplo, uma que me serviu de bússola em várias situações prende-se com o filtro que aplicamos ao escolher as palavras ou os excertos das entrevistas. Há muitos anos, ao cortar uma entrevista, usei uma parte em que o entrevistado fazia uma descrição mais crua. Na altura tive dúvidas sobre usá-la, mas optei por a incluir. Um editor comentou comigo que achava aquela expressão violenta. Contei-lhe que tinha hesitado precisamente por também ter essa sensação, mas optara por a manter . Ele respondeu-me: “se tinhas dúvidas, deverias ter retirado e seguido a intuição”. Foi uma crítica muito construtiva. Agora, sempre que alguma entrevista ou imagem me ‘arranha’, confio na intuição e filtro-a. Isso é importante para proteger o espectador, mas também quem é entrevistado ou filmado.

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Litoralgarve – O que lhe dizem na rua e a nível famíliar? Como reage?

Conceição Ribeiro – A família raramente já diz alguma coisa, a menos que saibam que é algo particularmente importante para mim. Na rua, os comentários são normalmente de grande apoio. Já me aconteceu estar a fazer compras no supermercado e alguém me reconhecer e vir fazer uma denúncia de qualquer coisa. Já me bateram à porta a pedir que vá com eles fazer uma reportagem, às vezes chegam a perguntar quanto custa pôr uma notícia no jornal da noite (claro que nenhuma reportagem é paga), já me confundiram com jornalistas de outras estações, mandam beijinhos para a Júlia Pinheiro ou reclamam da hora da novela. Há de tudo.

Talvez a cautela e a paciência tenham sido o maior ensinamento de alguns excelentes jornalistas que conheci e que já não estão no activo

Litoralgarve – Pretende seguir o exemplo de algum profissional?

Conceição Ribeiro – Tenho imensas referências de colegas que admiro, mas cada um tem a sua actividade, em zonas específicas do país ou do mundo, com condicionantes diferentes.

Litoralgarve – Continua a sentir motivação?

Conceição Ribeiro – Claro. O jornalismo tem essa coisa fascinante de se renovar a cada dia e várias vezes por dia. É impossível ter um dia igual, mesmo se tiver de ir três vezes seguidas para a praia fazer reportagens de calor, serão sempre praias diferentes, outros entrevistados…

Litoralgarve – Quais os seus projectos?

Conceição Ribeiro – Estou a acabar uma pós-graduação em segurança interna. As questões do terrorismo, da criminalidade organizada, do narcotráfico são assuntos sempre na ordem do dia e resolvi apostar numa especialização nessa área. Por curiosidade pessoal, apenas. Mais tarde, quem sabe, dar aulas na área das ciências da comunicação.

Litoralgarve – Já foi convidada para trabalhar na sede da SIC, em Lisboa? Gostaria desse desafio profissional?

Conceição Ribeiro – Quando a SIC Notícias abriu, há 18 anos, fui abordada nesse sentido, mas na altura a questão pessoal pesou no sentido de recusar. O meu filho mais velho era pequeno e em Lisboa não teria a rede familiar (os avós) para garantir a retaguarda essencial a este trabalho.

Litoralgarve – E trabalhar para outro canal, é possível?

Conceição Ribeiro – Não me vejo a despir a camisola da SIC. É já uma segunda pele.

Litoralgarve – Que ensinamentos recebe dos mais velhos?

Conceição Ribeiro – Infelizmente, a geração anterior já praticamente se reformou. Nesta altura serei uma das jornalistas que por cá anda, no Algarve, há mais tempo (juntamente com a Maria Augusta Casaca, a Helena Figueiras, o Mário Antunes, o Idálio Revez, a Elisabete Rodrigues, o José Manuel Oliveira…). Guardo, no entanto, várias memórias de conversas sobre acontecimentos que não testemunhei e que ‘a velha guarda’ cobriu. Era outro tempo, sem telemóvel, Internet, ou computador, muitas vezes sem carro, sequer… O tempo da notícia era mais o tempo comum, agora é tudo muito mais corrido. Talvez a cautela e a paciência tenham sido o maior ensinamento de alguns excelentes jornalistas que conheci e que já não estão no activo.

“É nossa obrigação assegurarmo-nos da veracidade do que dizemos. Sinto que a nova geração é muito pressionada e tem medo de dizer não. É um efeito da precaridade, entre outros motivos.”

Litoralgarve – Que conselhos pretende transmitir aos mais jovens?

