Entrevistas

“Demorei oito anos até chegar às fontes de informação da Casa Branca, Pentágono e CIA”

Entrevista ao jornalista da SIC nos Estados Unidos da América, Luís COSTA RIBAS, autor do livro “Uma vida em directo”, recentemente apresentado em Faro

 


1982, Sinai, Primeira viagem ao Médio Oriente

Estudem, estudem mais; preparem-se, prepararem-se mais. Não sejam piegas”. Este o recado de Luís Costa Ribas, correspondente da SIC nos Estados Unidos da América, aos jovens jornalistas, deixando ainda um outro aviso: “se for para copiar ‘teews’ e ‘posts’ do Faceobook ou contar meias verdades sensacionalistas, então desistam” da profissão. Nesta entrevista ao Litoralgarve, o famoso repórter recorda “o episódio que ainda hoje me faz rir”, as situações mais difíceis pelas quais já passou, onde é mais complicado trabalhar e como se tornou “mais informado e eficaz.” Costa Ribas vai preparar um livro sobre a pena de morte. Para já, convida públicomprar (pelo preço de quinze euros) e a ler “Uma vida em directo“.

Litoralgarve – Como surgiu a ideia de escrever este livro ´Uma vida em directo’, onde o preparou e quanto tempo demorou?

Luís Costa Ribas – A ideia surgiu há dez anos. Escrevi um pouco nessa altura e, por vicissitudes diversas, só no ano passado foi possível retomar o trabalho. Quando isso aconteceu, demorou seis meses.

Capa do Livro recentemente lançado em Faro

Litoralgarve – Porquê tem o prefácio do general António Ramalho Eanes? O que representa esta figura para si?

Luís Costa Ribas – O general Ramalho Eanes foi o melhor Presidente da República da nossa História, conhece-me desde os 22 anos, conhece bem o meu trabalho. Ter honrado o livro com o seu Prefácio é um sinal de amizade que sempre prezarei.

Litoralgarve – Qual vai ser o tema do seu próximo livro?

Luís Costa Ribas – Há um projecto sobre a pena de morte.

1983, aeroporto de Lisboa, após iludir a segurança para chegar perto do Papa João Paulo II

Litoralgarve – É conhecido entre os seus colegas como “um exímio contador de histórias.” Qual a situação mais difícil por que passou como jornalista, onde, quando e como a resolveu?  E o episódio que ainda hoje o faz rir?

Luís Costa Ribas – O episódio que ainda hoje me faz rir foi o do dia em que, tendo-me levantado às 5h30 da manhã para um directo, comecei a ver o tempo de satélite a minguar e desatei a língua com uma colecção de imprecações irrepetíveis. Julguei que já não havia directo, por falta de tempo. Numa breve pausa para respirar, ouço a regie: “Estás no ar”. Safei-me por um triz. Não tenho uma situação difícil. Tenho várias. Convido o leitor a escolher a sua favorita, das muitas que relato no livro.

 

“Ser correspondente nos Estados Unidos é cobrir um continente com 320 milhões de pessoas e ter de saber o suficiente de todos os assuntos”

 

Litoralgarve – Como é ser jornalista correspondente nos Estados Unidos da América? O que mais destaca?

Luís Costa Ribas – Ser correspondente nos Estados Unidos é cobrir um continente com 320 milhões de pessoas e ter de saber o suficiente de todos os assuntos. Não há horários, não há rotina. Tudo pode acontecer a qualquer hora e o correspondente tem de responder a tudo. Demorei oito anos, partindo do zero, até chegar às fontes da Casa Branca, Pentágono, CIA, etc. Não vou roubar aos leitores a surpresa de lerem, sobretudo nos Capítulos 2, 3 e 4, as respostas a todas as perguntas que acaba de fazer. Para ser um correspondente mais informado e eficaz licenciei-me numa universidade americana onde estudei o sistema político e constitucional, a história do país e das suas instituições, o comportamento político do eleitorado e a história dos partidos políticos.

1992, Huambo, Angola, durante a cobertura das eleições previstas nos Acordos de Bicesse

Litoralgarve – E no Médio Oriente? E em Timor?

Luís Costa Ribas – No Líbano, a cobertura da guerra de 2006 foi uma aventura às vezes assustadora que relato com pormenor, dos bairros xiitas de Beirute quase até à fronteira com Israel, a fugir de tiros e bombas. Em Timor, havia muita tensão política e tive oportunidade de entrevistar o líder de uma rebelião (Major Reinado), que dois anos mais tarde morreu a tentar assassinar o Presidente.

Litoralgarve – Onde é mais difícil trabalhar?

Luís Costa Ribas – Nos países do terceiro mundo (Angola, Moçambique, Haiti, Nicarágua), onde não há condições para nada e onde cada dia é uma luta. Mas esses são os dias que contam, que nos fazer produzir o nosso melhor trabalho, que revelam o repórter em nós. Gostei sempre mais desse trabalho do que, por exemplo, o tédio insuportável das visitas oficiais – com excepção da visita de António Guterres aos EUA, em 1997, e o livro explica porquê.

 

“Fomos aconselhados, sim, nós homens, a levarmos pensos higiénicos para a guerra do Golfo”

 

1999, com Salman Rushdie

Litoralgarve – Como foi a sua experiência na preparação, nomeadamente ao nível de treinos, alimentação e descanso, para acompanhar tropas norte-americanas na Guerra do Golfo?

