Entrevistas

ENTREVISTA À BIÓLOGA DINA SALVADOR

“É possível transformar a Ponta da Piedade no mais lindo Parque Urbano de Portugal”

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“Cobrar a entrada na Ponta da Piedade aos não residentes, como sucede no Mercados dos Escravos.”

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“O interesses que pendem sobre a Ponta da Piedade são muitos, variados e sectoriais (…) A lista é longa. Há que ouvir cada parte, negociar e tentar alcançar compromissos e consensos, sempre com o foco na preservação na dignicação deste ‘ex-libris’.”

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“Depois de concluídas as obras” de requalificação levadas a efeito pela Câmara Municipal de Lagos, “a degradadação das arribas continuará à solta” (…) “e a limpeza só ocorrerá após muitas denúncias!…”

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“Se há quem tenha medo da mudança, eu tenho medo de que as coisas nunca mudem!”

 

Em entrevista ao ‘Litoralgarve’, a bióloga Dina Salvador destaca o que deve mudar na Ponta da Piedade, em Lagos, defende um amplo debate com vista à classificação desta zona como ‘Património de Interesse Municipal e promete mais iniciativas. E deixa recados à autarquia.

Litoralgarve-Como avalia o estado actual da intervenção resultante da requalificação na Ponta da Piedade cuja primeira fase, segundo a autarca Joaquina Matos, já se encontra praticamente concluída?

Dina Salvador – Se a primeira etapa está “praticamente concluída”, fico satisfeita, por um lado, porque significa que talvez não concluam os caminhos previstos em direção à arriba, pois não iriam resolver o problema maior. Por outro lado, fico triste porque significa que, de novo, não interiorizaram quase nada dos alertas que foram sendo emitidos no que respeita à urgência de renaturalização das áreas degradadas, muito extensas, por sinal.O caminho que já está concluído, bem afastado da arriba, é útil porque facilita quem gosta de praticar ‘jogging’, andar de bicicleta, quem tem mobilidade reduzida ou que gosta de caminhar na natureza, sobre piso regular. No entanto, o problema fulcral que motivou toda a contestação, desde o início, ainda se mantém e continua completamente omisso neste projeto de “requalificação”, promovido pela Câmara. Trata-se de compatibilizar o desejo dos visitantes de se aproximarem do topo da arriba, para apreciarem o rendilhado fantástico deste litoral, e a urgência de mitigar o forte impacto do pisoteio de milhares de pessoas, numa área tão frágil.

L.A. – No seminário recentemente realizado em Lagos sobre o futuro da Ponta da Piedade, na qualidade de bióloga apresentou uma nova solução para os caminhos naquela zona. O que a levou a recuar na defesa de passadiços elevados, como inicialmente pretendia?

D.S.- Desisti de defender a construção dos passadiços em madeira quando alguém me alertou que o POOC (Plano de Ordenamento da Orla Costeira), na faixa entre a Praia do Porto de Mós e a Ponta da Piedade, define faixas de risco no topo da arriba, entre os 15 e os 25 metros. Nessa faixa não se deve instalar estruturas ou avançar com qualquer intervenção mais pesada. Essa informação deitou logo por terra a ideia dos passadiços porque mesmo que fossem construídos a 15 metros de distância da arriba, os visitantes não teriam ângulo para visualizar o rendilhado costeiro. Assim sendo, quase de certeza muitos deles, principalmente os mais jovens, evitariam os passadiços e encontrariam outros caminhos para chegar às arribas. Ou seja, devido ao afastamento obrigatório, esta solução deixaria de corresponder aos anseios de quem visita a Ponta da Piedade. Seria muito dinheiro gasto para afinal, deixar muita gente descontente.

SINALÉTICA E VIGILANTES

L.A. – Qual é, então, a solução mais adequada?

D.S.- Felizmente, a Natureza deixou-nos lá uma hipótese de resolução muito interessante e sem qualquer impacto paisagístico, ou melhor, com impacto positivo. Deveria haver apenas uma trilha que contornasse toda a arriba, com o devido afastamento, mas que permitisse visualizar o rendilhado da costa, balizada de um lado e do outro, com uma plantação generosa de espécies espinhosas existentes no local e que desmotivam, de forma natural, que alguém saia da trilha. Claro que antes terá de ser feita uma meticulosa preparação dos solos, altamente degradados, para mais tarde, na época das chuvas, poderem receber com sucesso mudas e sementes das espécies a instalar. É uma solução baratíssima, mas que envolve muita mão-de-obra. Parte dela pode ser angariada através de trabalho voluntário, devidamente orientado por quem sabe. Programas de renaturalização poderiam ser desenvolvidos com as escolas locais, até mesmo para começar a sensibilizar os futuros defensores da Ponta da Piedade que são os jovens. Para além da plantação dessas espécies, também se deveria apostar na sinalética, várias tabuletas, ao longo da trilha, concebida em vários idiomas, para sensibilizar os visitantes de que se trata de uma área em recuperação e que não devem sair da trilha. E para que não restassem dúvidas, deveria haver um corpo de vigilantes, bem identificados que circulariam pela trilha, para mostrar que todo o espaço estava a ser vigiado.

“GASTAR MILHÕES NÃO SIGNIFICA MÁXIMA EFICÁCIA!”

L.A. – Que defende em concreto para o futuro da Ponta da Piedade? 

D.S.- Em primeiro lugar e com caráter de urgência, um amplo debate que conduza à classificação de todo aquele espaço como “Património de Interesse Municipal”. O objetivo final seria, depois, transformar toda a área num Parque Urbano. Seria, sem dúvida, um dos mais lindos, senão o mais lindo de Portugal.