Conceição Ribeiro – Pegando na questão anterior, talvez o maior conselho seja precisamente o cuidado no processamento da informação. Há a tendência para sermos muito pressionados e darmos tudo em primeira mão e isso pode ser perigoso. Na ânsia de dar primeiro, corre-se o risco de não confirmar devidamente os factos ou de nos precipitarmos com dados que ainda não entendemos. É importante ter capacidade de negociar com as chefias e explicar que não há condições para avançar com certas informações, não importa se a concorrência as  possa dar entretanto. É nossa obrigação assegurarmo-nos da veracidade do que dizemos. Sinto que a nova geração é muito pressionada e tem medo de dizer não. É um efeito da precaridade, entre outros motivos.

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Litoralgarve – Como encara os atuais problemas do jornalismo, o fenómeno das redes socais, os grupos de comunicação, os riscos do desaparecimento de jornais com a falta de recursos financeiros e o esvaziamento das redações com a dispensa cada vez mais de profissionais?

Conceição Ribeiro – Encaro com preocupação, mas também otimismo. Temos sempre medo do que é diferente e esse é um tempo diferente para o jornalismo, mas tudo tende para o equilíbrio. Acredito que caminhemos para lá, mesmo que não pareça. Contudo, há aspectos muito preocupantes. As redes sociais são uma fonte de informação, mas não podem ser confundidas com uma fonte credível. É como a dica que ouvimos no café… tem de ser apurada, confirmada, trabalhada. As fotos são manipuláveis, os testemunhos podem ser inventados, ser tendenciosos, conter omissões, intenções… Isso aflige-me, a iliteracia ao nível das redes sociais. É muito fácil embarcar em mentiras por não questionar a origem e motivação de certa informação. Aos poucos, acredito que as pessoas percebam que ler no ‘Facebook’ não é igual a ler num jornal. Mesmo os jornais mais criticados e tidos por sensacionalistas, preocupam-se em citar fontes, fazer cruzamento de dados, respeitar o direito ao contraditório. Nas redes sociais não. Não há filtro, ninguém é responsabilizado, a difamação e a manipulação são muito fáceis. Nenhuma sociedade pode viver só do jornalismo do cidadão. Não basta alguém filmar e postar com um telemóvel para que se fique informado.

O problema do esvaziamento das redações e da dispensa dos mais velhos é a perda da memória, tão fundamental para um jornalismo crítico. É também  a precarização da profissão. As novas gerações de jornalistas estão a trabalhar em condições muito mais difíceis, são sujeitos a cargas horárias brutais, quase nunca têm um mentor que os apoie nos primeiros passos. A sensação de competição, de solidão, de desnorte e ansiedade é muitas vezes esmagadora.  

Litoralgarve – O futuro passa mesmo pelo jornalismo digital?

Conceição Ribeiro – Sim, sem dúvida. Todos os grandes jornais estão a migrar para o digital. Acredito que atualmente a maioria das pessoas já recorre à Internet como meio principal de informação.

Litoralgarve – Ainda vale a pena ser jornalista?

Conceição Ribeiro – Tal como valia há mais de 25 anos, quando comecei. A profissão sempre foi muito dura, mas muito gratificante também. O  vencimento, na maioria, não paga as horas de trabalho, o nível de especialização e de  responsabilidade requeridas, a dedicação e tudo aquilo que precisamos abdicar para estar disponíveis, mas por muitos dias difíceis, aquele momento em que nos cai nas mãos uma história que nos toca, em que percebemos ter sido os primeiros a chegar ou a dar melhor a noticia, vale por mil.

Litoralgarve – Admite vir a dar aulas de jornalismo?

Conceição Ribeiro – Sim, é uma área que admito vir a explorar no futuro.

Litoralgarve – Se não fosse jornalista, o que gostaria se ser?

Conceição Ribeiro – Precisamente… professora de jornalismo.

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“A SINCERIDADE E O BOM HUMOR

“SÃO O QUE MAIS APRECIO NAS PESSOAS”

Jornalista há 28 anos e residente em Faro, tem três filhos, é licenciada em Ciências da Comunicação e com frequência de Pós-Graduação em Segurança Interna. Ocupa os tempos livres em passeios com a família, a ler e em convívio com amigos. Marrocos é o seu destino de férias preferido.

Nome completo:Maria Conceição Palma Ribeir

Data do nascimento:17-08-1973 – Tem 45 anos.

Estado Civil:Solteira

Filhos:Três rapazes, de 26, 17 e 15 anos.

Nasceu em Angola e cresceu em Lagos

Residência:Faro

Idiomas que domina:Inglês e espanhol.

Profissão:Jornalista há 28 anos.