Luís Costa Ribas – Não cheguei a acompanhar as tropas americanas porque parti o braço numa demonstração de artes marciais. Mas o treino decorreu num forte do exército em Nova Jérsia, onde fomos preparados para “acompanhar sem atrapalhar” as unidades militares. Havia preparação física antes das 6h00 da manhã, comíamos rações militares e (podem ler porquê no livro), fomos aconselhados, sim, nós, homens, a levarmos pensos higiénicos para a guerra.

Litoralgarve – Onde exerce atualmente a sua carreira e para que órgãos de informação trabalha?

Luís Costa Ribas – Sou correspondente da SIC, faço trabalhos especiais para uma rádio nos Estados Unidos, dou aulas numa universidade americana.

Litoralgarve – E onde gostaria de trabalhar?

Luís Costa Ribas – Em todo o Mundo. E já andei por mais de 230 cidades em mais de 50 países. Está a correr bem.

1998, Centro Espacial Kennedy, Cabo Canaveral, com Timothy Murray

Litoralgarve – Continua a sentir motivação?

Luís Costa Ribas – Sim.

Litoralgarve – Quais os seus projetos?

Luís Costa Ribas – Escrever mais livros. Talvez um doutoramento.

 

“Os donos dos órgãos de comunicação social descobriram que o mau jornalismo também vende. Como temos uma opinião pública que não exige mais, temos o que merecemos”

 

2001, em Washington, na investidura de George W. Bush

Litoralgarve – Que conselhos pretende transmitir aos mais jovens?

Luís Costa Ribas – Aos jovens jornalistas? Estudem, estudem mais; preparem-se, preparem-se mais. Não sejam piegas. Leiam o meu livro.

Litoralgarve – Como encara os atuais problemas do jornalismo, o fenómeno das redes sociais, os grupos de comunicação, os riscos do desaparecimento de jornais por falta de recursos financeiros e o esvaziamento das redações com a dispensa cada vez mais de profissionais?

Luís Costa Ribas – Na impossibilidade de escrever um livro só para responder a essa pergunta, diria isto: as redes sociais devem ser tratadas apenas como uma de muitas fontes de informação; e a informação deve ser sempre, s-e-m-p-r-e verificada. Mas não é verificada e isso é perigoso. Legitima o mau jornalismo. Os donos dos OCS (órgãos de comunicação social) descobriram que o mau jornalismo também vende. Como temos uma opinião pública que não exige mais, temos o que merecemos.


2009, Em Washington, na investidura de Barack Obama

Litoralgarve – O futuro passa pelo jornalismo digital?

Luís Costa Ribas – O futuro? O presente. Já lá está. Mas é um instrumento de navegação na viagem e não o destino desta.

Litoralgarve – Ainda vale a pena ser jornalista?

Luís Costa Ribas – Sim, se for para fazer bem feito. Se for para copiar ‘tweets’ e ‘posts’ do ‘Facebook’, desistam. Se for para contar meias verdades sensacionalistas, desistam.

“Ramalho Eanes, o melhor Presidente de sempre”

Jornalista e professor universitário nos Estados Unidos da América, Luís Costa Ribas, de 59 anos e natural de Lisboa, destaca a “persistência” como a sua principal virtude e ao mesmo tempo o seu maior defeito, e aponta a “coragem” e a “cobardia” como o que mais aprecia e detesta nas pessoas, respetivamente.

 

O Litoralgave colocou várias questões por escrito a Costa Ribas. Eis as respostas.

Nome completo: Luís Costa Ribas

Data do nascimento: 59 anos

Estado Civil: – – –

Filhos : um, 24 anos

Naturalidade: Lisboa

Residência: Marblehead (Boston), Estados Unidos

Idiomas que domina? Português, inglês, espanhol (algum), francês (a aprender), hangul, mais conhecido como coreano.

Profissão: jornalista há 38 anos.

O que fazia antes? Trabalhava no Ministério da Saúde

Quando, como, onde e qual foi a sua primeira experiência como repórter? Reportagem sobre o Primeiro de Maio, em Lisboa, em 1980

Habilitações literárias: Mestre em Consultoria Política, Licenciado em Ciência Política e Relações Internacionais

Clube desportivo da sua preferência? Em Portugal: Benfica. Nos EUA: Washington Redskins (futebol americano), Washington Capitals (hóquei no gelo), Washington Nationals (baseball), Washinton Wizards (NBA)

Como ocupa os tempos livres? Leitura, música, gastronomia, praia (moro a 1 km do mar), espetáculos musicais e atividades culturais. Noutros tempos: equitação, artes marciais, pára-quedismo.

Gastronomia/qual é o seu prato preferido? Não tenho um pearia claramente mais “favorito” que os outros. Mas as cozinhas favoritas são a portuguesa e a italiana

Onde costuma passar férias? Tanto pode ser em Paris como nas Caraíbas.

“Haiti – miséria e pobreza sem paralelo”

Qual o país de que guarda melhores memórias? México – grandes férias em Cancún, no Inverno americano, quando os EUA gelam.

E piores? Haiti – miséria e pobreza sem paralelo

Filmes que mais aprecia?

E livros:- – –

Religião- – –

Qual a sua principal virtude? Persistência

E qual o seu principal defeito? Persistência

O que mais aprecia nas pessoas? Franqueza, decência, coragem

E o que mais detesta? Falta de franqueza, velhacaria, cobardia

“Nelson Mandela – um exemplo para toda a Humanidade”

Qual a figura portuguesa que destaca? Ramalho Eanes. O melhor Presidente de sempre

E a nível internacional? Nelson Mandela. Um exemplo para toda a humanidade

 

 

 

 

 

 

 

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