Os interesses que pendem sobre a Ponta da Piedade são muitos, variados e sectoriais. Desde os interesses dos proprietários, dos visitantes, da Câmara, da Marinha, da APA,(Agência Poruguesa do Ambiente), dos donos de restaurantes, dos operadores turísticos, dos barqueiros… A lista é longa! Há que ouvir cada parte, negociar e tentar alcançar compromissos e consensos, sempre com o foco na preservação e dignificação deste ‘ex-líbris’. Dá trabalho? Dá. Mas é um trabalho com alicerces, muitíssimo mais profícuo do que fazer apenas um somatório de obras, como a Câmara pretende. Isto, porque depois de concluídas essas obras, a degradação das arribas continuará à solta, a renaturalização das áreas devastadas pelo pisoteio, não se fará, nem a manutenção e vigilância. E a limpeza só ocorrerá depois de muitas denúncias!… Ou seja, todo um suporte óbvio e por demais necessário não se concretizará, simplesmente porque não está previsto neste conjunto de intervenções. E isso não é admissível! Gastar milhões não significa máxima eficácia! Com muito menos gasto, mas com muito mais empenho e criatividade, se alcançarão resultados melhores.

CRIAR UMA ASSOCIAÇÃO DE CIDADÃOS PARA GERIR A PONTA DA PIEDADE

L.A. – Acabou por surpreender o auditório dos Paços do Concelho de Lagos Século. XXI, onde decorreu o seminário, com a apresentação de uma proposta que prevê a criação de uma entidade autónoma para gerir a Ponta da Piedade. Como funcionaria? A solução de cobrar a entrada aos turistas que queiram visitar o local suscitou algumas dúvidas por parte da presidente, Joaquina Matos. Acha que haverá interesse da autarquia na sua viabilização?

Pagar entradas…?

D.S. – Tal como referi no debate, não podemos continuar com as mesmas posturas, à espera de resultados diferentes. Tal como ficou provado, se até agora, temos sido incompetentes na preservação e dignificação da Ponta da Piedade, então vale a pena refletirmos com os erros e o desleixo do passado, para mudarmos de estratégia e procurarmos soluções diferentes. Se há quem tenha medo da mudança, eu tenho medo de que as coisas nunca mudem!  Por isso, defendo a criação de uma Associação de Cidadãos que também integre representantes de cada um dos sectores interessados, juntamente com um conjunto de especialistas nas várias áreas do conhecimento, importantes para o local, desde a geologia, a paleontologia, a botânica, a fauna, a biologia marinha, a história, a arqueologia, entre outras. Seria uma instituição, obviamente sem fins lucrativos e apartidária, que aglutinasse todos os que realmente gostam e desejam contribuir para a dignificação deste território. A cobrança de entradas aos não residentes, tal como acontece na Fortaleza de Sagres, no Mercado dos Escravos, no Castelo de Silves e em tantos outros locais, permitiria  o necessário fundo de maneio para manter uma pequena equipa que diariamente fizesse a vigilância, a manutenção, a limpeza, assim como a participação ativa nas épocas de plantação de espécies autóctones, entre outras atividades. Para além destes trabalhos quotidianos, esta Associção também deveria contemplar no seu plano de atividades, propostas concretas de animação cultural do espaço, como sejam bienais de escultura, encontros internacionais de papagaios de hélio, encontros de fotografia terrestre e sub-aquática, entre outros exemplos.

Acho que esta ideia pode ser bastante enriquecida com os contributos de todos os que gostam realmente da Ponta da Piedade. As politiquices não interessam nem serão bem vindas. O foco é apenas a dignificação deste espaço magnífico.

FUTURO DA PONTA DA PIEDADE DECIDIDO NOS GABINETES?”JÁ MOSTRÁMOS QUE A FORÇA DA POPULAÇÃO PODE MUDAR O RUMO DAS COISAS”

L.A. – Há quem diga que o futuro da Ponta da Piedade já foi decidido nos gabinetes e que o seminário serviu apenas como pró-forma para calar os que têm levantado dúvidas. O que lhe parece? 

D.S. – Concordo e lamento que assim seja. É do diálogo franco, continuado, leal, liberto de preconceitos e/ou orgulhos feridos que, todos juntos, podemos encontrar as melhores solu ções. Cada pessoa, com o seu olhar particular, com a sua vivência e os seus conhecimentos, pode acrescentar contributos, por menores que sejam, na construção dos alicerces de algo maior e consensual. Pequenos pormenores de comportamentos, de posturas, por parte de alguns políticos, denunciam não haver a necessária força anímica e determinação para enfrentar os problemas maiores deste território.

Mas não concordo de todo que o futuro da Ponta da Piedade tenha ficado irremediavelmente sequestrado e decidido “nos gabinetes”. Já mostrámos que a força da população pode mudar o rumo das coisas. E das duas uma: ou somos capazes de lutar pelo melhor para a Ponta da Piedade, ou então não somos merecedores deste ‘ex-líbris’ notável.

MAIS INICIATIVAS PARA DEFENDER A PONTA DA PIEDADE

L.A. – Tenciona levar a efeito outras iniciativas em defesa da Ponta da Piedade? 

D.S. – Claro! Na qualidade de cidadã, posso e já estou a fazer. Muito em breve saberão. Por agora, ando a recolher opiniões, a ouvir, a amadurecer ideias.

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