O que fazia antes?

Estudava.

 Habilitações literárias:Licenciatura em Ciências da Comunicação e frequência de Pós-graduação em Segurança Interna.

Clube desportivo da sua preferência:

“«Os Bonjoanenses» (clube de basquete, de Faro, do meu filho).”

Como ocupa os tempos livres?

“Em passeios com a família, a ler e em convívio com amigos.”

Gastronomia – Qual é o seu prato preferido? “Um doce: bolo de café de uma pastelaria em Lagos (Gombá).”

Onde costuma passar férias? “Na Turquia, em Espanha, na Holanda, em França, na Itália, no Norte de Portugal e no Alentejo… Mas o destino preferido é Marrocos.”

Onde tenciona deslocar-se nas próximas férias? “A Marrocos, precisamente. Uma viagem prometida, com os três filhos. Estados Unidos da América e Vietname também estão na lista.”

“O POVO MARROQUINO É DE UMA HOSPITALIDADE E GENEROSIDADE EXTRAORDINÁRIAS”

Qual o país de que guarda melhores memórias e porquê?

“Marrocos. Ao contrário da ideia generalizada, o povo marroquino é de uma hospitalidade e generosidade extraordinárias. Numa das  várias viagens que lá fiz, aluguei um carro e percorri parte do país. Foi uma viagem de vários dias, por estradas principais e secundárias, por cidades imperiais e aldeias Berberes. Numa zona semidesértica, parei para comprar artesanato numa banca à beira da estrada. O vendedor tinha um filho de 6 anos a ajudá-lo. Tirei da mochila uns chocolates e barritas e dei à criança. O senhor ficou tão comovido com a alegria do menino que insistiu em partilhar o bem mais precioso naquela zona muito árida: água. Outra família berbere deu-nos chá e  «tafarnout» (pão caseiro) na sua casa de adobe; um polícia a quem pedimos indicações, abriu a porta do carro, sentou-se e foi connosco até perto de onde queríamos ir (não sabia falar francês ou inglês); o recepcionista de um hotel onde tivemos de regressar para ir buscar uma chave esquecida, recebeu-nos pacientemente de madrugada com chá e bolos… É impossível não nos perdermos de amor por este povo.”

“Claro que também fotografámos, sem saber, um carregamento de haxixe… Só ao chegar a Portugal e ao descarregar as fotografias nos apercebemos do que se estava a desenrolar em segundo plano, na imagem idílica de uma barragem no meio de um quase deserto.”

“A PIOR MEMÓRIA SERÁ DAS ESTRADAS ESBURACADAS DA POLÓNIA”

E qual o país de que guarda piores recorda e o motivo?

“A pior memória será das estradas esburacadas da Polónia.”

Quais os filmes que mais aprecia?

 “«Voando sobre um ninho de cucos», «A cor purpura» e «As pontes de Madisson County» são dos filmes que posso rever de tempos a tempos, sem me fartar. Tenho algumas séries de culto : «House of Cards», «A guerra dos Tronos»…”

E livros?

“«Cem anos de solidão», ou qualquer outro de Gabriel Garcia Marquez; «Memorial do Convento», de José Saramago; ou – num registo totalmente diferente – os livros de Yuval Noah Harari.”

Religião

“Não acredito na existência de divindades.”

“DIFICULDADE EM PERDOAR

FALHAS DE CARÁCTER”

Qual é a sua principal virtude?

“Gostar de ouvir os outros e ter sensibilidade para dizer o que precisam de ouvir.”

E qual o seu principal defeito?

“Dificuldade em perdoar falhas de carácter.”

O que mais aprecia nas pessoas?

” A sinceridade e o bom humor.”

E o que mais detesta?

“A manipulação.”

O INFANTE D.HENRIQUE E NELSON MANDELA SÃO AS FIGURAS QUE MAIS DESTACA

Qual é a figura portuguesa que mais destaca e porquê?

“O Infante D. Henrique. Independentemente do berço, de não ter sido ele a embarcar nas caravelas, teve de ser alguém muito especial para montar e fazer zarpar o sonho de cartografar novos caminhos para outros mundos. Numa época de trevas, com tão poucos conhecimentos e tantos ‘velhos do restelo’ a vaticinar desgraças, ele insistiu e persistiu na aventura marítima.”

E a nível internacional? E qual a razão?

“Nelson Mandela, sem dúvida. Pela imensa viagem interior que ele fez e por ter conseguido mudar – ainda que por um período limitado – um país como a África do Sul. Era um homem com uma inteligência emocional extraordinária.”

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